Paraíso do Mal
1 Prólogo
Prólogo
O vento frio daquela noite açoitava duramente meu rosto em minha corrida desesperada entre a vida e a morte. As lágrimas que não conseguia mais segurar jorravam como uma cachoeira de meus olhos, embaçando minha visão e atrapalhando minha corrida, causando muitas quedas e esbarrões em árvores no meio do caminho.
Os galhos batiam em minha pele desnuda e criavam mais algumas cicatrizes para a coleção, mas nada me faria parar ou olhar para trás e encarar meus inimigos.
Fome. Sede. Cansaço. Dor. Medo.
São sensações que qualquer um que vive nos dias de hoje tem consigo a cada minuto.
Se é que pode se chamar isso de viver.
Temos de lutar a todo o momento contra algo quase impossível de vencer.
Correr já era uma rotina. Se esconder era uma prioridade. Comer ou beber era um luxo que nem sempre tinha. Mas o medo e a dor eram constantes, nunca iam embora.
E passar por tudo isso sozinha tornava tudo mil vezes pior.
A dor em meu braço era quase insuportável, o que só comprovava a idiotice que fiz ao tirar a bala alojada em meu braço, na altura do ombro, com uma faca e um alicate. Se bem que não tinha o luxo de escolher utensílios melhores nos dias de hoje, e tive de me virar com o que tinha.
O curativo improvisado já estava completamente manchado de sangue, que escorria pelo meu braço e pingava por onde passava. O cheiro de cobre impregnava minhas narinas me deixando enjoada e com medo de atrair mais daquelas coisas.
Parei de correr somente depois do amanhecer, a mochila que pesava em minhas costas foi parar no chão e eu logo ao seu lado.
Respirar era uma tarefa difícil depois de horas correndo, mas fazia o possível para normalizar meus batimentos cardíacos enquanto refazia o curativo no braço.
A dor me impedia de lembrar dos momentos de terror que aconteceram horas antes no acampamento que estava, e que agora era apenas destroços e mortes.
Minha esperança de conseguir passar por isso e permanecer viva era quase nula. O acampamento que tive sorte de encontrar há dois meses era militar, e se ele caiu sendo fortemente armado e preparado, quais eram as chances que eu tinha de conseguir isso estando sozinha? Possuía apenas uma pistola que peguei de um dos soldados mortos, duas facas médias e uma grande de caça.
Se muitos deles aparecessem em minha frente, eu estaria condenada a morte certa.
Meu corpo já não aguentava mais de tanto cansaço, de sono, de fome e sede. Minha vontade era de ficar apenas jogada nesse chão barrento, de esquecer o pesadelo que esse mundo se tornou. Do inferno que temos que enfrentar a cada segundo.
Lembro-me perfeitamente bem do dia em que meu mundo virou de cabeça pra baixo em questão de minutos.
O silêncio da floresta sempre me fazia lembrar de como as coisas eram há um ano. De todos os momentos em que fugia da cidade e ia direto para a floresta, que eu sempre considerei como o meu paraíso particular. Ouvir o canto dos pássaros ou o farfalhar das folhas ao vento sempre tornava tudo ainda mais perfeito. Era o único momento que me fazia forte e corajosa.
O silêncio me definia bem. Agora ele me apavora, pois me mostra que estou sozinha.
De novo.
Há um ano eu era apenas uma estudante de biblioteconomia, apaixonada por livros e as histórias que neles continham. Que sonhava acordada com o dia em que meu príncipe encantado bateria em minha porta e me levaria para uma aventura sem igual.
Eu era inocente. Não conseguia ver maldade nas pessoas a minha volta, mesmo quando eu era alvo de suas mentes cruéis. Nunca deixava de ser gentil e de me importar com o bem estar dos outros.
Essa era eu. A garota que via o lado bom em todas as situações.
Gostaria de poder dizer que o inferno sobre a terra me mudou. Que me deixou mais forte e desconfiada. Que me tornou uma verdadeira sobrevivente.
Mas, infelizmente, isso não aconteceu.
Posso sim ter me tornado desconfiada e mais cautelosa, mas ainda sou fraca. Não consigo ferir ninguém que ameace minha vida, nem mesmo os monstros que caminham ao meu redor.
A única coisa que ainda me mantem de pé, é a tola esperança de que um dia eu irei reencontrar minha irmã.
Já fazia muito tempo que não nos víamos quando tudo isso começou, e acabei por não saber se ela conseguiu fugir.
Fugi com um grupo de amigos, mas não ficamos juntos por muito tempo.
Lembro-me dos momentos de terror que vivemos antes de nos separarmos. Da confusão, dos gritos, do caos completo que nos cercava.
Tudo começou no momento em que os mortos levantaram de seus túmulos. Um verdadeiro filme de terror banhado de sangue e podridão se tornou a nossa realidade agora.
Os sons dos grunhidos quebraram o silencio naquele momento antes mesmo que eu pudesse vê-los.
Dois deles caminhavam trôpegos em minha direção. Os olhos sem vida, os dentes podres, apele acinzentada e pedaços de carne faltando em varias partes de seus corpos era o que restou do que um dia havia sido pessoas vivas e talvez felizes.
Levantei-me meio cambaleante enquanto pegava as duas facas em cada uma das minhas botas. Eu odiava ter que fazer isso, porque por mais que eu saiba que essas coisas não são mais humanas, ainda faz com que eu me sinta mal.
Esperei que um deles se aproximasse e cravei uma das facas em seu crânio, espirrando sangue podre e miolos pra todo lado ao retirá-la. Repetindo o processo no segundo zumbi que se estava ali.
Poderia ter usado a arma, mas descobri da pior forma possível que qualquer mínimo barulho os atraia aos montes, e isso é o que eu menos quero nesse momento ou em qualquer outro. Além de que minhas balas eram limitadas, tinha que poupa-las para quando fosse realmente necessário.
Limpei a faca que usei na roupa de um deles e a guardei no mesmo lugar de antes, pegando a mochila no chão em seguida.
Não sei dizer se caminhei durante minutos ou horas até que avistei ao longe muros altos feitos com caminhões. Um grande portão se encontrava no centro da grande barricada.
Quando decidi sair da floresta e tentar a sorte na estrada horas atrás havia sido uma escolha arriscada, caminhar em direção a esse lugar poderia ser uma ainda maior.
A dor agoniante no braço foi o suficiente para me fazer caminhar, mesmo que ainda hesitante, em direção ao portão. Provavelmente já estava com uma grande infecção no machucado por falta de antibióticos.
Antes mesmo que eu me aproximasse muito do lugar, o portão foi aberto e dele saíram três homens, sendo dois deles bem aramados.
Foi apenas isso que consegui reparar das pessoas a minha frente antes de perder o resto da pouca força que tinha e tombar para o lado, me entregando a completa escuridão.
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