Parecer Final
1 único
Ele tinha olhos cobertos por óculos de sol, mas ela sabia que suas órbitas escuras a olhavam com desaprovação, foi aí que ele falou tão vagarosamente que ela acompanhou com os olhos os seus movimentos labiais:
- Juliana, você jamais poderá controlar o que você sente, porém é necessário que você controle o que esses sentimentos podem fazer com você. Sempre será um erro e você não precisa continuar nisso. – ele levou a mão até face da jovem e a acariciou – já faz um mês! Quando você vai voltar a viver?
As palavras dançavam em sua cabeça, rápidas, frenéticas, sem qualquer significado. Juliana fechou os olhos permitiu-se chorar e sofrer mais uma vez a dor da perda. Caio continuava a falar, ela queria mesmo deixar-se envolver pelas sílabas que continham uma verdade que era necessária conhecer, mas tudo que conseguiu fixar foi à palavra que iria lhe perseguir por muito tempo: CULPADA.
Um beijo cujo sabor o paladar conhecia perfeitamente era novamente saboreado por Juliana, palavras dóceis eram pronunciadas para preencher as lacunas de silêncio quando o organismo das duas exigia um pouco de fôlego. A prudência era esquecida pela mente das adolescentes que desfrutavam de seus desejos diante de todos, sem culpa, sem medo.
Ela olhou para o celular tomou-o nas mãos tremulas e releu todas as mensagens. Sentiu novamente todas as sensações que a tomaram a primeira vez que lera as palavras de amor da namorada.
- Você é culpada! Eu sou perdidamente apaixonada por você, completamente dependente, viciada ao extremo, e sabe de quem é a culpa de tudo isso? Sua. Suas manias me cativar, encantar, e proteger são armas, e você as usa pra me manter ligada a você. Eu lhe condeno, culpada. A pena?Está ao meu lado, até o fim dos dias.
O telefone tocou e ela já podia prever quem estaria do outro lado da linha, Amanda sua amiga da faculdade que desde o fim do relacionamento a ligava todos os dias.
- alô?
- Juliana, como foi seu dia?
- ótimo! – ela mentiu uma empolgação, mas, não seria suficiente.
- Tá bom, pode falar, o que aconteceu?
- Nada... eu só, hum, pensei um pouco mais na Bárbara hoje.
- Eu pensei que você quisesse se recuperar, Ju! Eu realmente pensei que você estivesse indo bem, mas tudo que você faz está diretamente ligado aquela mulher.
- Amanda, se a dor for à única coisa que me restar dela, eu a cultivarei.
- Um erro, um erro, um erro! É sua culpa ainda está assim, as pessoas tentam esquecer relacionamentos frustrados e não cultivar feridas. Preciso ir agora, nos falamos depois.
CULPADA.
O abraço quente aquecia a alma, o corpo e o coração das moças. Mãos dadas em um laço fraterno, o carinho que podia ser notado em uma rápida observação da relação das duas. Amor. Bárbara brincava com os cabelos de Juliana enrolando-os no indicador, e dizendo o quanto se sentia feliz por ter ao seu lado a mulher mais linda do mundo.
Ela precisava conversar com alguém e já era tarde demais para se sair na rua então, ligou o computador e se conectou ao MSN. Bárbara estava online, ela tentou ser indiferente embora seu coração pulsasse forte somente em ler aquele nome, minutos depois se surpreendeu com o comentário da ex-namorada.
Bárbara diz:
De quem foi à culpa? Eu te amava tanto! Anos jogados no lixo por simplesmente falta de amor?
Juliana diz:
Não há culpados, nós deixamos que o amor escapasse, deixamos que as brigas, o ciúme retirasse de nós a real essência de estarmos juntas, o amor.
Bárbara diz:
Eu sinto a sua falta, você me fazia feliz só que... sem você, eu me sinto completa, e acho que isso não é amor.
Juliana diz:
Eu entendo.
Bárbara diz:
Se você tivesse tentado de outra forma, se tivesse tentado fazer algo diferente, eu sei que eu tenho culpa, mas...
Juliana diz:
Eu preciso sair.
Ela não precisava me mais alguém definindo-a como: CULPADA.
Olhou-se no espelho, sorriu. Havia feito tudo absolutamente certo. Não era sua culpa pensar ou chorar, ela não podia conter toda a dor. Era o parecer final: INOCENTE.
Eu sinto muito querida, mas, o amor é uma fonte finita e nossa secou. Adeus pra sempre, e sua pena será reduzida pra a liberdade eterna. – Bárbara disse antes de sair pela ultima vez do lar que haviam construído.
-
Ingrid, a ré eternamente culpada.
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