Ele acordou de repente. Diante de seus olhos, a cor roxa se estendia em todo o ambiente — o céus, as nuvens, a terra, o riacho, as montanhas –, o ocupando com seus mais variados tons e sons. A primeira coisa em que pensou foi que aquilo era lindo. E, logo em seguida, percebeu que não sabia onde estava ou como fora parar ali.

— Podemos começar a andar agora? — Questionou a doce voz ao seu lado.

— Onde nós estamos?

— Deveria saber; eu te falei tantas vezes, e ainda foi você quem nos trouxe até aqui.

— E quem é você?

— Acho que sabe quem eu sou.

Ele finalmente notou que estava deitado. Pensou em ficar de pé, e se levantou. A sua frente, as nuvens formavam um grande paredão, que tornava quase invisível a única luz de cor diferente que brilhava com teimosia lá no fundo, no fim de tudo. Ele não sabia dizer que cor era aquela, mas a achou ainda mais linda que o roxo.

— E o que você acha? — Questionou mais uma vez a voz.

— Acho que podemos andar.

Pensou em se mexer, e andou. A capa verde que vestia balançou em seu corpo com o primeiro passo, e não mais.

Seu nome era Bill. Tinha pai, mãe, irmão, irmã. Lembrou-se disso na primeira nuvem que atravessaram.

— Eles também vieram?

— Você havia me dito que viríamos sozinhos.

Bill acenou devagar com a cabeça. Dentro do paredão, mesmo que ainda no começo, o ambiente era mais escuro, algo que aparentemente dava mais força para o roxo. A luz teimosa do fundo não desistia de marcar presença, embora não estivesse vencendo a batalha.

— De quantos passos será que vamos precisar para chegar até lá?

— Isso importa? — Respondeu a voz. — Se continuarmos inteiros, já será uma vitória.

— Por que diz isso? Corremos algum perigo aqui?

— Não sei, Bill. Corremos?

Bill parou por um momento. Pensou em perguntar novamente quem era aquele ser, mas desistiu rápido. Achou que seria uma pergunta muito tola.

— Eu pedi que não abrisse a porta sem estar totalmente pronto. Não podemos voltar agora.

— Eu sei. — No mínimo, podia sentir que sabia. — Vamos. — E voltou a andar.

Bill era o irmão mais novo. Quando pequeno, era alvo de implicações infantis dos dois mais velhos e dos amigos mais próximos destes. A mãe gritava muito, o pai se calava. Um dia, recebeu uma cicatriz, de alguma forma, por causa de alguém, e ela ainda estava em algum lugar. O que ouviu quando chegou em casa chorando foi que deveria crescer.

— E cresceu, não foi? — Perguntou sua companhia de jornada.

— Talvez… Mas não do jeito que eu queria.

— Nem sempre isso é ruim.

Olhou para baixo. Já estava no meio da travessia da segunda nuvem e só então percebeu que calçava botas.

— Você deveria procurar essa cicatriz.

— Não, faz tanto tempo… Deve estar muito feia agora.

— Podemos olhar juntos — a voz sugeriu. — Embora eu não vá poder fazer muita coisa além de observar.

— E o que faço se a encontrar? A apago?

— Apenas se quiser ir junto com ela.

Seus pais se separaram após uma briga barulhenta que foi testemunhada pelos filhos, escondidos atrás da porta, os três de ouvidos atentos e rostos molhados. Foi perto da época em que Bill começou a tirar notas baixas, a molhar a cama e a ir para o hospital com frequência por causa de alguma doença. Se lembrava de ouvir, em uma noite que passaria sob vigia, cochichos preocupados e gemidos chorosos, que continuaram ressoando em sua cabeça por vários dias.

— Também me lembro disso. Foi quando quase nos encontramos pela primeira vez — recordou a voz.

— É mesmo.

— Só que você não queria me deixar entrar, e nem queria ler os recados que deixava na porta.

— Desculpe por isso.

— Tudo bem. No fim, conseguimos nos conhecer, não é?

Aquela nuvem parecia demorar mais para acabar do que as outras. Bill sentiu um vento frio, então ajustou a capa para se proteger um pouco melhor, e nisso sentiu a textura das luvas tocando seus ombros.

— Eu tinha medo de você — Bill soltou.

— Já imaginava. Alguns amigos meus também sentiam, no começo.

— Mas… Não sei o porquê.

— Não precisa se importar com justificativas para algo que não existe mais.

O primeiro amigo de Bill chegou em sua vida quando passava pela pré-adolescência. Tinham a mesma idade, estudavam na mesma classe, possuíam vários gostos em comum. Mas, tão rápido quanto veio, se foi: um dia a notícia de que seu pai fora transferido para outra cidade veio acompanhado da certeza de que uma amizade à distância não daria certo. Eles ainda tentaram, mas as mensagens ficavam cada vez mais curtas e levavam cada vez mais tempo para serem escritas ou lidas. Logo, Bill voltava a ir para o colégio sozinho.

— Acha que poderíamos ter continuado amigos pelo resto da vida se ninguém tivesse se mudado? — Perguntou para a voz.

Ainda faltavam vários passos para atravessar a nova nuvem, por isso teve de fazer uma pausa para ajustar a mochila nos ombros. Estava pesada demais, e perguntou a si mesmo como conseguira colocar tanta coisa ali dentro.

— Sabe o que eu acho sobre as memórias, Bill? Que elas estão dentro do coração. As boas, as ruins, todas elas.

— E daí?

— Os amigos são aqueles para quem dou meu coração, ao mesmo tempo em que me dão os seus, para que possamos carregá-los juntos.

— Então…

Foi como se a voz sorrisse.

— Se você se questiona se uma amizade poderia ter continuado, a partir de lembranças que guarda dela, então já tem sua resposta.

Bill se apaixonou pela primeira vez por uma pessoa com que se sentou no ônibus, um dia em que ia para casa. Nunca havia se encantado tanto por algum outro ser daquela maneira. Dia após dia, pegava o mesmo ônibus, torcendo para que aquela pessoa estivesse lá e com o assento do lado livre. Demorou uma semana para tomar a coragem de pedir o número. Conversaram, saíram juntos, se beijaram, e continuaram fazendo tudo isso por meses — até o dia em que a pessoa disse a Bill que ele era incrível, mas que não combinavam o bastante, e então foi embora.

— De que adianta ser incrível, se não sou incrível o suficiente?

Dentro da nuvem pela qual passavam agora, o frio era mais intenso. Bill de repente sentiu as orelhas se esquentando, e viu que agora também possuía um gorro.

— No meio de tantas vozes, opiniões e visões diferentes, se importar tanto com uma é quase tão admirável quanto perigoso.

— Eu só tento entender se é verdade.

— Se não descobrir qual é a Verdade, qualquer coisa será.

Passou anos sem conseguir decidir qual faculdade queria seguir, até finalmente escolher o curso que parecia ser mais fácil. Teve empregos diferentes, mas não conseguia durar muito em qualquer um. Sua compra mais extravagante que os salários permitiram foi um carro, porém, mesmo com as rodas e a chave na mão, não sabia para onde ir.

— Talvez não tenha um lugar no mundo para mim.

— Então como poderia ter nascido?

— Não sei.

Bill precisou parar mais vezes nesta nuvem para recuperar o fôlego, devido ao cansaço que sentia. O vento gelado estava mais agressivo, mas pelo menos já tinha um cachecol para se proteger melhor.

— Creio que, se uma mesa tem quatro cadeiras, seis pessoas não podem se alocar nela. Entretanto, se alguém pegar mais duas cadeiras, todas irão caber, mesmo que precise fazer certo esforço, da mesma forma que precisarão repartir a comida para todos poderem se alimentar.

— Nem sempre tem cadeira a mais para colocar na mesa, ou espaço o suficiente para mais uma. Aliás, mesmo que tenha, às vezes alguém pode perder a hora do jantar.

— Não importa. No dia seguinte, terá outra hora do jantar. E se não houver cadeiras ou espaço a mais, o jantar será em outro lugar.

Sua mãe faleceu.

Bill parou de andar. Dessa vez não era por causa do frio ou do peso que sentia no corpo, e sim pela sensação de enjoo que lhe invadia o peito. Olhou para frente, tentando achar aquela luz diferente que seguia desde o começo, mas não mais a encontrou. Olhou, então, ao redor, procurando o ser que o acompanhava, e também não mais o viu.

Quando sua mãe faleceu, Bill viu o irmão chorando, a irmã gritando e o pai se calando — e este era o pior de todos os barulhos. Houve um momento em que pensou que gostaria de ter ido com ela, pois pelo menos no lugar para onde foi havia silêncio.

Voltou a andar. Queria seguir em frente, embora não soubesse mais em qual direção ficava. Ali, o roxo era mais intenso em cor, som e também sabor, e não era nada bonito assim.

Passada uma semana desde o enterro, o silêncio era tanto que Bill não conseguia ouvir mais nada.

Quis gritar. Teve certeza de que gritaria. O porquê, exatamente, não entendia. Só que o roxo, em suas fortes camadas, engoliu todo o som e o tomou para si, e, ao invés de devolver, o expôs.

Bill caiu de joelhos. Se enrolou na capa, abraçou os joelhos com as mãos enluvadas, apertou mais o gorro na cabeça. A mochila ficava mais pesada naquela posição, mas ao menos o cachecol continuava esquentando o nariz.

— Bill?

Aquela doce voz…

— Bill, vem.

De onde estava vindo?

— Por favor, venha. Precisamos ficar juntos.

— Quem é você? — Bill perguntou.

— Tenho certeza de que sabe.

— Não… Não sei.

Silêncio. O pior dos barulhos.

E, de repente, um brilho. Era fraco, quase invisível, dentro daquela nuvem tão densa, e parecia estar longe demais. Bill o achou bonito, mas inalcançável; era mais fácil continuar sentado esperando que a nuvem o engolisse.

— Então vem me conhecer.

A voz… Lembrava a de sua mãe.

— Bill… Por favor. Só preciso que dê um passo. Juro que é mais bonito desse lado.

Lembrava a de seu pai também.

Como poderia negar um pedido deles, no final?

Pensou em ir, e foi.

Do outro lado do paredão de nuvens, fazia calor. Toda aquela vestimenta pesada não era mais necessária, portanto ela se foi por si só. Bill finalmente conseguiu entender que luz era aquela que o aguardava depois do roxo, agora que a encarava tão de perto: um verde claro, resplandecente e vivo.

— Acabou sendo uma boa jornada, não?

Olhou para o ser que, claro, se estendia ao seu lado.

— Então era você — entendeu.

O pai.

A mãe.

O irmão e a irmã.

O primeiro amor.

Os superiores.

As risadas, os abraços, os beijos, as conquistas.

O amor.

Com tantas e tantas facetas, era impossível não reconhecê-lo.

Ele sumiu de novo — só que, dessa vez, para voltar para o lugar de onde veio. E Bill seguiu.

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