Paraíso Sombrio

9 ESPECIAL: Dores que florescem - Parte 1


Notas iniciais
Yo, minna! Tudo bem com vocês? Como prometido, aqui estou! E decidi dividir o Especial! O capítulo havia ficado enoooooorrrrme, como eu já tinha explicado, então acho que dividi-lo foi realmente a melhor opção. Ah, eu não consigo fazer suspense... Galerê já sabia qual era o segredo do Sai, assim como já apostava que o primeiro Especial Hentariano da biasensei seria GaaInaniano! Então sim, esse especial é GaaIno, e se dividirá em dois capítulos. Ah, um beijo para a Suiren-san! Pelos momentos mimimi na web cam, pelas risadas, pelos cachorros perdidos, e pelos sinais de coração com as mãos, na despedida. Essa primeira parte fala do encontro GaaInaniano, com retorno ao passado, esclarecendo várias coisas. Espero que gostem! Mas chega de enrolação, né? Boa leitura, e nos vemos nas notas finais!



Gaara caminhou pelo corredor, procurando o lugar que a diretora havia indicado. A instituição onde estava agora era precariamente iluminada pela luz do dia que entrava pelas janelas. Fitando apenas o caminho a sua frente, ele podia ouvir várias crianças correndo e brincando ao seu redor. Algumas delas o encaravam com certo receio, temendo a maneira como ele impunha sua presença ali. O ruivo continuou andando, sem se importar com aquilo.

Finalmente parou. Olhou para um canto do quintal do orfanato, onde uma mulher loira estava sentada no chão, rodeada de crianças. As mãos sujas de barro reviravam a terra, enquanto as crianças a ajudavam a plantar as sementes. Ela sorria abertamente, e quando passou a mão no rosto para enxugar uma gota de suor que escorria, sua bochecha ficou um pouco suja.

–Tia Ino! Tia Ino! – chamou uma das crianças, rindo – Você está com terra no rosto!

Ino soltou uma gargalhada, levantando-se.

–Tudo bem! Quando estamos cuidando de um jardim, é natural se sujar.

–Mas a diretora briga se a gente manchar os uniformes... – murmurou uma das crianças, a expressão apreensiva.

–Não liguem praquela megera. – falou Ino, estreitando os olhos azuis. – Vamos, agora vocês precisam regar! Pra que as flores cresçam bonitas e suas raízes sejam fortes!

As crianças pegaram alguns regadores, e puseram-se a derramar um pouco de água sobre a terra onde até agora pouco mexiam.

–Tia Ino... – chamou uma das crianças, puxando timidamente a barra de seu vestido.

A loira se abaixou, sorrindo, para ficar na altura da garota.

–O que foi, lindinha?

–Demora muito pras flores crescerem?

–Um pouquinho. Mas ter paciência também é uma virtude que você precisa ter quando for mexer com as plantas. Pode demorar um pouco, mas quando elas finalmente aparecerem, vão florir tudo, e encher o orfanato de perfume e beleza! – explicou Ino.

A menina sorriu, indo regar as plantas, ansiosa por ver as flores colorindo aquele lugar cinza.

Ino se ergueu novamente, finalmente percebendo o par de olhos verdes que a observava. Sentiu seu sangue parar de circular.

Naquela madrugada, Ino havia ido embora da casa de Naruto deixando apenas um bilhete, onde dizia que iria para casa, e que não se preocupassem com ela.

Apesar de tudo o que havia acontecido, não queria pensar na última vez em que vira Gaara. Não queria pensar no negror daqueles olhos sombrios que ameaçaram Sasuke na noite anterior. Não queria pensar em tê-lo visto perdendo o controle, no corpo morto de Sasori...

Ele estava encostado na porta, os braços cruzados, encarando-a com uma expressão que nada dizia, nada demonstrava. Desnorteada com a presença do ruivo ali, Ino olhou para as crianças, temendo por elas.

–Tudo bem, monstrinhos, hora do banho!

As crianças olharam para Ino, soltando um alto murmúrio de frustração, e a loira não pôde conter um sorriso.

–Depois de amanhã eu vou voltar aqui, pra ver se vocês estão cuidando das plantas direito! – gritou para o grupo que já corria para dentro do orfanato. – Não espalhem barro nos corredores ou a megera... quer dizer, a diretora me mata! – tentou dizer. Mas o barulho das crianças já desaparecia porta adentro sem que elas pudessem ouvi-la.

Ela caminhou lentamente até Gaara, tentando supor o que ele fazia ali.

–Não acredito que você ainda vem aqui. – ele falou, a expressão inalterada.

Ino parou na frente dele, receosa.

–Venho... toda semana. – falou ela. — O que está fazendo aqui?

Ele deu um passo a frente, aproximando-se de Ino. Tocou o rosto da garota.

–Tem barro no seu rosto. Você se suja mais do que as crianças. – disse, sua mão se demorando no rosto da loira enquanto tirava a sujeira da bochecha dela. Ino percebeu o lampejo de um sentimento nos olhos dele, que logo desapareceu sem que ela pudesse compreende-lo.

–Você não respondeu à minha pergunta.

Gaara ficou em silêncio durante alguns segundos, apenas a encarando. Quando ele finalmente respondeu, sua voz continuava inflexiva, fria.

–Eu fui à sua casa, mas não havia ninguém lá. Supus que você estivesse aqui. Vim ver se você estava bem. – explicou ele. – E vim também te oferecer uma carona para casa.

A loira conhecia bem aquele tom de voz. Ela deu um passo para trás, um certo medo querendo invadir sua consciência.

–Não... não preciso de carona. Eu vou ficar mais um pouco. As crianças ainda precisam de mim, e... –divagou, tentando sufocar aquele sentimento que lhe dizia para não ir com ele.

–Não foi um convite. – ele disse, calmamente. Deu um passo a frente, tocando novamente o rosto de Ino. – Estou dizendo para você me acompanhar.

Ela ficou paralisada, querendo fugir daquela situação. Mas era tarde demais.

Gaara entrelaçou seus dedos nos dela, puxando-a na direção de onde havia estacionado seu carro. Abriu a porta para que ela entrasse, e quando ele entrou também, os dois se olharam por um minuto. As roupas sujas de Ino deixavam vestígios de barro por todo o banco do carro.

Ele desviou seus olhos dos dela, concentrando-se no caminho que deveria seguir.

Acelerou, dirigindo em direção à casa dela.

Memórias de um passado não tão distante

Sasori caminhava em silêncio, praguejando mentalmente sobre as dificuldades que passava com o seu discípulo. Gaara era um rapaz difícil, e como consequência disso, o Bijuu dentro dele permanecia indócil. Sentia que o jovem não conseguia compreender o quanto era importante que ele aprendesse a se controlar, já que uma atitude como aquela nunca foi necessária no passado. Afinal, seu discípulo estava acostumado a não se importar com nada nem ninguém, e mudar isso estava sendo uma tarefa muito difícil.

O ruivo caminhava a um passo atrás de seu mestre, os pensamentos vazios. Não conseguia compreender direito os ensinamentos que Sasori tentava lhe transmitir, e não conseguia se importar com aquilo. Fazia agora dois anos que havia sido resgatado, e desde então, sua vida mudara bastante. Mas ainda havia grande parte do garoto de rua assassino que um dia fora dentro dele. Reagir às emoções que seu mestre lhe impunha, colocar-se à disposição para ajudar as pessoas, aprender sobre o amor, eram, para Gaara, tarefas muito difíceis.

Os dois caminhavam pelas instalações da ORDEM quando, ao atravessar um dos corredores, Gaara viu uma jovem, sentada em posição de meditação, de olhos fechados. Ao lado dela, um homem fitava a garota atentamente enquanto fumava um cigarro. Gaara parou ali, observando aquela cena com curiosidade.

Sasori também parou. Percebendo a cena que seu discípulo observava, achou que aquela era uma boa oportunidade para que Gaara pudesse compreender o significado das dores emocionais que o assolavam, pois aquela garota era um exemplo de dedicação e superação.

Mas não era nisso que Gaara pensava, enquanto observava o ritual que a garota preparava.

Enquanto a jovem à sua frente jogava-se em um transe cada vez mais profundo, Gaara sentia seus pensamentos serem tomados pela cobiça.

Sasori contou à Gaara tudo o que sabia sobre a jovem. Ela era discípula de seu amigo Asuma, e havia sido resgatada de um orfanato. Havia relatos de que a garota havia sido espancada frequentemente pela diretora de lá, e que era posta de castigo, sem comer, por dias.

Ela era uma feiticeira talentosa, que desenvolvia seus dons com facilidade, e nunca falava do passado. Queria viver o presente, planejar o futuro, ter ao seu lado aqueles que faziam parte da sua nova vida como discípula de Asuma. Cultivava com empenho um jardim na varanda de seu quarto, era apaixonada por flores. Tinha sempre um sorriso nos lábios, e se dispunha a ajudar quem dela precisasse.

Sasori explicava aquilo a Gaara na esperança de que ele conseguisse absorver os ensinamentos que a atitude de Ino traziam. Mas enquanto ouvia seu mestre, Gaara apenas pensava em uma maneira de aproximar-se dela, e conseguir o que queria. Pensou que seria interessante ver aquele sorriso patético e sem sentido desaparecer do rosto dela.

Gaara ouvia às palavras de Sasori sobre a garota loira, sem expressar nenhum de seus desejos. Não sabia como uma pessoa com um passado como o seu poderia exibir um sorriso tão sincero, tão caloroso, e aquilo o irritava. Queria pisar nos sonhos que ela alimentava, estilhaçar as esperanças que ela tinha.

Queria fazer aquele sorriso sangrar, e provar que Sasori estava errado. Iria mostra-lo, na prática, que pessoas que carregavam um passado como o seu jamais poderiam conhecer o Amor.

Se aproximar dela foi fácil. Ino era sempre muito sorridente, prestativa e... era desconcertantemente bondosa. Aquilo passava adormecido aos sentidos venenosos de Gaara. Afinal, a história dela não deveria ser muito diferente da de qualquer outra aberração resgatada por um mestre da ORDEM.

Mas Ino não parecia se importar muito com aquilo. As lembranças de seu passado não pareciam incomodá-la. Muito pelo contrário; todas as vezes em que Gaara conversava com ela, sentia que a garota não tinha passado nem futuro, como se sua vida se resumisse ao desejo de aproveitar o momento presente ao máximo.

Mas aquilo também não importava para ele. Exibindo seu sorriso mais sedutor, proferindo as palavras mais mentirosas que conhecia, Gaara tentava entrar no coração da garota. E ela lhe dava livre passagem.

Três meses se passaram.

Convivendo juntos nas imensas instalações da ORDEM, os dois se viam todos os dias.

Ino não conseguia adormecer-se para Gaara. O jeito frio e apático dele a confundia, e ela achava que poderia ajuda-lo. Que poderia ensiná-lo sobre o amor, assim como Asuma havia ensinado para ela.

A loira passava tardes inteiras com ele em seu quarto, mostrando o amor que ela tinha pelas plantas. Os muitos vasos que ela mantinha na varanda de seu quarto eram cultivados com carinho e esperança de que logo lindas flores iriam colorir sua vida e a de todos daquele lugar.

Gaara passava seus dias observando Ino cuidar daquele pequeno jardim, seus planos ganhando vida em sua mente. Em uma manhã em particular, enquanto esperava que ela terminasse de regar as mudas, surpreendeu-se ao vê-la virar-se para ele, e sorrir.

–Tenho certeza de que quando essas plantas se abrirem para a vida, você se abrirá também.

O ruivo a fitou, sua expressão inalterada.

–Por que acha isso?

Ino suspirou.

–Porque cada planta traz em si o mistério de uma vida que cresce sem que a gente saiba como. E assim como cuido desse jardim, eu tenho te regado e te esperado. Por isso eu sei que quando você vir essas plantas se abrirem, seu coração vai florescer também.

Gaara continuou olhando para ela, sem responder àquelas palavras.

As plantas cresciam aos poucos, assim como crescia também os sentimentos de Ino por Gaara. Ela desejava salvá-lo daquele mundo de torpor onde ele se encontrava.

E assim como cresciam os botões das flores de Ino, crescia dentro de Gaara o desejo de despedaçar aquele coração que batia cheio de esperanças dentro dela.

Naquela manhã, chovia forte.

Gaara saia de outra sessão de exercícios com seu mestre. Frustrado, ele praguejava mentalmente sobre os sermões que Sasori lhe dava, acusando-o de não se deixar levar por seus ensinamentos, e de estar acomodado ao conforto de seu torpor emocional.

Daquele jeito, nunca iria conseguir controlar o seu poder, ou sequer o seu Bijuu.

Andando pelo corredor, sem prestar atenção em seu caminho, sentiu-se esbarrar em alguém que corria apressada e distraidamente por ali.

–Gaara! – Ino sorriu, ao vê-lo. – Estava procurando por você! – disse ela, arrastando-o pela mão.

–Agora não, Ino. – ele tentou se desvencilhar.

–Cala a boca e vem logo! – chamou ela, sem deixa-lo fugir.

O ruivo suspirou pesadamente. Se a matasse, Sasori o queimaria vivo. Precisava ser paciente.

Deixou-se ser arrastado pela loira, que o levava até o quarto. Ela o empurrou para dentro, e correu para a varanda.

–Olha! – apontou, emocionada.

Ainda irritado, ele se aproximou da varanda. Chegando lá, seus olhos verdes se arregalaram, a expressão tomada pela surpresa pela primeira vez em sua vida.

–As... flores... – falou ele, olhando os vasos com fascínio.

–Sim. Não é lindo? – perguntou ela, de pé ao lado de Gaara.

Os dois observavam as plantas em silêncio, quando Gaara sentiu a mão de Ino buscando a sua, seus dedos entrelaçando-se aos dele. E sentir o calor da pele dela na sua, ver aquelas flores desabrochando, se abrindo lentamente, colorindo e perfumando o lugar, fez com que algo se agitasse dentro dele. Algo desconhecido, forte, incômodo.

Confuso e até com um pouco de medo daquele sentimento que o invadia, ele soltou a mão dela, virando-se para sair dali. Ino o encarou, confusa.

–Por que você não se abre também? – ela perguntou.

Gaara parou na porta, virando-se para encara-la.

–Por que insiste em querer ver o que há dentro do meu coração? – ele perguntou. – Você pode não gostar muito, quando finalmente conseguir o que quer.

Ela caminhou até ele, puxando-o de forma delicada para dentro do quarto novamente, fechando a porta. Aproximou-se de Gaara, colocando a mão no rosto dele, seus corpos quase se tocando.

–Você não vai me fazer fugir. Não se feche nessa solidão.

–Você não sabe do que está falando.

–Claro que eu sei. Mas eu não vou fugir de você. –repetiu ela, firmemente.

Ele hesitou.

–Promete?

Ino suspirou. E sorriu.

–Prometo.

Gaara também sorriu. Aquilo era tudo o que ele precisava ouvir.



A tarde caia lá fora, enquanto Gaara caminhava em direção ao seu quarto, os olhos tomados pelo negror que dava às suas feições um aspecto demoníaco, o sorriso de satisfação estampando seus lábios. Havia conseguido. O corpo que cobiçara durante meses finalmente era seu.

No quarto, a fraca luz do sol que já estava se pondo iluminava precariamente o corpo trêmulo de uma jovem loira sobre a cama. Seus pulsos, pescoço, pernas, marcados e feridos pelas garras frias do ruivo que há alguns minutos grudava seu corpo ferozmente ao dela, para depois partir como se nada tivesse acontecido.

Ele pensava que para ela, aquilo seria apenas mais uma dor a ser guardada, mais uma mágoa, mais um corte no peito já dilacerado pela vida. Não era nada.

No quarto, o rosto de Ino estava virado de lado, as lágrimas descendo silenciosas, enquanto ela encarava a varanda.

Todos os seus vasos quebrados.

Todas as suas flores destruídas, pisadas, despedaçadas no chão.

Para Gaara, tudo iria transcorrer normalmente naquela tarde. Não havia nenhum detalhe fora do lugar. Não havia nada de errado. Ninguém saberia do que havia acontecido.

Ninguém, exceto Sasori.

O mestre era o único capaz de decifrar as emoções doentias de Gaara, além de ser também o único capaz de sair ileso da mente dele. E foi como em uma tarde qualquer que Sasori chamou seu discípulo do lado de fora da imensa mansão da ORDEM, a expressão impassível. Obviamente, àquela altura, ele ainda não sabia do que havia acontecido, mas aquela situação estava prestes a mudar.

–Vamos começar o treinamento. – o mestre falou, como de costume.

Gaara posicionou-se na frente dele, esperando que ele atacasse. Mas Sasori não se mexeu.

–Hoje, vou ensinar a você um exercício novo. – falou o mestre.

–Exercício novo?

–Sim. Quero que você se sente e se concentre em seu próprio chakra. Quero que você se lembre da última pessoa a quem você magoou.

–Eu não sou bom em lidar com chakra, você sabe disso. E sabe também que eu não sou capaz de me lembrar dessas coisas. Eu não guardo essas memórias.

–Por que ainda está questionando a ordem de seu mestre? – perguntou Sasori. Gaara percebeu que ele usava uma entonação diferente da habitual, e resolveu não insistir naquela discussão. Fechou os olhos, tentando se concentrar, mas sua mente estava vazia.

Seu coração estava vazio.

Sasori propunha aquele exercício com o objetivo de tentar despertar as emoções de Gaara. Sentia que o discípulo afundava cada vez mais no torpor, e aquilo o preocupava. Sem aceitar as emoções, Gaara não controlaria nunca o seu Bijuu.

Percebendo que o ruivo não conseguia engatar o transe, o mestre resolveu intervir e tentar facilitar as coisas.

Gaara, sem conseguir nenhum resultado, estava prestes a abrir os olhos e contar à Sasori que aquele exercício era inútil quando sentiu os dedos de seu mestre em suas têmporas. Sasori mantinha suas mãos firmes ali, induzindo Gaara a entrar em transe.

E por um milésimo de segundo, as mentes dos dois se sintonizaram. E o rosto da última pessoa a quem Gaara havia magoado apareceu nitidamente, os olhos azuis magoados de Ino colorindo a mente de Sasori. E tudo o que havia acontecido naquela manhã.

Sasori abriu os olhos, enfurecido. Forçou ainda mais o chakra na mente de Gaara, e ruivo soltou um grito de dor enquanto sentia-se envolver pela aura maligna de seu Bijuu.

Sasori estava evitando usar aquele método. Queria que seu discípulo aprendesse aos poucos a se dominar, que voltasse à vida por conta própria. Mas percebia que aquilo não iria acontecer, a não ser que interferisse.

Mesmo que os gritos de Gaara ecoassem fundo em seu coração, Sasori deixou que o ruivo se perdesse dentro de si mesmo; somente assim, ele poderia encontrar novamente a alma que um dia perdera.

Em seu transe, Gaara caminhava por um lugar escuro, coberto por uma neblina avermelhada. Seguiu por ali sem medo, sem incertezas, sem vontade de voltar. E embora não conhecesse aquele local, tudo lhe parecia estranhamente familiar.

“Finalmente veio me ver.”

Gaara olhou ao seu redor, a procura do dono daquela voz monstruosa. Mas não via ninguém.

–Quem está aí? – perguntou para a escuridão ao seu redor.

“Sequer é capaz de reconhecer minha voz?”, perguntou alguém, com desprezo.

–I... Ichibi? – perguntou Gaara. –É você? Finalmente estou aqui e não consigo nem te ver!

“É porque seus olhos estão perdidos na escuridão. Você ainda não está pronto. Foi seu mestre quem forçou a sua entrada aqui.”

–Eu sei... só não entendo por que ele fez isso. – perguntou, quase eufórico por finalmente estar conversando com o Bijuu. Aquilo significava algum progresso, e mesmo sem entender o motivo pelo qual Sasori o empurrara para aquele lugar, estava satisfeito por ter sido aceito.

Percebendo a agitação na mente do ruivo, o Bijuu bufou.

“Ainda não é hora de ficar feliz. Eu não aceitei você, humano. Você só está aqui porque aquele tal de Sasori sabe que eu posso lhe ensinar uma lição importante.”

–Sou todo ouvidos, Ichibi. – falou Gaara, com ironia. Seu Bijuu era muito difícil de lidar, traiçoeiro e mau humorado, mas nada aplacaria o orgulho que o ruivo sentia por finalmente estar ali.

“Se você quiser que eu lhe empreste o meu poder, terá que fazer por merecer. Terá que me enxergar, e me entender como a espada e o escudo, como a lâmina que fere o inimigo, mas também o guerreiro que a empunha.”

Gaara fitou a escuridão, confuso.

–Não estou entendendo nada, Ichibi. O que tenho que fazer para poder dominar o seu poder?

“Se não for capaz de me enxergar, jamais será merecedor da minha confiança, ou de usar o meu poder. São as trevas da tua mente que não te deixam me ver. Eu estou aqui. Sempre estive aqui. É o seu torpor que não te deixa me enxergar.”

–E o que eu tenho que fazer pra poder ver você?

“Você está envolto na escuridão. Apenas o amor é capaz de dissipar as nuvens sombrias do seu rancor. Você precisa se deixar sentir.”

–Isso não funciona comigo. Sasori já tentou. Não consigo.

Ichibi rosnou, frustrado. Percebia que apenas palavras não conseguiriam incentivá-lo o suficiente.

Resolveu então fazer as coisas do seu jeito.

De uma só vez, o Bijuu forçou seu chakra sombrio pela imensidão escura, fazendo ruir as paredes de torpor da mente de Gaara, atingindo o ruivo com toda a dor das vítimas que ele já causara. Todo o sofrimento, toda a lástima, toda dor física e emocional. Todo o sangue, inocente ou não, que ele já havia derramado, toda a agonia instalando-se na consciência do ruivo, enquanto ele caia de joelhos, os olhos se revirando, os gritos ecoando por toda a escuridão, enquanto Ichibi o observava em silêncio. Passara-se uma eternidade de sofrimento, as memórias o dilacerando lentamente.

E no final, uma lembrança se demorou mais em sua mente. A mágoa de Ino, escorrendo farta nas lágrimas que ela derramava, o corpo trêmulo, usado, descartado.

Quando o Bijuu terminou, Gaara apoiou as mãos no chão, os olhos arregalados, ofegando, o suor pingando. Tudo dentro dele estava desperto pela primeira vez, e ele não conseguia lidar com isso. Seu corpo desabou no chão, as mãos na cabeça. Achou que fosse enlouquecer.

O corpo começou a convulsionar, e o ruivo perdia o controle sobre si. Ichibi permanecia nas sombras, impassível, em silêncio.

Outra eternidade se passou.

E quando finalmente ele pareceu se conformar com todas as atrocidades que cometera, as convulsões pararam. Ele estava deitado no chão de sua mente, ofegante, os olhos verdes perdendo o brilho, o desmaio chegando.

Seu coração abria-se para o pavor, para a mágoa, para a tristeza.

–Eu... sinto... muito... – balbuciou para a escuridão.

Ichibi assentiu. Via o tão esperado sentimento brotar no coração de Gaara.

“Seu arrependimento, sua tristeza por tudo o que você fez, são reflexos do amor que começa a nascer. E o amor é redentor. A partir de hoje, você está livre do seu passado.” – falou Ichibi, saindo da escuridão. Os olhos apagados de Gaara tentaram se focar na figura monstruosa que estava à sua frente. Ainda deitado, ele estendeu a mão na direção do Bijuu.

–I... Ichibi... – falou fracamente, quase sorrindo.

O Bijuu colocou sua imensa pata sobre a cabeça de Gaara.

“Este é um pequeno presente. Para que você nunca se esqueça da lição que aprendeu hoje.” – disse ele, selando um pequeno símbolo no canto esquerdo da testa do ruivo. O símbolo japonês que representa o Amor.

Gaara pôde apenas sorrir ainda mais. Iria desmaiar a qualquer momento, e se sentia feliz. Pela primeira vez em sua vida... estava feliz.

“Hoje, eu o aceito como meu companheiro. Vou lhe ensinar tudo o que sei.” – falou Ichibi. –“Muito prazer, Gaara. Meu nome é Shukaku.”

Gaara fechou os olhos, desmaiando, o sorriso franco estampado em seu rosto.

Quando acordou, sentiu-se estranho. Novo. Sentia-se outra pessoa. Gaara se ergueu, encarando os olhos orgulhosos de Sasori a sua frente.

Com o nome de seu Bijuu revelado, sentia um novo poder circulando em seu corpo. Mais forte, mais denso, mais tenebroso.

Levantou-se, andando na direção de seu mestre.

E o abraçou.

Sasori envolveu o rapaz que para ele era como um filho. Ele via em Gaara o mesmo garoto que um dia ele fora, já que o mestre também havia andado por caminhos sombrios.

Num gesto repentino, a mão de Sasori agarrou a nuca de Gaara, arrastando-o para dentro da ORDEM.

–O... o que está fazendo? – perguntou o discípulo, surpreso.

–Você não acha mesmo que eu vou deixar passar o que você fez, acha? Você vai pedir desculpas pra loirinha.

Gaara bufou, mas não discutiu.

Chegaram à cozinha, onde Ino mexia um molho para macarronada, a expressão desolada, a tristeza estampada em seu rosto. Ela vestia uma blusa de mangas compridas, mas ainda se podiam ver algumas marcas em seu pescoço, e nos pulsos.

Ela ficou surpresa quando viu Sasori jogar Gaara dentro da cozinha, arrastando-o pelo pescoço.

–O que... o que está acontecendo? – ela perguntou, chocada.

–Tem uma coisa que esse bocó quer falar com você, Ino... Não é, Gaara?! – gritou Sasori, apertando o pescoço de Gaara.

O ruivo tossiu.

–Se você continuar me sufocando, não vou conseguir falar... – tentou Gaara.

–Tenho certeza de que mesmo morrendo, você dará um jeito... Anda! A moça está esperando!

O ruivo olhou para Ino, que encarava aqueles dois confusa e até com um pouco de medo. E fitar os olhos de Gaara fez um arrepio correr por sua espinha, as lembranças daquela manhã invadindo sua mente.

–Quero te pedir... – começou ele.

–Mais alto! Ela não está ouvindo! – gritou Sasori, olhando para o teto com cara de tédio.

–Que... que... Sasori, você está... me sufocando, caralho!

O mestre forçou a cabeça de Gaara para baixo fazendo-o se curvar.

–Vamos! – mandou Sasori.

–Quero pedir... perdão! – falou o ruivo, sentindo finalmente as mãos de Sasori libertando seu pescoço. Ele se ergueu, puxando uma lufada de ar, o rosto completamente vermelho.

Sasori sorriu.

–Agora vou deixar vocês sozinhos... Ei, garota, não hesite em dar umas porradas caso ele se meta a besta com você de novo...

Ino corou. Quanto do que havia acontecido aquele homem sabia?

–Tu... tudo bem... – foi tudo o que conseguiu responder.

Sasori saiu da cozinha, deixando Gaara e Ino se encarando em silêncio por alguns minutos.

–Você me perdoa? – insistiu Gaara.

A loira ficou em silêncio.

–Se você não me perdoar, acho que meu Bijuu e meu mestre vão querer fazer churrasco de mim. – ele disse, tentando brincar. Ino arregalou os olhos para ele.

Desde quando Gaara fazia graça? Desde quando ele reagia?

–Você fez uma tatuagem. – comentou ela, olhando para a marca na testa do ruivo.

–Um presentinho do Shukaku.

–Shu... o quê?

–Shukaku. Meu Bijuu revelou o nome para mim. – explicou, sorrindo francamente.

Ela novamente ficou surpresa. Aquele não era o sorriso irônico ou sarcástico que ele costumava exibir. Havia vida ali.

Gaara sentia-se mudado. A experiência com seu Bijuu o transformara em um novo homem, que sentia e se arrependia das atrocidades que havia cometido. Mas era hora de recomeçar.

Ino suspirou. Talvez descobrir o nome do Bijuu fosse o motivo pelo qual ele parecia estar tão diferente.

Ela sorriu para Gaara, seus olhos azuis ganhando brilho novamente.

–Eu perdoo você. – falou.

Ele assentiu, aproximando-se dela. Ao ver aquele sorriso, ele compreendia que não era merecedor daquele perdão. Que não havia desculpas para o que ele havia feito com ela – nem com todas as pessoas a quem magoara durante sua vida.

–Obrigado. Em troca, eu lhe faço uma promessa.

Ela o fitou atentamente, esperando que ele falasse.

–Nunca mais irei tocar em você. Eu te prometo, Ino, que aquela foi a última vez em que te machuquei. Nunca mais me aproximarei de você como homem.

Foi a vez de Ino assentir. Ela se sentia, de certa forma, aliviada por aquelas palavras. O terror que vivera aquela manhã ainda estava nítido em sua mente.

–Acho que você tem tendências psicopatas, loira. – comentou Gaara, olhando tediosamente para a panela na qual Ino mexia quando chegara à cozinha.

–Como é? – perguntou Ino, surpresa pelo assunto descabido e repentino.

–Onde já se viu, sorrir assim pra mim depois do que eu fiz? Você é uma bruxa muito louca, cara. – falou ele, sem desgrudar os olhos da panela. – Principalmente com esse seu cabelo aí.

–Como é que é? Seu Jinchuuriki dos infernos! – berrou ela, irada — Você acha o quê, que esse seu cabelo faz sucesso? Tá vendo esse Ketchup? – falou, pegando um dos vidros da mesa. – Se desenhar umas olheiras nesse vidro, vai ficar a sua cara.

Ele suspirou, impaciente.

–Não quero envolvimento com você, Ino. Eu prometi que nunca mais te machucaria, mas apesar de ser uma loira psicopata, você é uma tentação muito grande. Facilite a minha vida, tá legal? Vai azucrinar a paciência de outro.

–Seu infeliz! – irritou-se ela.

Desde aquele dia, os dois se tornaram amigos/inimigos, enquanto Gaara empenhava-se em manter sua promessa.

Shukaku nunca o abandonou, embora seja um Bijuu difícil e mau humorado até os dias de hoje.

Ino continuou aquecendo o coração recém-aberto de Gaara com seu perdão redentor, enquanto o ruivo descobria, aos poucos, o sentido do amor que seu mestre e seu Bijuu o ensinaram.

***



Notas finais
Oi! E ai? Gostaram? Vocês sabem que a autora-san está simplesmente QUICANDO DE CURIOSIDADE para saber o que vocês acharam deste capítulo, então não se esqueçam de comentar! O que acharam do Shukaku? Ah, gente, sobre o Sasuke! Todo mundo revoltz com ele! Porém, considerem os motivos por trás dessa atitude, ok? Existe muita coisa pra acontecer ainda, muitos segredos a serem revelados, e isso abrange todos os personagens. Irei disponibilizar a Parte 2 logo, loguinho. Espero poder contar com a opinião de vocês! Aos leitores novos, deem uma olhada na minha outra fic: http://fanfiction.com.br/historia/500126/Lacos/ Será uma honra ter a opinião de vocês por lá também. E já sabem: próximo capítulo de Paraíso Sombrio é o hentai GaaInaniano! Até lá! Bjks!