Paralelos

5 Montanhas, cavernas e cartas - Parte 2


Notas iniciais
Saudações! *olhando pro canto com uma expressão penitente e esperando que não tenham esquecido de mim* Quero pedir desculpas pelo sumiço, esse período realmente não foi muito fácil na faculdade e eu acabei ficando sufocada/desmotivada demais pra escrever no raríssimo tempo que eu tinha de folga. Espero que ainda se lembrem da história. Minha gratidão imensurável a quem está por aqui ♥

Meu coração palpitava enquanto seguia pela caligrafia de Eleanor sem conseguir ler uma palavra sequer. Como usualmente acontece com pessoas que estão imersas completamente em algo, tomei um susto maior do que o esperado quando Ana tocou meu ombro.

—Ei, calma – levantou as mãos para mim, como um sinal de paz. – O que é que você tem aí na sua mão?

—Nada – respondi instintiva e estupidamente porque ela já tinha visto o envelope. –Nada importante. Eu achei isso amassado no meu bolso.

Machuquei a carta em minhas mãos para corroborar minha história.

—Tudo bem – ela me lançou um olhar perscrutador por uns instantes e depois descartou o assunto com um dar de ombros. – Você quer subir comigo? Preciso de ajuda.

Aquiesci e a segui pela trilha, sentindo uma vontade absurda de poder estar sozinha para ler minha carta. Dobrei-a ao meio duas vezes para que coubesse em meu bolso. Chegamos à entrada de uma caverna, a luz do entardecer a iluminava tepidamente, mas não havia nada que ela pudesse fazer quanto a escuridão mais adiante.

—Você quer entrar aí? Jura? – ergui uma sobrancelha.

—Não seja uma criança, Lia. Eu trouxe lanternas. Esses capacetes protetores legais – mostrou-me dois capacetes com lanternas acopladas. Parecidos com aqueles que Jay Garrick usava, falei isso para Ana e ela riu, animada.

A sensação maravilhosa que eu sentia ao ficar em casa a tarde toda, lendo, escrevendo ou vendo filmes deveria ser a mesma que Ana sentia quando explorava lugares escuros e esquecidos. Paralelos era uma cidade escura e esquecida, ela não poderia ter nascido em um lugar mais apropriado. Essa ideia me fez pensar naquilo que me dissera: o lugar que nascemos influencia quem somos? O lugar é escolhido conforme a pessoa ou a pessoa é escolhida conforme o lugar? Essas coisas são predeterminadas ou alguém só chacoalha um pote de grãos e cada um cai em um local aleatório?

—Aqui mais duas lanternas porque o capacete não é o suficiente. Carregue essa maleta, por favor, eu levo esta.

Obedeci às ordens e adentramos as trevas. Confesso que estava um pouco desconcertada com a escuridão e o silêncio, porém a tranquilidade da minha amiga me fez reprimir esse sentimento. Eu sempre fingia ser mais corajosa do que realmente era perto de Ana. Foi assim que assisti a vários filmes de terror e tirei as rodinhas da bicicleta: sempre olhando para ela e vendo o quanto tudo parecia que ia ficar bem.

—O que exatamente você espera encontrar aqui? – questionei.

—A resposta para a vida, o universo e tudo mais? Sei lá. Estou de férias, não estou colocando muita pressão nisso. – mesmo naquela péssima iluminação que recaía sobre seu rosto, ela continuava deslumbrante.

Demorei uns instantes para digerir aquela informação.

—O que? – minha voz reverberou pela caverna. – E a sua bolsa para pesquisa? Toda história de encontrar as raízes da existência de Paralelos?

Ana suspirou e me encarou como a feição de uma adulta que precisava explicar para uma criança que fadas não existiam.

—Lia, você precisa de significados profundos para as coisas. Eu só queria explorar a montanha, mas eu sabia que você não viria comigo se não tivesse algo de extraordinário por trás disso.

Parei de andar e deixei meu queixo cair.

—Não acredito que você me manipulou dessa forma, sua...

—Gênia do mal incrivelmente sexy? – interceptou meu xingamento.

—Então nós estamos aqui nessa caverna escura fazendo incrivelmente nada? – minha voz saiu um pouco aguda de surpresa. Às vezes eu esquecia o quanto aquela garota me conhecia tão bem. Bem o suficiente para me tirar de casa quando fazia meses que minha rotina incluía somente dormir, acordar e fitar um espaço vazio no intermédio entre essas duas coisas.

—Nem tudo precisa ter um propósito absurdamente incrível e predefinido. Aprecie as pequenas aventuras, Lia – sorriu e continuou andando, mas não a segui.

—Admita – falei e ela voltou-se para me olhar. – Vamos, admita logo.

—Que eu sou uma gênia do mal incrivelmente sexy? Já falei isso, onde você estava com a cabeça enfiada?

—Admita que voltou a Paralelos por causa de mim. Não tem nenhum outro motivo para estar aqui.

Tomou fôlego e se aproximou de mim novamente.

—A ideia de estudar Paralelos é mesmo genial! Talvez eu faça isso um dia, quando tiver uma boa equipe...

—Ana. – pronunciei seu nome em tom de ameaça.

—É tão errado assim eu estar preocupada com minha melhor amiga? – deixou que os ombros caíssem, cedendo.

—Não venha com condescendência para o meu lado – retruquei com acidez na voz.

—Precisar de ajuda não é fraqueza, sua cabeçuda. Não sei em que mundo fantástico você vive onde as pessoas não precisam das outras para se recuperar de momentos ruins, mas não é bem assim que funciona. Claro que nós somos fortes e podemos ressurgir como uma fênix blá-blá-blá – colocou um tom grave na voz e eu tive que reprimir que meus lábios se repuxassem em um sorriso. – mas é muito mais fácil quando não precisamos fazer isso por conta própria. Não voltei porque me senti na obrigação, não é assim que amizades funcionam. Eu voltei porque simplesmente não tinha outra opção a ser considerada. Você come quando está com fome, você dorme quando está com sono, você faz de tudo para que sua melhor amiga fique bem quando ela não está. Não tem outra explicação.

Desviei o olhar e fiquei um tempo em silêncio. Me dê brigas e eu sei como vencê-las. Me dê gentileza e eu não vou conseguir lembrar nem ao menos como articular palavras.

—Ai pelo o amor de deus – bufei. – Se você pelo menos estivesse bêbada, ia ter uma desculpa para estar falando esse monte de besteira sentimental. Você está sóbria. Que lamentável.

Andei com pressa, ultrapassando sua posição, para que ela não visse que eu estava sorrindo.

**

Caminhamos e conversamos por um bom tempo, iluminando as paredes mais por curiosidade do que por expectativa de encontrar algo. Eu estava tentando ao máximo ser uma boa companhia, mas a carta em meu bolso era como uma coceira que eu não podia saciar e isso fazia com que eu me perdesse constantemente no que estava sendo dito. Conforme avançávamos, o frio aumentava gradativamente. Estava prestes a pedir para voltar quando ouvimos uma voz.

Ou melhor, vozes.

Estancamos onde estávamos.

Não se podia compreender nada, eram ruídos desconexos. Como se alguém brincasse trocando as estações de rádio rapidamente.

Quando se depara com coisas impossíveis, nosso corpo congela. O coração retumba e parece que tudo que somos capazes de ouvir é o nosso sangue latejando. Eu tinha uma ideia do que estava acontecendo, mas isso não foi o suficiente para me poupar dessa reação.

—Você está ouvindo isso? – Ana sussurrou e agarrou meu pulso. Pela luz que trazíamos conosco, vi que estava apavorada.

—Sim – engoli em seco e fiz um esforço absurdo para organizar minha mente e lembrar o que já tinha aprendido com Eleanor: Paralelos possuía uma ruptura no espaço-tempo. As lendas diziam que os antigos viajavam até as montanhas para se comunicarem com espíritos e deuses. Quantas linhas temporais estavam passando por nós naquele momento? Quantos ecos de pessoas que poderiam estar mortas ou ainda nem ter nascido?

—A-acho que devemos voltar – gaguejei, contudo não conseguimos mover um músculo.

Meu olhar foi atraído para algo no canto da parede, alguns passos mais a frente. LIA. Meu nome outra vez. Reprimi a vontade de correr até lá. Eleanor.

O alarido ficou mais alto, como se alguém aumentasse o volume do rádio.

Libertei meu pulso do aperto de Ana e segurei sua mão. Corremos até chegar à boca da caverna mais uma vez; ofegantes e com as pernas bambas. O pulsar do meu coração continuava a ser a única coisa que conseguia ouvir.

Somente naquele momento percebi o negror do céu. Nuvens carregadas moviam-se lentamente e um relâmpago perpassou a escuridão. Um forte vento frio jogou areia em nossos olhos.

—Que diabos... – o rosto de Ana não tinha uma gota de sangue, apesar do esforço da corrida e vi que suas mãos tremiam. Sua voz foi interpelada por um trovão.

O interlúdio que antecede a tempestade é uma das magias mais fortes do universo. Um medo ancestral desperta dentro de nós, mesmo que estejamos confortáveis em nossa casa, mesmo que sejamos amantes da chuva, algo tão antigo quanto a raça humana respira em nossa nuca. Na floresta, esse momento era mais carregado de energia do que em qualquer outro lugar. As árvores dançam. As folhas nos galhos combinadas com folhas secas no chão arrastadas pelo vento cumprem o papel de dois instrumentos distintos. O ar cortante na pele, o cheiro da terra antes da chuva, uma vibração tão elétrica que eu podia senti-la em cada membro. Por fim, os pingos gélidos.

Essa não era uma tempestade que começava de forma suave, era mais como uma daquelas onde as nuvens diziam “seguinte, estamos muito pesadas, aguentem isso aqui” e jogavam uma bola na nossa cara.

Eu e Ana corremos até onde havíamos deixados sua moto. O percurso até chegar lá foi o suficiente para encharcar por completo nossas roupas. Com desalento, levei a mão até o bolso da calça e encarei em silêncio o papel fino e destruído, as letras reduzidas a borras de caneta ininteligíveis.

**

—Não me sinto confortável invadindo a propriedade alheia, mas acho que vamos ter que esperar a chuva passar – meus dentes tiritavam e eu tive que fazer um esforço absurdo para concluir a frase.

—Que porra foi aquela? – Ana exclamou, os olhos arregalados nas órbitas. Não parecia se importar com o frio, mas eu podia ver os pelos dos seus braços eriçados. Talvez de medo.

—Não sei. Vento? Eu vi uma vez que as cavernas podem ter espécies de dutos e fazem barulho... – argumentei.

—Aqueles não eram burburinhos de vento, Lia. Eram vozes humanas. Eu ouvi! – berrou, gesticulando ferozmente.

—Talvez seja coisa da nossa cabeça, ficamos assustadas e nosso cérebro interpretou como quis – insisti.

—Não foi isso que aconteceu. Eu ouvi.

Havia desespero em sua voz. Eu podia muito bem ter contado a ela sobre Eleanor, ela acreditaria. Não o fiz. Escolhi a mentira.

—Está sugerindo que a floresta é mal assombrada? Quer chamar um padre?

Abriu a boca para dizer algo, mas acabou por desistir.

No final das contas, a enxurrada não durou muito. Fiquei tremendo de frio enquanto Ana permaneceu ao meu lado com uma resignação no olhar que não pude interpretar. Quando a chuva estava razoavelmente mais fraca, subimos na moto e voltamos para casa. Minha mente divagava sobre meu nome escrito na caverna.

Eu sabia que voltaria no dia seguinte.

**

Como sempre, preciso de uma pausa. Pensar naquele dia é revivê-lo. Ainda consigo entreouvir os pássaros, a tonalidade exata do rosa no céu. Posso vislumbrar a fila de formigas e sentir a aspereza das pedras contra minhas mãos. O cheiro de terra invade minhas narinas como se eu ainda estivesse lá. Escrever uma história significa possuir os sentimentos de todos dentro dela. Viver o passado de todos os personagens, sentir seus medos, escolher suas roupas. Escrever é estar sempre apaixonado, mesmo não estando. É estar com frio, mesmo não estando. É estar aterrorizado, mesmo não estando. Relembrar uma história é diferente. Parte de você quer alterar os fatos porque, agora, você já sabe o final. Você enxerga todos os seus erros e precisa ressaltá-los ao invés de esquecê-los. Cada partícula do meu ser sentia tudo pela segunda vez, com a diferença de que agora tudo era mais claro. Aquilo que enturvava minha visão não existe mais e eu tenho todas as respostas (as que verdadeiramente importam), a história torna-se mais vívida do que nunca. Dolorosa também.

Em A insustentável leveza do ser, Milan Kundera fala sobre a crueldade da não repetição. Viver somente uma vez é o mesmo que não viver. A vida é um ensaio onde você não tem a chance de repetir falas. Não há como saber o que vai dar certo ou errado porque não temos nada com o que comparar. Estamos todos jogando com a sorte e fingindo que sabemos de alguma coisa.

Passeio com a ponta dos dedos, sentindo textura da carta de Eleanor.

—Não quero abri-la – murmuro para mim mesma. E para você.

O caminho até o presente momento consistiu em pequenas cutucadas em um ferimento, mas ler essa carta será um pouco mais incisivo que isso.

Não sei se estou pronta. Não quero chorar agora porque sinto que assim que a primeira lágrima se libertar não poderei conter as outras. Essa parte eu não falo em voz alta e te contar isso parece uma traição a mim mesma.

Entretanto, era preciso abrir – carta e ferida – porque uma promessa fora feita.

Abandono compromissos que faço comigo mesma sete vezes por dia, mas esse era importante demais para ser negligenciado.

—Escreva – ela dissera – ou eu vou desaparecer.

**

—Quer que eu durma com você hoje? – indaguei. Ana permanecia pálida e suas sobrancelhas franzidas entregavam que estava tentando desenrolar algo entremeado em sua cabeça.

—Não precisa. Só quero tomar um banho e dormir – me concedeu um sorriso fraco e nos despedimos com um abraço.

Não dormi naquela noite. Quando o ponteiro indicou seis da manhã, já estava vestida com legging, uma blusa qualquer, jaqueta e tênis. Enchi três garrafinhas de água e coloquei em uma mochila. Por sorte, não tinha devolvido as lanternas e guardei-as também. Saí escondida na minha bicicleta, temendo que Ana estivesse acordada e perguntasse onde eu estava indo. Era uma manhã nublada e fria, os passarinhos cantavam preguiçosamente e eu sentia um repuxão no estômago. Ansiosa. Aterrorizada. Expectante.

Na trilha, me amaldiçoei por ter 25 anos e nenhum carro (nunca achei necessário em Paralelos e não tinha dinheiro para manter um em São Paulo), a tempestade da noite anterior deixara tudo mais difícil e eu acabei me esbarrando na lama uma vez ou outra. Deixei a bicicleta no mesmo lugar que tínhamos guardado a moto e comecei a subir a montanha.

Foi preciso muito mais coragem para entrar na caverna pela segunda vez. Eu estava sozinha e sabia o que me esperava. Respirei fundo para controlar meu anseio bobo e segui em busca do meu nome no chão.

Ouvi as vozes e soube que estava me aproximando.

Quando encontrei, minhas expectativas foram atendidas. Um pouco mais ao lado, enroscada entre uma pequena elevação no chão e a parede, estava outra carta.

**

“Querida Lia,

Apesar de a sua cidade ser uma rachadura no espaço-tempo, o Universo é uma coisa selvagem e volátil. Não podemos confiar tanto nele. Eu me encontro constantemente em dois lados da moeda: aquele que acredita que o Universo não se importa e aquele que consegue ver uma participação dele em cada pequena desventura da vida. Não acho que tenha sido por acaso que nosso contato tenha sido interrompido, talvez você precisasse de um tempo para adormecer a ideia da minha existência. Como um pão, sabe? Precisamos deixar que ele descanse. Espero que tenha entendido que eu sou real.

Dica: dizer meu nome em voz alta pode ajudar na compreensão, eu disse o seu várias vezes.

Só espero que não tenha contado para ninguém sobre mim, seu tempo ainda não está preparado para esse tipo de coisa, isso atrairia o tipo perigoso de atenção. Eu errei miseravelmente nos meus cálculos temporais. Considerando a sua Terra uma projeção da minha, eu desejava estabelecer contato com o futuro, isto é, após 4.016. Fiz todos os cálculos (não vou perturbá-la com eles) e esperava poder ser ouvida e vista. Entretanto, esqueci a vertente do tempo. Se alguém parado em outro planeta pudesse ver a Terra, a veria no passado. Quanto mais distante, menos próximo com a data em que você, na Terra, estaria. Confuso, eu sei, mas se você for um pouco sonhadora, vai entender. Meu erro foi esquecer esse detalhe e mandar a transmissão para a condição temporal contrária em que me encontrava. Ao invés do futuro, encontrei o passado. Portanto, estamos coexistindo, nós duas, vivas ao mesmo tempo, mas… Eu também sou de um futuro que pode ou não ser o seu. Por “seu futuro” quero dizer o futuro da sua Terra. Mais fácil de compreender? Espero que sim.

Quanto à existência das nossas Terras… O Universo é vasto, complicado e esquisito. Meus cientistas criaram essa teoria, mas nunca conseguiram comprová-la, não sei se seus cientistas já pensaram no Princípio Holográfico. Funciona dessa forma: somos ecos. Nosso universo observável pode ser uma sombra de outro que já nem existe mais. Os meus cientistas acreditam existir inúmeras Terras, acontecimentos se repetindo pela eternidade cósmica, mas você, Lia, mudou tudo.

Você falou em Doctor Who (eu acho) e isso, por mais que eu tenha procurado muito, não existe na minha Terra, comprovando que, mesmo que sejamos ecos, ainda mantemos nossa característica principal: somos únicos. Nenhum ser humano pode ser copiado.

Não quero tornar esta missiva muito difícil de entender, além do mais, ainda terei que copiá-la uma dezena de vezes, então encerro por aqui. Espero, com todo meu coração, que essas linhas consigam lhe encontrar. Tento restabelecer contato todos os dias, mas como já disse… Caprichos cósmicos.

P.s: Se ouvir ruídos pela sua casa, sou apenas eu lhe assombrando.

E.”

Dissociação de tempo e espaço é uma coisa engraçada. De alguma forma, você se torna alheio a qualquer coisa a seu redor. Não é como um esquecimento; é como se tudo mais nunca tivesse existido. De repente, não podia mais precisar quanto tempo fazia que eu estava sentada com as costas apoiadas na parede. Reli a carta milhões de vezes até que minhas pálpebras começaram a pesar, as aventuras da véspera e a noite em claro cobravam sua conta. Conforme as horas avançavam, esfriava e eu permanecia sentada em um lugar escuro, cercada por vozes longínquas de outras dimensões. Mas tudo bem, tudo bem. Tudo bem porque Eleanor dissera meu nome em voz alta várias vezes.

Adormeci.

**

Acordei com um sobressalto.

Demorei um tempo para lembrar onde estava, o coração acelerado no peito.

A carta de Eleanor ainda em minhas mãos.

A pilha de uma das lanternas tinha acabado e a outra piscou mais duas vezes antes de me deixar na mais completa escuridão. Entrei em pânico. Não fazia a mínima ideia de quanto tempo tinha passado dormindo. Tateei a mochila em busca do meu celular somente para constatar que estava descarregado.

Dobrei a carta e guardei no bolso da minha calça enquanto tentava articular um plano inteligente para sobreviver naquela situação. Eu sei que estou soando dramática, mas em minha defesa, eu estava sozinha em uma caverna. Quantas pessoas vocês conhecem que tenham passado pela mesma experiência?

O que sussurrava em meu ouvido e me dava arrepios era algo inerente ao ser humano cujo advento ocorreu junto com o início da vida e nos acompanhou até os dias de hoje. Uma constante universal. Algo que nos manteve cautelosos e passou a ser associado com a sobrevivência. Desativar esse mecanismo de defesa é tão inimaginável quanto alterar nossa evolução biológica para que possamos voar. Algo intrinsecamente associado à própria existência.

Medo.

E, principalmente, medo do desconhecido.

As vozes perduravam em sua cacofonia e eu sabiaque não eram fantasmas ou alucinações. Os ruídos eram inofensivos e nenhum mal se abateria sobre a minha vida, porém a racionalidade não é mais forte que milênios de evolução humana. Não pude evitar o calafrio que percorria minha espinha, a insistente vontade de olhar ao redor nem muito menos as batidas descompassadas do meu coração. Não interessava o quão segura minha estadia pudesse ser, ainda assim eu estava apavorada.

Coloquei a mochila nos ombros e saí voltei correndo para a entrada da caverna pela segunda vez, deixando a vozearia para trás. Ao chegar, fui abraçada pela escuridão noturna, somente um pouco menos opressora que o breu da caverna.

Eu dormi o dia inteiro?

Aquilo simplesmente não era possível. Minha boca estava com um gosto amargo e meu raciocínio lento demais. Só queria voltar para casa.

Atordoada e nervosa, desci a trilha quase correndo sem levar em consideração que ela estaria resvaladiça graças ao orvalho do crepúsculo e acabei escorregando, caindo de mau jeito em cima do meu pulso.

Voltei às pressas para a casa onde havia deixado a bicicleta somente para constatar que ela não se encontrava em lugar nenhum.

**

Minhas pernas estavam trêmulas e ainda não conseguia organizar meus pensamentos. Onde estava minha bicicleta? Quem passaria para pegá-la? Quem diabos roubaria uma bicicleta ali? Respirar começou a ser uma tarefa difícil e me vi às margens de um ataque de ansiedade. Não, aquilo não podia acontecer. Decidi que precisava desacelerar.

A casa era bonita, mas não exatamente luxuosa. Bem iluminada, ampla, teto alto. Alguém provavelmente aparecia para limpar toda semana. Confesso que eu esperava algo mais assustador levando em consideração todos os filmes de terror em lugares isolados que havia assistido. Entrar não foi tão difícil. Os donos talvez não estivessem tão preocupados com assaltos levando em consideração que toda a mobília era embutida na casa e que fora isso não havia mais nada ali. Provavelmente o lugar ficava vazio até o que próximo interessado em alugar aparecesse. Tudo era um pouco branco demais para o meu gosto, era como estar em um apartamento em uma grande cidade. Em minha opinião, as pessoas deveriam querer se sentir em uma casa na montanha. Eu provavelmente deixaria o lugar um pouco mais rústico, adornaria as paredes com pedras e não cerâmicas. Constatar isso me fez finalmente entender a decoração da minha casa. Sempre classifiquei meus pais como excêntricos, mas agora tudo fazia sentido. Não bastava o lugar, a moradia também tinha que pertencer a ele. Precisava ter gosto de Paralelos. Nesta casa em particular, eu poderia facilmente pensar estar em uma movimentada cidade caso os pássaros não me recordassem da floresta lá fora.

Eu estava mais tranquila, observar os detalhes das coisas ao meu redor me ajudava a equilibrar o ritmo da respiração. Havia luzes, um sofá confortável e uma porta para fechar atrás de mim. Quase inconscientemente, passei o tempo todo sentindo a carta sob a ponta dos meus dedos.

Meu pulso esquerdo doía então tentei usar uma toalha de mesa como tipoia, mas acabei falhando na tentativa de fazer um nó. Fui até a torneira da cozinha e lavei o rosto, usando somente uma mão como auxílio.

Ouvi o primeiro ruído.

Senti minha nuca esquentar automaticamente, como se fosse a resposta em um programa de computador. Institivamente, os dedos da mão não machucada pressionaram mais ainda a carta no meu bolso. Repeti mentalmente que nada poderia me machucar, Eleanor me dissera que somente ruídos eram transmitidos. Mesmo ela, tão inteligente, conseguira falar comigo através de uma imagem. Imagens não podem macerar ninguém fisicamente.

O contato não é fácil de ser estabelecido. Se ligações telefônicas podiam falhar, imagine a comunicação entre mundos. Tudo que eu ouvira havia sido uma estática então esperei por algo mais. O medo fora um pouco anuviado pela perspectiva de Eleanor finalmente estar conseguindo se comunicar comigo mais uma vez.

Eu me vira no espelho, mais velha e mais nova. A Lia errada nas duas ocasiões. Apesar disso, eu ainda não tinha conectado essas informações aos seus significados.

A ruptura não funcionava somente para outros universos e períodos de outros mundos. O passado e o futuro da minha cidade também ficavam vulneráveis ali, por esse motivo eu pude me vislumbrar idosa e, em outro momento, adolescente. A conexão temporal entre o mesmo mundo era mais forte e conseguia reproduzir mais do que meros ruídos e, naquela noite, eu estava prestes a descobrir que também era capaz de machucar.

Senti o ambiente ficar mais frio, como se uma janela houvesse sido aberta. Um nó se formou na minha garganta e eu meu estômago se agitou como se eu estivesse saindo de uma montanha russa depois de ter comido muita besteira. Eu odeio essas reações instintivas. Odeio não poder controla-las. Odiei o tremor das minhas mãos e meus joelhos instáveis quando andei de volta para sala.

Foi então que vi alguém ali, alguns passos a minha frente. Minhas pernas enfraqueceram e sentei no sofá, boquiaberta. Nenhum dos meus pensamentos foi racional naquele momento. Não pensei que aquele poderia ser um dos cientistas da Terra de Eleanor.

Era somente uma criança...

O garoto me olhou e seus olhos se arregalaram prontamente em sinal de reconhecimento. Ele também podia me ver. Sua aparência era limpa e impecável. Estava vestindo bermudas cinza; um colete da mesma cor por cima da blusa branca. Os cabelos escuros bem penteados e fixos em gel. Após o breve momento de espanto a me ver, sua tez pálida assumiu um ar apreensivo.

Eu estava com tanto, tanto medo. Não percebi naquele instante, mas meus olhos estavam encharcados e se eu piscasse, todas as lágrimas transbordariam.

Ele não parecia uma projeção. Eleanor, por mais que existisse em algum lugar, no meu mundo não passava de uma sombra e eu via isso através da sua imagem – uma espécie de saturação elevada, todas as cores com menos vida. Aquele garoto, no entanto, era real.

Levantei devagar. Em parte porque não sabia se meus joelhos estavam prontos para me sustentar, mas também porque tinha medo de que qualquer movimento brusco pudesse assustá-lo. Era como estar de frente a um animal selvagem, não sabemos se ele vai nos machucar, mas sabemos que ele tem o potencial para isso.

Meu rosto estava úmido das lágrimas geradas pelo meu nervosismo e minha mão permanecia trêmula quando a estendi para tocar o rosto da criança.

—Meu deus – deixei escapar uma interjeição metade surpresa e metade horror. Eu podia senti-lo. Tão real quanto a carta que a ponta dos meus dedos tocara um instante antes. Ele não estava gelado como, por algum motivo, imaginei que estaria. Era quente, vivo. Entretanto, de alguma forma, estava morto e eu sabia disso.

—Você não deveria estar aqui. Papai não gosta de fantasmas.

Aquela voz infantil repeliu meu toque como se eu tivesse acabado de tocar em um ferro em brasa. O menino falou aquilo como um conselho para alguém fazendo algo obviamente estúpido, havia um teor de maturidade em sua voz.

—Spettro! Você tem que ir embora – seu tom agora era aflito; talvez um pouco agoniado pela minha letargia. Pelo alarme em suas feições, eu deveria ter adivinhado que alguém mais poderia surgir a qualquer momento, todavia, estava atordoada demais para considerar essa possibilidade.

—Você é real – o fiapo de voz saiu esganiçado e eu quase não reconheci como minha – você está aqui. Mas isso... Não...

—Fantasma idiota! – o menino perdeu a postura educada e adulta para a sua idade e começou a soar como uma criança. Uma criança furiosa e assustada. –Ele vai bater em você! Vai bater em mim também! Vai embora!

Começou a atirar pedras em mim. Pedras. De onde elas vieram? Olhei ao redor e ainda estava na casa excessivamente branca. Encolhi-me e protegi meu rosto com as mãos. Segurei com firmeza uma das pedras. Tão logo senti que a torrente dolorosa havia acabado, voltei-me para fitar o garoto, então subitamente todo o cenário já não era mais o mesmo. A mudança era vertiginosa. Aos meus pés, folhas secas. Algumas dançavam ao redor do menino e ouvi um latido abafado. Olhei mais além e vi um cachorro preso por algumas cercas. Do lado do casebre para o animal, havia uma modesta moradia. A porta estava aberta. Uma silhueta avolumou-se no meio da penumbra.

—Ragazzo – o brado foi agressivo e ríspido. Consternado, a criança virou-se na direção da casa e saiu correndo. Eu tive vontade de fazer o mesmo. A fisionomia do homem era dura, algo que me fez temê-lo assim que pude distingui-lo no meio das sombras.

O homem do semblante assustador me encarou e não pareceu sentir medo, somente raiva.

—Eu já disse que vocês não me assustam! Não vou ter medo na minha própria casa, sua desgraçada! Saia daqui!

A sua língua enrolava bastante ao cuspir as palavras e, apesar de falar português, o sotaque italiano ainda era muito pesado. Se tivesse que chutar o ano em que estava baseado na familiaridade dos dois com a língua portuguesa, diria alguns anos após 1888, quando uma grande quantidade de imigrantes foi incentivada a vir trabalhar no Brasil. A coisa mais odiosa sobre isso é que tal ato foi impulsionado também para “embranquecer” a população.

Minhas pernas pareciam chumbo e eu não consegui a destreza de fazer meu cérebro mandar a informação de mova-se para o resto com meu corpo com agilidade suficiente. Estava aterrorizada, mas não sabia o que aconteceria se eu saísse do lugar. Onde, especificamente, eu estava? Ainda na casa branca demais, em 2016? Ou naquele lugar pitoresco que parecia ter saído de um livro de Jane Austen? Ao invés de me preocupar com o homem, minha atenção foi voltada para o galinheiro um pouco mais adiante. Algumas ovelhas pastavam livremente. Mas algo estava errado.

Você pode passar um grande intervalo de tempo sem notar que coisas essenciais ao seu redor mudaram. Isso acontece porque nosso cérebro já aprendeu a associar certos fatos e, quando não os vê, simplesmente pensa que estão implícitos.

A Via Paralela.

As montanhas.

Não estavam exatamente erradas. Simplesmente não estavam. No panorama, somente o contraste da escuridão do céu com o fulgor das estrelas e árvores. Mais ao longe, cercas e outros casebres. Várias fazendas, deduzi.

Fiquei tão atordoada pela nova descoberta que só percebi que o homem se ausentara quando ele retornou com uma arma de cano longo nas mãos.

Uscire!

Atrás dele, uma mulher se empertigou e murmurou uma prece rápida. O homem se benzeu e disparou a espingarda.

O primeiro tiro foi só para me espantar, mas não fiquei para descobrir se ele teria coragem de atirar verdadeiramente no alvo. Corri o mais rápido que pude na direção contrária; ainda ouvi o segundo disparo; a dor no meu pulso fora esquecida. Embrenhei-me na floresta densa sem reconhecer a trilha familiar que me trouxera até as montanhas. As montanhas que também não estavam mais lá, pensei com terror.

Minha visão estava completamente anuviada pelas lágrimas e eu colidi diversas vezes com troncos, mas recuperava o equilíbrio e continuava correndo, até que ouvi o barulho do ronco de um motor. Em seguida, pneus cantando e a luz de faróis. Identifiquei a moto vermelha e, então, Ana.

Caí no chão e senti minha face em chamas. Meu coração ribombava com violência e tossi por minutos a fio, o que dificultou a retomada do meu fôlego. Entrei em desespero quando o ar tornou-se mais essencial do que nunca e, mesmo assim, eu não conseguia sorvê-lo. Podia sentir as mãos de Ana em minhas costas e a rajada de vento em forma de túnel que ela soprava em meu rosto. Não sei quanto tempo ficamos ali, eu em posição fetal na terra úmida e ela ajoelhada ao meu lado. Quando, finalmente, fui capaz de normalizar o ritmo da minha respiração, comecei a chorar.

Agora, anos depois, posso mergulhar no sentido daquelas lágrimas e dizer o porquê de estarem ali. Elas eram fruto do cansaço, da descoberta de que talvez eu não estivesse segura. O medo de que o tempo em Paralelos fosse algo mais perigoso do que eu imaginava. Até aquele momento, a fenda temporal somente perturbara levemente meu espírito, todavia era tangível. Os fantasmas do tempo podiam ver e tocar; se podiam tocar, podiam ferir. Depois dessas concepções, veio o pânico de não conseguir ar para saciar meus pulmões. Somente passando por uma situação como essa uma pessoa pode entender o desespero. Subitamente, todas as células do seu corpo parecem exigir ar e entrar em pânico. Como em toda situação crítica, o correto é justamente fazer o contrário; permanecer calmo e encontrar a solução racionalmente. Imagine todas as partículas do seu corpo desesperadas e não conseguindo chegar à saída de incêndio devido ao pavor. Quando finalmente conquista-se a vitória da batalha, todo o corpo dói e o mais puro cansaço abata-se sobre o espírito. Tudo o que você quer é continuar deitada, somente respirando. Sentindo todos os nuances daquele pequeno e crucial ato. Inspirar. O cheiro de terra misturado ao aroma das árvores e o perfume de Ana. A dor no peito, o soluço entrecortado. Expirar. O tremor do meu corpo. O relaxamento dos músculos retesados.

Como eu disse, agora posso encontrar a racionalidade em meio ao caos daquele instante. O horizonte não é mais o mesmo, portanto posso refletir calmamente sobre meus impulsos. Na verdade, acho que tento me justificar. De alguma forma, não quero parecer fraca nessa história e insisto em encontrar lógica em algo que foi feito para não possui-la. Naquela noite gélida onde o solo entrava em contato com meus braços nus e minha bochecha, não havia raciocínio. Só o disparate de lágrimas teimosas.

Só então, ao me virar para fitar Ana, entrevi as manchas de sangue em minhas roupas.

Notas finais
Esse foi mais um capítulo grande *insegurança* Eu agradeço por qualquer crítica que tenha a ser feita (se eu deixei escapar algum errinho também, me avisem hihi, não revisei direito o capítulo, meus olhos estão velhos e cansados). Opiniões são muito importantes pra mim porque eu sou toda insegura da cabecinha. Muito obrigada mesmo a quem ainda estiver perseverando nessa história haha eu não sei se ta fácil de ler etc, então obrigada mesmo, espero que estejam gostando. Milhões de beijos de luz!! P.s: eu sempre fico querendo sumir depois de postar um capítulo muito grande pra ninguém ficar "ai meu deus, lá vem essa garota de novo, eu tenho uma vida, sabia??", mas vou tentar postar o próximo semana que vem. Abraços!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.