Paralelo
22 Arrependimento
Notas iniciais
Entre razões e emoções a saída
É fazer valer a pena
Se não agora, depois não importa
Por você posso esperar
(NX Zero)
Era domingo e tanto Bianca quanto Karina tardaram na cama curtindo uma preguiça e também aproveitando o conforto de casa, já que passariam as próximas noites vigilando o prédio da Ribalta. Depois de muito tempo sem sonhar ou lembrar de seus sonhos, Bianca sonhou e lembrou o sonho que tivera durante a noite, que tinha sido com João: eram Catarina e Petrucchio, em seguida se transformaram em Julieta e Romeo, porém sem morte no final, pelo contrário, deixou ares de felizes para sempre! Quando finalmente superou a preguiça e levantou deparou com João acompanhado de Vicki recém chegados da viagem.
Durante o almoço Bianca escutou, junto aos demais, todas as histórias da viagem do casal a São Paulo. Como foi conhecer a casa, os pais, as irmãs, cachorros e amigos de Vicki; os passeios pela cidade; os lugares visitados; a culinária paulistana; escutar os elogios de João a competência da namorada em guiá-lo por lá. Todavia também morreu de orgulho ao saber como o nerd foi elogiado, que sua apresentação foi um sucesso, que teve casa cheia, que todos adoraram, que o queriam mais vezes se apresentando lá, que surgiram novos convites e novas oportunidades.
Todos tinham conhecimento do talento do menino Spinelli, mas ainda sim estavam surpresos com tamanho sucesso, ainda mais depois do rapaz contar de um empresário que tinha se interessado por sua imagem para um comercial.
– Comercial novo filho?
– É mãe. Não falaram nada demais, só pediram meu contato e disseram que vão entrar em contato comigo daqui um tempo. Do jeito que ta indo, logo logo vou precisar de uma assessoria...
– Se precisar eu faço a assessoria Johnny. E ele ainda nem falou da proposta pra ir se apresentar fora do país.
Vicki não se aguenta de orgulho do namorado, e Bianca não é diferente, nem acredita em como sua carreira esta fluindo tão naturalmente.
– Sério? Conta isso melhor João.
– Ah, uns caras da casa tão juntando um grupo de atores de stand up para uma curta temporada nos Estados Unidos, querem levar alguns novatos e vieram me perguntar se eu tinha interesse... E como não sou bobo disse que sim!
– Que orgulho filho! Que orgulho!
– É esquisito, to gostando de ver!
João fica surpreso, até Gael o elogiando, era difícil vê-lo baixando a guarda assim. Karina e Bianca também não pouparam elogios.
– Que máximo João!
– Fico tão feliz por você! Você é muito talentoso, vai brilhar muito!
Vicki fica incomodada com o tom de Bianca, e ele realmente mudou, as palavras saem meladas de tanta admiração e carinho. João também percebe o jeito da menina, mas não dá importância.
– E vai brilhar muito mais COMIGO do lado dele.
Sem deixar qualquer novo clima acontecer na mesa, Dandara puxa o assunto da ocupação da fábrica, ao empenho dos alunos, e ideias para o lugar não acabar em um shopping.
– Cara, eu amo shopping, mas adoro a Ribalta! Faz parte da minha história com o Johnny.
Bianca vira os olhos para os apegos de Jovicki. Dandara, Gael e Karina continuam falando sobre a ocupação, do revezamento dos alunos para não deixarem a fábrica vazia e não facilitar a vida da nova proprietária.
Após o almoço João e Vicki acompanharam Karina a Ribalta, e chegaram no momento que os alunos tinham decidido dar uma cara nova ao prédio, mas a função se tornou uma grande bagunça com tintas em que todos terminaram pintados dos pés a cabeça. Quem não agradou inicialmente da baderna foi Gael ao ver sua academia inteira colorida, porém aceitou participar dos protestos desde que eles não interferissem suas aulas. Apesar de tudo ter parecido uma grande farra, todos tinham conhecimento da causa.
Só depois da proeza descobriram que Josefina tinha mandado cortar água e em seguida água na tentativa de acabar com a ocupação, mas sua atitude só aumentou o empenho de todos. Sem água e luz, se dividiram em dois grupos para saírem do lugar e se limparem. E ainda planejaram montar um acampamento de vigília à fábrica na praça.
Sujo, esperando sua vez de ir para casa se limpar, João estranha ao ver o Duca chegar de carro com Natália e ainda cheio de cuidados. O nerd ainda não sabia do fim do namoro Duanca.
– A Bianquinha não vai gostar nada disso.
– Gostar do que Johnny?
– Olha lá o Duca com a lutadora...
– E o que você tem a ver com isso?
– A Bianca é praticamente da família e não merece isso. Tirando você e minha mãe, todas as mulheres têm péssimo gosto.
Vicki esquece o incômodo com a graça do namorado e o beija. As pessoas que tinham ido se limpar começam a retornar à ocupação e João consegue ir embora para fazer o mesmo.
Em casa, de banho tomado, João estava sozinho, Gael e Dandara estavam na ocupação, assim como Karina que já tinha se limpado. Esperava por Vicki que tinha ido em casa para, além de se limpar, deixar sua bagagem da viagem. Bianca chega em casa.
– Oi João!
– Oi Bianquinha! Senti sua falta lá na ocupação, rolou uma bagunça por lá.
– To sabendo, mas eu fiquei encarregada de comprar comida pro pessoal que vai passar a noite por lá, inclusive daqui a pouco vou pra lá também.
– Ah, você também vai. Adorando o empenho de todo mundo! Mas...
– Mas o que João?
– Uma coisa que eu vi ae, não tem nada a ver com a Ribalta.
– O que é então?
– É que eu vi uma cena ali na praça que eu acho que você não vai gostar...
– Fala João.
– Vi o Duca com a Nat, e todo cuidadoso.
– Ah, é isso... Ela se machucou, você não sabia? Foi pro hospital e tudo.
– E você não se importa? Abre o olho hein Bianca.
– João, eu achei que você tivesse sabendo. (risos)
– Sabendo do que?
– Eu e o Duca não estamos mais juntos. Inclusive ele ta com a Nat agora.
– E você aceitou fácil assim?
– Aceitei.
João não esconde o tanto que fica incrédulo.
– Meo Deos! Em que ano estamos? Quanto tempo fiquei fora, 2 dias ou 2 anos?
A menina não consegue parar de rir da palhaçada de João, sentia tanta falta desses momentos com ele.
– Deixa de ser bobo João... O Duca gosta da Nat e ela dele, e eu... Eu percebi que não gosto mais do Duca..
– É o apocalipse mesmo. Você sempre gostou do lutador, sonhava com ele... É pegadinha isso né? Pode falar.
– Para João, é sério.
– Isso tudo é esquisito até pra mim...
– Mas é isso, Duca e Nat, e eu... Eu...
Bianca encara os olhos verdes, tão profundos olhos verdes capaz de hipnotizá-la. Os olhos se escurecem e não sabe o porquê, João não sabe se quer escutar o que a menina tem a dizer.
– Mas não dá pra negar que o lutador foi bem rápido né, um dia quer uma no outro ta com a outra. Bem rápido...
– Até parece que você não fez parecido né João Spinelli.
– Eu?
Os ânimos se exaltam, aquilo não era uma discussão, mas as cutucadas surgiam dos dois lados.
– Falava que gostava de mim, que me amava... Mas rapidinho ficou com a VICKI.
Duvidar de seu amor? Como? Amor maior que ele...
– BIANCA, eu passei a minha adolescência toda sendo o moleque estranho do colégio, jogar games era um refúgio, dar uma de altista sabe? Tudo e todos eram desinteressantes só os jogos que não. Até eu me apaixonar por uma menina linda, mais velha, que me mostrou, mesmo sem querer, um mundo novo de sonhos, que passaram a se realizar. Ficar com ela, transar com ela, amá-la de verdade, mas não sentir amor de volta porque ela amava o galã e eu era só um nerd bobo...
– João...
Seus olhos ardiam, tanta lágrima querendo descer, era tão difícil perceber a tolice de não ter ficado com João, sentir todo aquele amor de novo. Tão tola.
– AE apareceu uma garota linda, diferente, moderninha, que me enxergou, que passou a gostar de mim e de verdade, que me faz sentir incrível, tira a minha insegurança... Você acha mesmo que eu ia deixar ela passar?
João tinha a voz trêmula e olhos mais brilhantes que o normal, já Bianca um nó na garganta que ardia enquanto as lágrimas escorriam em seu rosto. Era amor e muita mágoa naquelas palavras, e a atriz perdera a fala, queria tanto abraçá-lo, afagá-lo e principalmente beijá-lo.
Ainda se encaravam em silêncio quando o toque da campainha os assustou. Era Vicki, João abriu a porta para ela.
– Vamos Johnny!
– Vamo.
Vicki estranhou o clima na sala.
– Aconteceu alguma coisa?
– Nada não vitaminada Vicki. Bora pra fábrica!
Os dois saíram e Bianca caiu no choro em seu quarto, não se perdoava por causar tanta magoa ao cara que ela mais gostava. Reconquistar a confiança dele no sentimento dela ia ser trabalhoso, tinha que mostrá-lo ao nerd, o quanto era real, enorme, quase palpável, e estava à espera dele.
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