Paraíso Sombrio

12 Coração de brinquedo


Notas iniciais
Yo, minna! Tudo bem com vocês? Como as coisas estão se normalizando em minha rotina, aqui estou, postando capitulo novo rapidinho. Special Thank's a galera que vem comentando... vocês fazem a alegria dessa autora! Muito obrigada mesmo! Dedico este capítulo a todos que estavam ansiosos pela ação NaruHiniana... No final, tem surpresinha pra vocês! Espero que gostem! Boa leitura, e nos vemos nas notas finais!



Aquele final de tarde era cinzento e frio, assim como a ocasião. O sol se escondia atrás das nuvens que insistiam em barrar a luz, pesando sobre as cabeças daqueles que esperavam. No chão arrastavam-se as sombras dos que caminhavam, vagarosamente, rumo ao cenário fúnebre e escuro que os aguardava.

Tudo indicava que o céu choraria naquele dia, para que a água da chuva se misturasse às lágrimas que rolariam no rosto de alguns. Mas assim como aqueles que sentiam a dor da perda, o céu também reprimia suas lágrimas. Tudo o que se via naquela imensidão era o tom sombrio que se estendia pelo cemitério.

Não havia muitas pessoas ali. Sai restringira-se a chamar apenas aqueles que ele sabia que não iriam fazer nenhum alarde sobre aquilo. Não queria chamar a atenção de ninguém perigoso – a situação já estava complicada o suficiente.

Alguns já se postavam ao redor do caixão aberto, o corpo de Sasori sendo admirado pelos amigos uma última vez. Seu lugar no cemitério já estava pronto, bastava apenas que seus companheiros se despedissem e chorassem o suficiente para tentar aplacar a dor que os afligia naquele momento.

Mas parecia que nem mesmo as lágrimas do céu seriam o suficiente para chorar a saudade que Sasori deixaria.

Sentado no chão, encostado em uma lápide um pouco distante de onde todos os outros estavam, Gaara virou um gole da bebida que tinha em mãos. A garrafa já estava quase pela metade, e mesmo assim, não se sentia embriagado. Desejava a todo custo diminuir o ardor que sentia em seu peito, mas não conseguia. Nem o álcool, nem o corpo quente da mulher que amava, nem a solidariedade dos amigos, nem o conforto da família, nada era suficiente para diminuir a frieza com a qual ele se revestia. Virou outro gole da bebida, sabendo que, de onde estava, ninguém poderia vê-lo. Era melhor assim. Não precisava de palavras de despedida. Não precisava derramar nenhuma lágrima, nem tentar sorrir ou superar sua dor. Não precisava manter promessa alguma, nem acreditar no amor, nem seguir os ensinamentos de ninguém.

Era melhor assim.

Outro gole desceu por sua garganta. A bebida quente rasgava seu interior, ardia.

Mas ele ainda sentia frio.

Frio e solidão. Como no dia em que Sasori o encontrara pela primeira vez.

Tudo parecia ter voltado a ser como antes.

Memórias de um passado distante



Sasori esperava pelo garoto ruivo, que caminhava em sua direção, com uma expressão indignada. Sentadas ao seu lado estavam outras duas crianças, tão jovens quanto Gaara. A menina loira sentada do seu lado direito batia insistentemente no outro garoto sentado ao lado esquerdo do mestre, sem dar tempo para que o pobre menino pudesse revidar.

–Oi. – cumprimentou Gaara, de maneira monossilábica. Olhou tediosamente para Kankuro, que como sempre, estava apanhando de Temari. Mas os dois, que antes estavam brigando, se aquietaram com a presença do ruivo.

Gaara era uma criança assustadora. Todos ali sabiam disso.

E mesmo que a ORDEM fosse um lugar lotado de “aberrações”, como as pessoas costumavam chama-los, Gaara ainda era temido como o pior de todos.

–Oi... – respondeu Sasori, encarando o ruivo à sua frente – OI?! QUEM VOCÊ PENSA QUE É, SEU FEDELHO?! – gritou, de repente, agarrando Gaara pela orelha.

–Mas o quê... – o ruivo se surpreendeu.

–QUANTAS VEZES EU JÁ DISSE A VOCÊ PARA NÃO CHEGAR ATRASADO QUANDO SUA PRESENÇA FOR SOLICITADA?!

–Apenas uma vez. – respondeu Gaara, friamente.

–É MAIS DO QUE SUFICIENTE PRA VOCÊ APRENDER! – berrou Sasori. – SE ME FIZER ESPERAR POR VOCÊ NOVAMENTE, VOU TE DAR DE COMIDA PRO SEU BIJUU, ENTENDEU?!

Gaara suspirou.

–ENTENDEU?! – insistiu Sasori, torcendo a orelha do garoto.

–AAAIIIII! – gemeu Gaara, finalmente esboçando uma reação. — ENTENDI!

–Ótimo. – falou o mestre, soltando a orelha de Gaara e sorrindo para ele. – Agora vá cumprimentar seus irmãos.

–Ir... irmãos?

–Sim... São meus discípulos, assim como você. Já lhe expliquei como as coisas funcionam por aqui. Nós somos uma família. Lutamos e protegemos uns aos outros.

Gaara ergueu uma sobrancelha, sem entender nada daquilo.

Sasori suspirou.

–Você vai aprender isso com o tempo. Nós não matamos ou impomos medo nas pessoas por aqui, Gaara. – explicou o mestre. – Nós criamos laços de Amor, e lutamos para proteger nossa família.

–O que você sabe sobre o Amor? – questionou o ruivo, com uma expressão apática – Com esse seu coração de brinquedo, você é capaz de sentir alguma coisa?

Sasori respirou pesadamente antes de responder.

–Sim. Nesse momento, por exemplo, eu sinto vontade de socar a sua cara, mas não vou fazer isso. Porque assim como estou tentando ensinar vocês, alguém também já me ensinou que eu devo ter paciência e calma para cultivar os laços de Amor.

Gaara continuava encarando o homem a sua frente sem compreender o sentido daquelas palavras. Mas tinha uma dívida com ele. Sasori o salvara, o resgatara. Havia dado ao menino roupas novas, e o defendera quando todos disseram que o queriam longe. Desafiou muita gente e colocou o ruivo junto de si, protegendo-o de qualquer ameaça, mesmo que Gaara fosse a maior delas. O dera comida, o livrara do frio.

Sasori era o calor em sua vida, o calor que Gaara jamais havia se permitido sentir. Tudo em sua existência era escuridão e vazio. Ver o sol começando a iluminar seus dias era um pouco assustador e... era bom. O ruivo sentia-se invadido por sensações estranhas.

Seria aquilo o que as pessoas chamavam de felicidade?

E o Amor? Como seria experimentar o sentimento do qual Sasori tanto falava?

Gaara permitiu que a luz daquele homem iluminasse sua vida, livrando-o das trevas, enlaçando-o a uma família de verdade. Através dos ensinamentos de seu mestre, ele conhecera a alegria e o Amor de verdade. Laços bonitos e preciosos, dos quais ele jamais poderia esquecer.

Laços esmagados pela dor da perda, novamente tragados pela escuridão. Laços distantes, dolorosos, frios.

***



Gaara soltou um riso baixo para o vazio. Virou outro gole, querendo esquecer-se daquelas lembranças. Sentia-se esvaziar o coração na medida em que o céu ameaçava chorar a dor da perda que ele tão profundamente lamentava.

Temari olhava para o corpo de Sasori, a expressão impassível. Praguejava mentalmente pelo que havia acontecido naquela manhã, quando Shikamaru lhe dera a notícia de que seu mestre havia sido morto.

Sob o efeito de duas garrafas de vinho, não havia sido capaz de resistir ao conforto e consolo que o Nara a oferecera, e aquilo a deixava irritada. Onde estava com a cabeça quando deixara que ele a visse naquele estado? Seus sentimentos dividiam-se entre a raiva e a tristeza, a memória sendo invadida pelas lembranças da infância que Sasori ajudou a colorir. Lembrava-se de seus irmãos, da família que formaram, do Amor que cultivaram.

Sóbria, encarando o corpo de seu antigo mestre, nenhuma lágrima escorria dos olhos de Temari. Nenhum sentimento escapava daquela expressão fria.

Restavam ali apenas as memórias da melhor época de sua vida.

Deidara também encarava o corpo no caixão. Estava um pouco distante dos outros, pois também não era do tipo que gostava de demonstrar seus sentimentos. Desde o dia em que vira Sasuke segurando o corpo de Sasori, em frente a sua boate, estava evitando pensar no assunto.

Não queria pensar que estava perdendo o seu melhor amigo, não queria pensar na última conversa que tiveram. Não queria pensar que ele já havia lhe dado pistas de que aquilo estava pra acontecer, e que ele simplesmente ignorara, achando que Sasori havia enlouquecido.

Apenas não queria se lembrar...

Mas as memórias se estilhaçavam em sua mente como agulhas, cravando profundamente em seu peito, afundando-se com a culpa e o desejo de vingança.

Memórias de um passado não tão distante



Os dois se encaravam séria e ameaçadoramente.

Sasori segurava suas cartas de modo a fazer com que elas escondessem o rosto, deixando apenas seus olhos a vista. Deidara odiava aquele jeito do amigo de jogar. Era irritante e silencioso, fazia com que o loiro tivesse vontade de soca-lo.

Mas aquilo não funcionaria, não daquela vez. Deidara sorriu abertamente, colocando as cartas do baralho na mesa.

–A casa caiu, Sasori. Hum. – falou, exibindo seu jogo.

Devagar, o amigo foi baixando suas cartas também. Os olhos de Sasori fitavam Deidara calma e ponderadamente. O mestre sorriu ao ver a expressão indignada com a qual o loiro expressava sua revolta.

–Isso é o que dá, cantar vitória cedo demais...

–QUE PORRA É ESSA, SASORI?! VOCÊ TÁ DE SACANAGEM COM A MINHA CARA!

–Não começa, Deidara. Passa a grana pra cá.

–ME RECUSO!

–Deixa de ser mal perdedor, inferno! – reclamou Sasori. – Você é um péssimo jogador, se conforma!

Deidara resmungou mais uma porção de xingamentos enquanto tirava as cédulas da carteira. Sempre que jogava contra Sasori, acabava perdendo muito dinheiro. Aquele cara ainda o levaria a falência.

–Tá faltando dinheiro aqui... – falou Sasori, enquanto contava as cédulas. – Deixa de ser muquirana! Com esse monte de boate rendendo uma fortuna, fica querendo me enrolar!

–MERDA, SASORI! – Deidara só reclamava.

O amigo apenas ria. E apesar de estarem muito bem servidos de bebida, o loiro sabia que aquela alegria toda de Sasori não era consequência da embriaguez. Ele não se embebedava com tanta facilidade.

O mestre se levantou, tomando mais um gole rápido antes de colocar seus olhos em Deidara novamente.

–Foi bom te ver. Não me canso de ganhar dinheiro assim tão fácil. – debochou.

–Que seja... – resmungou Deidara. – Vou acabar com a sua raça na próxima vez, quando você voltar.

O loiro viu a expressão de Sasori mudar um pouco. Ele quase perdeu o sorriso quando voltou a falar.

–Sobre isso... talvez eu me atrase um pouco para o nosso próximo jogo.

–Se atrasar?! Que história é essa? Logo você, que é todo paranoico com horários e tudo mais...

–Não sou paranoico... Sou pontual! – esclareceu Sasori, sentindo uma veia saltar em sua testa — Apenas não gosto de esperar, nem de fazer os outros esperarem. Você sabe disso!

–Tá, tá, tá! Mas vai se atrasar por quê?

Sasori suspirou.

–Eu preciso... resolver algumas pendências essa semana. Talvez as coisas não saiam como o esperado.

–Não tô entendendo. Que pendências?

O amigo sorriu.

–Eles estão atrás de mim, Deidara.

–Eles? Eles quem?

–Não sei exatamente ainda... mas... se eu me atrasar... não espere por mim. Arranje outro parceiro para jogar, está bem?

–DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO, IDIOTA?

–De nada... apenas faça o que eu disse. Não espere por mim, caso eu me atrase. Entendeu?

–Mais ou menos, né? Fica falando em códigos como um retardado... – reclamou Deidara.

Sasori soltou uma risada. Abraçou o amigo, num aperto demorado, e logo partiu sem dizer adeus.

Nas semanas seguintes, Sasori parecia ter sumido do mapa. Não atendia ao telefone, ou retornava os e-mails. Ninguém tinha noticias dele.

E no dia em que deveria voltar para o costumeiro jogo com Deidara, como ele previra, Sasori estava atrasado. Muito atrasado.

Sentado na cadeira, a bebida ao seu lado, as cartas na mesa, Deidara se questionava sobre aquilo. Tentava se lembrar de detalhes de sua última conversa com o amigo que pudessem lhe explicar o porquê daquele atraso.

Seus olhos azuis se arregalaram de espanto ao se atentar às palavras de Sasori.

“Não espere por mim, caso eu me atrase. Entendeu?”

Deidara pegou suas coisas e saiu correndo da casa de jogo. Entrou em seu carro, distanciando-se dali o mais rápido que conseguia.

E no dia seguinte, quando voltou ao local, viu apenas destroços. Tudo estava destruído, e havia ambulâncias, policiais e bombeiros por toda parte. Todos tentavam compreender o porquê de aquele estabelecimento ter sido atacado.

“Eles estão atrás de mim, Deidara.”

***



O loiro olhou para o corpo de Sasori à sua frente. Queria negar aquilo tanto quanto Naruto, mas as evidencias que encontrara enquanto investigava feito um louco depois do que havia acontecido apontavam para as informações que havia disponibilizado a ele naquela manhã. Não sabia se tudo aquilo era verdade. Mas... era a única pista que possuía até agora.

“Desgraçado, idiota... você... está atrasado...”, pensou Deidara, enquanto sentia sua garganta se fechar com a tristeza que o invadia.

No estacionamento precariamente iluminado pelas luzes da rua, Sasuke caminhava calmamente até seu carro. Havia ido até o cemitério para se despedir do corpo de Sasori. Afinal, ele também sentia muito por tudo o que estava acontecendo, e seu maior desejo era encontrar o responsável por toda aquela dor que se alastrava sobre seus amigos, sua família. Pela dor que se espalhava em seu próprio coração.

Não trocou palavra alguma com ninguém enquanto estivera ali. Não se demorou no local, incomodado pelo olhar acusador que Sakura lançava sobre ele, e pela atitude fria e distante de Naruto. O loiro sequer havia olhado para ele. Parecia que Sasuke sequer estava ali. E, estranhamente, o Uchiha reparara na expressão com a qual Hinata o encarava. Ela parecia magoada com tudo o que estava acontecendo, mas... o que ela entendia da dor que os afligia? O que ela sabia sobre sua família, sobre seus amigos?

O Uchiha compreendia que, naquele momento, Naruto devia achar que ele estava tentando separar sua família e desfazer seus laços. Mas não era nada daquilo. Sasuke sabia que um dia, o loiro e todos os outros compreenderiam o motivo por trás de suas ações. Mas, por enquanto, manteria tudo em segredo. Ninguém precisava se envolver com aquilo, afinal. Bastava que ele conseguisse suportar os momentos de solidão, e a frieza com a qual sua família o tratava. E isso... isso era o mais difícil de suportar. Mesmo que nunca tenha sido o tipo que faz grandes demonstrações de afeto, os amigos ainda eram preciosos para Sasuke. Mesmo assim... suportaria tudo aquilo sozinho. Pela memória de seu mestre, ele suportaria tudo aquilo, e enfrentaria o mundo, se fosse necessário. Ele alcançaria seu objetivo, não importando quantos sacrifícios tivesse que fazer. Ou quantas pessoas tivessem que morrer.

De repente, seus sentidos ficaram em alerta. Sasuke sentia uma presença aproximando-se silenciosamente, mas sem cautela. Seus olhos vasculharam a escuridão em busca da pessoa que caminhava para onde ele estava.

E então, os olhos vermelhos de Sasuke encontraram as pupilas amareladas de Gaara.

O Uchiha exibiu ao amigo um sorriso torto, carregado de satisfação.

–Você veio.

Gaara assentiu na escuridão. Um gesto tão discreto que se não fosse pelas habilidades oculares de Sasuke, teria passado despercebido.

–As coisas não serão nada fáceis daqui por diante. Está disposto a abrir mão de tudo pela honra do seu mestre?

O ruivo pensou em seus amigos, em sua família. Pensou em Ino... no corpo quente da loira rendendo-se ao seu, nos rastros de barro e fogo que ela deixara em sua pele.

Era tarde demais para voltar atrás. As flores que ele despedaçara lhe barrariam o caminho de volta para sempre.

–Não tenho mais nada que me prenda aqui. – Gaara respondeu.

Foi a vez de Sasuke de assentir. Pelo visto, o ruivo sabia dos perigos do caminho que escolhera seguir.

–Seja bem-vindo à Akatsuki, Gaara. – disse o Uchiha. – Vamos embora daqui.

O outro permaneceu em silêncio.

O moreno se virou, na intenção de abrir a porta do carro.

–Mas antes de qualquer coisa... – começou Gaara. E antes que Sasuke pudesse se voltar para ele, a mão do ruivo espalmou-se na cabeça do Uchiha, forçando-a contra a lataria do carro numa pancada audível.

O impacto fez com que Sasuke caísse no chão, confuso, as mãos tocando o rosto e sentindo o sangue que escorria farto pelo nariz.

–MAS QUE PORRA...!

Gaara se abaixou, ficando próximo ao amigo. Agarrou os cabelos de Sasuke, puxando levemente os fios, obrigando-o a encará-lo.

–Isso foi uma pequena amostra do que vai te acontecer se você tentar machucar a loira de novo. – Gaara falou, a voz soando tediosa e despreocupada. Soltou bruscamente os cabelos do Uchiha, afastando-se.

Sasuke apenas o fitou em silêncio, levantando-se, reprimindo o impulso de reagir. Matar Gaara seria uma atitude imprudente, e invalidaria todo o esforço que tivera até ali.

–Agora sim nós podemos ir. – continuou o ruivo, sorrindo descaradamente.

O Uchiha abriu a porta do carro, e ao entrar, procurou por qualquer coisa que pudesse estancar o sangramento.

–Sorte sua que isso vai curar rápido... se não eu iria acabar com a sua raça. – resmungou para Gaara.

–Vai sonhando. – respondeu o ruivo, vendo Sasuke entrar no carro e acelerar para longe dali.

Ele também caminhou até onde estacionara seu carro. Entrou, e ficou por alguns instantes pensando em tudo.

Pensando nela...

Deu a partida, também acelerando para longe, sem saber quando, e se voltaria.

O silêncio da estrada fazia ecoar em sua mente o vazio de um “coração de brinquedo” que já não batia mais.

“Adeus, Sasori...”

Em seu quarto, Hinata tirava os sapatos desconfortáveis, deixando-os espalhados pelo chão. Pensava em tudo o que havia acontecido naquele dia, certa de que Naruto estava para explodir. Ela sabia que ele lidava com muita coisa naquele momento, assim como todos os outros. Tinha medo de vê-lo perder o controle de vez. Hinata podia sentir o quanto ele estava sofrendo, e aquilo a deixava um tanto perturbada.

Lembrava-se do café da manhã que o loiro preparou, ainda levemente preocupada com a possibilidade de aquela comida estar envenenada. Quase sorriu. Será que sobreviveria àquela noite?

O caminho de volta para casa foi silencioso. Naruto não havia dito uma única palavra durante o enterro, e ficara visivelmente transtornado pela presença de Sasuke no cemitério. Hinata mal conhecia o Uchiha e já morria de vontade de soca-lo. Surpreendeu-se com aquele sentimento... parecia um instinto de proteção com relação a Naruto, e ainda não compreendia direito como aquela sensação se instalara dentro dela. Aos poucos, ela se sentia integrada àquilo que Naruto chamava de “família”, mesmo com toda a esquisitice e problemas. Percebia a si mesma preocupada com Ino, já que, durante o tempo em que esteve no cemitério, a loira manteve-se distante e calada. Hinata não conhecia Sakura direito, mas sentia uma imensa gratidão por ela tê-la ajudado, quando sofreu os danos dos pesadelos de sua consciência, junto de Naruto, e podia perceber que a rosada também estava triste e abatida.

Mas era o silêncio do loiro que mais incomodava Hinata. Era assustador que ela se sentisse daquela maneira com relação a ele, mas, de certa forma, Naruto passara a ser alguém importante em sua vida. Conhece-lo mudou tudo... mas Hinata ainda não conseguia decidir se as mudanças foram para melhor ou pior. Só sabia que, mesmo fracamente, ela era capaz de sentir... e sabia que devia aquilo a ele.

Suspirou para o vazio do quarto, grata por aquele dia estar se aproximando do fim.

Distraiu-se com o som da chuva que finalmente começava a cair lá fora...

O céu finalmente derramava as lágrimas que seus amigos não deixaram cair.

Na varanda, Naruto observava a chuva que caia, ainda fracamente, sobre ruas da cidade. Sua expressão era vincada de seriedade, sua mente era vazia. O copo em sua mão também estava vazio, assim como a garrafa de uísque ao seu lado. Sentia-se inerte, impotente, incapaz de proteger sua família e aqueles a quem amava. Sentia a responsabilidade de tudo o que acontecera pesando sobre seus ombros sem que pudesse fazer absolutamente nada a respeito, sentindo seu autocontrole ir, aos poucos, para o ralo. Suspirou pesadamente, tentando se acalmar.

Sozinho ali, ele não podia evitar pensar que talvez sua família nunca mais se reunisse. Que as coisas nunca mais voltariam a ser como antes.

Sentiu uma fisgada no peito, apertando o copo em sua mão de forma tão descontrolada que logo os cacos explodiram em seus dedos. Esperou pela dor física, mas ela não veio – não se cortara. Levantou-se dali, caminhando até a sala, incerto, transtornado.

Tentava pensar em algo que lhe distraísse de todo aquele inferno, mas sozinho, não conseguiria. A passos largos e decididos, ele caminhou em direção ao corredor dos quartos, parando em frente à porta de Hinata. Qualquer que fosse a razão que o levara até ali, Naruto sabia que ela o acalmaria. E mesmo se sentindo estranho, embriagado, sabia que a garota o acolheria, como ela havia feito das outras vezes.

Bateu com força, apressado, a necessidade de encontrar algum conforto o dilacerando por dentro.

Hinata entreabriu a porta, os olhos preocupados encarando Naruto pelo mínimo espaço entre a madeira e o rapaz. A expressão que ele lhe exibiu tingia sua mente em tons de frieza, e aquilo a deixava ainda mais aflita.

–Posso entrar? – ele perguntou.

Ela o fitou, incerta.

–Está tudo bem?

–Não quero... não quero ficar sozinho hoje. – ele respondeu, olhando para o chão.

Hinata suspirou. Abriu a porta completamente, dando espaço para que ele entrasse, enquanto sentia, dentro de si, um pressentimento insistente dizendo que ela se arrependeria por isso.

Ele entrou e ficou parado no meio do quarto, sem saber exatamente o que fazia ali. A garota o fitava, cada vez mais preocupada.

–Quer conversar? – ela perguntou.

Ele balançou a cabeça, negando.

–Não. Só quero ficar aqui... com você. – ele falou, a expressão evidenciando a embriaguez. Era notório que até mesmo ele se surpreendia por dizer aquelas palavras. – Não quero ficar sozinho. – ele repetiu.

Hinata assentiu. Os dois se encaravam, um silêncio desconfortável se instalando entre eles. Ela temia o que ele seria capaz de fazer, tão transtornado quanto estava, e não tinha coragem o suficiente para desafiá-lo duas vezes no mesmo dia.

–Quer... quer se sentar? – ela falou, apontando para a cama.

–Na verdade... não sei bem o que estou fazendo aqui. – ele respondeu, confuso. – Mas... – ele se interrompeu, encarando a morena.

Deu um passo a frente. E depois outro.

–Talvez, você... nós... – ele começou, as ideias se confundindo em sua mente. Avançou mais alguns passos a frente. Afinal, o que o impedia de se distrair um pouco de toda aquela dor?

Por que não?

Hinata deu um passo atrás, vendo Naruto caminhar em sua direção, movimentando-se com o charme de um puma, prestes a atacar. Novamente via a si mesma encurralada entre ele e a parede, percebendo o desejo que ardia no olhar do loiro. Além da embriaguez, é claro.

Naruto colou seu corpo ao de Hinata, vendo-a reprimir a expressão de pavor que ameaçava tomar seu rosto. Ele apoiou uma mão na parede enquanto a outra puxava a morena pelo quadril, pressionando-a contra si. Hinata podia sentir que o loiro estava excitado, que a queria, e que não estava brincando – ele não pararia. Ela estava paralisada, sem conseguir mover um músculo sequer.

A boca de Naruto moveu-se lentamente até a orelha de Hinata, os lábios roçando na pele da morena como uma carícia.

Ela quis empurra-lo, dando um passo a frente, mas o corpo de Naruto novamente forçou-a contra a parede.

–Você não vai fugir de novo. – sussurrou ele, o hálito quente contra a pele fria fazendo a garota se arrepiar. Os lábios desceram pela pele do pescoço, e na medida em que sentia os beijos do loiro, ela sentia também algumas lágrimas se acumulando em seus olhos perolados.

Naruto pressionava seu quadril cada vez mais no dela, os lábios alcançando o ombro de Hinata. A mão que antes estava na parede agora descia pelo quadril da garota, puxando levemente o tecido do vestido com os dedos, e finalmente sua mão alcançou a lateral da coxa da Hyuuga. A outra mão que a puxava para si apertou o quadril de Hinata contra o seu um pouco mais forte, e Hinata ouviu o loiro soltar um gemido baixo e cheio de desejo contra a sua pele.

–Na-Naruto não... por favor, não... – conseguiu sussurrar, a voz quase inaudível. Ele pareceu não ouvir.

A mão que antes circulava pela coxa de Hinata agora movia-se para o meio das pernas dela. Por sobre o vestido, os dedos de Naruto pressionaram o local, fazendo a garota fechar os joelhos, sentindo as pernas fraquejarem, arriando um pouco, sendo segurada por ele. O loiro mordeu o queixo de Hinata, sua mão forçando um pouco mais por entre as pernas dela, ainda sobre o tecido do vestido.

A mão moveu-se novamente para o quadril, os dedos agora sob o tecido, segurando a renda da lateral da calcinha. Paralisada, percebendo o corpo de Naruto tão colado ao seu, ela sentia o quadril dele cada vez mais apertado junto ao dela.

Num ímpeto de desespero, as mãos de Hinata moveram-se para as de Naruto, que estavam prestes a descer a calcinha.

–Não... – sussurrou ela.

Ele colocou o rosto tão próximo ao dela que os lábios quase se tocaram. Seu olhar era intenso, a imensidão azul devorando-a, investigando-a, sem a menor intenção de ceder àquele apelo.

–Por que não? – perguntou baixinho, a voz enrouquecida pelo desejo.

–Por... por favor, Naruto... – pediu. Ele afastou um pouco o rosto, encarando-a. Tentava distinguir o sentimento na expressão dela, mas não conseguiu.

–Me dê um bom motivo pra parar. – falou, as mãos apertando-a ainda mais contra si.

Ela engoliu em seco, quase soltando um gemido. Aquela proximidade era apavorante de diversas maneiras, mas percebia seu corpo arder toda vez que sentia o quanto ele estava excitado.

–Eu... não... quero... – conseguiu dizer.

Ele avaliou aquela resposta, vendo que ela falava sério. Viu as lágrimas que se acumulavam nos olhos da garota, e franziu o cenho.

Hinata era uma garota muito difícil de interpretar.

–Tudo bem. – falou, por fim, dando um passo atrás.

Hinata suspirou, aliviada.

E logo em seguida, seu corpo escorregou pela parede.

Naruto viu os olhos perolados da garota se fecharem, e apressou-se em segura-la antes que a cabeça batesse no chão. O loiro fitou Hinata desmaiada em seus braços, os olhos azuis arregalados de surpresa.

–Hinata?! Hinata, o que foi? – perguntou, sacudindo-a levemente. Mas a garota não abria os olhos. — HINATA!

Novamente na varanda, de banho tomado, com uma xícara de café na mão, Naruto via o sol nascendo sobre a cidade. Depois que Hinata desmaiara em seus braços, ele tentou reanima-la, mas tudo o que conseguira em retorno foram gemidos de pavor, enquanto a garota tentava se desvencilhar dele.

Achou melhor deixa-la descansar, sozinha, sem conseguir entender o que se passava com ela.

Afinal, por que Hinata sempre reagia daquela maneira quando ele se aproximava?

Ele compreendia que ela não quisesse dormir com ele. Mas... por que todo aquele medo, aquele pavor? Bastava que ela dissesse “não”. Por que toda aquela angústia tingindo os olhos dela? Por que todo aquele desespero?

O celular vibrando em seu bolso interrompeu seus devaneios. Em qualquer outro dia, ele teria sorrido ao ver quem o ligava. Mas não restava dentro de si vontade alguma de esboçar qualquer reação.

–Yo, Naruto! Como estão as coisas por ai? Tá cuidando direitinho da garota Hyuuga?

–Ero-sennin... – Naruto cumprimentou, baixo.

–Que desânimo é esse? Achei que você fosse dar o escândalo de sempre quando eu ligasse! – bronqueou Jiraya, do outro lado da linha.

–É que... – o loiro tentou começar.

–Você deu em cima da Hyuuga, não foi? Eu sabia! Filhote de pervertido, pervertidinho é! -disse o mestre, explodindo numa gargalhada.

Naruto suspirou. E não era aquilo que Jiraya esperava. Ele aguardava os insultos que viriam por provocar o loiro, mas não teve nada em resposta.

–Naruto? – perguntou, preocupado. – Aconteceu alguma coisa?

O loiro suspirou novamente.

–Sasori morreu. – falou, por fim.

E do outro lado da linha, ouvia-se apenas o silêncio.

O mestre absorvia aquela informação, sem querer acreditar.

Eles haviam pegado Sasori também. Outro mestre assassinado. Outro amigo, outra vida que se esvaia.

Depois de um longo tempo sem nada dizer, Jiraya se pronuncia:

–Providencie um lugar pra mim, Naruto. — ordenou — Estou voltando.

Notas finais
Oi! E aí? Gostaram? Depois de 11 capítulos, tava na hora de acontecer alguma coisa entre os protagonistas, né? Mesmo que no final, a autora-san tenha sido malvada... O que acharam das lembranças de Gaara e Deidara com relação ao Sasori? Ah, Sasori... vai deixar saudades, cara T^T Jamais te esqueceremos *o* E da cena NaruHiniana, o que acharam? Geeeente... Jiraya tá voltando! E agora? Obrigada a toda a galera que favoritou a minha fic, que comenta e acompanha fielmente o que escrevo, principalmente aos que indicam a leitura dessa estória aos amigos! Vocês são demais! Não se esqueçam de me dizer o que acharam. Ainda não sei quando disponibilizarei o próximo capítulo, mas prometo que será logo, loguinho! Bjks!