Parafernália

1 Capítulo Único - Parafernália


Notas iniciais
Aqui está, não vou falar muito, então aproveitem!

Tardes de outono são os melhores dias do ano para não se fazer absolutamente nada. Kise e Aomine faziam bem isso. Era um doce momento após os treinos, quando ambos despistaram o time em busca de paz, e coincidentemente se encontraram na loja de conveniência que faz divisa entre o caminho da casa deles. Existe uma infinidade de momentos em que poderiam ter se encontrado, mas foi nesse exato momento de incapacitação e desejo que seus olhares cruzaram.

Kise ficou em torno de cinco minutos escolhendo qual picolé iria levar. Aomine apenas olhou o freezer revibrando ao lado da estante de grãos, e pegou o primeiro picolé de chocolate que viu. Ele e o loiro não trocaram uma palavra dentro da loja, mas a impaciência e a pressa fizeram Aomine soltar aquele velho habito de retesar os músculos por absolutamente nenhum motivo. Até por que, ele estava esperando pelo loiro e nem ao menos o havia cumprimentado. Mas não importava. Não era apenas ele, aquela retórica silenciosa funcionava bem entre ambos.

Kise fingia que não observava nenhum dos movimentos do moreno, e Aomine se esforçava ao máximo para capturar tudo que os poros do modelo soltavam.

Por que eles eram como tudo que a astrologia mais gosta de nos lembrar sempre: Faça algo hoje, pois amanhã as circunstancias serão diferentes e antigos momentos não podem sofrer mutações.

Eles acabaram por sair da loja lado a lado, Aomine já se lambuzara com o doce, enquanto Kise ainda abria o pacote de seu picolé de frutas vermelhas. Passaram o caminho inteiro em silencio. Caminho para casa do loiro, que morava sozinho e estava sempre em busca de companhia. Que hoje por alguma razão duvidosa estava mais quieto que o normal.

As vezes o outono faz isso, mexe com a estrutura da pessoa.

Aomine não precisou de convite para entrar, se jogar na frente da TV e assistir a um filme qualquer que se repetia pela milésima vez. Para ser interrompido pelo loiro, normalmente escandaloso, que se abaixou em frente à raque da TV para pegar duas calças limpas. Uma para cada um deles.

Aomine se trocou na sala mesmo, jogando o uniforme no canto entre a parede e o sofá. Kise foi para o banheiro e tomou uma ducha, voltou e se deitou no vão que separava Aomine do chão, usando seu braço como travesseiro.

Do lado de fora da casa a chuva caia passiva, os galhos das árvores secas tremiam o vento que passava brando, e mais um dia monótono e incrivelmente indiferente corria entre os dedos dos nossos protagonistas cansados. Que deitados juntos não se tocavam.

O calor dos peitos nus aquecia-os, mesmo sem contato direto, apenas aquela leve sensação de existência era suficiente.

O filme passava diante dos olhos deles tão chato e triste quanto a chuva lá fora. A história era boa, o enredo envolvente e os atores cativantes. Mas o homem sempre faz essa coisa de usufruir tanto de algo até que torna-o vazio.

Chegando ao final do filme, o loiro caiu em um sono profundo. Aomine o acomodou rente ao seu próprio corpo, desligou a TV, e depositou um beijo na nuca arrepiada do outro.

Kise se remexeu e trocou de lado, fazendo os corações de ambos se distanciarem apenas por uma parede de pele. Por que eles já estavam juntos e batendo na mesma sincronia. Uma sinfonia paranoica de segundos monótonos e pequenos contrastes.

Nariz com nariz, pele com pele, boca com boca, olhar com olhar. “Se você queria sexo, deveria ter me avisado na loja, ‘to sem camisinha.” O loiro recém-acordado grunhiu as primeiras palavras do dia, se sentando no sofá e espreguiçando o corpo mole.

Aomine apenas observava tudo, seus músculos retesarem, contraírem e relaxarem, em movimentos muito mais suaves que nos treinos, quando o corpo está sempre sufocado de adrenalina. Ele gostou. A pele de Kise é bem branquinha, seus cabelos de um loiro que responde quando o sol chama, e as partes mais sensíveis, de um vermelho que precisa ser tocado.

E aquela situação voltou a se instalar, o silencio dentro da casa, a chuva triste cantando lá fora, e dois corações cheios de parafernálias e desejos tocando na mesma sincronia dentro dos corpos.

Devoção. Esplendor. O poder de sedução da musica.

Eles tinham aquela preocupação de pai e mãe. A facilidade e conforto que só um amigo trás. E acima de tudo, o desejo pecaminoso de amantes dos mais vulgares livros eróticos. Com uma pitada de falta de vergonha na cara e prazer duradouro. Eles eram os galhos fortes que sobrevivem juntos durante o outono, por mais frio, monótono e asco que ele seja.

Aomine se sentou também, colocando Kise entre suas pernas e o abraçando em um movimento calmo de mais para ser impedido. O loiro odiava isso: constante mudança na maneira como ele era afetivo. Um dia o fodia na frente da sala dos professores. No dia seguinte preparava um jantar, mesmo que ele não soubesse cozinhar, e tinha todo o cuidado de prepara-lo para o amor. E é por essa precipitação do moreno que o loiro anda sendo tão ganancioso.

Kise apoiou suas mãos nos braços fortes dele e se desvencilhou do abraço, mesmo que tivesse gostando. Aomine ficou um pouco aturdido, essa foi a primeira vez que Kise negou contato. Ele já reclamou e usou do consentimento silencioso varias vezes, mas nunca se desvencilhou. Daiki franziu o cenho.

Puxou-o de volta e segurou sua mandíbula com força, colando a orelha alva perto de sua boca seca. “Se eu quisesse sexo, eu apenas ia lá e te fodia. Não ia perder meu tempo vindo até aqui pra ver filmes e brincar de boneca.” Kise tentou se soltar, mas a voz do maior era totalmente benevolente. Fazia com que todos os poros do corpo do loiro prestassem atenção em suas palavras carregadas de meias verdades. “Eu já te fodi no beco, nas quadras da minha e da sua escola, no banheiro de restaurantes, em shoppings, elevadores, salas de reuniões, parques, praias, montanhas... Se eu quisesse sexo, teria aberto suas pernas na esquina da loja e usado seu picolé como lubrificante.”

Kise ficou quieto em todos os sentidos, parou de retesar o corpo, segurar a respiração e franzir o cenho. Todas essas coisas irritavam Aomine profundamente, eram fora do ser Kise.

“Aominecchi...” O loiro começou, jogando o peso do corpo para traz, sentindo o contato direto da pele áspera do moreno. “Você precisa parar de fazer isso, eu já ‘tô ficando louco. Eu não sei quando você quer sexo ou quando você quer amor. As vezes você age como um príncipe, e no dia seguinte como um estuprador.”

O moreno achou que Kise ia chorar, pelos olhos vermelhos e pela irritação subindo a cabeça. Já viu isso acontecer varias vezes, perder o controle da situação e chorar. Mas ele se surpreendeu quando o loiro apenas se virou e o abraçou de frente, apoiando a testa na curva entre o ombro e o pescoço do moreno.

“Oe Kise!” Aomine o afastou, um pouco incrédulo de mais em como as atitudes e as palavras do menor se contradiziam. Ele respirou fundo antes de mandar o outro ir pastar, pois a situação de insegurança era presente em ambos. Kise não tinha o direito de falar e agir de maneira tão egoísta. “Você acha que se eu não quisesse nada com você continuaria fazendo isso? Eu é que nunca te entendo! Eu fico tentando agir do jeito que parece com o seu humor em cada momento, e é isso que eu recebo em troca?” Ele riu cético, Kise não falava serio não é mesmo?

O loiro sorriu entendendo a situação ridícula, que por falta de tato de ambos acabou se tornando uma quase briga egoísta. “Não pense em coisas tão complicadas pra sua cabeça, seu cérebro só tem músculos.” Ele recostou melhor no corpo do outro e respirou fundo. Cheirava a suor seco e protetor solar. “Vamos parar de tentar agir de acordo com o humor do outro beleza?”

Grandes mãos ásperas passaram ao redor da cintura marcante de Kise. Um nariz moreno fez cocegas na ponta da orelha dele, eles precisavam daquele momento. Daquela discussão com poucas palavras, daquela tarde de outono amena, daquela cacofonia mais organizada.

Eles precisavam daquela parede de pele que separava seus corações, rompida.

Precisavam parar de pensar de mais, parar de se esforçar tanto. A época de esforço pra eles já era passado, a constância do presente precisava ser aproveitada.

Por que era outono, e o clima não é extremo nessa estação. Você não se sente tentado a sair de casa e curtir o mundo. É uma estação simples, de passagem, que fica para acalmar os corações cheios de parafernálias incessantes e clarear as visões nubladas.

Não é frio, monótono e muito menos asco. É ameno, passa com um ritmo leve e confortável.

Notas finais
O que acharam? Sugestões, criticas? Mereço um doce?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!