Paradoxo Temporal
16 Cabeças a prêmio
Gintoki abriu os olhos, sem a menor noção de quanto tempo se passara após ficar inconsciente. A última coisa de que se lembrara fora de ter vomitado mais sangue após sentir aquela imensa dor abdominal e ver o médico particular de Hasegawa aplicar-lhe uma anestesia que logo o apagou. Continuava com o ombro esquerdo enfaixado, mas isso pouco o incomodava. Ali na região abdominal que tanto doía, agora passava a sentir apenas a dor dos pontos suturados externamente. A dor que sentia internamente praticamente sumira, bem como as náuseas.
Fez menção de se levantar, mas ainda estava tonto por conta da anestesia que perdia o efeito. E, com esse movimento, viu indo quase ao seu pescoço uma lança pontiaguda. Engoliu saliva e já sabia quem estava segurando a lança em questão.
Aquele sorriso aparentemente inocente de Tae o encarando simplesmente lhe deu calafrios. Aquela mulher, uma vez psicopata, SEMPRE psicopata, passe o tempo que passar!
– Ei, Dona Gorila... Pode baixar essa lança, não vou a lugar nenhum...!
– O único gorila é o meu marido, Gin-san. E quem garante que você não vai tentar sair correndo daqui? Além disso, o Shin-chan e a Kagura-chan estavam muito preocupados com você. Não pode deixá-los mais preocupados ainda com você fazendo extravagâncias.
– Onde eles estão?
– Estão dormindo em um dos quartos. Eles passaram a noite toda ao seu lado e me pediram pra ficar aqui de olho.
– Entendo.
O albino recostou-se novamente, a tontura começava a diminuir. Aqueles dois não mediam esforços para continuarem unidos a ele como uma família. Não importavam as circunstâncias, Shinpachi e Kagura sempre queriam ficar juntos com ele. Gintoki, por seu turno, não tinha como não gostar deles. Eles eram, de fato, sua família de verdade. Os três estavam sempre unidos nas alegrias, nos micos, nas lutas e nas tristezas.
Não conseguia mais viver sozinho como antigamente. E não sabia como seu alter-ego mais velho conseguia lidar com o fim da “Yorozuya Gin-chan” como ele a conhecia e vivia.
A porta do quarto se abriu devagarinho, revelando um rosto sonolento.
– Anego – era Kagura, que esfregava os olhos. – O Gin-chan ainda não acordou?
– Já, sim, Kagura-chan. – Tae respondeu. – Ele acabou de acordar.
No entanto, a primeira pessoa ali a literalmente afundar dentro do quarto foi Sacchan, que, vestida como uma enfermeira sexy, já foi pra cima do albino:
– Que bom que acordou, Gin-san!! Agora eu posso cuidar de você e do seu dodoizinho...!
– EEEEEI!! O NEGÓCIO NÃO É COM O MEU OUTRO EU, NÃO? SAI DE CIMA DE MIM, SUA DOIDA!
Sacchan queria abraçá-lo, mas ele procurava se desvencilhar de todas as investidas da kunoichi de óculos de todas as formas possíveis naquele momento, mas logo parou quando sentiu dor nos pontos.
– Aiaiaiaiai...! – murmurou. – Espera só eu ter condições que você vai ver, sua doida varrida!
– Não se preocupe, vou cuidar de você, Gin-san!
– MAS NEM PENSAR!
Nisso, Hasegawa entrou no quarto, acompanhado de seu médico particular, o que fez as coisas se acalmarem por algum momento.
– Vejo que acabou de acordar, Sakata-san. – o médico disse. – Como se sente?
– Entediado. – o Yorozuya disse enquanto limpava o nariz com o dedo mindinho. – Não posso comer um docinho não? Mas pelo menos eu tô melhor. Quanto tempo vou ficar de molho?
– Em dois dias você estará 100% recuperado. Fiz um procedimento que acelerou a cicatrização dos seus ferimentos internos com a melhor tecnologia de que eu disponho. Não foi fácil, os seus ferimentos eram realmente graves. Mas agora você está fora de perigo. Nada impede também que você saia da cama, mas nesses dois dias não deve fazer qualquer esforço físico ou movimento brusco.
– Ótimo, então não preciso de ninguém me vigiando. Bem – vestiu a camisa preta e colocou o quimono branco por cima. – vou tomar um ar.
*
Aquele microchip que causara grandes problemas ao Shinsengumi finalmente fora extraído de Yamazaki, após este revelar tudo o que sabia a respeito do Governo Central. Realmente a motivação para aquele ataque sofrido era a de eliminá-los, pois eram considerados um incômodo obstáculo. Mas o que o Comandante Shimura não imaginava era que tramavam seu assassinato.
Mas... Por quê? Por que queriam matá-lo? Para desestabilizar o Shinsengumi?
Não. Apesar de ser o Comandante, não se achava assim tão essencial. Não seria surpresa se fosse visto como apenas um mero par de óculos, que possuía um acessório humano.
Retirou-se dali do QG assim que soube da notícia, e avisou aos demais que demoraria. Como de hábito, passou pelo Distrito Kabuki, que estava completamente deserto. Não lembrava em nada o movimento de anos atrás, dos tempos da Yorozuya. O único movimento que existia era o do bar que agora pertencia a Catherine.
Naquele prédio, apenas a parte de baixo tinha vida. A parte de cima, por enquanto, não.
Andou mais um pedaço até a mansão de Hasegawa. Identificou-se e entrou. Mas, em vez de ir para dentro, decidiu sentar-se embaixo de uma grande árvore nos fundos. Precisava botar a cabeça no lugar.
– Ei, Shinpachi-kun... O Shinsengumi já enterrou seus mortos?
Aquela voz era inconfundível.
– Sim, Gin-san. – ele respondeu e olhou para trás, reconhecendo o Yorozuya do passado sentado embaixo da mesma árvore, mas de costas para ele. – Já. E você? Soube que esteve muito mal. Como está agora?
– O médico particular do Hasegawa já resolveu o problema e me disse que em dois dias eu ficaria 100% recuperado.
– Isso é bom.
– Eu soube que vocês capturaram de volta aquele viciado em anpan. Conseguiram saber de alguma coisa?
– Até demais. Para resumir, o Shinsengumi está em risco.
– Suponho que você descobriu que vai ser o alvo principal.
O Shimura encarou o seu amigo do passado. Como ele sabia disso?
– Esqueceu de como foi quando o gorila quase foi assassinado por aquele tal de Itou? Você tá fazendo a mesma cara que ele. Mas por que iriam querer te matar?
– Isso já tem dez anos, Gin-san. Sabe quando falamos que o Kondo-san casou com a minha irmã?
– E dá pra esquecer? Ainda quero descobrir como aquele gorila com impotência engravidou a sua irmã pra nascer aquela pirralha. Mas, o que isso tem a ver com você?
– No dia da guerra, Kondo-san apareceu na hora certa e no momento certo para evitar que a minha irmã fosse mais uma vítima dos Amantos que nos atacavam. Só que, em um dado momento, ele foi gravemente ferido e o tinham desarmado.
[Flashback ON!]
Por sua farda preta, na altura do ombro, era visível a grande mancha de sangue no ombro esquerdo de Kondo Isao. Apesar do físico avantajado, ele estava em clara desvantagem. Estava desarmado, sua katana fora jogada para longe graças a um ataque poderoso de seu adversário. Além do ferimento grave no ombro, o então Comandante do Shinsengumi estava visivelmente exausto, pois ao mesmo tempo em que procurava se defender, tentava defender Tae como um “escudo humano”.
Sentiu a ponta da katana adversária encostar de forma ameaçadora em seu peito. Sabia que aquela lâmina estava lá para transpassar seu coração.
– E então, “Alma do Shinsengumi”? – seu inimigo começou a zombar. – Onde estão as espadas que deveriam te proteger? Os seus amigos estão ocupados demais para te ajudar a proteger essa mulher.
Ele estava certo. Não tinha como contar com Toshi, Sougo, ou até com o Zaki. Todos os seus conhecidos estavam tentando sobreviver, como ele. O Yorozuya também estava completamente encrencado.
– Assim que eles puderem, vão me ajudar. E, mesmo que eles não possam, eu me viro. Tenha certeza de que a Otae-chan não vai sofrer nenhum ferimento enquanto eu estiver em pé!
– Você ficou doido, é? – Tae esbravejou. – Não tem amor-próprio não?
– Eu ainda tenho, mas posso abrir mão disso. – Kondo respondeu. – Não vou deixar um covarde te ferir, nem que tenha que me ferir ainda mais.
O humanoide de pele azul, cabelos alaranjados e físico parecido com o do Comandante do Shinsengumi riu.
– Quanta pieguice... Vamos ver por quanto tempo você é capaz de proteger a sua amada?
– Veremos, Kasler!
– Pare com isso, seu gorila maluco! – Tae ordenou. – Pare com isso ou eu vou te dar uma surra!
Nisso, Kasler fez um rápido movimento com a espada, fazendo um grande corte no peito de Kondo, causando um grande sangramento. Imediatamente, ele levou as mãos ao ferimento e caiu de joelhos, não se aguentando de tanta dor.
– Mas que droga... – disse. – Sou mesmo um grande estúpido... Acho que não vou poder continuar a “stalkear” você, Otae-chan...!
– Para de agir como idiota! Olha o que você tá fazendo!! – Tae começava a ficar assustada de verdade, deixando sua máscara de psicopata cair.
– O que acha se eu mandar você e seu amorzinho platônico ao inferno juntos? – Kasler ironizou enquanto preparava a katana para transpassar Kondo e Tae.
No entanto, Kasler não conseguiu seu intento, pois sentiu apenas sua pele se rasgar em um único golpe no seu olho esquerdo, que imediatamente sangrou com abundância. O alienígena azul logo levou a mão ao local atingido, do qual saía uma grande quantidade de sangue, que escorria sem parar por sua face.
– Você não vai mandar ninguém ao inferno! – era a voz de Shinpachi, que estava justamente com a katana que pertencia a Kondo. – Porque eu NÃO VOU PERMITIR!
O Shimura partiu para cima de Kasler, que ainda estava completamente desnorteado e deu-lhe outro golpe veloz com a espada, cortando-lhe o peito. Em seguida, com um novo ataque aproveitou que o adversário continuava atordoado e atingiu-lhe a perna esquerda, causando assim sua queda.
Aproveitou esse momento e ele e Tae ampararam Kondo, de forma que pudessem sair dali rapidamente e, assim, se salvarem. Ouviu uma jura de vingança ao longe, durante sua fuga. Mas isso não importava, e sim que estivessem a salvo.
[Flashback OFF!]
– Então isso acaba sendo pessoal, certo? – Gintoki questionou.
– Em parte, sim, Gin-san. Porque o Lorde Kasler tenta de toda forma manter o Shinsengumi sob seu controle, mas sabia que mais cedo ou mais tarde não conseguiria continuar assim.
– Em se tratando dos cães do shogunato, acho que isso era esperado, não?
– Acertou. Pode parecer que eu tenho total comando deles, mas não tenho. Não sou o Kondo-san.
*
– Quais são as informações mais recentes daquela gente? – Kasler perguntou a três ninjas recém-chegados.
– Eles estão em uma mansão nos arredores do Distrito Kabuki. – um dos ninjas respondeu. – Qual a sua ordem, Lorde? Atacá-los?
– Não. Ainda não. – Kasler disse. – O Oniwabanshuu deve continuar a monitorar seus passos. Não vamos nos precipitar. Deixem-nos pensar que estão livres de nós por enquanto.
– Entendido.
Instantaneamente, os três ninjas sumiam dali, enquanto o alien azul abria um sorriso perverso. Estava apenas querendo um tempo para pensar em um bom plano para liquidar aquele bando, além do Shinsengumi e do distrito que era o mais rebelde de todos.
O único distrito de Edo que não se curvava a nenhum Amanto.
O Distrito Kabuki.
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