Paredes de ar
2 Tênis
Piso marrom, ventilador ligado, música triste encrespando-se no ar morno do quarto e ele ali, quieto, naquele silêncio de quem pouco é lembrado, de quem só é importante quando é útil, de quem se machuca pelo bem de outrem. Que fazer, se ele era nada senão um tênis preto com flores coloridas na ponta? Que fazer se a dona pouco se importava em lavá-lo? Ali, ele descansava num descanso quase eterno — que não era eterno apenas nos momentos em que precisavam dele.
Fora para isso feito, e ele poderia ser feliz porque a dona ainda o usava muito, diferente de outros que descartam no primeiro uso. Feliz, sim, porque a felicidade de um tênis está em servir até que suas costuras desfaçam ou o tecido se rasgue — e talvez ainda sejam usados mesmo depois disso, caso forem amados por demais.
Lá estava o tênis, de solado branco encardido, cadarços curtos guardados em argolas metálicas e língua de flores. Estava ali, no silêncio de quem espera ser útil, na paz de quem ama o que é, na felicidade de ser um tênis sujo que sabe que será amado até seu último dia.
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