Paraíso Sombrio
39 Paradoxo
Notas iniciais
Três meses depois
Nos corredores da mansão, era possível ouvir a respiração cansada de alguém que ofegava, além de algumas pancadas e murmúrios abafados pelas paredes espessas, barulhos que vinham do salão que ficava nos fundos da grande casa dos Hyuugas. Acomodada perto da parede do salão, sentada no chão com uma vasilha de biscoitos em uma mão e um copo de suco na outra, Hanabi observava a movimentação à sua frente como se assistisse a algum tipo de espetáculo. Aquilo não era exatamente o que ela chamaria de “passar um tempo legal com a irmã mais velha”, mas estava aceitando qualquer oportunidade que pudesse ter para ficar perto de Hinata e conhece-la melhor, permitindo que a mais velha a conhecesse também.
Nem que para isso tivesse que aturar o irritante Uchiha Sasuke.
–Levante a cabeça, desse jeito você não pode ver o inimigo se aproximar. – Sasuke repreendia enquanto andava devagar ao redor de Hinata, sua voz soando apática, como sempre – Separe mais os pés, erga mais os punhos.
Hinata respirava com dificuldade, o cansaço dificultando sua concentração. Já estavam treinando há cinco horas e Sasuke não lhe dava um intervalo sequer. A Hyuuga não aguentava nem olhar para o saco de areia que o Uchiha a obrigava a socar por horas, ou as barras de ferro nas quais ele a fazia treinar. Ela estava no limite da exaustão, mas o moreno parecia não ligar. Ele apenas a pressionava mais e mais, em busca de resultados.
–Concentre chakra nos pés e nas mãos, isso não é tão difícil. – o Uchiha prosseguia, analisando a postura de Hinata – Não espere tanto tempo para atacar um inimigo que está parado e de guarda baixa. – falou, vendo a morena avançar em sua direção. Sem piedade, ele passou a perna por entre as de Hinata, a mão espalmada atingindo-a no tórax, fazendo-a voar de encontro ao chão – E não faça um ataque tão obvio, ou vai acabar morrendo antes mesmo de começar a lutar.
Hinata grunhiu com a dor do impacto, sentindo o corpo inteiro latejar.
–É você quem vai acabar me matando... – ela murmurou, criando coragem para se reerguer.
–Ainda não descartei essa possibilidade, Hyuuga. – Sasuke avisou, mantendo-se inexpressivo – De nada adianta ter descoberto a palavra para invocar o seu poder se ainda assim você for uma péssima lutadora.
A morena bufou e se sentou no chão, tentando criar coragem para se levantar. Descobrir a palavra que invocava seu poder havia sido um grande passo; dessa forma, ela não precisava mais contar com a sorte quando quisesse agir. Porém, ainda havia um longo caminho a ser percorrido para que pudesse controlar totalmente o Dom que ela agora sabia se chamar Byakugan.
–Sério, você é uma péssima lutadora. – o Uchiha insistiu, parecendo um tanto perplexo e debochado – Não sei como você não morreu na boate do Hidan. Ainda bem que eu sou um ótimo mestre. – gabou-se, irônico.
–Há! – Hinata soltou uma risada debochada, finalmente se levantando. Ela sabia que Sasuke estava apenas sendo irritante, como sempre. A morena havia progredido bastante nos últimos três meses, mas obviamente seria difícil derrotar um lutador experiente e poderoso como Sasuke. De pé, ela tentou se equilibrar, firmando-se no chão e sentindo as pernas latejarem, assim como o restante do corpo – Uchiha Sasuke, um bom mestre! Essa piada me fez ganhar o dia. Obrigada, Sasuke, eu estava precisando rir um pouco.
O moreno estreitou os olhos para a discípula, segurando o riso. Às vezes, ele se perguntava como uma criatura irritante como Hinata poderia fazê-lo ter vontade de sorrir e de interagir como uma pessoa normal. Há muito tempo ele não sabia o que era ter uma amizade como aquela — se é que aquilo poderia ser chamado de amizade. Ele ainda não tinha muita certeza.
O fato é que Sasuke andava passando muito tempo com Hinata, e praguejava muito por aquilo, mas no fundo, ele sabia que não estava sendo, nem de longe, tão aborrecedor quanto imaginou que seria. As vezes, o Uchiha pegava a si mesmo pensando o que não seria capaz de fazer por Naruto, e sabendo que Hinata estava ciente disso, ele também tinha certeza de que ela tirava o máximo de proveito do que restava de sua paciência e consideração.
Havia, ainda, outro fator que dificultava o aparecimento de seu bom humor, que já era muito raro. Sasuke estava se sentindo mais solitário do que nunca nas últimas semanas, e por muitas vezes a Hyuuga o mandou ir procurar por Sakura. Ele apenas revirou os olhos e bufou, mas sabia que não conseguia enganar ninguém em se tratando da rosada. Sasuke estava mesmo com saudade dela.
Mas apesar de estar começando a se habituar ao autocontrole que exercia todos os dias a fim de não arrancar a cabeça de Hinata, ainda tinham detalhes com os quais ele não conseguia lidar, o que tornava sua convivência com a discípula um pouco difícil.
–Ela tem mesmo que ficar aqui? – Sasuke perguntou à Hinata, olhando para Hanabi de soslaio, vendo a menina estreitar os olhos para ele – Tenho que ficar me preocupando em não mata-la com meu chakra, e isso é um pouco chato.
–Tente, Uchiha. – Hanabi desafiou, falando pela primeira vez durante aquele treino, fitando-o com antipatia – Apenas tente.
E Sasuke tentaria, se não soubesse que os Hyuugas desgraçados eram extremamente fortes, e que Neji provavelmente arrancaria sua cabeça caso deixasse um mínimo arranhão naquela pirralha. Hanabi assistia à todos os treinos de Hinata, mesmo que Sasuke já tivesse deixado claro que a menina não era bem-vinda em sua presença. Obviamente, aquilo não era suficiente para repelir a Hyuuga mais nova, fato sobre o qual o moreno reclamava constantemente.
“Família irritante.”, o Uchiha praguejava mentalmente.
Hinata caminhou até o frigobar do salão, pegando uma garrafa d’água, respirando com dificuldade. Estava muito, muito cansada.
–Estou tentando aprender a ser uma boa irmã e para isso, precisamos passar algum tempo juntas. – ela explicou — Ajudaria bastante se você fosse um pouco mais simpático, afinal, foi você quem me convenceu a ficar nessa casa.
–É, não tô afim de me envolver nessa baboseira de vocês. – Sasuke resmungou, pegando a garrafa da mão de Hinata e tomando um gole – Eu não disse que você podia parar pra beber água. – bronqueou, vendo os olhos perolados à sua frente fitarem-no com desespero – Cem abdominais. Agora. – ordenou.
–Você está tentando mesmo me matar, não está? – Hinata arquejou, reprimindo um suspiro de cansaço.
–Eu já disse que ainda não descartei essa possibilidade, então você pode estar certa. Comece! – ele mandou.
Obediente, Hinata se deitou no chão e começou a fazer os malditos abdominais. Ela estava muito grata à Sasuke por todo o treinamento que estava recebendo, mas as vezes pegava a si mesma com tendências assassinas relacionadas ao Uchiha. Acabaria quebrando sua promessa de não ataca-lo e daria a ele uma boa sessão de bofetadas, porque as vezes, Sasuke merecia.
–Em quê está pensando, para parecer tão dispersa? – Sasuke bronqueou, reparando a expressão distraída de Hinata. Mal sabia ele que a morena imaginava uma forma de esmurra-lo sem que fosse acusada de quebrar a promessa que fizera de não bater nele.
–Apenas na Sakura... Em como ela deve estar com saudade de você. – Hinata falou tediosamente, enquanto fazia os abdominais. Ela sabia que aquilo sempre funcionava, e não demorou até perceber o rosto lívido de Sasuke fita-la com desdém e desconfiança.
–Apenas faça a droga dos abdominais, Hyuuga. – ele sibilou, estreitando os olhos.
–Ei, lembra daquela hora em que você me derrubou? – Hinata falou, fingindo-se de distraída. Sasuke apenas continuou a fita-la, desconfiado – Então, nessa hora eu aproveitei pra pegar seu celular. – ela falou, sorrindo abertamente.
Sasuke levou as mãos ao bolso, sentindo-o vazio. Hinata então parou de fazer os abdominais e tirou o aparelho que havia escondido por baixo da roupa de treino que usava.
Os olhos do Uchiha brilharam de impaciência e fúria.
–Devolva. – ele sibilou, estendendo a mão na direção de Hinata.
–Claro. Depois que eu mandar uma mensagem pra minha amiga Sakura. – a morena sorriu, sapeca.
Hanabi soltou uma risada de contentamento, o que fez com que Sasuke bufasse de ódio. A Hyuuga mais nova gostava de ver os treinos não somente porque aquela era uma boa oportunidade de ficar mais perto de Hinata, mas também porque a mais velha sempre dava um jeito de deixar o Uchiha irritado.
–Hyuuga. – Sasuke novamente sibilou, os olhos escuros arregalando-se na direção de Hinata e brilhando de raiva – Devolva. Esse. Celular. Agora. – ordenou, vendo-a se levantar e começar a mexer no aparelho.
–“Querida Sakura.” – a garota começou a falar, os dedos digitando habilmente a mensagem – “Sinto muito a sua falta, estou carente e preciso te ver.” – falou, desviando-se das investidas de Sasuke em sua direção.
O Uchiha tentava, a todo custo, pegar de volta o celular, mas Hinata deu as costas para ele, curvando-se para proteger as mãos enquanto digitava e sorria. Sasuke então tentou passar o pé por entre as pernas da Hyuuga, mas ela logo desviou, chutando a canela do rapaz, fazendo-o recuar de dor imediatamente.
–Não caio no mesmo golpe duas vezes. – ela gabou-se, continuando a mexer no celular. Não tardou até que Sasuke se impacientasse de vez e a arrastasse pela blusa, torcendo o pulso de Hinata até que ela soltasse o aparelho. A morena, porém, sorriu, concentrando chakra em uma das mãos e atingindo o estômago do Uchiha, que voou na direção da parede.
Sasuke rosnou, irritado, enquanto Hinata tentava a todo custo conter o riso. Ela o fitou com olhos de súplica e de deboche.
–Sasuke, desculpa! – a morena pediu, prevendo que ele se irritaria e a abandonaria. Mas estava sendo realmente difícil segurar o riso. Seus olhos lacrimejavam um pouco pela vontade de debochar da expressão indignada do Uchiha – Mas você me atacou primeiro! Desculpa! Juro que foi por reflexo!
Sem dar muita atenção às justificativas de Hinata, Sasuke se aproximou rapidamente, vendo-a erguer o braço esquerdo para se defender. Ele não estava levando aquilo a serio, mas Hinata, definitivamente, havia conseguido irrita-lo. Sem perder tempo, ele torceu o braço da Hyuuga, levando-o para as costas da garota, fazendo-a curvar-se de dor. Hinata desferiu outro chute em sua perna, fazendo-o arquejar, mas aquilo não seria suficiente para faze-lo soltá-la.
Suspirando, Hinata se rendeu. Com a mão livre do aperto de Sasuke, ela entregou o celular, sentindo-o soltar seu braço. Com um olhar zombeteiro, ela se afastou e viu o Uchiha revirar as mensagens no aparelho com uma expressão preocupada.
Plenamente ciente da expressão debochada de Hinata, que o encarava, Sasuke mexia no celular em busca da maldita mensagem que a garota enviara. Talvez ele tivesse que mudar de ideia sobre não matar Hinata, porque nos últimos tempos, ela estava dando mais trabalho do que nunca. Todos os dias ela inventava algo para tirá-lo do sério, e sempre tinha a ver com Sakura. No fundo, ele sabia que a Hyuuga estava preocupada por ele se manter tanto tempo distante da única pessoa daquela família que ainda acreditava piamente nele, mas Sasuke procurava não pensar muito naquilo. Ele tinha um objetivo a cumprir, e caso se detivesse à saudade que apertava seu coração, ficaria muito mais difícil concentrar-se em sua missão.
Obviamente, ter Hinata fazendo-o lembrar-se da rosada constantemente não ajudava em nada.
Finalmente achando a mensagem que havia sido endereçada à Sakura, ele se deparou com uma única palavra no corpo do texto.
“Saudade.”
Sasuke levantou o olhar para fitar Hinata. Ela mentira para provoca-lo, e embora aquela mensagem fosse motivo suficiente para o Uchiha ter um derrame de raiva, seria bem pior se ela tivesse, de fato, digitado todas aquelas outras coisas.
Mas antes que Sasuke pudesse expressar qualquer reação, todos ouviram a campainha tocar.
–Deixa que eu vou abrir! – Hanabi se levantou rapidamente, correndo na direção do jardim. As vezes, Sasuke lhe dava um pouco de medo, principalmente quando os olhos dele brilhavam de ódio daquela maneira.
Quando a menina enfim se foi, o Uchiha novamente voltou o olhar para Hinata, encarando-a com ferocidade. A morena deu um passo para trás, num receio cômico.
–Calma, Sasuke... – ela pediu, ainda tentando conter o riso.
–Você não tinha o direito! – o Uchiha sibilou, mantendo a voz baixa. A expressão de culpa no rosto de Hinata, misturada ao olhar zombeteiro que ela lhe exibia, o deixava ainda mais enfurecido. Indignado, ele deu um passo na direção da Hyuuga, vendo-a recuar.
–Você precisa ir ver a Sakura! Daqui a pouco ela vai pensar que estamos tendo um caso ou algo do gênero! – Hinata tentou justificar-se, esforçando-se para não rir da expressão irada de Sasuke – Liga logo pra ela!
Sasuke avançou outro passo na direção de Hinata, vendo-a recuar novamente. Em um dado momento, porém, não havia mais para onde fugir. A morena esbarrou as costas na parede, enquanto via o Uchiha fita-la com uma expressão de puro ódio.
–Sakura sabe muito bem que não há motivos para pensar esse tipo de bobagem. – ele sibilou, tentando se controlar para não arrancar a cabeça de Hinata – Ela sabe que existem coisas importantes acontecendo nesse momento, e que devemos nos concentrar em resolver toda essa confusão o mais rápido possível.
–Acontece que apesar de você ser um idiota, ela gosta de você, e você a deixou totalmente no vácuo. – Hinata argumentou – Qual é a desse seu lance autodestrutivo, Sasuke? Tudo bem você se ferrar, mas precisa levar a Sakura junto? Eu não a conheço direito, mas sei que ela é uma boa pessoa. Será que você não pode parar de ser imbecil e egoísta? Você acha mesmo que ela vai te esperar pra sempre? – perguntou, vendo o Uchiha estreitar os olhos.
–Por que você acha que está apta a me dar um sermão? – ele questionou, cada vez mais enfurecido – Além do mais, isso não é da sua conta!
Hinata abriu a boca para argumentar, mas Sasuke não deixou que ela falasse.
–Não pense que só porque concordei em te ajudar você está autorizada a se meter na minha vida pessoal. Se tentar uma gracinha dessas de novo, pode acabar perdendo a mão. Entendeu, Hyuuga?! – ele ameaçou, verdadeiramente enfurecido.
Hinata bufou e revirou os olhos. Como aquele homem era idiota, por Deus!
Vendo o deboche na expressão da garota, Sasuke estava prestes a dizer outras tantas coisas a ela, mas o celular logo vibrou em sua mão.
A resposta de Sakura veio depressa, expressa em uma única palavra que fez Sasuke exibir um meio sorriso torto, discreto e involuntário, mas suficiente para fazer com que Hinata sorrisse também, satisfeita.
“Saudade.”
Caminhando pelo imenso jardim, sentindo-se um pouco incomodado com os olhares desconfiados que os seguranças lançavam em sua direção, Kiba se aproximava da imensa entrada da mansão dos Hyuugas. Discretamente, ele puxou um pouco a gola de sua camisa, sentindo-se desconfortável. Aqueles olhares em sua direção, todo aquele requinte, todos aqueles portões com fachadas exageradamente elegantes, tudo aquilo era sufocante. Kiba suspirou. Se não fosse por Hinata ter ligado na semana passada pedindo que ele fosse até ali, o Inuzuka jamais teria coragem de ir visita-la. Ele não entendia direito o que estava acontecendo, sabia apenas de alguns detalhes sobre o porquê de a Hyuuga não estar mais morando com Naruto. Além do mais, Kiba estava ciente de que Sasuke era agora mestre de sua amiga, e aquilo o deixava ainda mais confuso. Ele podia não entender muito bem aquela situação, mas sabia que nada havia mudado com relação ao Uchiha; Sasuke continuava sendo a mesma criatura irritante e perigosa que sempre fora.
Então, por que Hinata insistia em tê-lo em sua companhia? O que ela enxergava em Sasuke que os outros olhares não conseguiam ver?
Com o cenho franzido, Kiba parou diante da grande casa. Não sabia se podia entrar ainda – só para poder passar dos portões da entrada havia levado meia hora, sendo interrogado pelos seguranças a respeito do propósito de sua visita, mesmo que Hinata já tivesse deixado expresso que o amigo iria visita-la e para deixarem-no entrar. Além do mais, a droga daquele jardim era exageradamente grande, obrigando-o a caminhar por mais uns dez minutos. Kiba iria conversar com Hinata sobre poderem se encontrar em outro lugar futuramente, porque acabaria levando um tiro daqueles seguranças desconfiados como o inferno.
–Oi. – a voz fininha soou pelo jardim.
–AAAHHH! – Kiba gritou, pulando de susto, para em seguida se virar e ver a figura miúda da Hyuuga que havia saído não se sabe de onde.
–Você é o amigo da Hinata? – a moça perguntou, sorrindo ao ver o rosto pálido de Kiba.
Ele ainda ofegava pelo susto, os olhos arregalados na direção da garota.
–Q-quem é você?! – ele grunhiu, confuso.
A moça colocou as mãos para trás, balançando o corpo para frente e para trás, apoiando-se nos calcanhares. Seus cabelos negros e cumpridos, assim como o vestido branco estampado com desenhos de margaridas, balançavam com o vento que se espalhava pela fachada da mansão e pelo jardim.
–Sou Hanabi. Hyuuga Hanabi. Sou irmã da Hinata. – ela respondeu, divertindo-se com a expressão indignada do rapaz.
–Você quase me matou do coração! – Kiba acusou, cada vez mais perdido naquela situação.
–Hanabi, o que está fazendo? – Neji perguntou, abrindo a porta da frente da casa.
–AAAHHH! – Kiba alarmou novamente, pulando de susto. O que havia de errado com aquela gente? Por que eles apareciam do nada?
–Não fique assustando o convidado da Hinata. – o Hyuuga bronqueou a menina, demonstrando muito respeito ao pronunciar o nome da prima – Olá, Kiba. – cumprimentou.
–Não assustei você, assustei? – Hanabi perguntou ao Inuzuka, ainda sorrindo de um jeito sapeca, parecendo não estar nem um pouco preocupada se havia assustado ou não o visitante.
Antes que Kiba pudesse responder, um berro enfurecido soou pelo lugar.
–ÔH, NEJI! – o grito irado vinha de dentro da casa, aproximando-se da saída. Não tardou até que Tenten aparecesse na porta da entrada com uma veia destacada na testa e a expressão de quem iria matar alguém – ONDE ESTÃO AS MINHAS ARMAS?!
Kiba piscou, atônito. Ali até estava parecendo a casa de Naruto, com tanta confusão e gritaria. Faltava só a estante de bebidas.
–O-o-onde está a Hinata? – o Inuzuka perguntou, ouvindo Hanabi soltar uma risada travessa.
“Ótimo.” Kiba pensou, desanimado “Hinata deve estar se divertindo com essa gente.”, ironizou mentalmente, sabendo que a Hyuuga deveria estar enlouquecendo com tudo aquilo.
–Você não precisa delas. – Neji argumentou, vendo Tenten bufar de ódio – Já disse a você que esse sistema de proteção é arcaico e que não precisamos mais disso em nossa família. Seja uma pessoa normal e esqueça isso.
–Proteger você é minha função e pra isso preciso das minhas armas! – Tenten gritou em resposta, irritando-se cada vez mais com a expressão serena de Neji – O restante de meu arsenal ainda está em Tóquio, você sabe que as minhas outras armas ainda vão demorar a chegar aqui! Devolva!
–Ei, serio, cadê a Hinata? – Kiba perguntou à Hanabi, começando a entrar em pânico por estar no meio daquela confusão repentina.
–Eu não preciso de proteção. – Neji rebateu, mantendo-se tranquilo — Meu tio já lhe disse isso. Eu já lhe disse isso. A tradição que exige que a família Mitsashi proteja os Hyuugas não se faz mais necessária, nós já conversamos sobre isso. Além do mais, eu sou muito mais forte do que você. Não preciso de proteção. – ele repetiu, percebendo que Tenten se irritava cada vez mais.
–ME DEVOLVA MINHAS ARMAS, SEU MAURICINHO DESGRAÇADO! – a Mitsashi gritou, enfurecida.
Hanabi novamente sorriu, travessa, ainda mantendo as mãos para trás.
Kiba já estava prestes a desistir de obter uma resposta e decidir simplesmente invadir a casa e ir atrás de Hinata já que, pelo visto, não adiantava contar com a tal Hanabi para obter qualquer resposta. Aquela garota parecia adorar ver o circo pegar fogo.
–Não vou devolver enquanto você continuar com essa história ridícula. E ponto final. – Neji respondeu à provocação de Tenten sem se deixar abater – Eu não preciso da sua proteção, já que sou mais forte que você.
–COMO É QUE É?! NEM EM SONHO VOCÊ É MAIS FORTE DO QUE EU! – a guardiã berrou.
Neji apenas sorriu minimamente, virando-se para entrar na casa novamente, parando alguns centímetros perto da porta, onde Tenten bloqueava a passagem. Ele então ergueu uma das mãos na direção da garota, tentando acertá-la, mas ela logo se defendeu, utilizando os dois braços cruzados na frente do corpo para aparar o golpe.
Com a outra mão, Neji tocou levemente a testa da garota, desferindo chakra sobre a pele morena do rosto de Tenten.
Num baque surdo e imediato, o corpo da Mitsashi atingiu o chão.
–Sou mais hábil também. – o Hyuuga murmurou, debochado, para em seguida estender a mão para ajudar Tenten a levantar. Ela bufou, segurando a mão do moreno.
–EU QUERO AS MINHAS ARMAS! – Tenten gritou, vendo Neji revirar os olhos e soltar sua mão, fazendo-a cair de costas no chão novamente.
–Você não tem jeito, mesmo... – o Hyuuga murmurou, antes de entrar novamente na mansão.
Tenten logo se ergueu e saiu andando atrás de Neji à duras pisadas, praguejando constantemente sobre o sumiço de suas armas.
Vendo os dois se afastarem, Kiba piscou, boquiaberto, e em seguida olhou para Hanabi.
–Aqui é sempre animado assim? – ele perguntou, vendo os olhos grandes e perolados à sua frente fitarem-no com contentamento.
–Ah, sim, Neji e Tenten estão sempre se engalfinhando. Ela é meio difícil e ele é meio irritante. Sabe como é. – ela respondeu, sem deixar nunca de sorrir.
–Não... Sei como é não. – Kiba rebateu, tentando não se deter muito ao sorriso inabalável de Hanabi – Será que você pode me levar até a Hinata agora, por favor? – implorou.
–KIBA! – o grito histérico de Hinata se fez soar, fazendo o Inuzuka virar-se novamente para a porta. Ele quase caiu para trás, sem força suficiente para conter o pulo da amiga, que se jogou sobre o rapaz num abraço sufocante – EU NEM ACREDITEI QUANDO O NEJI DISSE QUE VOCÊ FINALMENTE TINHA CHEGADO! – ela bradou, feliz.
–AI... HINATA... VOCÊ... TÁ ME SUFOCANDO... – Kiba gemeu, vendo a Hyuuga se afastar. Ele então sorriu para ela, puxando-a de volta para si – Tô brincando, vem cá! Meu Deus, parece que faz séculos que a gente não se vê!
–Parece mesmo! – Hinata falou, sentindo os olhos úmidos. Como era bom ver alguém de sua família. Sua verdadeira família. A presença de Kiba ali fazia com que suas melhores lembranças ganhassem novamente vida em sua mente e em seu coração, dando-lhe a certeza de que tudo o que viveu junto à Jiraya e os outros não havia sido apenas um sonho maluco. Havia sido real. Kiba estava ali. Ele era uma lembrança bonita de um passado que agora parecia tão, tão distante...
–Certo, agora me convide pra entrar antes que o seu primo e aquela doida da Tenten voltem. – ele pediu, olhando temerosamente para os lados, fazendo Hinata rir bobamente. Ela parecia mesmo feliz em vê-lo, o que era bom. Kiba então se lembrou da menina que o havia recebido naquele jardim e voltou-se para trás – Foi um prazer conhecer você, Hana... – se interrompeu, vendo que Hanabi não estava mais ali. Ótimo. Hyuugas não somente apareciam do nada. Eles sumiam repentinamente também.
–O que foi? – Hinata perguntou, vendo Hanabi se afastar em direção às flores. A irmã mais nova adorava aquele jardim, passava grande parte do dia nele.
Kiba, que estava distraído com a presença de Hinata, não percebeu Hanabi se afastar.
–Nada não. E ai? Vai me convidar pra entrar, ou não? – ele perguntou, sorrindo para a amiga.
Hinata fingiu não perceber a expressão embasbacada de Kiba enquanto o conduzia escada acima, na direção de seu quarto. Ele estava surpreso e boquiaberto com tudo aquilo – todos sabiam que os Hyuugas eram milionários, mas um casarão daquele tamanho e cheio daquela parafernália chique chegava a ser arrogância.
Bem, eram os Hyuugas, afinal. Eles sempre haviam sido profissionais em ostentações desnecessárias.
–Que vidão, hein? – Kiba ironizou, sorrindo, jogando-se sem cerimônia na grande cama de Hinata, vendo-a fechar a porta e juntar-se a ele – Fala sério, como é que você aguenta viver nessa casa toda branca? Não dói nos seus olhos, não?
Para a morena, não era tão difícil assim conviver com aquela decoração unicolor. Sua vida andava mesmo sem cor, a branquidão da casa era apenas um reflexo de como ela estava se sentindo desde...
Era melhor não lembrar. Era melhor não se arriscar a lembrar-se dele, porque pensar nele doía demais, doía mais do que Hinata podia suportar. Por isso ela não se permitia, nem por um segundo, lembrar-se dele. O problema é que ele ocupava cada centímetro de sua mente, e era simplesmente impossível não sentir o coração apertar a cada vez em que as memórias a invadiam.
–Você sabia, não sabia? – Hinata perguntou, sem rodeios, querendo se livrar das lembranças dolorosas.
Kiba olhou para ela, o sorriso se desfazendo em uma expressão de culpa. Sem conseguir achar as palavras certas para responder, ele permaneceu em silêncio.
–Você me disse que foi levado para a ORDEM depois de sair do sanatório. – ela continuou – Isso significa que você conhecia o Neji e a Tenten. Conhecia Hiashi. Todos vocês sabiam sobre os Hyuugas. Por que não me falou nada?
O rapaz suspirou. Nem ele sabia ao certo o motivo de tudo aquilo, mas se era uma resposta que Hinata queria, ela teria uma. Mesmo que aquela situação fosse incompreensível para ele também.
–Porque na época, Jiraya me disse que era melhor você não saber. – Kiba tentou explicar – Disse a todos nós, na verdade. Ele disse que havia coisas que você ainda não estava pronta para descobrir, e que se a informação de que você estava com a gente vazasse, pessoas perigosas poderiam vir atrás de você. Mesmo sem entender, eu achei melhor acatar a decisão de Jiraya, porque querendo ou não, foi ele quem sempre cuidou da gente... Jiraya nunca deu ponto sem nó, e eu entendi que se ele não iria explicar aquilo melhor, era porque a situação era mais perigosa do que eu imaginava, e ele não queria colocar nenhum de nós na mira de um risco desnecessário. Por isso eu nunca questionei o motivo de ter que manter tudo em segredo. Estava apenas feliz por você ter sido resgatada.
Hinata suspirou. Não poderia ficar com raiva de Kiba, não depois de tudo o que vivera até ali, não depois de tudo o que havia descoberto. Não depois de saber que, durante todo aquele tempo, Jiraya havia, silenciosamente, tomado todas as precauções para lhe proteger. Não depois de perder a sua verdadeira família. Não podia deixar que Kiba se afastasse dela também.
–E então... Como estão todos? Como está Gaara, Ino, Deidara, Sai? – Hinata perguntou, mudando o rumo dos pensamentos em sua mente e querendo desanuviar o clima em seu quarto – Como é que tá a Sakura, ela tá legal? – questionou, tentando colher informações sobre a rosada para contar à Sasuke, mais tarde. Ele não admitia, mas Hinata sabia que o Uchiha estava morrendo de saudade da Haruno, mas era idiota demais para ir procura-la.
–Por que é que você não pode ir ver a gente, Hinata? – Kiba perguntou, sem responder aos questionamentos da amiga – A gente sente sua falta. O Gaara dá um pití todo santo dia porque você foi embora e nem ligou pra ele.
–Eu não tive exatamente o que se pode chamar de escolha, nesse caso. – ela ironizou, lançando à Kiba um olhar que denotava mágoa.
–Que seja. – Kiba rebateu, exibindo à Hinata uma expressão preocupada — Mas o fato de você ter me ligado e não ter entrado em contato com mais ninguém não ajuda em nada. E eu acho que o Gaara já não gosta muito de mim por algum motivo que eu desconheço, e vocês dois eram muito amigos, você sumiu e agora ele tá insuportável. Eu sei que você pediu segredo sobre eu vir até aqui, mas não aguentei e acabei contanto pra Ino que você tinha me ligado e ela contou pra ele, o cara quase me engole com os olhos. Eu sai de casa escondido, inclusive, porque o Gaara é doido, ele é um sujeito sossegado mas quando pira, você sabe como ele fica.
Hinata riu ao lembrar-se do ruivo, sua expressão entristecendo imediatamente. Não havia um único dia em que não se lembrasse de Ino e Gaara, não que os outros não fossem especiais para ela, mas aqueles dois haviam se tornado grandes amigos. Eles sim, eram sua família, e faziam tanta falta que não era possível expressar em palavras o quanto aquela ausência lhe doía.
–Você tá rindo porque não é você que vai ter que aguentar aquela cara antipática dele pelos próximos dias. – Kiba reclamou, estreitando os olhos.
–Ele gosta de você, Kiba. É só que você é sempre tão gentil com as garotas que... – Hinata começou, sem ter tanta certeza se devia dizer aquilo ao amigo.
–Que o quê? – o rapaz insistiu, sem entender do que a garota estava falando.
–Nada não. – ela falou. Era melhor deixar aquilo quieto – E... e ele? – perguntou, hesitante e receosa. Havia prometido a si mesma antes de Kiba chegar que não faria aquela pergunta, mas não pôde evitar. Era impossível não querer saber noticias dele.
Kiba fitou a expressão angustiada de Hinata e soltou um longo, pesado e cansado suspiro. Ele aceitara ir até ali principalmente porque sentia falta de sua amiga, – as coisas haviam acontecido rápido demais e sequer haviam tido tempo de aproveitar o reencontro que novamente os unira como amigos – mas também porque queria entender o que diabos estava acontecendo com sua família.
–Ele não tá bem, não, Hinata. – Kiba falou, por fim – Pra falar a verdade, nós estamos preocupados com o Naruto.
–Por quê? – a morena questionou, os olhos ansiosos fitando Kiba seriamente.
–Você lembra que ele sempre gostou de beber? – o Inuzuka perguntou, vendo Hinata assentir – Então... agora ele faz isso o tempo todo. Mas é o tempo todo mesmo. Eu não sei como a Kyuubi sobrevive em meio à todo aquele álcool. Ele tá tentando deixar o Bijuu bêbado, mata-lo afogado, ou o quê? – Kiba resmungava. Estava tão preocupado com toda aquela situação que falava como se tivesse se esquecido de que Hinata estava ali – Pra falar a verdade, a gente mal vê o Naruto. Ele anda sumido, só o Shikamaru e a Ino tem falado com ele. Da última vez em que o vi, ele parecia péssimo. Tava com a barba por fazer e com uma cara de doente, umas olheiras que chegam perto das do Gaara. A gente nem sabe se ele tá comendo, a não ser quando a Ino se impacienta e sai gritando com ele, obrigando ele a comer. O cara tá parecendo um zumbi. Ele só investiga, investiga e investiga, dia e noite, noite e dia, tá obcecado por achar uma solução pra tudo isso, ele tá agindo como se não houvesse mais nada na vida além disso. Acho que ele quer dar um jeito de levar você de volta, Hinata.
–Eu não posso sair daqui ainda. – a morena murmurou, angustiada.
–Ele sabe. Mas eu acho que se ele não conseguir dar um jeito nisso o quanto antes, vai acabar enlouquecendo, ou fazendo alguma idiotice, indo atrás de gente perigosa e morrendo. Você conhece o Naruto, quando ele quer ser idiota, não há ninguém que supere a criatividade dele. Enquanto não conseguir dar um jeito de deixar você segura, ele não vai sossegar.
–Ele não pode ir atrás do Orochimaru. – Hinata falou, desesperando-se – Você não pode deixar ele se meter nessa história, é perigoso demais.
–É, eu tô sabendo que esse tal de Orochimaru tá atrás de vocês. – Kiba disse, parecendo desconfiado – A Ino disse que ele torturou você, quando era pequena. Todos nós queremos ele morto, nem adianta você me olhar desse jeito, a gente vai achar esse cara.
Por um momento, Hinata quase suspirou de alívio. Ninguém ali sabia de muitos detalhes do que havia acontecido em sua infância além dela e Naruto, e Hinata agradecia silenciosamente por isso. Havia coisas pessoais demais naquela história, e era melhor que parte daquilo se mantivesse em segredo.
–Vocês não podem se arriscar por minha causa. Orochimaru é um homem doentio e perigoso, vocês vão acabar morrendo. Por favor, Kiba, não seja estúpido. – ela suplicou, preocupada.
–Deixa de ser dramática, ninguém vai morrer. – Kiba debochou, olhando solidariamente para a amiga – Além do mais, você é parte da nossa família, não importa o que esses Hyuugas digam.Nós é que somos a sua família. E família, a gente defende com unhas e dentes.
–Mas o Orochimaru é perig... – Hinata tentou argumentar, mas Kiba logo tratou de interrompe-la.
–Ah, certo, chega de falar desse infeliz. Quando é que você ia me contar que tem uma irmã?
–Ah... Então... Pois é. – foi tudo o que ela conseguiu dizer a respeito de Hanabi. Mentalmente, a morena ainda estava tentando assimilar tudo aquilo.
–Ela é uma peste, hein? – Kiba comentou, parecendo distraído com a lembrança da Hyuuga mais nova – Quantos anos ela tem?
–Dezesseis. – Hinata respondeu, estreitando os olhos para o amigo – Está para completar dezessete.
–Então ela é um ano mais nova que você?
–Um ano e alguns meses.
–Hanabi. – ele repetiu o nome da garota com satisfação – Ela parece ser uma pessoa legal.
–O que há com você? – Hinata perguntou, os olhos ainda estreitos na direção do amigo, enquanto tentava segurar o riso – Está interessado na minha irmã?
–O quê?! – Kiba grunhiu, corando instantaneamente com a pergunta de Hinata – Claro que não! De onde você tirou isso?
–Da sua cara de idiota.
–Eu não tenho cara de idiota.
–Não é que você tenha cara de idiota... É só que você fica com cara de idiota falando da Hanabi.
–Não começa com isso. – Kiba pediu, cada vez mais envergonhado – Eu acabei de conhecer a garota, além do mais, ela é muito nova pra mim.
–Mas você tem a minha idade! – Hinata alarmou, dessa vez, sem conseguir conter o riso – Deixa de ser trouxa!
–Para com isso, Hinata! – Kiba novamente pediu, sentindo o rosto esquentar cada vez mais ao ouvir as risadas da Hyuuga ecoando pelo quarto. Estava tão nervoso e distraído com o deboche da amiga que não ouviu a porta do quarto sendo aberta.
–Hinata. — Tenten chamou, colocando a cabeça para dentro do quarto.
–AAAHHH! – Kiba gritou de susto, fazendo a Mitsashi piscar, confusa.
–O que foi? – Tenten perguntou, vendo Kiba bufar. Sem obter uma resposta do rapaz, ela novamente se virou para Hinata – Posso procurar minhas armas no seu quarto? – pediu, vendo a expressão irônica da Hyuuga em sua direção, o que provavelmente queria dizer um “não” – Por favor! Não consigo achar de jeito nenhum e o Neji sabe que você jamais me deixaria entrar no seu quarto... Bem... Depois de tudo o que aconteceu. Por favor! – suplicou.
Hinata suspirou, limitando-se a assentir, dando permissão para que ela procurasse as benditas armas.
Tenten entrou no quarto e vasculhou tudo, sem perceber o olhar confuso de Kiba. Hinata apenas piscou para ele, sorrindo, sapeca.
–Meu Deus, eu vou matar o Neji! – Tenten esbravejou, se dando conta de que suas armas não estavam no quarto de Hinata. Ela abriu a porta enfurecida, descendo as escadas à duras pisadas, afastando-se do quarto da Hyuuga.
–O que há de errado com essa galera? – Kiba finalmente perguntou, indigando — Não sabem aparecer nos lugares como pessoas normais? Eles tem que sair do nada, como se fossem almas penadas?
–Bom... – Hinata disse, levantando-se da cama e caminhando para perto da janela – O pessoal aqui tem o costume de aparecer do nada, mesmo. – comentou, amarga, abaixando-se e puxando uma correntinha imperceptível que saia do piso do quarto e era da mesma cor do chão – Mas em compensação, eu me viro como posso. – falou, levantando uma pequena portinha do chão que revelava um alçapão, antes invisível aos olhos desavisados de Tenten e Kiba. Ele também se levantou da cama, curioso. Chegando mais perto, Kiba pôde ver que naquele espaço, que antes estava oculto pelo piso, estavam guardados muitos papéis, fotografias, documentos, caixas... e uma mala cheia de armas.
–A Tenten não tava procurando isso? – Kiba perguntou, confuso.
–É, tava, sim. – Hinata respondeu, colocando os braços para trás num gesto que fez com que o Inuzuka imediatamente se lembrasse de Hanabi – Neji e Hanabi me pediram pra esconder aqui. – revelou, sorrindo de forma travessa.
–Essa sua irmã tá sendo uma péssima influência pra você, hein? – ele ironizou, rindo da brincadeira.
Hinata voltou a fechar o alçapão, deixando o compartimento novamente invisível aos olhos de qualquer um que entrasse naquele quarto. Rindo, ela e Kiba voltaram a se acomodar na cama, e juntos, conversaram sobre tudo. Hinata contou como estava sendo viver com Neji e Hanabi. Neji era um rapaz muito educado, um tanto arrogante, mas muito, muito forte. Quando o via treinar, Hinata se perguntava se um dia chegaria a dominar seu poder do jeito que Neji dominava o dele – e olha que Neji tinha dificuldades de manipular o Byakugan, assim como lhe fora explicado no dia em que tudo havia sido revelado. Mesmo assim, Hinata sabia que ainda estava há muitos anos luz de comparar-se à Neji. Ele era também muito gentil e respeitoso com ela, tornando impossível para Hinata irritar-se com ele. Posteriormente, Hanabi lhe explicou que, como seu pai fazia parte da linhagem principal, e o pai de Neji da linhagem secundária, os membros da linhagem secundária deviam respeito e proteção aos membros da linhagem principal. Obviamente nada daquilo valia nos dias atuais, eram costumes arcaicos e já extintos de um clã muito tradicional, mas Neji fazia o tipo certinho e que dava muito valor à tradição.
Hanabi, por sua vez, era uma menina muito doce. As vezes, Hinata se perguntava como era possível que ela sorrisse o tempo todo, o que no começo era extremamente irritante. Mas depois, Hinata passou a invejar aquela capacidade da irmã mais nova de nunca se deixar abater, não importava a situação. Talvez, aquele fosse o Dom mais precioso de Hanabi, mais precioso até do que o Byakugan: o dom de sorrir sempre e de colorir com meiguice e doçura os dias de todos naquela casa.
A convivência com Hanabi e Neji havia deixado os dias na mansão muito mais fáceis, porque Hinata sabia que eles não tinham culpa de nada daquilo. Ela já havia aproveitado muitas madrugadas insones conversando com o primo e a irmã mais nova em seu quarto, comendo bobagens e conhecendo um pouco mais de sua própria história. Era estranho ver sua vida contada por outras pessoas, mas ainda assim, era alguma coisa. Neji era um bom rapaz, de coração sempre manso e sereno, Hanabi era um pouco agitada, mas também lhe fazia muito bem.
Tenten, no entanto, era outro caso. Embora Hinata compreendesse as circunstâncias, assim como entendia as de Kiba, não era tão fácil perdoa-la. Por muitas vezes naqueles três meses, Tenten tentou se aproximar de Hinata, conversar, talvez até se explicar. Mas a Hyuuga não queria ouvir. Era tarde demais para justificativas, tarde demais para perdões desnecessários, tarde demais para lamúrias inúteis. Era hora de seguir em frente, e não havia nada que Tenten pudesse dizer naquele momento que abrandasse o coração de Hinata. Aquilo, só o tempo seria capaz de fazer.
E, por fim, havia Hiashi.
Ele também tentou se aproximar de Hinata. Como passava o dia fora lidando com os negócios, o horário do jantar e os finais de semana eram o único tempo que Hiashi tinha para tentar obter algum retorno positivo de Hinata, qualquer sinal que lhe indicasse que a garota estava disposta a tentar começar uma nova vida ao seu lado e esquecer o passado. Ele apenas queria que ela se dispusesse a tentar.
Mas Hinata não estava interessada em uma nova vida, e tampouco seria capaz de esquecer o passado.
No fundo, ela não odiava Hiashi. Quando, em um dia de treino, Hinata revelou aquilo para Sasuke, ele bufou e disse que ela era muito idiota para ter ódio de alguém. Hinata perguntou se aquilo era ruim. Suspirando, o Uchiha respondeu que não. Mas avisou também que as pessoas generosas se ferram muito mais do que as que preferem resguardar o coração em uma couraça de gelo e distância. Ela então perguntou se era aquilo que ela tinha que fazer: ser fria e distante, tentar odiar Hiashi.
“-Não. – Sasuke respondeu – Você não é assim. Você é trouxa, Hinata. – debochou – E não há nada de errado nisso. Não quero ser uma má influencia e acabar envenenando seu coração. Você é uma boa pessoa, e não há nada de errado nisso. Mas... Boas pessoas sempre se ferram. Embora eu acredite que, para você, valha a pena ser uma boa pessoa, preciso também lhe deixar ciente da verdade. Ser uma boa pessoa não vai te levar a lugar nenhum. Ser uma má pessoa também não. É um paradoxo. Lide com isso.”
Um paradoxo. Hinata estava vivendo em um paradoxo, porque não sabia como lidar com Hiashi. Embora não o odiasse, ela guardava sim, muita mágoa e ressentimento. Não tinha ódio por ele, mas desprezava-o profundamente. Não admitia a ideia de tê-lo como pai. Não admitia sequer a ideia de tê-lo como parente. Não conseguia sequer olhar para ele. Não enquanto pudesse se lembrar de tudo o que vivera, de todo o sofrimento, de todas as lágrimas derramadas.
Durante aquela tarde, Kiba e Hinata mataram a saudade. Conversaram sobre coisas boas, outras, nem tanto. Ele pediu que a morena desse um jeito de ir ver o Gaara, ou que pelo menos ligasse para ele. Hinata disse que ia pensar. Já estava sendo muito arriscado ter Kiba ali, mas não tão arriscado quanto seria ver um jinchuuriki em uma situação em que todos poderiam estar sendo perseguidos. Além do mais, para Hinata, ver o ruivo e ter que dar adeus a ele novamente seria ainda mais difícil do que não vê-lo.
Ela então pediu que Kiba mandasse um grande abraço para todos, e um especial para Ino e Gaara.
O dia passou depressa, já era o final da tarde quando Hinata acompanhou Kiba até o portão.
–Nossa... Eu tava mesmo com saudade. Nossa família não é mais a mesma sem você. – o Inuzuka murmurou, vendo o grande portão ser aberto — Trate de ligar pro Gaara, pra ver se ajuda a controlar o mau humor dele. – recomendou, fazendo Hinata sorrir, sabendo que ela não ligaria.
–Vou pensar sobre isso. – ela prometeu.
Os dois se fitaram por um instante, em silêncio. Dizer adeus era difícil.
–Será que você não pode dar um jeito de ir ver o Naruto, não? – Kiba perguntou, parecendo preocupado – É sério, Hinata. Ele não tá bem. Não sei direito o que aconteceu entre vocês dois antes de você ir embora, mas ele tá arrasado. Ele acha que você não vai perdoa-lo. E seja lá o que aquele idiota fez, não foi por mal. Naruto jamais faria alguma coisa para machucar qualquer um de nossa família. Principalmente... Principalmente você. Ele faria qualquer coisa por você. Até ser idiota, se ele achasse que isso salvaria sua vida.
Hinata apenas ficou em silêncio, absorvendo as palavras do amigo. Tudo estava tão confuso em sua mente e em seu coração... era difícil discernir o que era real e o que era mentira. Tudo se misturava e tudo se perdia. Era um paradoxo, como Sasuke havia dito. Hinata estava completamente presa e envolvida em um paradoxo. As palavras duras de Naruto ainda martelavam em sua mente, a lembrança daquela noite deixando o gosto amargo da mágoa em sua boca. E, apesar do conselho que o Uchiha lhe dera, ela não conseguia lidar com aquilo.
–Não posso. Ainda não. – ela respondeu, sem saber se Kiba entenderia.
O rapaz suspirou.
–Tudo bem. – o Inuzuka resmungou, compreendendo que aquilo era muito mais complicado do que parecia. Ele respeitaria a escolha de Hinata, mas achava que alguém tinha que contar a ela o que estava acontecendo com Naruto. Se ela faria alguma coisa a respeito, já era uma escolha que somente ela poderia fazer – Preciso ir... Não esqueça de mim. Sempre que precisar, é só chamar, e eu virei. Mas por favor, tente evacuar a casa quando eu vier... Sua família nova é meio doida. Doida de um jeito diferente da nossa.
–Deixa de ser implicante. – Hinata falou, sorrindo – Pra quem tava todo prosa com a Hanabi...
–Pelo amor de Deus, para com isso! – Kiba novamente pediu, ruborizando, fazendo Hinata rir alto. Ele ouvira aquelas piadinhas sobre Hanabi durante a tarde inteira – Não estou interessado na sua irmã!
–Então eu posso dizer isso pra ela? Que você não está interessado? – a Hyuuga perguntou, testando o amigo.
–Por quê? Você acha que ela... Que ela... – ele murmurou debilmente, sem perceber a armadilha nas palavras de Hinata.
A morena estreitou os olhos.
–Você gostou dela! – Hinata acusou, rindo.
–Tchau, Hinata. Não me chame aqui, eu não vou voltar. – Kiba resmungou, corado da cabeça aos pés.
–Deixa de ser bobo. – ela implicou, abrindo os braços para receber Kiba em um abraço de despedida – Não vou demorar a ligar. – ela prometeu, abraçando-o com doçura.
–Tudo bem. Não demore mesmo. E pense no que conversamos. Ele precisa de você, Hinata. – Kiba falou, vendo a expressão entristecida de Hinata – Nós precisamos de você.
Ela tentou sorrir, vendo o amigo dar as costas e afastar-se dali na direção do carro que estava estacionado perto da calçada.
Com certeza Hinata pensaria muito a respeito de tudo o que haviam conversado naquela tarde.
Quando Hinata entrou em seu quarto, ainda com as palavras de Kiba na cabeça, surpreendeu-se ao ver que Sasuke estava lá dentro, diante de seu espelho. Ele continuou a abotoar a camisa preta e de mandas cumpridas que vestia, ignorando a presença de Hinata. Com o Inuzuka passando a tarde ali, ele teve tempo para providenciar novas mudas de roupa, que sempre deixava no guarda-roupa da discípula.
A morena se sentou na cama, e um sorriso sapeca se formou involuntariamente em seus lábios, enquanto ela via o Uchiha terminar de abotoar a camisa.
–Por que está se arrumando todo desse jeito? – ela perguntou, sorrindo.
Sasuke revirou os olhos e permaneceu em silêncio.
–Você vai ver a Sakura, não vai? – Hinata insistiu, sem conseguir deixar de sorrir.
–Na verdade, eu estava pensando em passar na casa do Naruto e perguntar se ele não aceita uma mala Hyuuga de volta. – ele ironizou, vendo Hinata bufar e projetar o lábio inferior para frente, no que parecia ser um beicinho emburrado. A morena se encolheu na cama, abraçando as pernas de encontro ao peito e apoiando o queixo nos joelhos.
–Desnecessário, hein, Uchiha. – ela resmungou, magoada.
–Você que começou, Hyuuga. – Sasuke rebateu, repuxando um pouco as mangas compridas da camisa.
–Idiota. – Hinata murmurou. Sasuke sabia que Naruto era um assunto delicado para ela. Desde a conversa que tivera com seu pai, a Hyuuga tentava, a todo custo, não pensar nele. Porque quando se lembrava do loiro, todas as lembranças felizes que tiveram juntos se embaralhavam em sua mente, misturadas às palavras duras que ele dissera quando a expulsou de sua vida. E apesar das circunstâncias, apesar de Hinata compreender que havia um motivo por trás de tudo aquilo, apesar de saber que se Naruto tivesse lhe dito a verdade ela teria teimado em ficar, aquilo seria muito, muito difícil de esquecer — Por isso que eu sinto saudade do Gaara. – ela disse, vendo Sasuke estreitar os olhos para seu reflexo no espelho.
–Nada impede que você ligue pra ele. O Kiba não veio aqui hoje? – o moreno perguntou, vendo Hinata assentir – Então? Peça que Gaara venha também. Desde que ele tome o cuidado de não ser seguido e que você não deixe vazar informações desnecessárias, ele pode vir.
–Eu deveria ir... – ela começou, mas Sasuke a interrompeu.
–Não é seguro pra você sair, ainda. – disse o Uchiha, vendo a expressão da garota entristecer cada vez mais – Por favor, não seja estúpida e saia sozinha por ai enquanto eu estiver fora.
–Sim, senhor. – Hinata ironizou.
Sasuke se afastou do espelho e se aproximou da Hyuuga, fitando-a seriamente. Hinata era um saco. Estava amolecendo seu coração, e ele acabaria matando-a por isso. Hyuuga irritante.
–É sério, não faça nada idiota. – ele recomendou.
–Eu sei! – Hinata respondeu, agoniada – Vai logo pra droga desse encontro, Sasuke!
O moreno piscou.
–Quem disse que eu vou pra um encontro? – ele pigarreou — Tenho passado tempo demais tentando consertar a sua completa falta de habilidade em controlar seu poder, e por isso tenho algumas pendências a resolver.
–Sei. Pendências aonde? No hospital onde a Sakura trabalha? Tá com o coração dodói, Sasuke? – Hinata provocou, vendo os olhos negros do Uchiha estreitarem-se em sua direção.
–Quer saber, Hyuuga? Vai dar uma voltinha lá fora. Pode ser que alguém te leve de uma vez. – ele resmungou, dando meia volta e saindo do quarto de Hinata.
Ela correu até a porta, vendo Sasuke descer as escadas rapidamente.
–Diz pra ela que eu mandei um abraço! – a morena gritou, ouvindo Sasuke bufar antes de sair da mansão.
Ela então voltou para a cama, envolvendo-se nos lençóis macios. “Uchiha idiota”, ela pensou, sem deixar de sorrir. Sasuke se fazia de durão, mas em se tratando de Sakura, era mole como gelatina.
Sua mente então foi tomada pelas palavras que Kiba lhe dissera àquela tarde.
E antes que fosse invadida pela vontade gritante de sair e procurar Naruto, ela preferiu fechar os olhos e afundar na inconsciência.
Nervoso, ele olhou para a porta à sua frente. Já estava ali havia dez minutos, não tardaria até que alguém achasse estranho aquele homem parado em frente à casa da doutora Haruno. Tinha que se decidir de uma vez.
Sasuke suspirou. Conviver com Hinata não estava lhe fazendo bem. Ela estava mexendo com sua cabeça, fazendo com que ele achasse que era necessário se render à sentimentalismos baratos que não o levariam à lugar algum. Sasuke tinha um objetivo, e sabia que só poderia ficar em paz quando tudo estivesse resolvido.
O problema é que aquilo estava levando tempo demais. Como ele havia admitido para Hinata na noite em que ela foi embora da casa de Naruto, Sasuke era fraco. Fraco demais para ficar muito tempo longe de Sakura.
Já fazia três meses, afinal.
Enfim se decidindo, ele apertou a campainha. Seria bom rever a rosada, deixa-la ciente do que havia descoberto, das suspeitas confirmadas, dos avanços. Precisava conversar com ela sobre seus próximos passos, sobre os perigos iminentes, sobre todo o caos envolvendo suas vidas.
Sim, Sasuke definitivamente precisava muito conversar com Sakura. E era apenas por esse motivo que ele estava ali.
Quando a porta enfim foi aberta, a rosada apareceu na soleira, esfregando os olhos e bocejando, exibindo uma expressão cansada. Os cabelos estavam presos em um coque mal feito e ela tinha uma caneta nas mãos – devia estar envolta em relatórios do hospital quando na verdade, precisava estar descansando. Sakura estava descalça e usava apenas um blusão preto estampado com o nome NIRVANA em letras amarelas, que ia até pouco abaixo do quadril, deixando boa parte das coxas a mostra.
No pulso dela, a pulseira com o símbolo do clã Uchiha brilhava de encontro à luz que vinha da rua.
–Sasuke? – ela arregalou os olhos, surpresa. Oh, não. Conhecendo o Uchiha, para ele estar de livre e espontânea vontade em sua porta, alguém deveria ter morrido ou alguma outra desgraça deveria ter acontecido. Seus olhos verdes fitaram a figura do moreno, preocupados – O que houve?
Ele esqueceu completamente do que havia ido fazer ali. Já fazia muito tempo desde que vira Sakura pela última vez, e havia esquecido também do quanto ela era bonita, e do quanto a simples visão daquele rosto fazia seu coração apertar de uma maneira que ele odiava admitir.
Num gesto repentino, Sasuke agarrou a rosada pelas pernas, enlaçando-as em seu quadril. Deu um passo para dentro da casa, ignorando a expressão confusa que ela lhe exibia.
–Sasuke! – a rosada gritou, surpresa.
–Apenas cale a boca e me beije. – ele murmurou, sério.
Sakura sorriu, mordendo o lábio inferior, vendo o Uchiha fechar a porta atrás de si com força. Ainda com as pernas envoltas no quadril de Sasuke, a rosada pousou os braços ao redor do pescoço dele, puxando-o para perto, percebendo que ele caminhava apressadamente na direção de seu quarto.
–Até que enfim, Uchiha. – Sakura murmurou, sorrindo, antes de grudar os lábios nos dele, ouvindo-o entregar-se a ela com um gemido.
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