Paraíso Sombrio
21 Dançando no escuro
Notas iniciais
"Eu já vi tudo. Eu vi a escuridão, eu vi a luminosidade de uma pequena faísca.
Eu vi o que escolhi ver, vi o que precisava.
E isso basta."
Dançando no Escuro, 2000.
A torneira ligada abafava os ruídos que vinham da sala. Sai colocou o primeiro prato ensaboado em baixo da água que caia, ininterrupta. Incomodava-o que desperdiçasse água, mas não estava interessado no que quer que estivesse acontecendo na sala, e o barulho ajudava a distraí-lo. Ter Ino e Gaara em um mesmo ambiente deixava-o angustiado, pois temia pela sanidade de ambos, que já haviam passado por tantas coisas. Por que tudo tinha que ser tão difícil?
Por que amar tinha que ser tão complicado?
O moreno soltou um longo suspiro de pesar, o que chamou a atenção de Deidara, que estendia a mão enrolada em um pano para enxugar a louça. Os olhos azuis se estreitaram na direção de Sai, que sequer notava a indagação na expressão de Deidara. Mergulhado em pensamentos, Sai focava-se em não se envolver demais nas confusões que ele sabia que estavam por vir.
–Ei, o que é que você tem? – o loiro perguntou, já impaciente com aquele silêncio.
Sai sequer olhou para Deidara. Absorto pela angustia de um pressentimento sem explicação, ele não conseguia prestar atenção em mais nada. Que sensação era aquela que apertava seu peito?
Suspirando, irritado, Deidara resolveu agir, já que falar não estava adiantando. Acertou um “leve” tapa na cabeça de Sai, fazendo o moreno pular de susto.
–Acorda, cara, tô falando com você! – o loiro chamou.
Sai ergueu a cabeça para fitar Deidara com uma expressão surpresa.
–Desculpe, não estava prestando atenção. – justificou-se.
–Eu percebi. Tá pensando em alguma gatinha? Diz ai, quem é? Eu conheço? – Deidara perguntou, empolgado.
O moreno piscou, ainda mais surpreso, para então soltar uma risada. E foi a vez de Deidara pular de susto; ele nunca havia ouvido Sai dar uma risada em toda a sua vida.
–Tá rindo do quê? – o loiro questionou, confuso.
–É verdade, você chegou depois que a confusão já tinha acabado, e não soube de nada... – Sai falou, quase perdendo o sorriso com a lembrança daquele dia.
–Do que você tá falando, cara?
–Não se lembra do dia em que destruímos a sua boate? – o moreno perguntou, vendo Deidara assentir – Lembra que a confusão começou porque eu fui... espancado?
–Eu não lembro direito. Só sei que cheguei muito puto porque vocês tinham destruído tudo... e lembro do Sasuke dando uma de emo e fodendo com tudo, como sempre. – o loiro resmungou, mau humorado com as lembranças do Uchiha erguendo o corpo de seu melhor amigo na frente de Gaara.
–Então você não sabe mesmo o por quê de eu ter sido espancado.
–Sei lá... achei que tivesse sido tudo uma confusão só. – Deidara respondeu, como se estivesse se desculpando por não lembrar.
–Bem, não foi. – Sai falou, e voltou a baixar a cabeça e a esfregar a esponja em um outro prato. Perdido nas memórias das muitas humilhações que sofrera em sua vida, ele não se dava conta de que esfregava o mesmo prato nos últimos cinco minutos.
Impaciente pelo fato de que Sai não falava mais nada, Deidara fechou a torneira, como sempre, irritado.
–Sim, e aí?! – o loiro questionou, esperando que o amigo continuasse.
–Tenho apenas uma palavra pra você, Deidara: Homofobia. – Sai respondeu, sem levantar a cabeça, encarando o prato ensaboado.
O loiro piscou, atônito. Uma, duas, três vezes. Do que Sai estava falando?
–Você... você... é...
–Gay? Sim. – Sai respondeu, ainda sem tirar os olhos da louça.
Mas foi surpreendido por outro tapa na cabeça, dessa vez mais forte. Irritado, o moreno ergueu a cabeça para xingar Deidara, mas sua ideia se perdeu ao perceber que o loiro o fitava com certa fúria no olhar.
–POR QUE VOCÊ NÃO CONTOU PRA GENTE?! HUM?!
Sai suspirou, revirando os olhos. Ao que parecia, ele tinha uma queda por loiros esquentados e impacientes.
–Não quero ter que explicar isso de novo, Deidara. – o moreno respondeu, cansado da indignação de seus amigos. Nunca teve muita intimidade com Deidara, principalmente porque não convivera muito com ele como havia convivido com Naruto e Ino, até mesmo por ter passado vários anos longe, estudando artes. Mas tinha um carinho por ele que datava de uma amizade de muitos anos, e sabia que, assim como todos os outros, os laços que o uniam àquela família eram cheios de amor e zelo; não iria reclamar de saber que seus amigos cuidavam e se preocupavam com ele. Mas não queria ter de repetir a mesma desculpa que dera à Naruto.
–Tudo bem... – Deidara parecia se conformar, mesmo ainda estando indignado. Sai apenas ria discretamente daquela situação – Mas você devia mesmo ter nos contado. – reclamou, visivelmente irritado. Parecia que tudo estava desabando, e não lhe alegrava em nada saber que existiam segredos daquele tipo escondidos, pois significava que seu amigo havia sofrido em silêncio durante muito tempo, sem que pudesse fazer nada a respeito.
–Eu sei. Desculpe. – foi a única resposta de Sai. Ele novamente ligou a torneira, para que o barulho da água o distraísse dos pensamentos insistentes que assolavam sua mente.
Mas nem um minuto se passou para que a voz de Deidara se fizesse soar novamente.
–Você já se apaixonou por algum cara?
Sai continuou de cabeça baixa, os olhos fixos na louça. Estava começando a compreender porque Ino achava Deidara uma pessoa tão irritante.
–Hein? Te fiz uma pergunta. – o loiro insistiu.
–Deidara, se você não se importa, eu prefiro não falar sobre isso. – Sai respondeu, querendo dar aquele assunto por encerrado.
O loiro assentiu, compreendendo a angústia com a qual Sai deveria ter convivido durante tantos anos, escondendo um segredo como aquele.
Um outro minuto de silêncio se passou.
–Mas você já se apaixonou por algum cara? – Deidara não se conteve.
Sai soltou um longo e pesado suspiro. Sim, talvez Ino tivesse razão.
–Já estive com muitas pessoas. – respondeu, por fim.
–Não foi isso que eu perguntei. – o loiro resmungou. Irritava-o que seus amigos guardassem segredos e pensassem que não pudessem contar com a família. Afinal, de que serviam aqueles laços se não pudesse sequer apoiar aqueles a quem amava?
E se havia uma coisa que Deidara havia aprendido com seu melhor amigo, era que os laços de uma família são muito preciosos e devem ser cuidados com zelo e atenção.
Sai bufou com aquela insistência.
–Sim, já me apaixonei... – confessou.
Deidara estreitou os olhos para aquela reação do amigo.
–Você ainda está apaixonado. – anunciou o loiro, como se estivesse descobrindo a América.
–Não importa. É um algo impossível desde o começo. – Sai falou, sacudindo levemente a cabeça, querendo espantar aqueles pensamentos – Não importa. – repetiu, como se quisesse convencer a si mesmo.
–Por que não? – Deidara questionou, curioso.
–Porque ele já está se apaixonando por outra pessoa, embora ainda nem se dê conta disso...
Antes de se sentar no canto de meditação, Hinata percebeu que fazia tempo desde a última vez em que estivera ali. E, pensando bem, ela nunca havia visto Naruto meditar. Talvez aquilo fosse um exercício recomendado por Jiraya, pelo fato de o loiro ser uma pessoa muito impaciente, e aquele pensamento quase a fez sorrir. Era bom focar seus pensamentos em algo engraçado e banal. Sentia suas pernas bambearem, e mesmo que Naruto estivesse ao seu lado, aquilo não parecia ser o suficiente para aplacar seu nervosismo. Era estranho pensar daquela maneira, pois quando Ino se propunha a entrar em sua mente, ela não sentia todo aquele medo. Naquele momento, parecia que todas as suas terminações nervosas eram fios descascados, a eletricidade estalando por seus membros.
Mas logo Hinata sentiu uma mão enlaçando-se ao seu braço, ajudando-a a caminhar. Olhou para o lado, levemente desperta de seu temor pelo toque de Gaara, que lhe exibia um sorriso torto.
–Não vai inventar de cair agora, Hinatinha.
Ela tentou sorrir para o ruivo, mas não tinha certeza se seus lábios se curvaram o suficiente para que ele entendesse que ela estava feliz por ele ajuda-la a andar. A garota sentiu Naruto se afastar, sentando-se no sofá, enquanto Jiraya voltava para a poltrona, que mais parecia um trono, tamanha era a majestade do mestre. O sennin demonstrava sua imponência sem qualquer esforço, parecendo sempre muito tranquilo com tudo, e Hinata tentou acalmar-se com aquilo. Se Jiraya confiava em Sasuke, ela também confiaria. Ou pelo menos tentaria confiar.
Cinco minutos depois, Sakura e Sasuke chegaram à sala. Ninguém perguntou o por quê da demora dos dois. Em silêncio, a rosada se sentou no sofá entre Ino e Naruto, e, distraidamente, o loiro pousou um braço sobre seus ombros. A naturalidade daquele gesto não passou despercebida aos olhos temerosos de Hinata. Ela nunca havia parado para pensar que Sakura, Naruto e Sasuke conviveram juntos por muito tempo no passado, mas logo se lembrou de que, em alguns lugares da casa, havia fotos dos três ainda crianças. Eles deviam ter se conhecido enquanto ainda viviam na tal ORDEM. E deviam ter passado por muitas coisas juntos, tamanha era a mágoa de Naruto pelo fato de Sasuke tê-los abandonado, e tamanha era a distância que Sakura mantinha da casa dos amigos.
Aos poucos, Hinata achava que começava a compreender melhor os laços confusos que, apesar de tudo, uniam as pessoas daquela família.
–Sakura, você tem falado com a Tsunade? – Jiraya perguntou pela mestra da garota de forma tranquila, como se nada de muito importante estivesse prestes a acontecer naquela sala.
A rosada estreitou os olhos verdes para o mestre.
–Sim. E ela me contou o que você andou aprontando enquanto estava na ORDEM...
O sennin fingiu uma cômica indignação.
–Mas eu não fiz nada! Eu entrei naquele banheiro por acidente. Na verdade, acho que a Tsunade foi tomar banho lá de propósito para que eu pudesse ver aqueles grandes...
–Enfim! – Sakura o interrompeu, percebendo que o mestre já ia começar a falar de safadeza – Ela disse que sente sua falta por lá. – a rosada sorriu docemente para Jiraya.
O sennin também sorriu com aquela noticia, e todos podiam perceber que era um sorriso diferente de todos os outros que ele já exibira.
–Não se anima, não, Jiraya... uma vez na friendzone, sempre na friendzone. – Gaara brincou, e todos riram, mas o mestre não se deixou abalar.
–A persistência é o segredo do sucesso. – Jiraya piscou para o ruivo – Um dia ainda vou agarrar aqueles belos...
–Chega, Ero-sennin! – Naruto interrompeu, antes que seu mestre falasse besteira – Vamos começar logo com isso. – falou, fixando o olhar em Sasuke.
Ainda sem estar muito convencida, Hinata se sentou, aguardando. Olhou para Naruto, mas o loiro parecia ter uma expressão distante, distraída, embora em seu rosto ainda pudessem ser encontrados alguns vestígios de dor. Novamente ele tentava mascarar o que sentia, voltava a ser o mesmo impaciente e sarcástico de sempre. Mas toda aquela frieza a preocupava; Hinata conhecia Naruto o suficiente para saber o quanto ele era impulsivo, e estar quieto daquele jeito nunca era um bom sinal. Naruto devia estar prestes a explodir.
Engoliu em seco ao pensar que, sempre que tivera aquela suspeita, ela estava certa.
Mas aqueles pensamentos se dissiparam de sua mente ao ver Sasuke sentando-se a sua frente, extremamente apático. Hinata se perguntava se seria capaz de provocar alguma reação na expressão sempre igual do Uchiha, mas a ideia de tentar a deixava arrepiada de temor.
Ele apenas respirou fundo e fechou os olhos, permanecendo parado, a mesma antipatia de quando chegara à casa de Naruto, naquele dia. O silêncio era incômodo e pesado, tingindo os sentidos de Hinata com uma sensação de medo cada vez mais forte.
–O que... o que eu tenho que fazer? – ela perguntou, percebendo que o método que ele utilizava era diferente do de Ino.
–Nada. – Sasuke respondeu, suspirando pesadamente. Ele então abriu os olhos tingidos de vermelho, o chakra pulsando forte em suas veias, em seu corpo – Eu já estou na sua mente. – declarou, encarando-a com uma expressão que evidenciava certa vaidade. Sua energia fluía forte demais para que alguém indefesa como a Hyuuga pudesse lutar contra a chama rubra de seus olhos.
Todos na sala esperaram por alguma reação de Hinata, mas ela não respondeu. Não conseguia se lembrar exatamente do momento em que seus olhos cruzaram com os de Sasuke. Não conseguia se lembrar de quando ele a havia emboscado no poder do sharingan, nem do momento em que ela o autorizara a entrar em sua mente. Não conseguia se lembrar de quem era, qual o seu nome, onde estava. Tudo o que ela conseguia sentir eram as trevas engolindo-a, obrigando-a a esvair-se, desmoronar. Ali, envolta pelas sombras do poder de Sasuke, Hinata não conseguia pensar em nada que não fosse deixar-se arrastar, perdendo-se dentro de si mesma em busca de algo que ela não sabia o que era.
A escuridão a envolvia como areia movediça, mas Hinata não podia mover um músculo sequer em protesto. Nas trevas, seu corpo era arrastado como se dançasse sobre as sombras de suas memórias. Sem qualquer aviso, piedade ou cuidado, Sasuke não hesitara em invadir a consciência da garota. Arrastando-se como uma serpente, não foi difícil chegar até os limites da mente de Hinata. Ali estava a barreira pela qual Ino não conseguia passar.
Envolto pelas cortinas negras e densas que lhe impediam a passagem, o Uchiha sorriu.
Hinata tinha, de fato, uma mente muito interessante.
Naruto alisou a testa, incomodado com aquele silêncio. Todos na sala mantinham os olhos fixos em Sasuke e Hinata, temerosos com o que poderia acontecer — ninguém confiava muito no Uchiha, afinal.
–Isso vai demorar muito? – perguntou o Uzumaki, impaciente, rompendo o silêncio. Já estavam ali há quase meia hora. O que poderia estar acontecendo na mente de Hinata para que Sasuke levasse todo aquele tempo?
–Que foi, tá preocupado que o Sasuke fique amiguinho da Hinatinha? – ironizou Gaara.
–Fica na sua, Ketchup. – Naruto estreitou os olhos para o ruivo.
Gaara arregalou os olhos, surpreso com aquela reação. Havia algo a mais no tom de Naruto que ele não conseguia identificar, e aquilo o deixou intrigado.
–Por que você tá tão preocupado? – cochichou, percebendo que havia algo de errado com o loiro.
Naruto não respondeu. Permaneceu com os olhos fixos em Sasuke, em busca de qualquer reação, qualquer sinal de que os dois estavam avançando ou retrocedendo, qualquer coisa que lhe desse a certeza de que tudo estava bem. Mas havia apenas o silêncio pesado e opressor que pairava sobre a sala, como se o tempo tivesse parado.
Os minutos se arrastavam sem que nada acontecesse.
–Mas que saco, hein. – Kiba resmungou, espreguiçando-se no sofá – Achei que seria mais emocionante.
–Cuidado com o que você deseja. – Ino repreendeu – Estou aliviada que as coisas estejam transcorrendo de forma tão tranquila. – disse a loira, embora sua expressão estivesse apreensiva. Ela também desejava saber o que acontecia na mente de Hinata naquele momento, embora parte de sua intuição lhe dissesse que aquela calmaria era realmente melhor do que uma reação negativa...
Mas Ino não pôde concluir aquele pensamento. Logo todos da sala puderam ouvir um murmúrio baixo e dolorido escapando dos lábios de Hinata que, semiconsciente, mantinha os olhos abertos, embora estivesse quase fechando-os. Sua expressão parecia vazia, cansada, como se ela estivesse prestes a desmaiar. O corpo vacilou levemente para frente, mas ela não caiu. Continuou balbuciando murmúrios incompreensíveis em meio ao transe, enquanto Sasuke permanecia quieto, encarando-a com uma expressão séria, mais vincada que o normal.
–O que houve? – Kiba perguntou, erguendo-se do sofá.
Ninguém respondeu. Apenas observavam enquanto os olhos de Hinata se fechavam em meio ao desespero que ninguém além de Sasuke e ela conseguiam ver.
Naruto também se levantou.
–O que está acontecendo com ela? – o loiro perguntou, mais alto.
Sasuke não respondeu. Continuou fitando a garota a sua frente, a expressão cada vez mais carrancuda.
Ainda com os olhos fechados, Hinata parecia ter se perdido no transe. Afogando-se em um poço de mágoas, ela se encolheu, arrastando-se para trás, como se quisesse se distanciar de algo que ninguém sabia o que era. Esbarrou na parede atrás de si, as pernas se debatendo, as mãos querendo afastar do próprio corpo aquilo que parecia ser o motivo de seu pavor.
O Uchiha estreitou os olhos vermelhos.
–NÃO, POR FAVOR, NÃO! PARE COM ISSO! — ela gritou, apertando as pálpebras fechadas, tentando dissipar a dor que as ilusões lhe causavam – POR FAVOR, NÃO!
–SASUKE! – Naruto rosnou, percebendo que ele forçava o chakra de encontro à mente de Hinata – O que você está fazendo com ela?!
O moreno não respondeu. Enquanto Hinata se debatia à sua frente, Sasuke apenas observava.
–POR FAVOR, PARE! – ela gritou novamente, e agora as lágrimas rolavam fartas.
–Já chega, Sasuke! – Naruto rosnou novamente, prestes a avançar na direção do Uchiha, mas Gaara o segurou pelo braço – Me solte! – ele cuspiu as palavras para o ruivo.
O Uchiha olhou para Naruto com desprezo.
–Mas o que há com você? – Sasuke perguntou, irritado – Não queria que eu despertasse o poder da garota? Pois é isso que estou fazendo.
–Você está machucando ela! – Naruto gritou, a raiva explodindo forte em sua mente.
O Uchiha não deu mais atenção às palavras de Naruto. Novamente voltou-se para Hinata, que continuava a se contorcer debilmente em meio ao pavor de sua consciência. Ele se aproximou, tocando levemente o rosto da garota. Seu poder circulava pelo corpo dela como mil serpentes, arrastando-se venenosamente pelas vias de chakra que começavam a despertar.
–Não... – ela murmurou baixinho, a voz engasgada pelo choro compulsivo – Não...
Jiraya e Sakura observavam a tudo em silêncio, sem mover um músculo sequer.
–Sasuke, ela está sofrendo. Por favor, podemos tentar novamente depois. Já chega. – Gaara pediu, compadecendo-se da dor que Hinata parecia estar sentindo.
–Não se meta. – o Uchiha sibilou, forçando ainda mais sua presença na mente de Hinata. Ela agora não parecia mais lutar contra o que tanto a apavorava; apenas chorava e pedia, por favor, que ele parasse. Mas Sasuke não tinha essa intenção.
Uma rachadura. Duas. Três. Os estalos ecoavam pela mente de Hinata, as paredes negras prestes a desmoronarem, abaladas pelo poder de Sasuke. A garota cravou as unhas nos próprios braços, um ato desesperado na esperança de que aquela dor fosse mais forte que a dor das lembranças que passavam rápidas e sofridas a sua frente. O Uchiha permanecia concentrado, tentando fazer com que sua expressão não transparecesse tudo o que estava vendo e sentindo.
A mente de Hinata ruía, tremia, afundando-se num recorrente pesadelo. Na sala, todos ouviam os gritos de dor cada vez mais altos, enquanto ela arranhava, inconscientemente, a própria pele, como se aquela dor fosse despertá-la das ilusões.
–Sasuke, já chega! – Naruto rosnou novamente – Pare ou eu vou arrancar a sua cabeça! – sibilou, deixando clara a ameaça em suas palavras.
Mas o moreno sequer se moveu. Percebendo que a sanidade de Hinata estava no limite, ele forçou seu chakra uma última vez. Dentro da mente dela, Sasuke ouviu o ruir de uma porta se abrindo. E mais nada.
Seu poder estancou, assim como seus passos. Não pôde mais mexer um músculo sequer. Sasuke apenas arregalou os olhos, enquanto discernia a lembrança que estilhaçava o coração de Hinata em mil pedaços.
Tudo o que pôde sentir a seguir foi a ruína que o desespero do coração dela, silenciosamente, guardava.
E depois, só havia a escuridão.
O corpo de Sasuke foi lançado a alguns metros de distância, voando sobre o sofá e batendo de encontro a porta da frente, levando consigo tudo no caminho. Os olhos do moreno não estavam mais vermelhos — seu poder havia sido drenado. Surpresos, todos os olhares acompanharam a cena, sem compreender o que havia acontecido.
Todos da sala voltaram seus rostos para Hinata.
Respirando com dificuldade, puxando o ar com toda a força que podia, ela encarava Sasuke, do outro lado do cômodo. Assustada pelo que via, seu corpo tremia, e a mão que havia lançado o Uchiha para longe ainda permanecia erguida para frente, espalmada, como se ainda pudesse toca-lo.
Os olhos negros de Sasuke se estreitaram.
Mas era a mente de Hinata que agora podia ver demais.
As veias ressaltadas ao redor de seus olhos perolados revelavam o poder desperto, vivo, pulsando fortemente em seu corpo.
Sai e Deidara correram para a sala, atraídos pelo barulho, e quando lá chegaram, encararam aquela cena boquiabertos. As veias ao redor dos olhos perolados e a mão imposta em sinal de ataque que Hinata mantinha erguida fez com que o loiro arregalasse os olhos. Logo em seguida, ele voltou o olhar para Sasuke, que ainda jazia jogado no chão.
–Eu não acredito que a garota Hyuuga desceu o cacete no Sasuke. – Deidara murmurou, a expressão embasbacada de incredulidade.
Naruto piscou, como se estivesse despertando de um transe também. Logo percebeu que precisava agir, e andou até onde Hinata estava, abaixando-se junto dela, tocando levemente os ombros da garota.
–Hinata... Hinata, está tudo bem? – o loiro chamou, tentando manter a voz tranquila.
Ela também pareceu despertar. O toque de Naruto em sua pele a fez perder a concentração, e logo as veias que marcavam a sua expressão desapareceram. Seus olhos perolados ganharam clareza e foco, encontrando os de Naruto. Ele tinha uma expressão estranha.
Sem conseguir se equilibrar pela súbita fraqueza que a atingiu, seu corpo pendeu para frente, e ela apoiou as mãos no chão para não cair. Arquejou com o cansaço, suspirando profundamente, buscando o ar que lhe faltava. Ergueu a cabeça, novamente procurando os olhos de Naruto.
–O que... o que foi isso? – ela perguntou num fio de voz.
O loiro não conseguiu responder. Apenas a fitou de maneira estranha, apertando os lábios.
–Você é foda, hein, Hinatinha! – Gaara alarmou, aproximando-se dela, sorrindo.
–O-o q-quê? – ela balbuciou, confusa.
Naruto suspirou profundamente, antes de falar.
–Você acabou de fazer o que todo mundo nessa sala gostaria de ter feito. Você deu uma bela corça no Sasuke, Hinata. – ele falou, e só então Hinata compreendeu a expressão estranha que Naruto exibia naquele momento. Ele estava tentando conter o riso.
Mas não adiantou muito. Todos da sala riram das palavras do Uzumaki.
Sasuke se ergueu, encarando Hinata com o rosto ainda vincado de seriedade.
–Não fica assim, Sasuke... – Deidara tentou consolar, debochado — Quem podia imaginar que a Hinata tava escondendo esse poder todo?
O Uchiha não respondeu. Apenas fitou Hinata, e ela o fitava também.
Ino, Kiba e Sakura se aproximaram, afim de saber se a morena estava bem. Gaara e Naruto a ajudaram a se levantar, e levaram-na para o sofá.
Foi quando Jiraya finalmente reagiu. Ele se ergueu da poltrona e se ajoelhou diante de Hinata, olhando para ela com carinho e tranquilidade.
–O que você está sentindo, Hinata? – perguntou.
Era difícil responder àquela pergunta. O tremor em seu corpo confundia-se com o poder que jorrava, circulava, pulsava em suas veias. Não conseguia focar seus pensamentos em algo coerente ou apropriado para dizer.
Como se água gelada houvesse sido despejada no corpo quente, a energia, antes estagnada, corria livre, e Hinata não tinha certeza se aquela sensação era boa ou ruim.
–Me sinto... diferente. – ela arriscou dizer – Me sinto...
–Poderosa! – Ino completou, pulando de contentamento.
Hinata assentiu timidamente. Sim, ela se sentia poderosa, mas não queria dizer aquilo com medo de soar prepotente.
–Pois muito bem. – Jiraya falou, atraindo a atenção de todos – Finalmente, Hinata, seu poder está desperto. O tempo e um mestre apropriado irão ensiná-la a controla-lo melhor. Mas por enquanto... quero que pense em como está se sentindo nesse momento.
–Como assim? – ela perguntou, confusa.
–O poder que um dia te levou às trevas do desespero, é o mesmo que agora te desperta para a verdadeira vida, Hinata. – o mestre prosseguiu, esclarecendo o questionamento de Hinata. Ele sabia bem o que devia estar passando pela cabeça dela agora: as cenas de todas as vezes em que ela amaldiçoou o fato de ser diferente, de poder enxergar além – Você possui um Dom. Sua vida começa agora.
Hinata sorriu para o mestre, tentando acostumar-se ao poder que se agigantava dentro dela. Se sentia maior, mais ampla, imponente. Como se algo maior e mais precioso que ela mesma estivesse vivo dentro de si, rugindo, chamando seu nome. Era pesado e leve, era sombrio e luminoso, a acalmava como gelo e a consumia como fogo – não havia uma maneira de explicar aquelas contradições.
–Obrigada! – ela disse para Jiraya, abraçando-o, verdadeiramente grata por finalmente poder enxergar a si mesma, não mais como uma aberração, mas como alguém que merecia a felicidade ao lado daqueles que estava aprendendo a amar.
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