Paraíso Sombrio
17 Verdades que a dor esconde
Notas iniciais
Hinata acordou naquela manhã com um sorriso nos lábios. Não sabia exatamente por que, mas sentia-se feliz e confortável, e desejava permanecer onde estava. O lençol no qual se enrolava exalava uma essência masculina deliciosa, e ela deu um longo e involuntário suspiro. O perfume inundou seus sentidos, aumentando seu sorriso.
Lentamente, ela abriu os olhos.
E quando a decoração ao seu redor se tornou mais nítida, ela se deu conta de que não estava em seu quarto.
Hinata ergueu o corpo, sentando-se. Uma forte sensação de déjà vu lhe apertava o peito, na medida em que reconhecia o lugar onde estava. O sentimento de acordar no quarto de Naruto era bom. Novamente, passara a noite com ele.
Olhou ao redor, procurando por qualquer sinal do loiro, mas ele não estava ali. Ela então se levantou e caminhou até o banheiro, tentando organizar seus pensamentos. Parou em frente a pia, e fitou seu reflexo no espelho.
Ela encarou a si mesma com uma expressão diferente daquela com a qual acordou. Ao abrir os olhos, ela se sentia feliz, acolhida e confortável. Agora, olhando para seu reflexo, ela procurava em seu rosto rastros de si mesma. Parecia que algo havia se perdido em algum lugar de sua consciência sem que ela soubesse exatamente o quê. Tudo o que Hinata sabia era que aquela garota feliz, que se deixava embalar pelos braços de alguém como Naruto, não era ela. Aquela felicidade que, pouco a pouco, ganhava espaço dentro de seu peito, aquela sensação de ter uma família e amigos com quem contar, o desejo crescente que sentia em seu corpo sempre que o loiro se aproximava... Aquilo não fazia parte de Hinata. Não era ela.
A morena apoiou as mãos na pia, aproximando o rosto do espelho. O que estava acontecendo com ela? Como podia ter mudado tanto em poucas semanas? Aquilo era bom ou ruim?
Hinata não tinha respostas para aquelas perguntas.
A única coisa da qual estava certa era de que tudo estava diferente. Ela estava diferente. Podia sentir isso, e mesmo que lhe custasse admitir, sabia que o grande responsável por aquelas mudanças em sua vida era Naruto. E aquilo a assustava.
Hinata lavou o rosto e voltou para o quarto, abrindo a porta. Olhou para o corredor, mas não havia ninguém que pudesse vê-la saindo do quarto de Naruto. A passos apressados e silenciosos, ela voltou para seu próprio quarto, trancando a porta e se dirigindo ao seu banheiro. Tirou a camisola e ligou o chuveiro, deixando a água cair sobre seus cabelos.
Sentou-se no chão do banheiro, na esperança de que aquele banho quente deixasse sua mente mais clara para organizar todos aqueles pensamentos. Fechou os olhos e respirou profundamente, procurando relaxar... Passou a mão pelo pescoço, afastando os cabelos para que a água pudesse cair e massagear seus ombros, e aquele gesto a fez lembrar-se das mãos de Naruto em sua pele. Pensar nele deixou-a desnorteada novamente. Afinal, ele era o responsável por despertá-la para a vida, assim como para os sentimentos que começavam a ganhar espaço dentro dela.
Com aqueles pensamentos na cabeça, ela se questionava sobre tudo o que havia acontecido até então.
Naruto era sua perdição ou salvação?
Ao chegar à sala, já de banho tomado e roupa trocada, Hinata deparou-se com Kiba, Naruto e Jiraya, entretidos em uma conversa animada perto da adega. O mestre já tinha um copo cheio nas mãos, enquanto o loiro encarava Kiba com uma expressão indignada.
–Não olhe pra mim. – o garoto respondeu, como se estivesse se defendendo de uma acusação – Seu mestre não me deixou encostar nas garrafas, bebeu dois litros de vodka sozinho em minutos!
–Ero-sennin! – Naruto grunhiu, desesperado.
Hinata revirou os olhos para a preocupação do loiro. Ele tinha muito zelo com aquela adega, e aparentemente, Jiraya esgotara muitas garrafas do estoque na noite passada.
O mestre apenas riu, e seus olhos logo se focalizaram na morena que, incerta, permanecia na porta.
–Bom dia, Hinata! – ele falou, fazendo todos se virarem para ela.
A garota se encolheu com aquela atitude. Jiraya era realmente alguém muito expansivo, e seu bom humor parecia não ter limites.
–Bom dia. – ela falou, baixinho.
–Venha, junte-se a nós! – ele chamou – Não estamos planejando nenhuma orgia. Pelo menos não agora. – disse, e piscou para ela.
Hinata arregalou os olhos e virou-se para Naruto, em busca de socorro.
–Ele está brincando, Hinata. – o loiro a tranquilizou, rindo da reação da morena.
–Ela sempre leva tudo tão a sério... – Jiraya resmungou, debochado.
Hinata se aproximou, sentando-se no sofá ao lado de Kiba. O moreno a encarou, sorrindo de forma franca e calorosa.
–Procurei por você ontem a noite, mas acho que já devia estar dormindo. — falou ele, sem perder o sorriso.
Ela engoliu em seco, e rapidamente olhou para Naruto. Despreocupadamente, ele virou uma garrafa na boca, bebendo um grande gole da bebida, sem sequer olhar para Hinata. A garota apenas assentiu, com medo de que seu nervosismo acabasse por revelar onde de fato passara a noite anterior.
–Queria te mostrar uma coisa. – Kiba continuou, sem perceber os sentimentos de Hinata. Ele abaixou um pouco a gola da camiseta, exibindo parte do pescoço.
Naruto estreitou os olhos para aquela situação.
–Kiba! – Hinata alarmou, ao perceber o que ele a mostrava.
Ali estava, no pescoço de Kiba, o presente que a morena havia feito para Akamaru quando ainda estavam no sanatório. Sob a luz da manhã que entrava pela janela, o fino metal no meio da tira brilhou, o nome do “cachorro” reluzindo em contraste com a pele morena do garoto.
–Você... você guardou... – ela balbuciou, sentindo seu coração apertar com aquele gesto de carinho.
–Claro que guardei. Logo que sai do sanatório, passei dias, anos pensando em você. Se algum dia você poderia ser resgatada, se encontraria uma família, alguém que te mostrasse amor e felicidade como eu encontrei. Fico feliz que esse dia tenha finalmente chegado para você. Sinto muito que tenha demorado tanto.
Hinata assentiu, sentindo sua garganta se fechar de emoção. Reprimiu a vontade de chorar, afinal, como Jiraya dissera, o tempo de derramar lágrimas já havia passado. Era hora de viver e tentar encontrar a felicidade ao lado daqueles que agora faziam parte de sua família – e era muito bom saber que Kiba fazia parte dela.
–Você está usando uma coleira? – perguntou Naruto, os olhos azuis ainda estreitos e fixos naquela proximidade entre os dois sentados no sofá.
–O quê?! – Kiba grunhiu, sem compreender o sentido daquelas palavras.
–Isso no seu pescoço. Tem o nome de Akamaru escrito.
–E o que tem isso? – o garoto perguntou.
–Então... é uma coleira. Foi feita para ser usada por um cachorro.
–Não é uma coleira. É uma tira de couro trançado, e foi um presente da Hinata.
–Sinto muito desfazer suas ilusões, Kiba, mas isso no seu pescoço é uma coleira, sim. Qualquer um pode ver que é. – o loiro provocou.
–Não é uma coleira, já disse!
Hinata encarou Naruto com uma expressão de repreensão, mas ele parecia não ligar para aquilo.
–Ino! – chamou o loiro, fazendo com que o rosto de Hinata fosse tomado pela surpresa – Você pode vir até aqui? Kiba quer te mostrar uma coisa.
A morena olhou para trás, seus olhos vasculhando a casa em busca de Ino. Hinata sentiu seu coração se alegrar ao saber que ela estava ali.
–Que é? – a voz da loira foi ficando mais clara na medida em que ela saia da cozinha e entrava na sala, seguida por Sai. Ao aproximar-se do sofá, seus olhos pousaram no garoto ao lado de Hinata – Kiba, por que é que você está usando uma coleira?
Naruto e Jiraya soltaram uma gargalhada alta.
–Não é uma coleira, droga! – indignou-se o Inuzuka – Hinata, diz pra eles. Diz pra eles que não é uma coleira. – pediu.
–Bem... eu... eu fiz pro Akamaru, então... – a morena falou, envergonhada – Mas isso não tem importância. Fico muito feliz em saber que você ainda tem a cole... o cordão, e que o usa. – ela disse, exibindo ao amigo um sorrio cheio de ternura.
Kiba sorriu de volta, para logo em seguida encarar Naruto e Ino com uma expressão de triunfo.
–Ela fica feliz. – ele fez eco às palavras de Hinata, provocando os dois amigos.
A expressão de Naruto ficou repentinamente carrancuda, e ele não respondeu àquilo.
–Vocês são um bando de idiotas. – Sai murmurou, virando-se de volta para a cozinha – Vamos comer.
Ao se levantar, Hinata sentiu a mão de Ino puxá-la para perto dela.
–E aí, Hinata? – a loira sorriu — O que achou do Jiraya?
Hinata não pôde deixar de sorrir de volta. Ela gostava tanto de Ino! Era solitário quando ela não estava por perto, mesmo agora, com Naruto, Kiba e Jiraya na casa. Não era o mesmo que ter uma garota para conversar, principalmente alguém como Ino, que tinha sempre um sorriso para confortar a quem precisasse de um ombro amigo.
–Ele é bem... – a morena procurava a palavra certa.
–Eu sei. – Ino suspirou, fingindo desgosto – Mas tirando a parte pervertida, ele é a melhor pessoa do mundo. Sai e eu viemos hoje só para vê-lo. – disse ela, sorrindo novamente – Ele é divertido, generoso, e muito bondoso... sem falar que é como um pai para Naruto, e é muito respeitado por todos nós. Acho que ele acabou se tornando um pai pra gente também... Quando um mestre está distante, o outro acaba cuidando dos discípulos que ficam.
A Hyuuga se surpreendeu com o tom carinhoso com o qual Ino se referia a Jiraya, e aquele comentário despertou sua curiosidade.
–E onde está seu mestre, Ino?
–Em Nova Orleans. Investigando... Mas logo, logo ele também estará de volta, e você poderá conhecê-lo. Tenho certeza de que você vai adorar ele! – a loira se empolgou.
Hinata sorriu, e sentou-se à mesa, ao lado da amiga. Esperava que, um dia, pudesse ter um mestre que despertasse nela o mesmo sorriso que via agora estampado no rosto de Ino.
O café da manhã transcorreu animado, com uma mesa farta, gargalhadas altas e muitas bebidas impróprias para aquela hora do dia. Hinata não pôde deixar de perceber que até mesmo Sai, que era sempre muito quieto e reservado, riu e bebeu um pouco, enquanto conversava com Jiraya. Parecia que o mestre tinha o poder de fazer com que todos se soltassem. A morena observava à tudo, sentindo-se cada vez mais livre e feliz. Aquela situação era confortável de maneira desconhecida – ela se sentia, cada vez mais, parte daquela família.
No meio da conversa, todos ouviram a campainha tocar de modo insistente. Naruto deu um suspiro impaciente, e dirigiu-se à porta, o toque estridente soando por toda a casa.
Ele abriu a porta abruptamente, encarando quem quer que estivesse do lado de fora.
–Pra quê esse desespero, caralho? – questionou, irritado.
–CADÊ O JIRAYA, POOORRAAA? – Deidara berrou, já passando por Naruto como se não o tivesse visto.
O Uzumaki piscou, embasbacado com aquela atitude.
–Claro, pode entrar, Deidara... – Naruto murmurou, mas o loiro explosivo não podia escutá-lo. Ele já correra até a cozinha, de onde se ouvia a risada de Jiraya soando forte como trovão.
–AH, CARALHO, VOCÊ CHEGOU, CARA! – Deidara empolgou-se, como se houvesse apenas o mestre naquela mesa.
Todos encararam o loiro com uma expressão apática, enquanto Naruto se aproximava, suspirando de desgosto.
–Deidara! – Jiraya cumprimentou, levantando-se para abraçar o recém-chegado – Há quanto tempo, rapaz!
–E AI, PARCEIRO, QUANDO É QUE A GENTE VAI SAIR PRA ENCHER A CARA E AZARAR AS GATINHAS? HOJE A NOITE, PODE SER?
–Será que dá pra você parar de berrar? Ninguém aqui é surdo, não. – Ino alfinetou.
–Cala a boca, loira invejosa. – Deidara rebateu.
–Pra quê esperar até a noite, quando temos bebida aqui e duas belas mulheres para nos fazer companhia? – Jiraya perguntou, exibindo ao rapaz um grande sorriso.
Deidara olhou para Ino como se estivesse prestes a morrer.
–Tá falando de quem, Jiraya? De mulher bonita aqui só tô vendo a garota Hyuuga...
Naruto deu um tapa na cabeça de Deidara antes de voltar a sentar-se à mesa.
–AI! POR QUE DIABOS VOCÊ FEZ ISSO?! – explodiu Deidara.
–Sabe como é, só pra não perder o hábito. – respondeu Naruto, exibindo ao amigo um sorriso sarcástico que Hinata fingiu não notar.
–Loiro de farmácia, ridículo. – Ino resmungou.
–COMO É?! EU SOU LOIRO NATURAL!
–Eu tinha esquecido que esses dois não se bicam... – Jiraya murmurou para Kiba.
–É... – o Inuzika respondeu, observando aquela briga com uma expressão desgostosa.
–Parem com essa discussão ridícula. – Sai interviu – Deidara, não quer comer com a gente?
Ino lançou ao amigo um olhar fuzilante, mas o moreno fingiu não perceber.
Vendo a indecisão do recém-chegado, Sai resolveu insistir.
–Vamos, Deidara, senta logo. Jiraya acabou de chegar à cidade, e aposto que ele não tem interesse nas briguinhas idiotas de vocês.
Como o rapaz não respondia, o sennin agarrou a mexa do cabelo comprido de Deidara que cobria parte de seu rosto.
–Não está ouvindo o rapaz pedir, delicadamente, com toda a educação do mundo, que você se sente e coma conosco?! Onde estão os seus bons modos?!
–AAAAIIIIIIIII! – Deidara gritou de dor.
Naruto gargalhou, cruzando os braços e acomodando-se mais na cadeira como se estivesse assistindo a algum espetáculo.
Hinata piscou, atordoada, mas logo estava se esforçando para reprimir um riso também. Já estava se acostumando ao convívio daquelas pessoas turbulentas.
–Vai sentar ou quer que eu arranque metade desse seu cabelinho bonito? – Jiraya perguntou, sorrindo para o rapaz com tranquilidade.
–EU VOU SENTAR! EU VOU SENTAR! LARGA!
Jiraya soltou o cabelo de Deidara, que, contrariado, sentou-se ao lado de Sai. Todos recomeçaram a comer, e logo Jiraya engatou uma outra conversa sobre suas viagens e safadezas ao redor do mundo.
–Gostei dessa camisa. Ficou bem em você. – Sai comentou baixinho com Deidara, mantendo sua expressão neutra de sempre, sem olhar para o rapaz.
–É mesmo? – o loiro respondeu, distraído – Eu não gosto muito dela. Não me dou bem com roupas de cores claras... – divagou, tocando o tecido azul claro de sua camisa.
–Eu gostei. – disse Sai.
Ino ouvia aquela conversa completamente paralisada, sua boca levemente entreaberta de pavor.
–Poxa, obrigado, Sai! Você é um cara bacana. Me diz, como é que você aguenta andar vinte e quatro horas grudado com essa loira irritante? Ela te chantageia por algum motivo? – Deidara cochichou.
–Sai, tenho que te mostrar uma coisa lá na sala! – Ino interrompeu, levantando-se repentinamente.
Sai ergueu a cabeça para fitar a amiga, sem compreender aquela atitude.
–Agora? – ele perguntou, incrédulo.
–AGORA! – a loira arregalou os olhos para o amigo, ressaltando a urgência em seu pedido.
Sai suspirou.
–Tudo bem... – falou ele, levantando-se e acompanhando Ino até a sala.
Hinata observou os dois se afastarem, enquanto tentava abstrair o significado da expressão irritada da loira.
–Então, Hinata? – a voz de Jiraya a tirou dos devaneios sobre Ino, fazendo-a voltar sua atenção ao mestre que a encarava com um sorriso travesso – Você já leu o Kama Sutra?
–Que diabos foi aquilo lá na mesa?! – Ino questionou, cochichando.
–Aquilo o quê? – perguntou Sai, piscando inocentemente.
–Não faça essa cara pra mim, seu sonso. – a loira estreitou os olhos azuis – Você estava dando em cima do Deidara!
–Não estava. – ele respondeu, mantendo a expressão tranquila e apática.
–Estava sim! – ela insistiu, contendo-se para não gritar e fazer um escândalo.
–Não estava.
–Estava sim! Estava sim!
–Ino, nós dois crescemos em um orfanato com um bando de pestes implicantes enchendo nosso saco, e aprendemos a ser irritantes como eles. Portanto, podemos continuar com essa discussão idiota por horas, então, por favor, vá direto ao ponto.
–O ponto é que você estava dando em cima do Deidara! Logo do Deidara!
–Eu não estava dando em cima do Deidara, Ino. Só estava sendo gentil, já que você quase o atacou assim que ele chegou. Não tem nada demais nisso.
–Você está querendo me punir por alguma coisa que eu fiz, Sai? Só pode ser isso. Você está querendo se vingar de alguma coisa.
–Está ficando louca, Ino? – o rapaz perguntou, encarando a amiga com desgosto.
–Cadê aquele seu namorado da Inglaterra? – Ino perguntou, sua expressão beirando ao desespero. Lembrava-se que, antes de voltar do exterior, Sai contara a ela que havia rompido de vez com um rapaz com quem mantinha um romance complicado há alguns meses.
–Tá na Inglaterra. – ele responde, a expressão neutra – E eu estou aqui. Você sabe que eu não tenho mais nada com aquele cara. – Sai explicou, relembrando a amiga do término daquele relacionamento – E eu não tenho nada contra o Deidara. Você que tem essa implicância ridícula com ele.
–Porque ele é um idiota! – ela grunhiu, novamente se contendo para não gritar.
–Escute, Ino. – Sai apoiou as mãos nos ombros da amiga, encarando-a com seriedade – Eu não estava dando em cima de ninguém. E mesmo que eu estivesse, não tenho nada a ver com essa birrinha de vocês.
–Eu sei... é só que... – a loira tentou argumentar, mas as palavras de Sai surtiram efeito, enfraquecendo sua vontade de mata-lo – Eu não quero ver você se magoando de novo. – ela disse, lembrando-se do quanto o amigo já havia sofrido.
Sai sorriu para a loira.
–Vai ficar tudo bem. Não precisa ficar desesperada desse jeito. – ele disse, fazendo uma careta. Ino riu, desfazendo a expressão apavorada que tinha segundos antes, e o amigo continuou – Deidara é bonitinho.
–Sai! – Ino repreendeu.
–Mas o que eu posso fazer? – ele perguntou, divertindo-se com a reação da amiga — Acho que tenho uma queda por loiros... – falou o moreno, sorrindo tristemente para Ino e desviando o olhar para a porta da cozinha.
Daquele ângulo era possível ver Deidara, Jiraya e Naruto, comendo e conversando.
–Eu sei. – disse a loira, suspirando – Esqueça isso. – ela pediu.
Sai apenas deu de ombros, sem dizer mais nada.
–Ei... – os dois ouviram uma voz tímida chamar, e pularam de susto – Vim ver se estava tudo bem. Vocês saíram da mesa de forma tão estranha... e... bem... eu também queria me livrar do Jiraya. Ele faz cada pergunta... – Hinata explicava, completamente envergonhada.
–Eu sei. – Ino falou, suspirando de desgosto – Ele já te perguntou sobre sexo a três? – perguntou, vendo Hinata assentir – Ele pergunta isso pra todas as mulheres do mundo. Acho que é o sonho dele. – a loira comentou, franzindo o cenho. Jiraya conseguia constranger qualquer pessoa, quando queria.
–Vamos voltar e terminar de comer. – Sai chamou, já se dirigindo à mesa.
Ino entrelaçou seu braço no de Hinata, e as duas caminharam lado a lado enquanto a loira observava o amigo que caminhava um pouco mais a frente.
Ela realmente esperava que Sai estivesse falando a verdade. Odiaria ter que quebrar a cara de Deidara, caso ele magoasse seu amigo.
Voltando a cozinha, os três se sentaram à mesa novamente, ouvindo Jiraya e Naruto no meio de uma discussão. O loiro parecia levemente alterado com o que quer que seu mestre lhe dissera.
Hinata observou que Kiba se mantinha em silêncio, mas exibia uma expressão contrariada, de quem estava irritado com alguma coisa.
–Eu não posso derrubar essa barreira, Naruto. Se ela for uma proteção na mente de Hinata, ultrapassá-la pode prejudicar a sanidade da menina. – Jiraya explicava.
O loiro estreitou os olhos para o mestre.
–Eu estou começando a achar que você não quer entrar na mente dela, velho. Você é poderoso, derrubaria aquela barreira rapidinho e sem deixar que Hinata corra qualquer risco. Tô achando que tem algo errado nessa sua desculpa.
Jiraya suspirou, vendo a impaciência de seu discípulo.
–Naruto, mesmo que derrubássemos a barreira, duvido muito que encontrássemos na mente dela qualquer vestígio que nos ajudasse a despertar o Dom. E minhas habilidades não serão úteis nesse caso. – o sennin esclareceu tranquilamente, bebendo mais um gole de sua bebida.
Sem se deixar convencer, o loiro bufou. Aquela expressão despreocupada de Jiraya apenas o deixava mais desconfiado. Por que diabos seu mestre não queria entrar na mente de Hinata? Naruto tinha certeza de que na consciência dela encontrariam pistas sobre o Dom da garota. Por que Jiraya se recusava a derrubar a barreira mental dela?
–Sabe... – o mestre continuou, a expressão cada vez mais leve e tranquila. Jiraya realmente parecia ser daquelas pessoas que não tinham pressa ou se preocupavam com nada na vida – Talvez estejamos lidando com isso da forma errada.
–O que quer dizer? – perguntou o loiro, cada vez mais confuso. Achava que despertar o Dom de Hinata fosse a prioridade, mas o sennin estava lidando com aquilo de forma tão calma que o irritava.
–Como ela é uma Hyuuga, sabemos que seu Dom se define, basicamente, como uma habilidade ocular. Nenhum dos nossos poderes é compatível com a aura de Hinata, e por isso, teremos muitas dificuldades em despertar a energia estagnada há anos dentro dela.
Naruto esfregou o rosto, impaciente.
–Será que dá pra você ser mais claro, velho? – o loiro perguntou.
–Você continua o mesmo cabeça oca de sempre. – disse Jiraya, encarando o discípulo com uma expressão cômica de desgosto fingido – Estou dizendo que a melhor opção que temos é encontrar alguém que possua uma habilidade ocular e que saiba como colocar o chakra de Hinata em movimento novamente.
–E quem seria essa pessoa?
Jiraya suspirou e voltou seus olhos para a estante, onde havia alguns porta-retratos. Em um deles, Sasuke, Naruto e Gaara, ainda adolescentes, sorriam para a câmera, juntos, como irmãos.
Naruto acompanhou o olhar de seu mestre, para logo levantar-se abruptamente, os olhos arregalados de indignação. A cadeira foi empurrada para trás, rangendo violentamente em atrito com o chão, provocando um som estridente que fez os pelos e Kiba se eriçarem – tanto pelo barulho, quanto pela reação de Naruto.
–Você não está querendo que eu peça a ajuda daquele Uchiha miserável, está?! – perguntou o loiro, quase aos gritos.
–Não fale assim do Sasuke, Naruto. – Jiraya calmamente o repreendeu.
–Como quer que eu fale dele, depois de tudo o que ele fez?! Abandonou nossa família, e ainda arrastou o Gaara com ele! – o loiro berrou de volta, fora de si.
–Ele não “arrastou” o Gaara. Aquele rapaz é adulto, sabe bem o que faz. E mesmo com todos os erros, Sasuke ainda é parte de nossa família, e por isso estaremos sempre esperando que ele caia em si e veja o tamanho da besteira que está fazendo.
–Eu queria acreditar nisso, mas depois de tudo... – Naruto cerrou os punhos, tentando conter a fúria que o invadia – Depois de tudo o que aconteceu, não tenho mais tanta certeza se ele irá se dar conta de que ainda tem uma família esperando por ele. – falou, caminhando em direção à varanda – E francamente... não sei se estou disposto a esperar tanto tempo. – o loiro saiu dali, encerrando aquele assunto.
Jiraya tomou outro gole de sua bebida, sem se deixar abalar pelas palavras de Naruto.
Afinal, conhecia seu discípulo o suficiente para saber que ele jamais abriria mão dos laços que o prendiam à sua família.
Depois de alguns minutos olhando Naruto de longe, Hinata se questionava se devia ir falar com ele. Afinal, toda aquela discussão havia girado em torno dela, e a morena se sentia responsável pela irritação do loiro. Talvez devesse mesmo tentar conversar com ele.
Criando coragem, ela se levantou e caminhou até onde Naruto estava.
Hinata se aproximou devagar, tentando não fazer barulho, embora soubesse que o loiro já havia notado sua presença ali. Apoiou-se na grade da varanda, olhando para a rua, como Naruto estava fazendo. Ele suspirou ao vê-la, mas não estava com cabeça para refletir sobre aquela proximidade. Continuou olhando para a rua, sem deixar de atentar-se ao fato de que seu braço quase tocava o dela. Se chegasse um pouco mais perto...
–Você sabe que não precisa fazer isso, não sabe? – ela perguntou, quebrando o silêncio entre eles.
Ainda sem encará-la, o loiro respondeu com outra pergunta.
–Isso o quê?
–Falar com Sasuke. Eu não me importo em continuar tentando com a Ino.
Os olhos azuis do loiro vasculharam a rua, procurando algo onde pudesse deter sua atenção. Falar sobre aquilo não era nada fácil.
–Se continuarmos tentando entrar na sua mente, você pode se machucar como naquela vez.
–Eu não me importo. – ela insistiu, e só então ele se virou para fita-la nos olhos.
–Você não se importa em sofrer com aquelas lembranças? – ele perguntou, incrédulo – Não lembra como você se machucou da primeira vez em que tentamos... – ele começou, seus olhos perdendo o foco com o nervosismo, mas ela o interrompeu, segurando-o pelos ombros.
–Não quero que você se sinta forçado a falar com Sasuke por minha causa. Vamos... vamos tentar de outra maneira, quem sabe não encontramos um outro jeito de...
–Não, Hinata, não há outro jeito. Ero-sennin está certo. – ele falou, com uma dura expressão estampada em seu rosto. – Não vou deixar você sofrer daquela maneira novamente.
O loiro então voltou seu rosto novamente para a rua, sem querer olhar para os olhos arregalados de surpresa da morena.
Desnorteada com o que acabara de ouvir, ela ficou paralisada, sem conseguir esboçar qualquer reação. Não queria se tornar um peso para Naruto, mas saber que ele se preocupava com ela lhe dava uma sensação quente que se espalhava por todo o corpo, e se concentrava em seu rosto. E quando enfim conseguiu falar alguma coisa, sua voz saiu como um sussurro.
–Naruto eu...
–Me deixe um pouco sozinho, Hinata. Preciso pensar em... – falou, virando-se para olha-la, mas se interrompeu ao perceber algo na expressão da morena – Você... – ele ergueu a mão para tocar o rosto da garota – Você está corada? – perguntou, seus lábios se curvando em um meio sorriso.
–Ah... o-o quê? – ela grunhiu, dando um passo para trás. Sentiu o calor em seu rosto queimar suas bochechas com mais intensidade.
–Isso é novidade. – ele falou, e seu sorriso se alargou.
Hinata baixou o rosto, desvencilhando-se do toque de Naruto.
–E-eu vou... vou deixar você sozinho! – disse ela, quase correndo para longe da varanda.
O loiro viu a garota se afastar, seus pensamentos dividindo-se entre o pesar e o calor que também se espalhava em seu corpo. De certa forma, era bom saber que ele mexia com Hinata tanto quanto ela mexia com ele.
Suspirou, frustrado, soltando um grunhido de irritação.
Não podia ignorar a necessidade latente que tinha de protege-la crescendo dentro de si, e sabia que do jeito que as coisas estavam, não poderia fazer muita coisa.
Contrariado, tirou o celular do bolso, discando um número antigo, que seu amigo usava antes de enlouquecer e abandonar a família. Como, na maioria das vezes em que ligava, ele ocultava o novo número que estava utilizando, Naruto ainda usava o antigo contato para se comunicar com ele.
Encarou a tela do celular, refletindo que havia muito tempo desde que ligara para aquele número pela última vez. Deixando de lado seus sentimentos, pensando em Hinata, ele clicou no nome da lista de contatos.
Chamou uma, duas, três, quatro vezes. Na quinta, alguém atendeu.
–Veja só quem resolveu fazer contato. – a voz sarcástica soou do outro lado da linha – Aposto que Jiraya está te obrigando a fazer isso. – disse, e riu descaradamente.
–Cala a boca, Sasuke. – Naruto cuspiu as palavras como se elas fossem um palavrão – Preciso... – ele soltou um longo e pesado suspiro antes de prosseguir – Preciso de um favor.
–Sou todo ouvidos. – o Uchiha respondeu, sem deixar de lado seu tom carregado de ironia.
Todos estavam reunidos na sala, e o silêncio entre eles era desconfortável e opressor. Apenas Jiraya mantinha a expressão tranquila, bebendo ao lado de Deidara e Kiba como se nada importante estivesse para acontecer. A quietude daquela situação deixava a todos cada vez mais ansiosos.
Já passava de meio-dia quando a campainha tocou, e Hinata ouviu Naruto soltar um grunhido de frustração. Ele se levantou e foi para a adega, enchendo um copo com vodka. Jiraya apenas observava aquela cena em silêncio.
Percebendo a tensão que se instalava na expressão de todos, Hinata caminhou até a porta, sem ter certeza se estava preparada para estar no meio daquela situação. Não queria pensar demais no que estava para acontecer. Não queria deter-se ao pensamento de que, em breve, alguém em quem ela não confiava de jeito nenhum iria ter livre acesso ao que quer que estivesse em sua mente. Não queria se fixar em nenhuma daquelas possibilidades, mesmo que todas elas fossem reais de forma aterrorizante.
Ela abriu a porta, e mesmo que já soubesse quem era, não pôde deixar de sentir-se levemente apavorada ao encarar a pessoa que estava do lado de fora.
Uchiha Sasuke estava encostado casualmente em uma das colunas da grande fachada da casa, e ao vê-lo, Hinata sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. Aquele homem lhe causava um medo desconhecido – principalmente depois da noite na boate de Deidara. Ela não confiava em Sasuke, mesmo sabendo que, apesar de tudo, Naruto tinha fortes laços com ele. Mesmo assim, ela estremeceu ao vê-lo tirar os óculos escuros e encará-la com uma expressão fria e distante.
Sem nada dizer, o Uchiha passou pela Hyuuga, entrando na casa sem pedir licença ou cumprimenta-la. Mas o que deteve a atenção de Hinata não foi a frieza de Sasuke ou sua expressão vazia. Não foi o temor que sentia ao estar no mesmo ambiente em que aquele homem que ela sabia ter o coração cheio de trevas.
O que deteve a atenção de Hinata foi o rapaz que se aproximava da casa, vindo logo atrás de Sasuke, a encará-la com uma expressão divertida.
–Oi, Hinatinha! Lembra de mim? – o ruivo perguntou, exibindo à morena um grande e sincero sorriso.
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