Paraíso Sombrio

41 O legado do mestre


Notas iniciais
Yo, minna! Tudo bem com vocês? Esse final de ano não tá sendo nada fácil, hein? Naruto chega ao fim, Pink Floyd lança seu último álbum... T.T Já chega, gente. Já deu. Já podem parar com essa brincadeira de acabar com as coisas boas da vida, não tem graça, isso T.T Estou aqui, só de boa, vendo os palpites do galerê-san sobre a pessoa mascarada que atacou o Narutim. xD Bom... Acho que esse é o maior capítulo que eu já escrevi na vida. Desculpem por isso! Mas ele é importante, e acontece muita coisa nele. E tem trilha sonora! Essa primeira música é importantíssima pro capítulo de hoje. Se chama Simple Man, do Lynyrd Skynyrd. Ah, eu amo tanto essa música... Ela fala tanto sobre a relação entre Jiraya e Naruto. Por favor, por favorzinho, ouçam. A segunda é uma música de bar! Kkkkkkkkk Sabe quando você vai passando por uma rua, dai na esquina tem um bar... Dai tá tocando uma música? Provavelmente é a We said goodbye, do Dave Maclean. Kkkkkkkkkkkkkkkkk Essa canção é pra dar aquela ambientação de fundo de poço meeeesmo. Bom, apesar de o capítulo estar gigantenorme (mais uma vez, desculpem por isso), espero que vocês gostem. Boa leitura, e nos vemos nas notas finais!



Enquanto caminhava pela rua a passos pesados e cansados, com uma caixa nas mãos, Naruto não se atentava à beleza daquela manhã que o envolvia com seus mansos raios de sol. O loiro andava de cabeça baixa, os óculos escuros impedindo-o de enxergar qualquer luz que o atingisse. Naquela manhã, para ele, não havia muitos motivos para celebrar o novo dia que chegava, nem o outro ano que se completava em sua vida.

No dia do seu aniversário, Naruto achava que não havia nada que valesse a pena comemorar.

Na noite anterior, quando o loiro foi atacado pelo misterioso mascarado, Shikamaru o socorrera e o levara para casa. De alguma forma, seu chakra fora drenado pelo inimigo de tal maneira que Naruto mal conseguia se manter de pé; talvez demorasse alguns dias para que ele pudesse se recuperar totalmente. Estranhamente, Kurama se mantinha quieta desde o ocorrido, não atendendo aos chamados de Naruto quando ele perguntou se o Bijuu estava bem.

Preocupado, o Nara perguntou se não era melhor ligar para Sakura, sugestão que Naruto recusou veementemente. O loiro não queria envolver mais ninguém naquela história, e também não gostaria que a rosada o visse naquele estado. Preferia ficar sozinho, pois era assim que ele se sentia nos últimos meses. Yugito já havia ido embora há alguns dias, e antes de partir, ela abraçou Naruto com ternura e pediu que ele se mantivesse forte.

Naruto achava que aquilo era mais fácil de falar do que de fazer.

Além da saudade que apertava seu peito incessantemente nos últimos meses, a frustração e o ódio pelo ataque repentino e traiçoeiro que sofrera daquela pessoa mascarada serviram para, mais uma vez, deixar Naruto acordado durante toda a noite.

Quando o cansaço enfim o dominou, empurrando-o para um breve cochilo, já estava amanhecendo. O descanso, porém, não durou muito; o telefone da casa tocava insistentemente, soando por todo o ambiente, despertando Naruto de seu sossego momentâneo. Como um zumbi, ele se arrastou na direção do telefone, sentindo seus músculos latejarem em protesto pela grande quantidade de chakra drenado, motivo pelo qual Naruto praguejava constantemente.

Ele só não imaginava que aquele era apenas o começo de um dia terrivelmente difícil e estranho.

–Bom dia... É da residência do senhor Uzumaki Naruto? – uma voz feminina se fez soar do outro lado da linha.

–Sim... – Naruto murmurou, erguendo uma sobrancelha, estranhando o tom formal daquela mulher.

–Sou Terumi Mei. – ela se apresentou — Fui advogada pessoal de Jiraya durante muitos anos, sendo responsável por alguns documentos, digamos... Não convencionais.

Naruto suspirou. Claro que a “advogada pessoal” de seu mestre seria uma mulher. Claro.

–Infelizmente, ele não se encontra mais... – o loiro começou, mas logo foi interrompido.

–Eu sei. Estou familiarizada com as peculiaridades de sua família. – Mei esclareceu, para a surpresa de Naruto – Por isso disse que, durante a vida de seu mestre, – ela enfatizou a palavra, para que não restassem dúvidas de que ela sabia de tudo – cuidei da documentação não convencional dele. É por isso que estou entrando em contato com você hoje.

Naruto permaneceu em silêncio, sentindo seu coração acelerar e esperando que a mulher prosseguisse.

–Acredito que eu deva lhe dar os parabéns hoje, não é? – Mei perguntou, e pelo seu tom de voz, o loiro sabia que ela estava sorrindo – Imagino que seu aniversário este ano não esteja sendo uma data muito festiva.

–O que você quer comigo? – Naruto se impacientou, querendo que a conversa tomasse um rumo menos desconfortável.

–Venha até meu escritório. Tem algo que preciso entregar a você. – ela disse, e agora seu tom de voz era sério.

Sem querer se estender muito naquele diálogo, Naruto anotou o endereço da advogada e prometeu estar lá na hora marcada. Se aquela mulher tinha algo a ver com seu mestre, ele gostaria de saber mais a respeito. Após desligar, tomou um rápido banho e não se lembrou sequer de comer alguma coisa; rapidamente, ele entrou no carro, jogando a jaqueta que tinha em mãos no banco do carona, acelerando na direção de onde ficava o escritório de Terumi Mei.

Naruto agora andava pelas ruas ensolaradas da cidade com aquela caixa nas mãos, sem saber exatamente o que fazer com ela. Caminhava de forma desnorteada já há alguns minutos, pensando que talvez devesse simplesmente dirigir-se até onde havia estacionado o carro e ir para casa. Porém, seus pensamentos estavam confusos, seu corpo, dolorido, seu coração, em frangalhos. Será que aquela dor nunca cessaria? Naruto começava a achar que a resposta àquela pergunta era um grande e definitivo “não”.

Acabara de sair do escritório de Terumi, e o que ouvira e vira naquele lugar deixara sua mente ainda mais confusa. Ele não sabia se sorria ou se deixava cair as lágrimas que pesavam em seus olhos. Não sabia se procurava Ino, Gaara ou Sakura para conversar sobre aquilo e mostrar o que quer que houvesse dentro daquela caixa, mas Naruto tinha certeza de que a verdadeira pessoa a quem ele desejava procurar não estava mais ao seu alcance.

Ela estava longe demais agora para que ele pudesse ser consolado pelos braços calorosos que talvez nunca mais o envolvessem.

O loiro então balançou a cabeça, tentando se livrar daqueles pensamentos. “Uma dor de cada vez”, ele pensou, sabendo que não poderia lidar com tudo aquilo sozinho. Mas a única pessoa que poderia ajuda-lo agora estava tão dolorosamente distante...

Vendo um banco vazio na praça que ficava do outro lado da rua, Naruto se dirigiu para lá. Ele se sentia levemente dormente, talvez porque ver que Mei era uma mulher tão bonita tenha feito com que ele sorrisse verdadeiramente ao se lembrar de que Jiraya era um grande mulherengo que não perdia uma oportunidade sequer de estar acompanhado de belas moças. Mas a advogada não era apenas bonita; Mei havia sido uma pessoa importante para Jiraya. Naruto soube disso no minuto em que entrou naquele escritório.

Sentando-se no banco, sentindo a brisa balançar as folhas da árvore que fazia sombra sobre sua cabeça, assim como seus cabelos, Naruto fixou os olhos na caixa em suas mãos.

Absorto por um sentimento que ele não conseguia definir o que era, o loiro se recordou do encontro com a advogada de seu mestre.

Alguns instantes atrás

Quando a porta à sua frente foi aberta, Naruto arregalou um pouco os olhos ao deparar-se com a figura da bela ruiva que lhe sorria de forma misteriosa. Os dois se fitaram por alguns instantes, e em determinado momento, Naruto identificou algo estranho na expressão da mulher. Ela parecia, de alguma forma, emocionada em vê-lo.

Mas o que quer que fosse aquele brilho estranho nos olhos da ruiva, ela logo tratou de disfarçar. Pigarreando, a mulher estendeu uma mão para o Uzumaki.

–É um grande prazer finalmente conhece-lo pessoalmente. – ela disse, sem deixar de sorrir para Naruto – Sou Terumi Mei.

O loiro estendeu a mão para a advogada, e com a outra coçou a cabeça, parecendo um pouco deslocado. Ele estava certo, antes. Mei parecia mesmo emocionada em vê-lo.

Sem conseguir se controlar, Naruto deixou escapar um riso descontraído, surpreendendo-se com aquilo. Há quanto tempo ele não sorria daquele jeito?

–O que foi? – a ruiva perguntou, rindo da expressão confusa de Naruto.

–Nada, não. – ele tentou escapar da pergunta, mas logo percebeu o olhar incisivo da Terumi, e resolveu falar a verdade — É que é bem a cara dele ter uma advogada pessoal como você. – explicou.

–Ah, sim. – Mei sorriu, dando espaço para que o loiro entrasse – Jiraya era mesmo uma figura quando o assunto era mulher.

Naruto assentiu, os lábios ainda curvados em um sorriso mínimo que ele não conseguia disfarçar. Bem, não era de se espantar que a mera lembrança de seu mestre o fizesse sorrir.

Mas quando Naruto prestou um pouco mais de atenção no ambiente onde entrava, seu sorriso se desfez, cedendo lugar a um desconfortável aperto em seu peito. Os olhos azuis do loiro se fixaram no porta retrato disposto na grande mesa da advogada, ao lado de uma enorme pilha de papéis; nele, Mei e Jiraya pareciam tentar se equilibrar, um ao lado do outro, a ruiva com um braço apoiado nos ombros de Jiraya, cada um com uma garrafa de bebida pela metade na mão, exibindo à câmera sorrisos embriagados. A foto era antiga, pois o rosto de Jiraya ainda não tinha as grandes cicatrizes vermelhas que ele ganhara no dia em que resgatou Naruto.

–Esse foi o dia em que você nasceu. – Mei explicou, vendo Naruto fita-la, confuso – Ele ficou tão feliz em ser escolhido como seu padrinho... – disse, passando os dedos pela superfície do porta retrato, parecendo nostálgica, sem saber que estava falando mais do que deveria.

Cada vez mais confuso, Naruto tentou não se deter às palavras da ruiva. O que ela falava não fazia sentido, já que Jiraya não o conhecia antes de resgatá-lo. Ele não podia ter sido seu padrinho antes de encontra-lo. Mei deveria estar confundindo as coisas, ou talvez não quisesse contar detalhes sobre o dia em que aquela fotografia fora tirada.

Distraído, Naruto olhou ao seu redor, vendo outra foto de Mei e Jiraya, dessa vez um registro recente, pois Jiraya já tinha as cicatrizes no rosto.

–Essa foto é de quando viajamos para Paris. – ela disse, sorrindo com a lembrança.

–Vocês dois... – Naruto perguntou, virando-se para Mei.

–Não, não. – a ruiva apressou-se em dizer – Jiraya era completamente apaixonado por outra mulher. Ele era apenas um amigo. Um grande amigo.

O loiro ficou em silêncio, absorvendo aquilo tudo. Como ele nunca ouvira falar daquela mulher?

–Bom... – ela divagou, percebendo que Naruto começava a se impacientar com aquela situação — Ele pediu que eu entrasse em contato com você apenas no dia de seu aniversário. – a advogada explicou, afastando-se de Naruto e se dirigindo até sua mesa, remexendo as gavetas – Minha tarefa é cumprir à risca tudo o que Jiraya deixou especificado no testamento, incluindo a passagem de todos os bens dele para você.

Naruto permaneceu em silêncio. Nada daquilo lhe interessava.

–Mas tem outra coisa, também... – a Terumi murmurou, finalmente encontrando o que tanto procurava. Ela então colocou uma caixa sobre a mesa – Ele pediu que eu lhe entregasse isso.

Naruto se aproximou, fitando a caixa com curiosidade.

–O que é isso? – ele perguntou, desconfiado.

–Não sei. Não tenho permissão para abrir e não me interesso pelo que quer que esteja ai dentro. Mas Jiraya pediu que eu lhe entregasse, e insistiu que eu o fizesse hoje. Então... Aí está. – a ruiva esclareceu.

Obviamente, Mei não deixou que Naruto saísse de seu escritório sem assinar os papéis que garantiam ao loiro o direito sobre os bens de Jiraya, e que confirmavam o recebimento de todos os pertences que o mestre deixara para trás. Quando as formalidades foram cumpridas, a advogada entregou a caixa e os documentos à Naruto, e o acompanhou até a porta, sem dar tempo para que o loiro assimilasse o que diabos estava acontecendo.

–É isso. A última missão que aquele velhote me confiou está cumprida. – ela disse, sorrindo para Naruto.

–Obrigado. – o loiro resmungou, parecendo mais confuso do que quando chegara, dando as costas à ruiva, decidido a ir embora dali. Afinal, a advogada parecia ter pressa em resolver aquilo tudo. Ele deu dois passos em direção à saída, antes de ouvir a voz da mulher.

–Espere... – Mei chamou, hesitando ao ver Naruto virar-se para encará-la – Seria totalmente inadequado pedir que você me dê um abraço?

–Sim, seria. – o Uzumaki respondeu, apático.

Uma veia se destacou na testa da ruiva.

–Apenas venha aqui e me dê a droga desse abraço, garoto. – ela mandou, o tom de voz soando com tal severidade que Naruto não teve escolha a não ser deixar-se ser puxado pela mulher e espremido em um abraço esmagador.

Derrotado e surpreso, ele suspirou. Que manhã maluca era aquela?

Lentamente, Mei inclinou a cabeça para frente, apoiando a testa no ombro do loiro.

–Feliz aniversário, Naruto. – ela disse, fungando.

Paralisado pelo gesto inesperado da advogada, o Uzumaki não conseguiu esboçar qualquer reação.

–Sinto falta dele... – ela murmurou, fazendo o coração de Naruto apertar mais uma vez.

O loiro então ergueu a mão livre na direção da cabeça da advogada, retribuindo ao abraço, suspirando pesarosamente.

–Eu também...

Naruto agora se encontrava sozinho naquela praça, sentindo a brisa afagar seu rosto e seus cabelos. Ele suspirou, criando coragem para abrir a misteriosa caixa que tinha em mãos.

Fotografias. Dentro da caixa havia muitas fotografias, de pessoas conhecidas, outras não. No verso de todas elas, Jiraya escrevera alguma coisa, como se quisesse lembrar a si mesmo do que se tratava o momento registrado. Distraidamente, Naruto vasculhava a pilha de fotografias, encontrando os mais diversos rostos ali.

Um deles lhe chamou muita atenção.

Um rapaz loiro, muito parecido com Naruto, beijava o rosto de uma moça ruiva, que sorria abertamente para a câmera. Os dois pareciam ser um casal muito feliz. Curioso, Naruto virou a foto, a fim de ver o que havia sido escrito no verso.

“Namikaze Minato e Uzumaki Kushina, meus grandes amigos. Festejar o ano novo com eles é sempre muito divertido, principalmente quando Kushina se embriaga e arranja algum motivo inexistente para implicar com Minato. Lembrar de deixa-la bêbada mais vezes.”

Naruto riu, confuso. Quem eram aquelas pessoas?

A foto que encontrou em seguida também era de Minato e Kushina, as mesmas pessoas de antes. Mas, dessa vez, eles tinham nos braços uma criança de cabelos loiros e olhos azuis, que segurava firmemente o polegar da ruiva. Perto deles estava Jiraya, que abraçava carinhosamente o trio, os olhos fixos no menino loiro. O mestre parecia emocionado. No verso da foto, as seguintes palavras:

“Nasceu meu menino, nosso menino. Que ele herde o caráter de Minato e o coração de Kushina. Espero apenas que ele não seja tão genioso quanto a mãe, ou vamos ter muito trabalho. Seja bem-vindo, Uzumaki Naruto.”

Naruto sentiu o coração falhar uma batida. O que diabos era aquilo?

Em busca de mais informações, Naruto novamente vasculhou a caixa, a fim de encontrar uma foto ou qualquer outra coisa que lhe indicasse que aquilo era apenas uma brincadeira de mau gosto.

Outra fotografia lhe chamou atenção. Um bebê de cabelos negros e olhos perolados, flagrado pela câmera com uma cara de choro. No verso, estavam escritas as seguintes palavras:

“A pirralhinha recém-nascida do clã Hyuuga. Preciso lembrar de tirar outra foto dela quando finalmente escolherem um nome para essa garota. Aliás, preciso lembrar também que ela chora muito. Talvez essa menina enlouqueça um pouco a cabeça do Hiashi. Vai ser divertido tê-la por perto.”

O loiro arregalou os olhos, encarando a foto com atenção. Nervoso, ele vasculhou a caixa novamente, achando outra foto da mesma criança. No verso, o esclarecimento:

“Finalmente escolheram um nome. E finalmente posso dizer: Bem-vinda, Hinata. Prometo ser um bom padrinho para você, assim como para o Naruto. Pensando bem, ter tantos afilhados deve significar que estou ficando velho.”

O coração de Naruto bateu descompassado novamente. Estava tão confuso que sua cabeça começou a latejar, assim como o restante de seu corpo. O que era tudo aquilo?

Ele continuou a vasculhar a caixa, mas dessa vez, não foi uma fotografia que lhe chamou atenção. No fundo de papelão estava grudado o que parecia ser uma carta.

Com cuidado, Naruto puxou o papel, reconhecendo novamente a caligrafia de Jiraya.

“Menino, não se preocupe, você se encontrará

Siga seu coração e nada mais

E você pode o fazer se tentar

Tudo que eu quero para você, meu filho

É que esteja satisfeito

E seja um tipo simples de homem

Seja algo que você ame e entenda

Seja um tipo simples de homem

Você não fará isso por mim, filho

Se puder?

Querido, seja um homem simples

Seja algo que você ame e entenda

Querido, seja um homem simples...”

Simple Man, Lynyrd Skynyrd



Yo, Naruto!

Bom, se você está lendo isso, é porque provavelmente acabei me envolvendo em uma treta muito louca e morri. HAHAHAHAHAHAHA!

Certo, não vou brincar com isso, afinal, estou morto. Espero que as coisas do outro lado sejam divertidas, ou vou acabar dando um jeito de voltar e passar a eternidade puxando o pé de um certo afilhado desnaturado.

Tá bom, tá bom, chega de divagações. Tomara que você não fique muito bravo por eu estar morto, nem faça nada estúpido enquanto eu estiver fora (venhamos e convenhamos, isso é bem a sua cara). Não se preocupe comigo. Aposto que vou achar uma gatinha do além e me divertir bastante. Nunca acreditei muito em céu ou inferno, e não tenho interesse em ir para nenhum desses lugares. Deve ser chato pra caramba! Quero álcool e mulheres bonitas. Quero conhecer os lugares do mundo aonde ainda não pude ir. Talvez eu vá para a Índia novamente! Você sabia que os indianos escreveram o Kama Sutra?

Certo, ainda estou divagando. Acho que estou enrolando tanto porque dizer adeus é muito difícil, principalmente para você. Recomendei que essa carta fosse lida no dia do seu aniversário, porque existem algumas coisas que preciso lhe dizer e que você pode considerar como um presente (além de você ter herdado todos os meus bens. Admita, eu sou um padrinho muito legal).

Bem... você se lembra do dia em que eu o resgatei? Deve lembrar. Foi um grande alívio encontrar você, porque assim que o vi pela primeira vez, eu soube que você era quem eu estava procurando. Eu soube porque você tem os olhos do seu pai e o gênio da sua mãe, e isso ficou tão visível que era inacreditável que eu tivesse demorado tanto tempo para reencontrá-lo. Afinal, quão discreto poderia ser um jinchuuriki que carregava o bijuu de nove caudas? A resposta é: não pode! Você era um pestinha! Eu não deveria ter demorado tanto para te achar.

Espero que você não me odeie quando souber que eu conheci seus pais antes mesmo de você nascer. Eu já era seu padrinho antes de te encontrar e batizar você com cuspe. Seus pais me escolheram porque fui eu quem acompanhou o crescimento de Namikaze Minato. Seu pai.

Ele foi meu discípulo e um grande amigo de quem eu nunca consegui esquecer. Uzumaki Kushina foi a pestinha por quem ele se apaixonou e com quem casou. Sua mãe era muito esquentada e impulsiva, e tinha o gênio dificil, assim como o seu. Aliás, vale ressaltar, eu apanhei muitas vezes dela por dizer isso. Eu a amava como uma filha, mas não entendia como Minato iria suportá-la. Convivendo com você eu entendi o porquê.

Naruto, você tem o grande coração de Kushina. Talvez por isso Minato se apaixonou tão perdidamente por ela. Aquela pestinha era uma grande mulher.

Seus pais foram amigos valiosos que acabei perdendo por conta de uma ameaça da qual não estávamos cientes. Eles morreram para salvar você da ambição de Orochimaru, um homem odioso e que um dia, eu já chamei de amigo. Mas isso já faz muito tempo. Nem eu, nem ele somos mais as mesmas pessoas. Aliás, hoje em dia, eu o mataria de bom grado. Me arrependo de não ter feito isso há muitos anos, quando tive a chance. Mas, naquela época, eu não sabia que ele iria se transformar em uma pessoa tão terrível. Eu não tinha ideia de que ele mataria seus pais, que me causaria tanta dor, que afastaria você de mim. Orochimaru queria o seu poder, e queria também o de Hinata. Mas acho que, a essa altura, você já deve ter descoberto isso.

Você também já deve ter percebido que eu não trouxe Hinata de volta para as nossas vidas por acaso. Se tudo correr como estou imaginando, vocês dois devem estar separados, agora. Acredito que esse tempo deve ser suficiente para você entender que não pode viver sem ela. Não só porque Hinata é a chave para o seu verdadeiro poder ou para a sua total destruição, mas porque você está apaixonado por ela. Não faça essa cara de teimoso que eu sei que você deve estar fazendo agora, isso é muito óbvio. Está na cara que você a ama. Eu sei disso porque, quando vejo você e Hinata juntos, percebo que os seus olhos refletem o mesmo brilho dos de Minato, quando ele olhava para Kushina.

Eu criei você, e por isso sei do coração forte que você possui. Não quero que minha morte seja motivo de sofrimento; Tive uma grande vida ao seu lado e ao lado de todos aqueles a quem amei. Vivi tudo o que tinha para viver. Vi você se tornar um grande homem, se apaixonar, sorrir. Você fez minha existência valer a pena. E eu agradeço todos os dias por ter sido capaz de cumprir a promessa que fiz à Minato e Kushina, meus grandes amigos. Cuidei de você da maneira que pude, da maneira que fui capaz. Sei que não fui um mestre perfeito ou um pai perfeito, mas me esforcei ao máximo para retribuir toda a felicidade que você trouxe para a minha vida e para o meu coração.

Não quero que você pense, nunca, jamais, que foi um fardo. Existem coisas nessa vida pelas quais vale a pena lutar. Você valeu a pena, Naruto. Por você, eu daria a minha própria vida, sem pensar duas vezes. Você me ajudou a ser uma pessoa melhor, menos egoísta, mais responsável. Me ajudou a ter novamente esperança de que o amor não é algo tão terrível assim, que serve apenas para machucar. Você me ensinou que o amor pode ter várias facetas, vários motivos e, principalmente, várias formas de se manifestar. Tê-lo como filho e discípulo foi a minha segunda chance com o amor de pai, que eu só havia tido a chance de conhecer pela dedicação de meu próprio mestre. Foi também minha segunda chance de fazer as coisas darem certo e de não decepcionar o coração de seus pais, que confiaram sua vida a mim. Espero que Kushina e Minato possam se orgulhar do homem que você se tornou tanto quanto eu me orgulho.

Então acho que, como mestre e pai, posso dar a você alguns conselhos que seu pai e sua mãe gostariam de lhe dizer, se estivessem vivos.

A primeira coisa é que você DEVE ler o Kama Sutra. É sério, se não tiver lido, leia agora.

A segunda coisa é que eu levei muitos anos para entender que a única coisa pela qual vale a pena arriscar tudo, é o amor. Espero que você não demore tanto tempo para assimilar isso, ou eu vou te assombrar pelo resto da sua vida. Estou falando sério, como morto, eu tenho o poder para fazer isso. Não duvide. Eu volto mesmo. Se sentir alguém puxando o seu pé durante noite, já sabe que sou eu.

A terceira coisa é sobre nossa família. Algumas pessoas fazem coisas estúpidas em nome daquilo que acham certo. Nem sempre esse é o melhor caminho, mas é o caminho que elas escolheram. É necessário respeitar as decisões de cada um, e deixa-los cientes de que, mesmo que eles sejam as criaturas mais imbecis do mundo, estaremos sempre de braços abertos para recebê-los. Não julgue as atitudes ou as escolhas de ninguém. Sempre há um motivo por trás de uma ação idiota, e nós não somos capazes de saber quantas feridas um coração carrega. Não negue um abraço ou um sorriso a ninguém de nossa família. Todos, sem exceção, estão lutando por algo que lhes é precioso.

A quarta coisa, é sobre o fim.

Bom... não é bem o fim, é? Nunca acreditei muito nesse negocio de que as coisas simplesmente acabam. Você, redemoinho, deve saber disso mais do que eu. Nenhuma ventania destrói tudo completamente. Depois que a tragédia passa, as pessoas não ficam se lamentando sobre sua própria dor pelo resto da vida. Mesmo com o coração ferido, elas sempre dão um jeito de se reerguer e recomeçar. A vida continua por um tempo indeterminado, até que chega a hora de partir definitivamente, como deve ser o meu caso, agora. Fico me perguntando, como será o meu fim? Espero que você não veja. Não quero isso na sua memória.

Mas, como eu disse antes, não acho que esse seja verdadeiramente o fim. Pode ser o MEU fim, mas não é o seu. Não é o fim de mais ninguém. A minha partida vai dar a todos vocês a oportunidade de recomeçarem as suas vidas. É isso que eu quero que você entenda, Naruto. Este não é o fim. É a sua chance de recomeçar.

Tudo, absolutamente tudo nessa vida é recomeço.

Infelizmente, acho que eu já não posso mais recomeçar nada. Chegou a minha hora, não é mesmo?

Por favor, não chore pela minha morte. Viva, Naruto. Viva sem se preocupar com coisas desnecessárias, apenas viva. Você ainda é um menino, ouça as palavras desse velhote que já deve estar de partida. A vida é curta demais, e nós nunca sabemos quantas chances teremos de recomeçar. Então recomece hoje, sem parar para pensar se terá uma chance amanhã. Amanhã, talvez, seja tarde demais.

Seja forte. Não se detenha muito às magoas passadas. Se você tem a chance de recomeçar, dê essa mesma chance a todos. As pessoas cometem erros, ninguém é perfeito. Não cabe a nós julga-las.

Não se esqueça de sorrir sempre, porque seu sorriso foi o motivo da minha felicidade. Durante todos esses anos, eu lutei para que nada pudesse tirar de você a alegria de viver. Não se esqueça do menino que você um dia foi, que comia macarrão instantâneo comigo naquela cozinha apertada. Não se esqueça de que eu amei você mais que a minha própria vida.

Lembre-se sempre do que eu disse no começo: o amor é a única coisa pela qual vale a pena arriscar tudo.

Então recomece quantas vezes forem necessárias, recomece hoje, recomece amanhã, recomece sempre. Não aceite, nunca, a ideia de que tudo simplesmente acabou.

Obrigado por me permitir ver a memória de meus amigos, Minato e Kushina, viva em seus olhos, em seu coração. Obrigado pela vida maravilhosa que pude ter ao seu lado. Obrigado por me dar uma nova chance de conhecer o amor e recomeçar a viver.

Afinal, tudo nessa vida é recomeço, não é mesmo? Quero que este ensinamento seja o meu legado.

E hoje, no dia do seu aniversário, o dia em que você nasceu e que foi uma das datas mais emocionantes da minha vida, eu desejo que você seja absurdamente feliz.

Eu te amo, filho.

Jiraya

Aquele final de tarde estava quente – mais quente que o normal, diga-se de passagem. Enquanto dirigia, com a janela aberta, Naruto podia sentir o cheiro de mormaço que a terra emanava. Ele fitava, sem prestar muita atenção, o horizonte da estrada quase deserta por onde seguia, onde podia enxergar, por trás dos óculos escuros, os últimos raios de sol tingindo o céu com um tom lilás. A noite não tardaria a cair.

Não havia muito movimento ali. De vez em quando, um carro passava ao seu lado, mas Naruto também não estava prestando muita atenção nisso. Dirigindo em alta velocidade, tudo ao seu redor parecia borrão. Havia apenas o horizonte a sua frente, o céu de um tom lilás escuro que se encontrava com o asfalto em um ponto indefinido. Naruto seguia, sem saber exatamente para onde, ou por quê. Ele apenas seguia.

Não havia nenhum pensamento embaralhando sua mente, ou coisa parecida. Não havia dor ou sofrimento, agonia ou êxtase. Havia ali apenas a sensação pesada do vazio que ecoava a ausência daqueles a quem ele amava. E esse vazio parecia ser pior que a própria dor. Em seu coração, em sua consciência... Não havia nada.

Ele apenas se concentrava em não lembrar de tudo o que lera naquela manhã, das fotografias, de uma certa advogada, de uma caixa misteriosa. Aquilo, definitivamente, deveria ter sido um sonho. Não era real. Não podia ser.

Entorpecido, Naruto continuava a dirigir, e mal se deu conta de quando a noite finalmente caiu, engolindo a estrada por completo em sua escuridão. Quando um carro passou por ele com o farol aceso lhe chamando atenção, ele ligou o seu. Estava tão distraído, ocupado em não sentir nada, que detalhes como esse lhe passavam despercebidos.

Aquela sensação era estranha... E ao mesmo tempo, familiar. Era àquele torpor que ele havia se habituado por muitos anos de sua vida, antes de entregar-se verdadeiramente à sua família, ao seu mestre. A vida lhe havia sido dura e Naruto aprendeu a ser duro com a vida. Foi um processo difícil e doloroso despertar seus sentimentos e entrega-los nas mãos daqueles em quem ele agora confiava e chamava de família. Àquelas pessoas ele havia entregado seu coração, completamente consciente dos riscos que corria.

Mas tudo havia mudado. Da mesma forma que sua vida mudou quando conheceu Jiraya, tudo agora mudava de novo porque o mestre partira. Era difícil admitir, e Naruto achava melhor não pensar muito nisso. Nas semanas que se seguiram depois da morte do sennin, o loiro achou que não tivesse lágrimas a derramar ou dor para latejar mas, nos últimos meses, o inferno ameaçava se instalar em sua alma toda vez em que ele fechava os olhos e tentava dormir. Toda as vezes em que ele tentava se concentrar no trabalho, esquecer-se de tudo o que viveu, presenciou, aprendeu. Todas as vezes em que ele tentava se distanciar de quem seu mestre o havia ensinado a ser, Naruto se deparava com os fantasmas das lembranças mais felizes de sua vida: os anos em que viveu com Jiraya... em que conheceu seus irmãos... e, finalmente, os dias que passou com Hinata.

Sem querer pensar demais naquele assunto, Naruto parou o carro no primeiro bar que avistou. Era o único estabelecimento na beira daquela estrada, e lhe parecia distante o suficiente para que nenhuma memória lhe perturbasse a mente. Ultimamente, era insuportável ficar em seu próprio apartamento: tudo acabava por lhe lembrar coisas nas quais ele não queria pensar. Era necessário habituar-se novamente à frieza que o protegia da dor. Caso contrário, ele não saberia mais como prosseguir.

Desceu do carro, dando-se conta de que ainda usava os óculos escuros. Enganchou-o na gola da camiseta branca que usava por baixo da jaqueta preta – que ele logo tirou e jogou sobre o ombro esquerdo. Estava fazendo calor naquela noite.

Entrou no estabelecimento, olhando um pouco ao redor. Havia poucas pessoas ali, e o lugar era simples. Nada parecido com os lugares que ele costumava frequentar. Perfeito. Nada de lembranças, sentimentos familiares, dores desnecessárias. Com aqueles pensamentos na cabeça, Naruto decidiu ficar.

Ele passou pelas mesas, caminhando direto para o balcão, imediatamente atraindo a atenção da jovem mulher que limpava os copos de vidro. Uma outra moça, um pouco mais nova – deveria ter por volta de dezessete ou dezoito anos – que limpava as garrafas em um local mais afastado do balcão, parou o que estava fazendo para fitar o loiro com uma expressão embasbacada.

Naruto sentou no alto banco de madeira, apoiando o cotovelo na superfície do balcão, sustentando o queixo com a mão. Seus olhos azuis focaram-se tediosamente na moça que o encarava com evidente surpresa e desejo.

–O que posso oferecer para o senhor? – ela perguntou, apoiando-se no balcão para evidenciar o decote, a voz soando melosa demais.

Naruto exibiu à mulher um meio sorriso. Ele conhecia aquele tom, aquela pose.

–O que você me sugere? – o loiro perguntou, ainda parecendo entediado.

Os olhos da mulher faiscaram para o relógio no pulso de Naruto, e isso não lhe passou despercebido. Ela deveria estar deduzindo que ele tinha dinheiro para gastar ali – e em qualquer outro lugar.

–Deixe-me ver o estoque de uísque que temos... – ela falou, já apressando-se para ir buscar alguma coisa que fizesse jus ao gosto refinado que o rapaz à sua frente parecia ter.

Mas Naruto logo segurou a mão da moça, puxando-a de volta para o balcão, sorrindo ainda mais.

–Não, querida, uísque, não. Diga, qual a bebida mais patética e forte que você tem ai? – ele perguntou, a voz soando como o ronronar de um felino prestes a atacar. Uísque, rum, gim, vodka, nada daquilo parecia mais fazer efeito em sua cabeça. Talvez Naruto já tivesse se habituado ao álcool, pois não conseguia mais se embriagar com tanta facilidade.

Perdendo-se no brilho sedutor daqueles olhos azuis, no sorriso travesso que aquele loiro lhe exibia, a moça sentiu suas pernas fraquejarem.

–Bom... – ela murmurou, tentando colocar os pensamentos em ordem – Tem... tem uma cachaça que derruba qualquer um, mas...

–Ótimo. Traga ela para mim.

–Uma dose de Garganta Del Diablo saindo... – ela disse, confusa pelo gosto estranho do rapaz. Aquela bebida era responsável pelas mais terríveis brigas e ressacas que ela já presenciara naquele bar.

A mão de Naruto novamente a impediu de se afastar.

–Traga a garrafa toda. – ele falou.

–Está querendo morrer, loirinho? Essa cachaça não é brincadeira...– a mulher avisou, sorrindo.

Naruto puxou a moça para mais perto, fazendo-a curvar-se em sua direção. Seus rostos estavam tão próximos que ele podia distinguir claramente o brilho do desejo ardendo no par de olhos castanhos dela.

–Se eu quiser morrer, essa cachaça vai ajudar? – ele perguntou, sorrindo.

–Com... Com certeza vai. – ela conseguiu dizer.

–Então traga duas. – Naruto ordenou, enfim soltando a mão da mulher.

–Tu-tudo bem... – ela se afastou na direção da estante de bebidas, cambaleando um pouco. Suas pernas estavam bambas. Que homem lindo era aquele?

Pacientemente, Naruto aguardou que ela voltasse. Com a expressão receosa, a mulher entregou as garrafas, um copo e... um pequeno pedaço de papel, contendo seu nome e telefone.

Naruto ergueu uma sobrancelha, pegando o papel e encarando-a com curiosidade. A mulher sentiu o coração falhar uma batida. Como aquele loiro era lindo! O homem mais lindo que ela já havia visto em sua vida. E não só isso... ele era educado e charmoso. Tão diferente dos homens com quem ela tinha de lidar desde que seu pai falecera e ela teve que assumir aquele bar, junto com a irmã mais nova. Aquele homem era... Era tudo o que ela precisava para esquecer seus problemas. Uma noite com aquele loirinho e ela tinha certeza que estaria renovada para enfrentar a vida.

–Se precisar de alguém para cuidar de você depois que tomar essas duas garrafas... Já sabe a quem chamar. – ela sorriu.

O loiro sorriu de volta e, sem responder nada, guardou o papel no bolso. Em seguida, pegou as duas garrafas e o copo, a fim de procurar uma mesa isolada onde pudesse se sentar. Mas, antes que pudesse se afastar, sentiu a mão da moça – que ele agora sabia chamar-se Tayuya, pelo menos era o que estava escrito no papel que ela o entregara – puxando seu braço.

–Deixe-me adivinhar... problemas do coração? – ela arriscou, ainda sorrindo.

–Talvez... – Naruto respondeu vagamente.

–Hum... quem é a sortuda? Ou você ainda não sabe direito o que sente por ela? – a moça perguntou, querendo manter o loiro por perto.

–Bem... esse é exatamente o problema. – Naruto falou, sorrindo para a mulher – Não sei mais o que estou sentindo. – concluiu, desvencilhando-se da mão que o segurava, rumando na direção de uma mesa perto da janela e longe de todos os outros fregueses.

Tayuya fitou o rapaz se afastando do balcão com atenção.

Reparando bem, aquele loiro tinha uma olhar tão, tão triste...

Naruto se sentou, abrindo a primeira garrafa, satisfeito. Aquilo era perfeito. Sozinho, distante, fora de si. Aquilo era exatamente o que ele precisava para esquecer-se, por um minuto, do vazio que o consumia. Ele já não sentia nada a não ser o vazio que pesava em seu peito. Aquele vazio era o pesadelo que o impedia de dormir a noite. Um inferno frio e entorpecente...

O cheiro da cachaça era forte, e isso fez o loiro sorrir. Esperava que o efeito fosse tão forte quanto o cheiro. Não se importava de apagar ali, ou em qualquer outro lugar. Ou enquanto estivesse dirigindo e acabasse por morrer em um acidente. Bem, ele sabia que não seria tão fácil assim morrer... Mas, se ele se machucasse, de alguma maneira, aquilo iria doer, não iria? Uma dor real, tangível. Ele seria capaz de sentir alguma coisa, caso se ferisse? Ou estaria mesmo dormente, por dentro e por fora?

Ele virou a primeira dose. O líquido desceu por sua garganta, quente como brasa, rasgando tudo em seu interior. Ele se arrepiou – fazia tempo que nenhuma bebida fazia com que ele se arrepiasse. Seus olhos lacrimejaram um pouco, a ele quase tossiu. Seu sorriso se alargou. A moça não estava mentindo, afinal. Ele iria morrer se bebesse mais daquilo!

Imediatamente ele se sentiu um pouco tonto, o que o surpreendeu, pois já estava tão acostumado com bebida que raramente alguma fazia efeito tão rápido. Pelo visto, tudo estava dando certo naquela noite...

Até que uma outra pessoa entrou no bar.

Era impossível não olhar, não notar ou ignorar a presença daquele homem ali. Ele era muito pálido, tinha olheiras profundas que revelavam muitas noites mal dormidas e que emolduravam olhos verdes e marcantes, uma tatuagem na testa e uma cabeleira ruiva que balançava sobre seus olhos, embalada pelo vento que entrava pela porta aberta.

As duas moças que estavam atrás do balcão se entreolharam, confusas. O que estava acontecendo naquele lugar, hoje?

–Ah, não. – Naruto murmurou, emburrado.

Aquela voz chamou a atenção do recém-chegado que, distraidamente, voltou o olhar para o canto do bar. Seu rosto ficou lívido.

–Naruto? – Gaara disse, perplexo.

O loiro revirou os olhos, irritado. Quem mais poderia encontra-lo naquele fim de mundo?

Gaara se aproximou da mesa onde Naruto estava sentado e, sem cerimônia, puxou uma cadeira para se sentar.

–O que você tá fazendo aqui, cara? – o ruivo perguntou, ainda parecendo chocado por encontrar Naruto naquele lugar.

–Minha intenção era de ficar sozinho. Pelo visto, eu não dirigi para longe o suficiente. – o Uzumaki resmungou, ácido – E você? Tá me perseguindo?

O Sabaku lançou ao amigo um olhar estreito.

–Você se acha a última dose da cachaça, hein? – Gaara respondeu, se acomodando na cadeira — Eu estava fazendo a mesma coisa que você, procurando um lugar pra beber... ai vi seu carro parado lá fora e resolvi entrar. – ele mentiu descaradamente. Era o aniversário de Naruto, afinal. O ruivo achava que era inadmissível que o Uzumaki estivesse pensando que iria passar aquela data sem alguém para encher seu saco — Ei, o que é isso que você tá bebendo? – perguntou, animado pelo cheiro forte que as garrafas do loiro exalavam.

–Garganta Del Diablo. – Naruto sorriu, parecendo animado também – A garota do balcão disse que nocauteia qualquer um.

–Ótimo! – o ruivo esfregou as mãos, satisfeito – Amorzinho, você pode me trazer um copo? – gritou para Tayuya.

A moça apressou-se em pegar um copo, mas antes que pudesse atravessar o balcão para entrega-lo a Gaara, notou que outra pessoa adentrava o bar.

–Dois copos! – o ruivo se corrigiu, vendo Sasuke parado na porta do estabelecimento, fitando-o com uma expressão emburrada.

–Isso é um pesadelo, ou o quê? – Naruto resmungou, virando outro gole da bebida. O que toda aquela gente estava fazendo ali?

Tayuya pegou os dois copos e se dirigiu até a mesa em que estavam Gaara e Naruto. Sasuke também se dirigiu até lá, os olhos negros estreitos emoldurados pelos cabelos que balançavam a cada passo que ele avançava.

A moça depositou os dois copos na mesa, sorrindo para o ruivo.

–Aqui está, meu bem. – ela disse, para em seguida afastar-se. No caminho de volta para o balcão, Tayuya passou por Sasuke, que se dirigia até a mesa dos dois rapazes com uma expressão apática e as mãos nos bolsos. A moça sentiu as pernas fraquejarem ao aspirar a fragrância masculina inebriante que o moreno deixava por onde passava – Olá, Uchiha. – cumprimentou.

–E ai. – Sasuke respondeu, exibindo um meio sorriso, sem dar muita atenção ao suspiro da moça.

–Que gata! – Gaara murmurou, embasbacado.

Tediosamente, Naruto jogou um pedaço de papel na direção do ruivo.

–É toda sua, se você quiser. – o loiro resmungou, parecendo distraído.

Gaara pegou o papel, percebendo que se tratava de um cartão com o nome e telefone de Tayuya. Mas antes que pudesse comentar mais alguma coisa a respeito, viu Sasuke se sentar ao seu lado com a mesma expressão emburrada de sempre.

–Quando vi os carros de vocês lá fora, não acreditei. Obrigado por arruinarem o único bar nas redondezas onde eu podia beber sem ter que olhar pra cara de vocês. – o moreno resmungou, parecendo mais mau humorado que o costume.

–Que tal uma noite com a tal da Tayuya pra te ajudar a relaxar? – Gaara falou, jogando para Sasuke o papel que Naruto lhe dera – Talvez ela tire do seu rosto essa expressão de idiota.

–Tayuya? – o Uchiha perguntou, parecendo não estar muito interessado – Não, obrigado. – falou, jogando o papel sobre a mesa – Ela tenta desde a primeira vez em que eu vim aqui. Já tomamos um porre juntos, aliás. Depois disso, ficamos meio que amigos. E só. – comentou, servindo-se de bebida.

Naruto bufou, revirando os olhos para aquela conversa. Não estava interessado naquilo. Tudo o que queria era um pouco de sossego, ficar sozinho, organizar as ideias. Obviamente, seus planos haviam ido por água abaixo.

–Então era daqui que você tava voltando ontem, àquela hora? – Gaara perguntou a Sasuke, exibindo ao amigo uma expressão debochada – A Sakura tá sabendo dessa sua onda de garanhão?

–Primeiro, eu apenas tomei um porre com a Tayuya. – o Uchiha se defendeu, lembrando-se dos tapas que havia levado da rosada quando ela descobrira um cartão de Tayuya em suas coisas. Até convencê-la de que nada havia acontecido, Sasuke apanhara muito – Segundo, você tá me vigiando, ou o quê?

–Fui ao seu apartamento ontem, tarde da noite, e você não tava em casa. Ai joguei verde, e veja só... você caiu. – o ruivo disse, soltando uma risada – Vai ser interessante contar pra Sakura o que você anda fazendo por essas bandas...

–Eu estava na mansão dos Hyuugas, idiota. – Sasuke respondeu, mas parou por um instante ao perceber que Naruto lhe lançava um olhar emburrado – Que é? Supostamente, eu sou o mestre dela.

–Supostamente? – Gaara questionou.

–Até eu conseguir fazer ela esquecer essa ideia e largar do meu pé. – Sasuke respondeu, praguejando mentalmente sobre aquela situação. Como é que havia se deixado convencer a treinar aquela garota?

–O que você... – Naruto começou, mas o Uchiha não deixou que ele continuasse.

–Ah, não. – Sasuke interrompeu – Se quiser saber noticias dela, vá vê-la você mesmo.

–Eu não ia perguntar por ela, idiota. – o loiro resmungou, enfezado.

–Sei. – Sasuke estreitou os olhos, virando um gole da bebida. Ele conhecia aquela cachaça; estava tão forte quanto ele se lembrava, o que o fez reprimir uma careta.

Os três já estavam prontos para continuar com aquela discussão inútil quando ouviram Tayuya arfar, confusa.

–Mas o que está acontecendo nesse bar hoje? – ela murmurou, vendo o loiro de cabelos compridos que estava parado na entrada do estabelecimento. De onde estava saindo tantos homens lindos?

–Deidara? – Gaara resmungou, surpreso.

–Me acorda. Me acorda agora, por favor. – Naruto praguejava consigo mesmo. Aquilo devia ser um pesadelo, com certeza ele não tardaria a acordar.

–POR QUE VOCÊS SOMEM, IDIOTAS?! HUM?! – Deidara berrou, fazendo Tayuya pular de susto.

–Outro copo? – ela perguntou para Gaara, vendo o ruivo sorrir e assentir.

Deidara se aproximou da mesa em que os três rapazes estavam, sentando sem cerimônia.

–Vocês tem ideia do caos que tá rolando? Hum? A treta tá sem lei na ORDEM. Nomearam a Tsunade pra assumir o lugar do Jiraya por lá, mas ela não quis nem saber de conversa e se mandou. Enquanto a bomba tá estourando, vocês ficam aqui sentados no bar, tomando a droga dessa bebida fedida E NEM SEQUER ME CHAMAM PRA BEBER JUNTO, PORRA?! HUM?!

–O copo já tá ai. – Gaara resmungou, embasbacado pelo turbilhão que Deidara despejava sobre eles de uma só vez – E o que você quer que a gente faça, cara? O Naruto explodiu a cabeça de uns seis caras só na semana passada, mas eles não soltaram nada. As pistas parecem estar sumindo e ninguém sabe nada a respeito.

Naruto ficou em silêncio, parecendo distraído, sem prestar muita atenção na conversa que se desenrolava ao seu redor.

–Quem você pensa que é que explodir a cabeça das pessoas, Naruto?! – Deidara protestou, indignado – Se alguém vai explodir alguma coisa aqui, esse alguém sou eu! Hum!

–Se explode, Deidara... – o Uzumaki murmurou, entediado.

–QUÊÊÊÊ?! – Deidara se estressou, os olhos azuis vidrados fixos no rosto de Naruto.

–Quer para de gritar no meu ouvido, caralho?! – Gaara reclamou – Vê se você bebe e se acalma um pouco, beleza?

Deidara suspirou, despejando a bebida no copo que Tayuya lhe trouxera. Ele sabia que Naruto estava investigando sozinho e que provavelmente tinha alguma pista, mas que não queria compartilhar com os outros. Deidara ansiava por ficar sozinho com o loiro, para que pudesse pressioná-lo por informações. E se ele se negasse a dar, apelaria para chantagem emocional. Afinal, quando Naruto não sabia de nada, Deidara lhe fornecera as informações que havia descoberto sobre a Akatsuki pouco depois de Sasori morrer. Era hora do Uzumaki retribuir o favor.

Se bem que, pela frieza com a qual Naruto estava agindo e tratando a todos, Deidara achava difícil que chantagem emocional funcionasse.

–Sem mestre. – Naruto murmurou repentinamente, erguendo o copo, querendo se desviar do olhar acusador do recém-chegado.

–Sem família. – Sasuke falou, erguendo o copo também.

–Sem mulher. – Gaara completou o brinde.

Os três viraram a bebida em um só gole, colocando o copo vazio na mesa ao mesmo tempo, reprimindo uma careta.

A música baixa que tocava no bar ecoava por todo o ambiente, fazendo os rapazes suspirarem de impaciência.

“Why, why, oh, why...? Why did we said good bye?”

We said goodbye, Dave Maclean

–Será que não dá pra tirarem a droga dessa música, pelo menos?! – Naruto resmungou, irritado.

–Saudades da Hinatinha? – Gaara arriscou, sorrindo, debochado.

–Não enche. – o loiro murmurou, despejando uma nova dose de bebida em seu copo.

–Vocês são patéticos. – Sasuke resmungou, servindo-se também.

–Olha quem fala... – Gaara provocou – “Oh, Minha Sakura... estou sofrendo tanto!” – imitou, implicante.

–Vai pro inferno, Gaara. – o Uchiha rebateu.

–Talvez eu seja gay. – Deidara fala de repente, interrompendo a discussão dos outros, para em seguida virar o primeiro gole da cachaça.

Naruto, Gaara e Sasuke encararam Deidara com uma expressão perplexa. Do que aquele maluco estava falando?

–Ta-ta-talvez?! – Gaara grunhiu – Como assim, “talvez”?!

–Eu perdi uma aposta idiota e tive que beijar o Sai. – Deidara contou.

–Isso não te faz gay. – Naruto protestou.

–Não. Mas ter gostado, sim. – Deidara rebateu.

–Perae, perae, perae. – Sasuke interrompeu, confuso – O que foi que eu perdi? Quando foi que o Deidara começou a gostar de homem?

–Vamos resolver isso. Tayuya! – Naruto chamou, a voz soando um pouco arrastada. Ele já estava um pouco embriagado.

A moça se aproximou, sorrindo. Seu desejo por Naruto aumentava a cada vez em que ela mirava aquele rosto másculo e bonito, mas a tristeza profunda nos olhos dele a confundia.

–Pois não, loirinho? – ela perguntou, inclinando-se na direção dele, exibindo o decote.

Sasuke sorriu. Conhecia aquela tática.

–O que você tá fazendo, Naruto?! – Deidara sibilou, entrando em desespero.

Sem ligar para a angústia do amigo, Naruto encarou o rosto da mulher que o fitava com interesse.

–Tayuya, meu amigo aqui está com um problema, talvez você possa ajudar. – o Uzumaki falou, despreocupado.

–Naruto! – Deidara sibilou novamente, arregalando os olhos para o loiro.

–O que foi, lindinho? – Tayuya perguntou, deslizando para perto de Deidara de forma sedutora.

–Tayuya, — Naruto prosseguiu – meu amigo está com uma dúvida e eu gostaria de saber se você estaria disposta a passar uma noite com ele e presenteá-lo com a melhor transa que ele pode ter na vida. – falou, vendo Deidara fita-lo com uma expressão de quem iria mata-lo no minuto em que a moça se afastasse – Ah, e ajudaria bastante se você tirasse essa música irritante.

–O que você gosta de ouvir, loirinho? Meu pai tinha uma coleção de rock clássico, se você quiser eu posso...

–Não. – Naruto interrompeu, tentando afastar as lembranças que ameaçavam lhe tomar a mente – Esquece a música. Enfim, você topa?

Gaara e Sasuke faziam de tudo para segurar o riso, vendo a expressão aterrorizada de Deidara.

Sem compreender direito o que Naruto estava tentando fazer, Tayuya virou-se para o rapaz que lhe estava sendo oferecido.

–Qual a sua dúvida, meu bem? – ela perguntou a Deidara.

–Be-bem... – o loiro gaguejou, sem saber exatamente o que dizer – Eu beijei um cara. E...

–E...? – Tayuya pressionou, querendo que ele continuasse.

Deidara engoliu em seco, surpreendendo-se com a tranquilidade da moça.

–Acho que eu gostei. – ele disse.

–E...? – Tayuya perguntou, ainda sem compreender.

–Acho que eu queria beijar ele de novo.

–E por que não beija? – ela perguntou.

Gaara, Sasuke e Naruto permaneciam em silêncio, esperando pela resposta de Deidara.

–Sei lá... Isso é novo pra mim. Eu sempre gostei de mulher. Acho eu tô ficando maluco.

Tayuya suspirou, compreendendo que Deidara devia estar muito confuso com tudo aquilo. Ela deslizou o corpo pelo do loiro, sentando-se no colo dele, enlaçando os braços no pescoço do rapaz. Deidara a fitou com uma expressão confusa e embasbacada.

–Você gosta de mim? – ela sussurrou, roçando os lábios nos de Deidara.

O loiro a encarava com os olhos arregalados, a mente barulhenta e confusa.

–Si-Sim! – ele conseguiu responder.

–Você dormiria comigo? – Tayuya perguntou, a voz melosa fazendo com que Deidara se arrepiasse.

O rubor tomava conta do rosto do loiro na medida em que ele ficava consciente do quanto o corpo de Tayuya estava colado ao seu.

–Sim... – ele respondeu, querendo se lembrar de como respirar. A sensualidade daquela mulher o confundia ainda mais.

Com um sorriso de satisfação, Tayuya afastou o rosto do de Deidara, sem sair do colo dele, batendo amigavelmente no ombro do loiro.

–Acho que sei qual é o seu problema. – ela disse – Você não consegue se aceitar.

–Ahn? – Deidara grunhiu, confuso.

–Você gosta de gente, loirinho. Não importa se for homem ou mulher, você gosta de... pessoas. E eu gosto de você. – Tayuya falou, para em seguida depositar um beijo na bochecha de Deidara. Ela se levantou do colo dele, fitando-o com doçura – Você devia procurar esse rapaz e falar pra ele como se sente.

–E se ele não me... quiser?

–Ai você me procura e a gente vê como fica. – ela disse, piscando para ele – Gosto de me divertir com rapazes doces como você.

–O que tá acontecendo aqui? – uma outra voz soou, fazendo com que todos levantassem o olhar.

Confuso, coçando a cabeça, Shikamaru fitava aquela cena com a expressão entediada de quem tinha certeza de que aqueles quatro estavam aprontando algo que ele não gostaria de descobrir.

Em silêncio, Tayuya se afastou, indo buscar outro copo. Não parava de chegar homem bonito naquele bar.

–Ela me acha um doce. – Deidara falou, sorrindo, se exibindo para os outros, fazendo Sasuke e Gaara revirarem os olhos.

–Será que não tem outro bar nessa cidade? – Naruto grunhiu, irritado.

–Eu estava procurando por você. – Shikamaru falou, apontando para o Uzumaki – Shino pediu que eu te entregasse isso. – falou, jogando um pacote sobre a mesa.

Naruto olhou para o embrulho sem demonstrar interesse em abri-lo.

–Valeu. É só isso? – o loiro perguntou, virando outro gole da bebida.

–Não, não é só isso. Que história é essa de continuar mandando o Shino investigar as coisas por baixo dos panos? Você não confia mais na gente? – o Nara acusou.

Sasuke e Gaara olharam para o Uzumaki, parecendo surpresos.

–Não. Não confio. – Naruto respondeu, sem sequer olhar para Shikamaru.

–E posso saber por quê? – o Nara questionou.

–Porque nenhum de vocês confiou em mim o suficiente pra me contar o que estava acontecendo antes. Resolvi dançar conforme a música também. – o loiro rebateu, mantendo a expressão desinteressada.

–A situação mudou, Naruto. – Shikamaru disse – Se não unirmos nossas informações agora, talvez não tenhamos chance contra a pessoa que está coordenando esse massacre.

Mantendo a expressão entediada, sem responder, Naruto virou outra dose de cachaça.

–Achei que você se importasse mais com Jiraya. – Shikamaru falou, mas sua voz sumiu no minuto em que ele viu uma adaga passar a um centímetro de acertar seu rosto. Seus olhos acompanharam a arma até que ela se cravasse na parede do bar.

Indignado, Shikamaru se virou para perguntar a Naruto se ele havia enlouquecido, mas, para sua surpresa, o loiro já estava de pé a sua frente, encarando-o com uma expressão enraivecida.

–Não use a memória do meu mestre contra mim. – Naruto sibilou, os olhos fixos nos do Nara.

Shikamaru deu um passo para trás, sentindo o chakra do loiro pressioná-lo. Havia um brilho diferente naquele olhar enraivecido com o qual Naruto o fitava. Um brilho que lhe parecia ser a chama de um novo poder.

–Você... A Kyuubi... – Shikamaru balbuciou, compreendendo. Kyuubi deveria ter revelado o nome para ele.

–Já disse tudo o que queria? – Naruto perguntou, fazendo com que Shikamaru desse outro passo para trás. O loiro ficava assustador quando se irritava de verdade.

–Tem isso também. – disse o Nara, jogando quatro envelopes na mesa e ficando com um nas mãos.

–O que é isso? – perguntou Deidara, admirando o papel luxuoso.

–Apenas abram. – Shikamaru instruiu.

Naruto rasgou o envelope para então deparar-se com o que parecia ser um convite. Seus olhos azuis passavam pelas letras do papel sem acreditar no que estava lendo.

–Que diabos é isso? – ele questionou, cuspindo as palavras com raiva.

–Aparentemente, Hyuuga Hiashi quer comemorar o aniversário de sua querida filha. – Gaara esclareceu, os olhos ainda fixos no papel — Os Hyuugas darão uma festa em sua mansão e... nós estamos convidados.

Sasuke bufou e atirou o papel de volta na mesa, revirando os olhos para toda aquela afetação. Eram os Hyuugas, afinal. Aquela gente não mudava nunca.

–Quem enviou isso? – Naruto perguntou.

–Sei lá. – Shikamaru respondeu – Estava na correspondência da floricultura da Ino, hoje pela manhã.

–Com certeza foi a Hinatinha. – disse Gaara, animado, arrancando um olhar enfezado de Naruto em sua direção – Eu sabia que ela não ia esquecer a gente.

–Kiba já confirmou presença, mas ele vive na mansão dos Hyuugas, então isso não é surpresa. – Shikamaru comentou, vendo Naruto estreitar os olhos com aquela informação – Acredito que essa é uma excelente oportunidade para traçarmos um plano. Se estivermos todos lá, talvez o tal do Orochimaru apareça. Afinal, tudo o que ele quer, em um só lugar... Parece ser algo bem tentador para alguém com o perfil que Naruto traçou. – ele disse, lembrando-se das informações que Naruto já havia lhe dito sobre Orochimaru quando recebeu o primeiro pacote de Shino.

–Claro que é uma excelente oportunidade. – Sasuke falou, vendo todos os olhares voltarem-se para ele — Por isso mesmo que eu tive a ideia da festa.

–Claro que foi você. – Shikamaru resmungou, estreitando os olhos para o Uchiha, desconfiado. A festa de Hinata lhe daria a chance de ficar de olho em Sasuke; quando Shikamaru dissera que aquela seria uma excelente oportunidade, era à sua desconfiança de Sasuke a que ele se referia.

Mas, obviamente, ninguém além do Nara pensara nisso.

–Obviamente, não seria prudente anunciar ao mundo o aniversário da Hyuuga que deveria estar escondida, não é? – o Uchiha esclareceu – Mas, como não tivemos nenhum avanço nos últimos dias, achei melhor tomar uma atitude.

–Nós vamos, não vamos? – Deidara se animou, quase quicando na cadeira – Se vocês quiserem, eu posso explodir a mansão deles. – sugeriu, vendo os quatro rapazes fitarem-no com uma expressão chocada.

–Ninguém vai explodir nada. – disse Gaara, perguntando-se mentalmente se Deidara tinha algum problema mental. O cara só pensava em explodir coisas – Vai ser uma boa oportunidade para rever a Hinatinha. Estamos com saudade dela, não estamos, Naruto? – o ruivo provocou, vendo o loiro fita-lo com os olhos estreitos em sinal de ameaça.

–Bom, estou indo embora. – Shikamaru anunciou – A propósito, Naruto. – ele chamou, olhando para o loiro de soslaio – Feliz aniversário. E parem de beber esse negócio ou vão acabar morrendo. – recomendou, antes de virar as costas para os amigos e caminhar em direção a saída.

Ninguém respondeu àquela recomendação. Os rapazes daquela mesa não estavam tão interessados na vida quanto deveriam. Morrer seria uma boa solução.

–Naruto, vá para casa e descanse um pouco a mente. – disse o Nara, já perto da porta – Caso ainda tenha interesse, vá até a floricultura da Ino, amanhã. Estarei lá e contarei a você tudo o que sei.

O loiro fitou Shikamaru com uma expressão impassível, limitando-se a assentir. Sem dizer mais nada, o Nara foi embora.

–Não posso voltar pra casa agora. – Naruto murmurou para si mesmo, passando as mãos pelo rosto, mau humorado. Ele voltou a se sentar, servindo-se de uma nova dose. Não queria ir para casa e ceder à vontade de olhar as fotografias na caixa de Jiraya novamente.

–Por que não? Yugito ainda está lá?– Deidara perguntou.

Naruto revirou os olhos, impaciente, e tomou outro gole da bebida.

–Não, ela foi embora há alguns dias. – ele respondeu.

Gaara estreitou os olhos para o loiro, emburrado. Lembrar de Yugito não era algo que ele gostava de fazer, desde toda a confusão que fez com que Hinata fosse embora.

–Você é um idiota, Naruto. – acusou o ruivo.

–Eu sei. – o Uzumaki respondeu, bebendo outro gole – Eu deveria ter...

–Deveria ter pensado em outra maneira de resolver as coisas. – Gaara interrompeu, vendo a expressão confusa de Deidara, afinal, ele era o único ali que ainda não sabia direito o que havia acontecido – Não me leve a mal, a Yugito é legal, mas você está apaixonado pela...

–Cala a boca, Gaara. – Naruto sibilou, começando a se irritar novamente.

–Mas você está! – o ruivo alarmou, indignado.

–Você está apaixonado pela Ino há anos e isso nunca te impediu de fazer coisas idiotas. Tipo se juntar ao Sasuke e irem juntos desbravar a Akatsuki como retardados vingadores. – Naruto rebateu.

–Ei. – Sasuke reclamou – Como é que eu vim parar no meio dessa discussão ridícula?

–Fica quieto ai, senhor “mestre de araque”. – Naruto alfinetou.

–Você não está com ciúmes porque a Hinata me escolheu como mestre, está? – o Uchiha debochou, rindo.

–Será que não dá pra vocês falarem de alguma coisa que não seja a Hinata? – Naruto perguntou, impaciente.

–Não. – Sasuke e Gaara responderam em coro, fazendo o Uzumaki suspirar.

–Eu ainda não saquei porque você mandou ela embora... – Deidara murmurou, confuso.

Naruto bufou. Aquela noite não estava saindo como ele havia planejado.

–Acho que o Sasuke vai ser um bom mestre pra Hinatinha. – disse Gaara, percebendo que Naruto e Sasuke olhavam para ele com expressões indignadas.

Nem mesmo o Uchiha achava que ele seria, de alguma maneira, uma boa influência para Hinata.

–Que é? – Gaara perguntou, observando o olhar que os amigos dirigiam a ele – Se você fosse o mestre dela, – falou, apontando para Naruto – não iria conseguir ter o pulso firme que é necessário para treiná-la. Se isso fosse antes, eu diria que essa seria a melhor opção, porque você era meio frio, mas isso mudou no instante em que você se apaixonou por ela.

–Eu não...! – Naruto tentou argumentar, mas Gaara logo tratou de interrompe-lo.

–E não adianta você negar, a sua cara de idiota não mente. – o ruivo debochou – Se o Sasuke não matar ela, tenho certeza de que tudo acabará bem.

–Eu não descartaria essa possibilidade, se fosse você. – o Uchiha murmurou, mau humorado. Hinata conseguia tirá-lo do sério com uma facilidade que chegava a ser inacreditável.

–Ah, qual é, se você fosse mata-la, já o teria feito. – Gaara argumentou — A Hinatinha amolece o coração de qualquer um.

Sasuke bufou, ignorando aquele comentário.

–Além do mais, isso é só um treino. Sasuke pode afinar as habilidades da Hinata até que ela ache um mestre adequado. Eles não possuem o laço necessário para se tornarem mestre e discípulo permanentes. Sasuke pode ser para ela o que o Kakashi foi para vocês e Sakura. Um tipo de treinador e professor que mantem o poder do discípulo sob controle enquanto ele amadurece.

Sasuke ficou em silêncio. Hinata não estava disposta a deixa-lo livre do compromisso de ser seu mestre – ele já havia tentado se desfazer da garota de todas as maneiras possíveis e imagináveis. E, para falar a verdade, mesmo que tentasse negar com todas as suas forças, estava começando a se apegar à discípula. Seu laço com ela ficava mais estreito na medida em que o poder da Hyuuga evoluía e se fortalecia, deixando-o, de certa forma, orgulhoso. E, na medida em que ela amadurecia como discípula, ele também amadurecia como mestre. Não havia a possibilidade de que outra pessoa assumisse a responsabilidade por Hinata.

Obviamente, ele jamais admitiria aquilo para Gaara. E nem para Naruto.

Resignado, Sasuke encheu o copo com bebida novamente. Ele não estava preparado para ser um mestre. Nem sabia ao certo o motivo de ter concordado com aquilo. Lembrava-se apenas de que Hinata era uma garota extremamente manipuladora, igual a todos os Hyuugas que ele conhecia.

E lembrava-se também do quanto ela era forte, e do quanto estava sendo gratificante treiná-la.

Quem sabe houvesse uma mínima possibilidade de Sasuke estar preparado para ser um mestre tão bom para ela quanto Itachi havia sido para ele?

Quem sabe?

Gaara ergueu o corpo, sorrindo.

–Um brinde à Hinatinha. Eu sinto falta dela. – disse o ruivo.

–Também sinto falta dela. – disse Deidara, animado com aquela provocação, erguendo o próprio copo — A garota era bombástica.

Contrariado, Sasuke ergueu o copo também. Detestava admitir, mas Hinata o havia feito baixar a guarda. Ela era uma discípula forte e disciplinada, além de teimosa e geniosa. O moreno estreitava os olhos a cada vez em que a Hyuuga rebatia seus argumentos, lembrando-se de que ela havia aprendido aquilo com Naruto. Lidar com ela era difícil, mas não estava sendo tão ruim quanto Sasuke havia imaginado. Na medida em que a via avançar no controle de seu poder, ele amadurecia também. Hinata o estava transformando em mestre.

–Que seja. – o Uchiha murmurou, rendendo-se.

Naruto bufou, rendendo-se também, erguendo o próprio copo e juntando-o aos dos amigos. Os vidros tilintaram uns nos outros, selando o brinde.

Silenciosamente, os quatro viraram a bebida em um só gole.

Embora não houvesse dito nada, Naruto também sentia falta de Hinata.

A saudade dela o consumia como chamas, incendiando seu interior, fazendo seu coração arder.

Mas não havia nada que pudesse fazer a respeito. Ele havia feito a escolha certa. Tentaria se convencer daquilo.

Ou acabaria enlouquecendo.

Enquanto dirigia de volta para casa, Naruto pensava que aquele dia não havia sido de todo ruim. De uma maneira ou de outra, ele passara seu aniversário com seus melhores amigos – não todos eles, mas pelo menos alguns.

Obviamente, ainda lhe doía o fato de que as duas pessoas que ele mais gostaria que estivessem ao seu lado agora não passassem de rostos que estampavam suas memórias mais felizes, mas talvez o tempo o ensinasse a conformar-se com aquela dor. Ou talvez o tempo apenas piorasse tudo.

Quando finalmente chegou em sua casa, após estacionar o carro na garagem, Naruto desceu do veículo, fechando a porta com força. Ele caminhava distraidamente até a entrada, quando seus olhos se fixaram no grande e estranho pacote preto que estava no chão, perto da porta da frente.

Naruto bufou. Outro pacote misterioso? Não havia tido surpresas o suficiente naquele dia?

Curioso e com certo receio, ele se aproximou da entrada de sua casa, vendo o pacote preto, grande e estranho disposto ali, envolto em um laço lilás. Havia um pequeno envelope preso na fita de cetim, e Naruto o pegou, sem saber se o abria ou não.

Seus olhos novamente se voltaram para o pacote, e quando ele se deu conta do formato estranho do grande embrulho, Naruto sentiu seu estômago revirar de maneira enjoativa. Receoso, ele abriu o zíper que lacrava o pacote preto.

–Mas o que...! – o loiro murmurou, ao deparar-se com o corpo do ruivo de piercings. Naruto colocou os dedos no pescoço do homem, certificando-se de que aquilo não era um truque.

O ruivo de piercings estava morto.

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Ele então abriu rapidamente o pequeno envelope que tinha em mãos, arregalando os olhos ao ver o que estava escrito.

“Feliz aniversário, Naruto.”

O loiro olhou novamente para o corpo do ruivo, e depois para o papel. Que diabos estava acontecendo?!

Mas antes que pudesse expressar qualquer reação, Naruto sentiu o celular vibrar em seu bolso.

–A... Alô. – ele conseguiu dizer, os olhos arregalados ainda fixos no corpo inerte do ruivo.

–Naruto?! – a voz nervosa de Shikamaru soou do outro lado da linha – Naruto, onde você está?! A Yugito ligou pra você?!

–Ah... O quê?! – o Uzumaki perguntou, sem conseguir reagir às palavras de Shikamaru.

–Naruto, acorda! A Yugito ligou pra você?! – o Nara berrava, do outro lado da linha – Ela acabou de me ligar dizendo que o corpo de Kakuzu foi deixado na porta da casa dela! E...

–Quem porra é Kakuzu? – o loiro interrompeu, cada vez mais perdido naquela situação.

–Um dos membros da Akatsuki... Foi ele quem matou o mestre da Yugito, o Yahiko! – Shikamaru esclareceu – E hoje, quando cheguei na floricultura, a Ino me disse que alguém enviou um pacote estranho para ela... Era... era o corpo do Hidan.

–Como é?! – Naruto grunhiu, perplexo. Não conseguia deixar de fitar o corpo inerte do ruivo de piercings – Shikamaru, deixaram algum bilhete junto com os corpos?

–Não. Por quê? – o Nara questionou.

–Porque eu recebi o corpo do ruivo de piercings como um presente de aniversário. – Naruto respondeu, ouvindo Shikamaru arfar.

Os dois ficaram em silêncio pelo que pareceu ser um minuto inteiro.

–Estou adiantando nosso encontro de amanhã para agora mesmo. – Shikamaru falou, tentando ordenar os próprios pensamentos – Reunião de emergência! Todos estão convocados!

Notas finais
Oi! E aí? Gostaram? Links das músicas: http://www.youtube.com/watch?v=_eRe0GzdhM8 http://www.youtube.com/watch?v=bOqSKYGAwTY Acho que a aparição da Mei foi uma surpresa pra todo mundo, mas ela não vai ter mais nenhuma participação na fic. Ela veio só pra esclarecer um pouco as coisas pro Narutim, tadinho, que tava mais perdido que cego em tiroteio. O que acharam da carta do Jiraya? Ero-sennin, no final das contas, era padrinho da Hinata também. Pois é. xD E claro que ninguém ia deixar o Narutim passar o aniversário sozinho, né? Até o Sasuke resolveu aparecer pra encher o saco do loiro. Vou nem comentar na fofura do Gaara, gente. Fala sério, esse ruivo é muito fascínio. Esses homens se fazem de garanhões, mas estavam empurrando o telefone da Tayuya uns pros outros. kkkkkkkkkkkkkk O que acharam do Deidara? E quem vocês acham que é o responsável pela morte do galerê da Akatsuki? Hihihihihihi Bom, é isso. Espero que tenham gostado da música do Lynyrd Skynyrd. E por favor, não esqueçam de passar por aqui pra deixar a opinião de vocês sobre o capítulo, tá? Afinal, é o comentário de vocês que me incentiva a continuar com essa fic, então façam essa autora-san feliz e comentem xD Espero que tenham gostado do capítulo! Bjks!