— Pensei em fechar o ciclo, começar o ano com o pé direito, mudar tudo, dar uma geral, sabe?

— Não.

— Como não? Cadê seu espírito de Ano Novo? Por isso sua vida não anda pra frente!

— Nem a sua.

— Ah, mas isso é porque esse monte de gente invejosa fica jogando praga. Assim não anda mesmo.

— Na minha também.

— A sua não anda porque você não faz nada! Olha essa sua cara? Uma porta é mais expressiva que você.

— E o que minha falta de expressão tem a ver com isso?

— Tem tudo a ver! Coloca um sorriso nesse rosto, seja mais otimista!

— Mila.

— Quê?

— Como eu posso sorrir com mais de 15 ofícios para fazer e você me incomodando a cada 5 minutos?

— Credo! Agora a culpa é minha é? Preciso é mudar de sala ano que vem, viu? Ficar sentada de frente pra você acaba com meu humor!

— Pra que sala você vai? Pro almoxarifado?

— Sei lá, eu arrumo um canto, perto de você é que eu não fico!

— Como queira.

— Não é que eu quero não! A questão é que... Ai, por que esse povo continua mandando documento, hein? Olha essa pilha de papel de novo! Não dá pra fazer nada nesse final de ano, o compras devolveu todas as demandas que eu mandei!

— Deprimente.

— Nem me fale! Ei, você não liga pras unidades avisando que eles estão recusando os pedidos?

— Mando uma mensagem no grupo.

— Você liga pra Amanda também pra falar que foi recusado o concerto do telhado? Ela é muito grossa comigo.

— Comigo também. Mas ligo sim.

— Ah, e aquele despacho do secretário, você encaminhou pro jurídico?

— Sim, ontem.

— Menos mal. Ai, tô tão cansada! Preciso de férias!

— Você está de férias.

— Mas eu não consigo descansar! Olha eu aqui trabalhando nas minhas férias.

— Eu posso fazer, se precisar.

— Ah, mas nem tudo você faz. Tipo o faturamento, você não faz.

— Me ensina.

— Ah, não, você não ia saber fazer.

— Eu tento.

— Deixa isso quieto, tô sem tempo pra te ensinar e se você errar quem leva a bronca sou eu.

— Se você diz.

— Mas ano que vem vai ser diferente! E não adianta me olhar com essa cara que seu pessimismo não me afeta mais!

— Claro que não.

— Esse ano vai ser tudo novo!