Parede negra
1 Parede negra
Deixei a parede negra para trás, agora visto branco e o meu batom é da cor do seu vestido, cinza e fúnebre, o tempo irá provar se devia ter me deixado sobreviver naquela viela ou o certo seria ter me deixado para morrer.
Aquele corvo, está do lado do meu ouvido neste momento, sussurra seus segredos sórdidos, emagrece-me em uma dieta mortal, por detrás do véu penumbroso que cobre seu rosto, há tentativas maquiavélicas de se alimentar da minha putrefata carne.
Do lado onde prevalece o breu, os anjos passam longe e a maior torre chama-se orgulho, foi este maldito que te arrancou de mim, deturpou seu coração e transformou-me capacho na nossa relação. Vê este chão? São restos mortais de uma tesoura que não sobreviveu aos cabelos que ordenavam atos cortantes.
Olhe nos meus olhos, não sou quem conheceu. Posso ser quem quiser, leia meus textos, force suas vistas e suas madrugadas insones tornaram-se foguetes viajantes, constata?
Sou o açougueiro, a carne e o distribuidor. Sou o prostituído, o próprio prostibulo e quem se considera o dono de todas essas moças.
Questione-me. Qual o verdadeiro motivo deste inside?
Olho para a ranhura na parede negra e adentro este universo que desconhecia quando escrutinava seu cérebro, fazendo-me as antigas perguntas de um casal, o que realmente passou na sua cabeça quando me atingiu com o abajur? Ou será que foi com a adaga?
É o seu lado na cama molhada, agora sem você amassando (amaciando) o travesseiro, ocupo todo o espaço e por um lapso no destino, em uma terra que não tem mais fim, sinto a textura emaranhada aos seus amores. O resto de esmalte junto aos restos de uma parede maciça, passo os dedos... goteja pó, ruína e um vendaval estrelar invade minhas lembranças, pergunto onde errei, é quando meu pulsos encontram vidro.
Gostaria apaixonadamente de te encontrar entre essas galáxias perdidas.
Durante nosso silêncio noturno, ao aperceber o meu descaso, empunhava a fúria ou a impaciência e punha-se ao processo ativo e chocante, com um punhal nas mãos perfurando a velha e sagrada parede. Negra. O corte universal errou o alvo, um centímetro a mais desgrenhou os engenhos celestiais, foi quando confundiu o pedaço grande de pedra com o meu cadáver ainda vivo.
Estou vivo? Ou o seu olhar soturno e abstrato tenta desenfreadamente dizer que estou morto, e desculpa-se irrelevantemente.
Um beijo meu amor. Quem sabe um dia você volte dizendo o quanto doí a distância e me explica a causa do abandono. Seu navio ainda está lustrado e continuará assim enquanto meu eu continuar perdido na tênue linha entre a vida e a morte. Ou nas vísceras da parede negra.
FIM
19/12/14
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