Paredes de ar
4 Quando o tudo é nada
Havia um silêncio em meio ao barulho. Um silêncio frágil, que se escondia nos cantos, o silêncio de uma criança que ao chorar não dizia a razão do choro, o silêncio de uma máscara que ao gritar a mentira calava a verdade. Ele ouvia esse silêncio, sentia aquilo que não se ouve e era esse não sentir que tomava cada vez mais os seus dias. O barulho constante era incapaz de ocultar aquele instante de silêncio que o tomava tão forte quanto as paixões estraçalham a carne. Pois que no silêncio não havia riso ou choro, e o tudo se tornava o vácuo, onde o som não se perpetuava e o tudo existia apenas para fazer parte desse nada. Era a ausência de sentido. Tudo se perdia na ausência, no não encontrar; era que, nos entulhos, no amontoar, no apego excessivo, nada mais se encontra, e o ter perde o sentido quando nada se acha.
Nunca o bastante. Sem plenitude no possuir, nos objetivos, no viver pelos outros. Que havia de tão importante que ele não pudesse aprender? Que havia de tão distante que ele não conseguisse? Até mesmo pessoas poderiam ser posse. No mundo vazio tudo ele conseguia, e até mesmo os céus, em breve, seriam dele. Mas para que quereria a desordem? Ter tudo ao alcance... faca de dois gumes; tudo é tudo, e quando o tudo é tudo ele é nada, porque tudo possuir é o mesmo que já não ter nada para alcançar, e o tudo alcançado, quando não resta mais nada a conquistar, é igualmente nada.
Desimportância do viver, impreenchível abismo que a tudo convertia em nada. Para o céu ele olhava, sem consumi-lo, sabendo que já era dele. Buraco negro, isso era ele. Nem mesmo a luz poderia escapar de sua gravidade. Escuridão perpétua, onde a paz não é nada senão uma palavra. E a palavra é nada em meio a escuridão.
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