Paraíso Sombrio
37 Bang Bang
Notas iniciais
O vento frio ainda soprava pela varanda, fazendo com que Yugito se arqueasse ainda mais na direção de Naruto, buscando pelo calor do corpo que a acolhia. Ela tomou o cuidado de não entreabrir os lábios, para não correr o risco de cair em tentação e beija-lo de verdade. Se fizesse aquilo, talvez estragasse o plano, e tudo o que Naruto havia feito até então seria em vão.
O loiro afastou os lábios dos dela repentinamente, encarando-a com seriedade. Seus olhos estavam fixos nos de Yugito, e ele parecia procurar no rosto dela por algo que não estava encontrando. Algo que lhe faltava naquele momento. Algo que parecia não se encaixar.
Aquilo não parecia certo – não parecia natural.
–Ainda sente a presença deles? – Yugito sussurrou, ainda mantendo o rosto muito próximo ao de Naruto.
–Não... Eles já foram. – ele respondeu, e em seguida suspirou. Deu um passo para trás, fechando os olhos. Apoiou as mãos nas grades da varanda, uma de cada lado do corpo de Yugito, sentindo as pernas dela escorregarem de sua cintura e firmarem-se no chão. Mantendo-se diante da loira, Naruto baixou o rosto. Estava com nojo de si. Havia algo fechando sua garganta, sufocando-o, impedindo-lhe a fala.
–Naruto? – Yugito chamou, preocupada – O que foi? O plano não deu certo?
Ele bufou.
–Deu. Deu certo até demais. – o loiro respondeu, ainda mantendo a cabeça baixa – Ela acreditou. Eles acreditaram.
Foi a vez de Yugito suspirar. Ela sabia que Naruto estava se culpando, se martirizando mentalmente, mas sabia também que tudo aquilo havia sido necessário. Não poderia deixar que ele se sentisse mal por ter tomado a atitude correta.
–Não precisa se sentir tão culpado. Foi só um beijo. – ela tentou reanima-lo – E nem foi de verdade. – disse, sorrindo minimamente para ele.
–Não é isso. – Naruto rebateu, impaciente — Não... Não posso... Eu não devia ter dito aquelas coisas... – ele murmurou, ainda de cabeça baixa.
Dizer aquelas coisas à Hinata havia sido uma maneira de convencê-la a ir embora, mas também de convencer a si mesmo de que precisava deixa-la ir. Fazer com que ela o odiasse era a única certeza que Naruto teria de que não iria cair em tentação e fazê-la voltar, porque depois de tudo o que dissera, ele sabia que Hinata não voltaria.
Yugito ficou em silêncio, esperando que ele continuasse, mas Naruto parecia não querer erguer o rosto ou conversar.
–Por que não me conta a verdade, cariño? – ela pediu.
–Estou fodido. – ele disse, enfim levantando a cabeça, fitando a loira com uma expressão que denotava sofrimento e agonia – Estou apaixonado e completamente fodido. Essa é a verdade.
A loira o fitou carinhosamente, tocando o rosto triste de Naruto. Ela não estava falando dessa verdade; Que Naruto estava apaixonado, ela já sabia desde o instante em que o reencontrara. Yugito queria saber o que estava acontecendo ali. Qual o motivo de terem recorrido àquele plano, e qual o motivo do que havia acontecido naquela casa, dois dias atrás. Mas Naruto parecia absorto demais em culpa para perceber do que ela estava falando.
–Acho que você precisava disso pra entender melhor como se sente, não é? – ela murmurou, abraçando-o. Naruto se deixou envolver pelos braços da loira, apoiando o rosto no ombro dela – Você não teve escolha... – Yugito tentou tranquiliza-lo, embora soubesse que nada seria capaz de devolver a paz a Naruto naquele momento – Eles já sabiam que ela estava aqui, cercaram sua casa. Só foram embora agora. Com o clã Hyuuga, ela estará segura.
–Eu a magoei. — Naruto sibilou de encontro a pele do ombro da mulher, tentando manter o controle, mas Yugito sentia que ele estava furioso – Eu havia prometido a mim mesmo que seria o único que não iria magoá-la, mas fiz mesmo assim!
–Um dia ela vai saber a verdade e vai entender. Hinata parece ser uma garota de coração forte. Confie na maturidade dela. Ela irá te perdoar.
–E eu? Vou me perdoar? – Naruto perguntou, irônico, desvencilhando-se de Yugito e cambaleando para trás. Passou as mãos pelo rosto, angustiado – Sei que ela tem um coração forte. Quem tem o coração fraco aqui sou eu.
–Não diga isso. – a loira repreendeu – Apenas um coração forte é capaz de fazer o que você fez e passar pelo que você está passando. Você fez isso para protege-la, Naruto...
–Mas a que custo?! – ele gritou, perdendo de vez a paciência – Você não entende! Eu preciso dela! Não é simplesmente algo com o que eu posso lidar! Perde-la não é uma possibilidade aceitável!
Yugito se encolheu com os berros de Naruto. A tristeza dele também entristecia seu coração; Naruto era um grande amigo, e era difícil vê-lo transtornado daquela maneira. De inicio, ela não havia entendido nada – principalmente quando chegou até a cada do loiro, dois dias atrás, e foi atacada por um desconhecido.
“Você não é Hyuuga”, o agressor dissera, para em seguida ataca-la e nocauteá-la. Por um dia inteiro ela ficou refém de um grupo de homens mascarados que a torturaram na casa vazia de Naruto, em busca de informações, e apenas a deixaram quando tiraram dela aquilo que alimentava seu poder.
A mente silenciosa de Yugito era a pior marca que restara de tudo o que havia acontecido ali.
Quando Naruto voltou para casa, custou a acreditar no que via. O corpo ensanguentado da Nii jazia no chão de sua sala, e ao tocá-la, ele não sentiu nada. Nenhum poder, nenhuma força, nenhuma defesa. Logo Naruto se apressou em tratar dos ferimentos da amiga, e quando Yugito se recuperou o suficiente para manter-se de pé e falar, ela explicou o que havia acontecido. Obviamente o loiro ficou alarmado, mas a situação se agravou quando ele recebeu um embrulho de Shino. Yugito apenas concordara com aquele plano maluco porque vira o desespero de Naruto ao ver o conteúdo do pacote – que estava violado, diga-se de passagem.
“Por que não fala a verdade para ela?”, Yugito havia perguntado.
“Porque este é um inimigo contra o qual Hinata não pode lutar.”, Naruto havia respondido.
–Desculpe. Não é culpa sua. – ele pediu, arrependido por ter gritado.
–Nem sua. – a loira rebateu.
Naruto bufou e riu sem humor algum. Apoiou-se novamente na grade da varanda, observando a rua deserta.
–Machuquei você? – ele perguntou, mas não parecia realmente preocupado com aquilo.
Yugito olhou para os próprios braços, observando as feridas que se estendiam por toda a sua pele. Seu corpo estava coberto com aquelas marcas, e a maneira como Naruto a havia agarrado fez com que seus ferimentos ardessem um pouco, mas aquilo era insignificante perante tudo o que estava acontecendo. Ela facilitaria as coisas para o amigo.
–Não... não foi nada. – a loira respondeu minimamente.
–Obrigado, Yugito. Você é uma boa amiga. – ele disse, de costas para a Nii – Sinto muito pela Nibi.
Ela o fitou com tristeza e preocupação. Não queria lembrar que havia perdido seu Bijuu. Não queria lembrar as palavras dos homens que a haviam torturado ali. “Você será a primeira, loirinha...”, um deles lhe dissera, enquanto lhe tirava o bem mais precioso que possuía. Mas, naquele momento, não era a essa dor que Yugito se atentava. A mágoa, o arrependimento, a culpa que Naruto sentia eram quase palpáveis de tão forte que se faziam presentes no coração já machucado do Uzumaki. Porém, Yugito também sabia que não havia mais nada que pudesse fazer.
–Me deixe um pouco sozinho. – Naruto pediu, ouvindo os passos da loira se afastarem dali. Prontamente Yugito atendeu ao pedido e entrou na casa, deixando Naruto absorto em seus próprios pensamentos.
“Olhando para o fundo do seu copo
Esperando que um dia você faça um sonho durar
Porque sonhos chegam devagar e se vão muito rápido
Você a vê quando fecha seus olhos
Talvez um dia você entenda o porquê
De que tudo o que você toca seguramente, morre”
Let Her Go, Passenger
Continuava chovendo, a tempestade desabando sobre o asfalto tão fortemente que parecia ser o prelúdio do fim do mundo. Os olhos de Naruto se fixaram na rua vazia, mas não havia nada ali para ver.
Ele encheu o copo de uísque, virando a dose de uma vez, sentindo o líquido descer, quente, pela garganta. Naquela noite, Naruto se sentia só, mais só do que nunca. E lhe doía lembrar que, não importava o quanto mantivesse a porta destrancada, daquela vez, Hinata não apareceria para consolá-lo. Ele estava sozinho. Sozinho de verdade.
Jiraya se foi, deixando para trás lembranças que Naruto jamais seria capaz de esquecer. O mestre também havia deixado Hinata em sua vida, por algum motivo que o discípulo ainda não conseguia enxergar ou compreender. Tudo havia acontecido rápido demais para que Naruto assimilasse quão grande seria o vazio que a garota deixaria em sua vida – e o que era pior, em seu coração.
Internamente, Naruto amaldiçoava o dia em que deixara Hinata sorrir para ele, entrar em seu coração, deixa-lo em frangalhos daquela maneira. Sem perceber, ele havia se tornado totalmente dependente dela, e não havia nada que pudesse fazer a respeito. A lembrança do rosto de Hinata contorcido pela dor provocada por suas palavras martelava em sua mente, fazendo seu coração latejar de forma enlouquecedora.
Tentando se conformar com aquela dor, Naruto virou outro gole da bebida. Precisava sentir aquilo, precisava sofrer, enlouquecer, se fosse necessário. Precisava passar por noites insones nas quais se lembraria dela. Talvez passasse no quarto de Hinata mais tarde, só para ser inundado pela ausência gritante dela ali. Talvez se emaranhasse nos lençóis em que ela dormira, talvez revirasse as malas dela e queimasse tudo. Talvez passasse a noite revirando em sua mente os momentos em que esteve com o corpo grudado ao dela, entre as flores, desfrutando do cheiro que apenas ela tinha, e que o embriagava totalmente. Iria se lembrar de cada toque, de cada beijo, de cada carícia, de cada sensação que sentia a cada vez em que Hinata lhe tocava, porque apenas esses pensamentos já eram o suficiente para fazer seus nervos fraquejarem de fúria, dor e solidão. Naruto achava que precisava passar por tudo aquilo – se sobrevivesse, Yugito estaria certa: ele teria um coração forte. Se não desse certo, pelo menos ele sabia que Hinata estaria a salvo daquele que a estava perseguindo de forma tão doentia.
Naruto tinha um plano. Um plano que tinha tudo para dar errado desde o começo, desde afastar Hinata de sua vida, até se confrontar com o alvo de sua ira naquele momento. Também desde o começo ele sabia que fazer com que Hinata fosse embora, o odiasse, era a única maneira de deixa-la a salvo do que um dia já havia sido a perdição da Hyuuga. Naruto estava perfeitamente ciente do que a ausência da garota faria com ele. Da dor que sentiria.
Mas, para falar a verdade, era bem pior do que ele imaginava.
Era o inferno.
Mas estava tudo bem. Naruto achava que, depois das coisas que dissera a Hinata, merecia passar por aquilo. Estava tudo bem porque ele estava disposto a dar sua própria alma para não correr o risco perder outra vida que, para ele, era mais preciosa do que a sua. A decisão já estava tomada. Em sua mente, as ideias embaralhadas, aos poucos, iam fazendo um sentido louco que apenas os corações desesperados conseguem assimilar. Naruto já havia perdido Jiraya e, para ele, era o suficiente. O loiro se recusava a perder Hinata também.
Com essa certeza, ele aceitaria a dor de bom grado, imaginando até que ponto seu coração ainda poderia latejar.
Aquele sofrimento seria a sua punição por magoar a mulher que amava.
–Te-Tenten?! – Hinata alarmou, surpresa e confusa.
A recém-chegada se encolheu um pouco. Estava ventando bastante, e a chuva parecia cair cada vez mais forte. Além do mais, o tom de surpresa e mágoa na voz de Hinata a deixara mais apreensiva do que já estava com aquele reencontro. Hinata parecia perturbada, confusa, aflita.
Compreendendo que aquilo provavelmente estava sendo demais para a garota, Tenten esforçou-se em sorrir gentilmente.
–Confie em mim, Hinata.
–E por que eu deveria fazer isso?! – a Hyuuga gritou, dando um passo para trás, ainda com os braços enlaçados sobre o peito. Ela abraçava a si mesma para se proteger do frio e para não desmoronar de vez.
Tenten suspirou. Ajeitou o guarda-chuva na mão esquerda, tentando proteger-se dos pingos que a chuva arrastava em sua direção.
–Porque fui eu quem sempre esteve ao seu lado, evitando que você caísse nas mãos erradas, esperando até que as mãos certas te amparassem. – Tenten tentou explicar — Quando o discípulo do Jiraya encontrou você, eu sabia que minha missão ao seu lado estava terminada.
–M-mi-missão?! – Hinata gaguejou, tremendo de frio com o vento frio que soprava, combinado à sensação gélida dos pingos da chuva forte em sua pele – Q-que missão?!
–Minha família serve a sua há gerações, Hinata. – Tenten explicou pacientemente, mantendo a expressão serena – Meus avós protegeram os seus avós, meus pais protegeram os seus pais. E eu... Eu protejo vocês.
–“Vocês”?! “Vocês”, quem?! Você conheceu meus pais?!
–Apenas seu pai. – Tenten esclareceu.
–Eu tenho um pai?! – Hinata grunhiu, sentindo seu estômago se agitar de maneira enjoativa. O que diabos estava acontecendo ali?
Tenten permaneceu em silêncio. Não era hora de explicar aquelas coisas; estava fazendo frio ali fora, suas botas estavam encharcadas, e só de pensar na distância que teriam que percorrer para chegarem até a mansão em que estava instalada, sentia-se cansada. A casa que os Hyuugas tinham naquele país não era usada há muito tempo, mas nela ainda haviam empregados que a mantinham limpa regularmente e seguranças que protegiam os objetos de valor. Ela mal via a hora de poder tomar um banho quente, se atirar na cama macia que a esperava, e, principalmente, de ver o olhar tranquilo de seu protegido ao receber a noticia de que Hinata estava de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído.
Hinata fitou a moça parada a sua frente com uma expressão que denotava pânico e confusão. Tenten estava diferente, e não apenas na maneira de se vestir. A voz dela soava macia e controlada, seus movimentos eram suaves e elegantes, contrastando com as lembranças de Hinata, em que Tenten parecia ser uma adolescente desengonçada. A moça a sua frente em nada parecia a amiga com quem Hinata convivera durante muitos anos. A Tenten que estava a sua frente naquele momento era uma mulher bonita e segura, que a fitava com tranquilidade e seriedade.
–Sim. – Tenten respondeu – Você tem.
Hinata piscou, surpresa. Ela tinha um... pai?
UM PAI?!
–Você ainda não me disse quem mais está envolvido nisso. – Hinata protestou, mantendo distância de Tenten.
–Entre no carro ou vai pegar um resfriado... – Tenten estendeu a mão para a morena, mas Hinata se desviou do toque dela.
–Quem mais?! – a Hyuuga insistiu.
A moça suspirou. Não se lembrava da amiga sendo teimosa e geniosa daquele jeito. Desde o começo ela sabia que Naruto e aquele bando de loucos seriam uma péssima influência para Hinata.
–Eu protejo a sua geração, Hinata. Protejo você, seu primo e sua irmã. – Tenten falou, por fim.
–O-o-o q-q-quê?! – Hinata gaguejou, parte porque seus dentes batiam pelo frio, parte porque não conseguia organizar as ideias em sua mente de forma a formular uma pergunta.
–E aí, Pucca. – uma voz masculina soou pela rua.
Num movimento que Hinata não conseguiu acompanhar, Tenten atirou um punhal na direção de Sasuke, fazendo com que o moreno erguesse a mão para segurar a arma poucos centímetros antes de lhe atingir a testa. Hinata arregalou os olhos, não só pelo perigo, mas também porque ela sequer viu Tenten tirar a mão do bolso para atirar o punhal. Parecia que a moça sequer havia se mexido.
–Olá, Uchiha. – Tenten cumprimentou, virando de lado para encarar Sasuke, que parecia ter surgido do nada na calçada de Naruto. Ele estava todo molhado, então deveria estar ali há muito tempo.
Tenten manteve a expressão serena enquanto fitava o moreno. Parecia que nada era capaz de abalar a máscara profissional que ela mantinha estampada em seu rosto.
–Perigosa, como sempre. – Sasuke sorriu minimamente, brincando com o punhal entre os dedos.
–Presunçoso, como sempre. – Tenten rebateu, sem dar a mínima atenção ao sorriso de ironia que o rapaz exibia.
–Preciso de um minuto a sós com minha discípula. – ele sorriu, venenoso.
Por um momento, Hinata viu a expressão tranquila de Tenten ser abalada. A moça olhou para Sasuke e em seguida para Hinata, o rosto marcado por uma indignação que ela logo tratou de disfarçar.
Hinata suspirou. Por que é que todo mundo que ela conhecia odiava Sasuke?
–Você tem cinco minutos. – Tenten disse para ele, afastando-se dos dois e caminhando até a limusine. Mas em vez de entrar, ela se manteve de pé ao lado do veículo, observando atentamente Hinata e Sasuke.
Hinata não se conformava com o que estava acontecendo. Mais uma vez ela estava sendo atirada no desconhecido, sendo forçada a mudar, sem compreender nada do que se passava ao seu redor. Lhe parecia que todas as pessoas se achavam no direito de manipulá-la.
Se era para ir embora, Hinata preferia ir para a casa de Ino ou de Gaara, de Sakura, de Kiba, de QUALQUER PESSOA. De repente, até morar com Sasuke lhe pareceu uma ideia atraente; era preferível conviver com aquele homem problemático a ter que ser forçada a atirar-se novamente em uma vida que ela não conhecia, com pessoas que mentiram para ela durante toda a sua vida. E, apesar de confusa, ela não tinha a menor curiosidade de conhecer aquela gente de quem Tenten havia falado. Pai, primo, irmã? Ela nunca tivera isso. Sua família eram as pessoas que a haviam acolhido com tanto carinho, ajudando-a a superar seus medos e traumas. Sua família era a pessoa que a fizera descobrir o amor – e a si mesma. Hinata já tinha uma família. E, do fundo de seu coração, ela achava que aquilo bastava.
Ela queria ficar e lutar. Lutar por sua família, por seu amor. Ela recolheria os cacos de seu coração despedaçado, engoliria sua dor. Cumpriria a promessa que havia feito a Jiraya e cuidaria de Naruto. Parecia o plano perfeito, e talvez até fosse. Exceto pelo fato de que Naruto a queria fora de sua vida. Para sempre.
E lembrar das palavras duras que ele havia lhe dito era doloroso demais.
–Eu avisei, Hyuuga. – Sasuke falou, mantendo a voz baixa.
Hinata se virou para ele, esperando ver a expressão de deboche que ele provavelmente exibia naquele momento, mas, para a sua surpresa, Sasuke estava sério. Sério como ela nunca o havia visto antes.
–A morte de Jiraya mudou tudo. – ele prosseguiu – Para todos nós. E para sempre.
–Eu sei... – ela murmurou, sentindo os olhos arderem. Ah, não, não poderia chorar. Não se permitiria chorar, não podia chorar. Mas seu coração doía, batia descompassado, latejando. Logo quando pensava que estava curando suas próprias feridas, Naruto pisava em suas esperanças sem hesitação ou receio. E doía, doía tanto...
–Escute com atenção. – Sasuke falou, olhando fixamente para o rosto da Hyuuga. Ele via as lágrimas se acumulando nos olhos perolados a sua frente, mas, para o Uchiha, aquilo não significava nada. Logo ele ensinaria à Hinata que lágrimas não a levariam a lugar algum – Vá com a Tenten. Não discuta, não proteste. Apenas vá.
–Mas eu... eu não quero! Não posso! – Hinata respondeu, aflita.
–Deixa eu adivinhar o que aconteceu. – Sasuke disse, fitando-a seriamente – Naruto disse umas tantas coisas horríveis pra você, e te fez sair correndo, magoada, confusa, com raiva... Estou enganado?
Hinata encarou o Uchiha com uma expressão confusa. Balançou a cabeça levemente, negando.
–Claro que não estou enganado. – Sasuke continuou – Eu praticamente inventei essa tática. Foi a mesma coisa que eu fiz com a Sakura, antes de descobrir que sou fraco demais pra ficar longe dela. – falou, sorrindo minimamente – Acredite, não vai demorar muito pro Naruto perceber isso também.
–O que... Do que você está falando, Sasuke?! – Hinata perguntou, já beirando a uma crise histérica.
–Eu sei que o Naruto está agindo sozinho. Nesses dois dias em que ele sumiu, todos pensavam que ele estava sofrendo por ai... Mas eu sabia que havia algo errado. Então, depois do enterro do Jiraya, eu vim até aqui – falou, apontando para a casa do loiro – pra tentar descobrir alguma coisa.
A garota olhava para Sasuke cada vez mais confusa, sentindo-se aflita ao perceber que Tenten os encarava com impaciência.
–Quando cheguei, Yugito estava desmaiada e toda ferida no chão da sala. Havia presenças escondidas por todo lugar. E achei um pacote na caixa do correio, endereçado a Naruto. Foi Shino quem enviou. – o moreno prosseguiu.
–Sasuke, quer andar logo com isso?! – Hinata sibilou, mas parou por um instante – Espera... Shino? Acho que ouvi esse nome antes...
–Ele é um amigo nosso... um investigador, acho que podemos chama-lo assim. – o Uchiha sorriu, o que fez Hinata perceber que o tal Shino não era investigador coisa nenhuma. Deveria ser mais um dos conhecidos perigosos de Sasuke – Ele enviou alguns relatórios para o Naruto. Fotos, recortes de jornais, laudos médicos. Papéis e mais papéis... todos relacionados a um homem chamado Orochimaru.
Nesse momento, mesmo sob a chuva forte que caia, Sasuke pôde ver que os olhos de Hinata se arregalaram, exibindo uma expressão de pavor.
–O QUÊ?! – ela guinchou, confusa, sentindo algo agitar-se de forma enjoativa e desesperada dentro de si.
–Seu padrasto está vivo, Hinata. – Sasuke falou, por fim – Ele está atrás de você.
Hinata deu um passo para trás, os olhos levemente embaçados pelo medo que latejava em seu corpo. Aquilo era impossível. Aquele homem não podia estar vivo.
–Impossível. – ela murmurou, fazendo eco aos seus pensamentos, os olhos arregalados fixos em Sasuke.
–Não é só isso. Ele está atrás do Naruto também.
–Do Naruto?! Por quê?! – ela gritou.
–Ssshhh.... – Sasuke pediu – Quer que sua nova guarda-costas arraste você daqui? – debochou.
Mas Hinata não estava prestando atenção ao tom de ironia de Sasuke. Tudo em que ela conseguia se concentrar era o fato de que seu padrasto estava vivo. Atrás dela. Atrás de Naruto.
–Se ele está atrás do Naruto, eu não deveria voltar e... – ela começou, dessa vez mantendo a voz baixa, mas Sasuke logo tratou de interrompê-la.
–Não. Viu só porque ele teve que dizer aquelas coisas e agir daquela maneira? Você é teimosa e geniosa, Hyuuga. Além do mais, se você ficar aqui, há um grande risco de que eles ataquem Naruto e façam com ele o mesmo que fizeram com Yugito.
–O que eles fizeram com ela? – Hinata perguntou.
Sasuke desviou o olhar da garota, sem querer responder àquela pergunta. Ainda havia muita coisa a ser esclarecida, e ele não queria correr o risco de deixar vazar dados desnecessários.
–Por que ele está atrás do Naruto?! – Hinata perguntou, cada vez mais preocupada, entendendo que ainda havia coisas das quais o Uchiha ainda não queria falar.
Ele suspirou.
–Não sei. E nosso tempo aqui acabou. – o moreno falou, vendo que Tenten se reaproximava – Não demorarei a entrar em contato, prometo. – ele falou, e parecia sincero – Vá, organize os pensamentos, reflita. Não faça uma cena, a casa de Naruto está cercada. – ele revelou, vendo Hinata arregalar ainda mais os olhos — Seja forte. Assuma o controle da sua vida. Eu vou ensinar você a fazer isso. – prometeu — E não o odeie. – pediu, referindo-se a Naruto.
–Por que não? – Hinata murmurou, baixando os olhos.
O Uchiha suspirou novamente. Naruto havia conseguido fazer um grande estrago. Pensando em suas próprias atitudes até ali, Sasuke achava que havia servido de péssimo exemplo.
–Porque ele quer proteger você. – ele falou, vendo Hinata erguer o rosto para fita-lo – Logo vou aparecer na sua nova casa, discípula. – enfatizou, e sorriu, irônico.
Hinata não sorriu de volta. Não entendia nada do que estava acontecendo e se recusava a acreditar que seu padrasto estava vivo. Se recusava a acreditar que, por algum motivo, ele estava atrás de Naruto. E, principalmente, não entendia porque Sasuke estava, de alguma maneira, parecendo defender o Uzumaki.
–Até breve. – o Uchiha falou baixinho, antes de dar às costas a Hinata e afastar-se dali.
Quando Sasuke deu a partida no carro, distanciando-se da casa de Naruto, Hinata viu Tenten parar diante de si, estendendo a mão e sorrindo.
–Vamos? – a mulher chamou gentilmente, oferecendo abrigo em seu guarda-chuva.
Hinata estreitou os olhos. Cerrou os punhos, passando direito por Tenten e andando na direção da limusine. Já podia sentir seu rosto latejar, e quase sorriu ao se lembrar de que Sasuke, no final das contas, estava sendo um mestre melhor do que ele mesmo era capaz de imaginar.
Tenten suspirou com a atitude da Hyuuga, embora já esperasse por aquilo. Em silêncio, ela acompanhou Hinata até a limusine, vendo-a caminhar a sua frente.
Quando enfim pararam ao lado do veículo, Tenten colocou a mão na porta, prestes a abri-la, mas a voz de Hinata logo se fez soar pela rua.
–Ei, Tenten. – a Hyuuga chamou, vendo a moça se virar distraidamente para encara-la.
–Sim? – Tenten falou, e só então pôde ver as veias destacadas do rosto da garota. Mas já era tarde demais.
Sem hesitar, Hinata a atingiu no abdômen, jogando-a de encontro ao capô da limusine. O corpo de Tenten quicou no veículo e esparramou-se no chão, fazendo a água acumulada nos asfalto espirrar por todo canto e o guarda-chuva que antes ela segurava voar para longe. Tentando não desmaiar com a dor do impacto, Tenten colocou as mãos na cabeça, piscando, fixando os olhos no rosto da Hyuuga. Parecia haver três Hinatas a sua frente, ou seriam quatro? Não sabia dizer. Sua visão embaralhada e a dor latejante que a atingia era tudo o que Tenten sentia naquele momento.
–Senti saudade, amiga. – Hinata ironizou, antes de abrir ela mesma a porta da limusine e entrar no veículo.
Tenten se levantou com dificuldade, praguejando mentalmente sobre aquela situação. Atordoada, ela apoiou-se na limusine por alguns segundos, a fim de se recuperar. Que diabos haviam ensinado a Hinata no meio tempo em que esteve longe?
Arfando de dor, Tenten entrou no veículo, mas logo deparou-se com a expressão paralisada de Hinata, que fitava o rapaz que estava sentado lá dentro, perto da janela.
Sorrindo de forma serena, o homem estendeu a mão para a recém-chegada.
–Muito prazer. Sou Hyuuga Neji. Seu primo. – ele disse, vendo Hinata arregalar os olhos para ele.
“Bang bang... Ele atirou em mim
Bang bang... Eu caio no chão
Bang bang... Aquele som terrível
Bang bang... Meu querido atirou em mim”
Bang Bang, Nancy Sinatra
O caminho “de volta para casa” foi silencioso, embora muitos questionamentos se acumulassem na mente de Hinata. Ao lado de Neji e Tenten, sentada no banco grande e macio da limusine, sua cabeça, estranhamente, não se detinha ao fato de estar sendo novamente levada para um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas, um outro mundo desconhecido. Obviamente aquilo lhe atiçava a curiosidade, porém, naquele momento, não era para isso que Hinata ligava.
Enquanto a chuva caia la fora, os olhos da morena se fixavam nos pingos que faziam desenhos estranhos no vidro da janela da limusine, reluzindo de encontro às luzes que brilhavam na cidade. Sua expressão não demonstrava nada. E ela conhecia aquela sensação: era o familiar torpor que a livrava do pesadelo de ter que encarar sua dor. Porém, aquele sentimento parecia ter lhe pertencido em uma vida passada. Hinata se recusava a voltar a ser a garota que não vivia, não sentia, que apenas definhava desesperadamente por dentro. Não poderia se esquecer de tudo o que vivera e aprendera. Mesmo que seu coração estivesse ardendo, sangrando pelas punhaladas dolorosas das palavras que a magoaram. Mesmo que desejasse voltar correndo, dizer umas tantas coisas, dar uns tantos gritos e sacolejos, ela sabia que de nada adiantaria. Talvez, aquilo fosse melhor.
Ela tentaria se convencer disso dali em diante. Porque as palavras de Naruto ainda martelavam em sua mente como as badalas de um sino que indicavam a hora de partir.
Enquanto a chuva caia, e seus olhos se fixavam nos pingos que faziam desenhos estranhos no vidro da janela da limusine, Hinata tentava não voltar a ser a mesma garota que era quando havia sido resgatada por Naruto. Afinal, seria uma grande ingratidão renegar o fato de que as pessoas daquela família maluca haviam transformado sua vida para sempre. Mas era impossível deter o torpor automático que a invadia, o gosto amargo de humilhação e dor na boca que a tragava como ondas de um mar bravio. Em meio a toda aquela confusão, porém, surgia Sasuke, como um bote salva-vidas em forma de mestre e, por incrível que pareça, de amigo. Hinata não sabia o que pensar sobre as palavras que ele lhe dissera antes de ir embora. O Uchiha pedira que ela não odiasse Naruto. Que o loiro apenas queria protege-la. Protege-la de que? Por que o Uzumaki precisaria dizer todas aquelas coisas horríveis a ela?
Hinata não sabia, e pelo que parecia, Sasuke também tinha suas dúvidas. Ela confiaria no Uchiha por enquanto, não porque aquela era a sua melhor opção, mas porque não havia nada mais que pudesse fazer. E principalmente porque, naquele momento, estava a solta uma ameaça maior do que ter seu coração estilhaçado por Naruto.
Seu padrasto estava vivo. Vivo e atrás dela. E de Naruto.
Por quê? Por que aquele homem ainda estava vivo, por que ainda a perseguia, por que estava atrás de Naruto? Sasuke dissera que a casa do Uzumaki estava cercada. Seriam os homens de Orochimaru? Será que Sasuke estava certo? Naruto queria apenas protege-la do maior de todos os seus temores, do maior de todos os seus traumas? Orochimaru era, de fato sua lembrança mais perigosa e que ela tentava, a todo custo, enterrar profundamente em um lugar de seu passado onde não gostaria nunca de voltar. O que diabos tudo aquilo queria dizer? Será que aquele inferno nunca teria um fim?
Tentando voltar seus pensamentos para o momento presente, Hinata novamente se atentou ao silêncio desconfortável que se instalava no interior da limusine.
Quando seu primo estendeu a mão, cumprimentando-a gentilmente, Hinata ficou paralisada, apenas encarando-o com a expressão incrédula de quem iria esmurrar qualquer um que ousasse abrir a boca para falar qualquer coisa. Neji pigarreou e recolheu a mão, e disse que Hinata deveria estar cansada e que não tardaria até que chegassem até a mansão em que estavam instalados.
Isso mesmo. Mansão.
A morena apenas assentiu, sem dar muita atenção ao rapaz. Aquilo era surreal. Talvez ela acordasse a qualquer instante, e pudesse rir de todo aquele pesadelo. Ela se apegaria àquela esperança, porque era impossível aceitar que havia perdido uma família e, repentinamente, ter ganhado outra.
Um pouco constrangido, Neji havia dito a ela que agora teriam muito tempo para acertarem as coisas e descansarem. Hinata não sabia o que ele queria dizer com “acertar as coisas”, mas descansar era tudo o que ela queria. Estava reprimindo o impulso de desmaiar desde o que acontecera na casa de Naruto. Descansar não seria apenas bom – seria necessário.
Querendo, por apenas um instante, esquecer-se de tudo aquilo, enquanto a chuva caia lá fora, Hinata novamente fixou os olhos nos pingos que faziam desenhos estranhos no vidro da janela da limusine, reluzindo de encontro às luzes que brilhavam na cidade.
Depois de alguns minutos de viagem, ela já não sabia dizer o que a pegara primeiro: o sono ou a exaustão. Tudo o que Hinata viu antes de fechar os olhos foram os desenhos estranhos e brilhantes no vidro da janela. E depois, a escuridão.
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