Paradoxo

3 A história reescrita


Notas iniciais
Olá, pessoas~ Então, como eu disse antes, este é um "final alternativo". Pode fazer parte da história ou não, vocês que decidem. Ainda não foi betado, mas precisei postar logo. Espero que gostem e...bem, bônus de lemon, hehehe~

Ikebukuro, 13 de setembro de 2002.

— Shizu-chan tem uma cara de bravo até dormindo...

Rasgando o véu da inconsciência e traçando a superfície da lucidez, escuta-se uma voz familiar. Tão familiar que até carrega a malícia de sempre. Nesta ocasião, entretanto, é um santuário; uma terra firme; uma paz para o sono turbulento do homem até pouco inconsciente.

— Hm? O que houve, Shizu-chan? Pesadelos? — mesmo sem uma confirmação visual, Shizuo sabe que o maldito sorri provocativamente — Só não molhe a cama, por favor, nós a dividimos.

— Cala a boca. Nem de manhã você consegue ficar quieto? — o loiro recém acordado resmunga, franzindo o cenho em desconforto. Ironicamente, a fim de ficar mais confortável, ele traz a fonte de sua irritação para mais perto. Especificamente para seu peito desnudo.

— Você consegue ser ainda mais bem-humorado de manhã, hein, Shizu-chan? — a risada perturba a inércia do corpo menor nos braços do homem mais velho, mas o moreno se acomoda à nova posição como se moldando seu corpo às formas do outro.

— Fica quieto por um minuto, Izaya. Por favor.

Quando o informante se rende com um suspiro exasperado, Shizuo comenta:

— Tive um sonho em que eu vivia uma vida sem você.

Por alguns minutos, tudo o que se ouve no quarto banhado pelos límpidos raios de sol das oito da manhã é a respiração sincronizada dos dois homens. Então Izaya se reacomoda na cama, se afastando um pouco do amante para fitar seus olhos cor de mel.

— Uma vida sem mim? — o mais alto revira os olhos quando a surpresa do mais novo se transforma em zombaria — Você sequer conseguiria viver sem mim?

— Claro que sim, idiota. Mas... — o loiro contempla as consequências de contar mais do sonho perturbador.

— Maaas...? — o moreno ergue uma sobrancelha.

Depois de julgar os tons de escarlate amalgamado firmes o suficiente para manter Izaya sério durante sua história, Shizuo suspira.

— Mas era horrível. Quer dizer, era como se eu lembrasse que você existia... Mas você não estava lá. Tipo aqueles universos alternativos de filmes de ficç--NÃO RI, SEU DESGRAÇADO!

— Shizu-chan...tem sonhos...como a personalidade dele... — o informante comenta entre risos, elevando a temperatura da face do outro.

— É por isso que eu não falo as coisas pra você! Pulga infeliz! — enquanto dita pessoa passa a rir ainda mais alto, uma veia salta na testa do maior — Maldito dia em que te conheci, seu verme dos infernos! QUER SABER? VAI À MERDA! Espero que você acabe numa vala, bastardo! MORRA!

Cada insulto é como música para os ouvidos de Izaya, que finalmente cessa as gargalhadas para fitar seu amante. Um sorriso sutil ainda se insinua em seus lábios, fazendo o corpo do mais velho queimar de desejo.

— Então você amaldiçoa o dia em que nos conhecemos, mas acha ruim uma vida sem mim? Bem coerente, Shizu-chan. — e Shizuo detesta como aquela boca se estica em um meio sorriso debochado; assim como ama que seja destinado somente a ele, pelo menos naquele instante.

— Vai te catar. — vira o rosto corado para longe do moreno, continuando a trilha de insultos mentalmente.

— Ahh, mas realmente... — se espreguiça longamente, como um felino — Se Shizu-chan não tivesse se apresentado daquele jeito tão lisonjeador, talvez não estivéssemos aqui agora. — o riso leve que ilumina a face daquele homem tão sedutor distrai o loiro o suficiente para que suba em cima dele; uma perna de cada lado do quadril do maior.

— Você tem que ser bem doente pra achar aquilo lisonjeador. — seus lábios se partem em um sorriso provocante — Ah, mas você é mesmo pirado da cabeça.

— Pelo menos eu não me confessei para uma pessoa à primeira vista. — ele arqueia uma sobrancelha e Shizuo sabe que perdeu a rodada de provocações.

— Tch! — o maior cora ainda mais intensamente, voltando à carranca típica mas que devido ao rubor de sua face não detém a mesma ameaça — Não foi uma confissão, idiota...

— Prazer, Heiwajima Shizuo. — o moreno começa sua interpretação do loiro, simulando uma carranca e uma voz grave — Pode parar com esse fingimento todo. Quero me dar bem com você.

— Por que você lembra disso? — resmunga, cobrindo o rosto com uma mão — Ugh, vai te ferrar, Izaya.

— Você era tão inocente que nem percebeu o que tinha dito! — voltava a rir como uma hiena, de acordo com Shizuo — E depois ficou vermelho como um tomate! Foi tão divertido!

— Izaya, eu vou te matar.

— Sim, sim, eu sei que vai. — murmura docemente e desliza as mãos pelo abdome do barman, subindo pelo peito e contornando os ombros até acabarem enterradas no travesseiro atrás de sua cabeça. Debaixo de cílios delicados, olhos tingidos pela cor do pecado devoram cada curva que os músculos sutilmente definidos compõem antes de fixarem-se no rosto do amante. Sorrindo sugestivamente, o moreno inclina-se sobre o outro até estar a poucos centímetros de seu rosto: — Você disse isso pra mim 74 vezes antes de começarmos a namorar.

Distraído pelos movimentos sensuais do mais novo, o loiro não dedica muita atenção à afirmação do outro até que sua mente implica com o número preciso.

— Espera, você está falando sério? — Shizuo ri em deboche — Você não pode ter contado.

A confirmação dele vem na forma de silêncio. Izaya mantém sua expressão provocante, mas sua hesitação o delata.

— Você realmente contou. — o mais velho se permite um momento de ousadia — Depois eu que sou o apaixonado, hein!

— Fiz uma estimativa educada. — finalmente, o informante tenta corrigir, dando de ombros descompromissadamente — Meu cérebro tem coisas mais importantes com o que se ocupar do que contar quantas vezes um cachorro late.

O sorriso de diversão do barman não vacila diante da provocação, pelo contrário; se alarga. Ao perceber Izaya fazendo menção de se afastar, agarra o moreno pelos quadris com uma pegada firme.

— Para de se fazer, Izaya. Você realmente contou quantas vezes eu disse que ia te matar.

Algo no sorriso agora bobo do namorado acende uma chama no peito do menor. Não sendo habituado a tais demonstrações de afeto, Izaya tenta se desvencilhar (em vão) das mãos do monstro de Ikebukuro.

— Foi por acaso. — estala a língua em frustração — Com tantos pensamentos brilhantes, eu queria me garantir passando-os para o papel, e acabava narrando partes do meu dia...

— ...Tipo um diário...?

A resistência do informante aumenta, agora tentando arrancar seu corpo de cima do outro. Não foi uma boa ideia adotar tal posição.

— Você ainda tem ele? — a empolgação e curiosidade de Shizuo aumentam à medida que o desconforto de Izaya se torna mais aparente — Ainda escreve nele?!

— Claro que não, isso foi na época do ensino médio! Já o joguei fora.

A resposta do moreno até poderia ter convencido Shizuo se não fosse pela discreta (mas não imperceptível) espiada que ele dirige ao armário. O loiro sorri de orelha a orelha, completamente entretido pela revelação.

— Seu mentiroso... — sem esforço algum, o barman desliza o amante de cima de si para a cama, ignorando qualquer tipo de protesto ao levantar desengonçadamente e se lançar à porta da mobília referida.

— Não, Shizuo--! — mesmo a utilização do nome próprio não impede o mais velho, fazendo Izaya se desesperar. Levanta em um sobressalto, pulando nas costas largas do outro — Deixa isso pra lá, seu protozoário estúpido!

— Nem a pau. — passa a revistar freneticamente todas as gavetas e compartimentos do armário, rendendo uma bagunça no quarto compartilhado.

— Olha só o caos em que você está deixando o quarto! Eu não vou limpar isso, você sab--Shizuo, você é um homem morto! — Izaya continua a praguejar e ameaçar o parceiro, puxando futilmente seus cabelos e apertando seu pescoço; o que acaba por apenas contribuir para aumentar o entretenimento do mesmo.

Ainda decidido a encontrar o tal diário, Shizuo desprende o moreno de si e o joga na cama. Antes que este possa se recuperar, entretanto, o enrola no espesso cobertor fortemente. Satisfeito com a imobilização de Izaya, volta a atenção para o armário, calmamente o inspecionando com os olhos com as mãos na cintura. Sorri triunfantemente ao perceber uma pequena caixa de papelão na prateleira do topo.

— Shizuo, se continuar com isso, vai dormir com os peixes esta noite! — o menor continua a disparar ofensas, mas não parecem atingir o loiro atualmente puxando a caixa de papelão de recordações do ensino médio.

Sem desperdiçar tempo, assim que a caixa toca o chão, o barman começa a remexer seu conteúdo. Entre ele estava o antigo uniforme da Academia Raijin, alguns cadernos e livros, material escolar diverso e, finalmente, um caderno estilo agenda, com uma capa dura simples. Pela expressão de puro terror do informante, é exatamente o que está procurando.

— Shizuo, se você queimar isso agora mesmo, eu faço o que você quiser por uma semana. — Izaya sorri ao perceber seu amante hesitar por um momento, e aumenta a aposta para fisgá-lo: — Melhor: um mês.

Com o diário em mãos, Shizuo se levanta do chão e caminha até o moreno enrolado na cama. Alterna o olhar entre o objeto e o homem:

— Está falando sério?

— Claro que estou. — o menor quase se permite um suspiro de alívio, mas este acaba por entalar na garganta ao assistir os lábios do mais velho se espicharem em um sorriso maldoso.

— Se eu te disser pra me contar o que tem aqui todo dia por um mês, você vai contar?

Izaya nem precisa negar para que Shizuo prove seu argumento e abra o pequeno caderno de anotações, procurando a primeira menção de seu nome. Ao invés de tentar negociar mais ou resistir, o moreno esconde o rosto debaixo das cobertas.

19/ 04/1993

Meu primeiro ano começou há pouco mais de uma semana, mas só hoje conheci alguém realmente interessante. Se bem que ele compensa qualquer tédio pelo qual eu possa ter passado.

Shinra dissera que me apresentaria a um amigo, mas nunca pensei que seria um humano tão peculiar. Ele é a encarnação da violência, o cúmulo do perigo. Acho que é exatamente por isso que imediatamente me senti interessado nele.

Mas o que ele declarou ao se apresentar foi totalmente contra minha primeira impressão:

Pode parar com esse fingimento todo. Quero me dar bem com você.

Até hoje, só Shinra tinha se aproximado de mim por livre e espontânea vontade. Não sei bem explicar o que senti, mas... Naquela hora, só conseguia pensar uma coisa:

Quero conhecer melhor essa pessoa.

Pego totalmente de surpresa, Shizuo levanta os olhos da folha para encarar Izaya, ainda imóvel e escondido. Começa a entender por que o moreno não queria que lesse seus registros, mas como o homem nunca se abre, sente-se curioso para desvendar mais trechos do passado dele.

27/04/1993

Eu não consigo entender Heiwajima Shizuo.

Descobri que o indivíduo tem a capacidade mental de um ser unicelular, mas consegue sempre saber quando estou mentindo. Como isso funciona?!

Além disso, ele possui uma força insana, mas diz odiar violência. É a pessoa mais contraditória que eu conheço!

Hoje mesmo o provoquei sobre ele amar demais seu irmão para um adolescente. Ele arrancou uma porta do corredor e começou a me perseguir. Não posso negar que fiquei levemente receoso de ser atingido, mas a coordenação motora dele é pior que a de um elefante, então a adrenalina foi bem-vinda.

Ao bem da verdade, aquele sentimento de perigo constante é indescritivelmente empolgante. No fim, fomos os dois parar na secretaria e obrigados a se desculpar.

Talvez eu devesse irritá-lo mais vezes...

Izaya finalmente espia o loiro por cima das cobertas com um único olho, notando uma veia saliente pulsando na testa do mesmo. Não consegue evitar um riso, que desvia a atenção de Shizuo para si. O informante sustém o olhar até que o outro alivia a tensão facial e volta os olhos cor de caramelo para os relatos passados do amante.

30/04/1993

De novo, aquele Neandertal estragou meus planos.

É incrível como Shizu-chan — passei a chamá-lo assim desde que descobri que ele detesta o apelido — consegue sempre me surpreender. Descobri que gosto desse fato tanto quanto o odeio. Suas expressões são sempre tão extremas, e suas ações sempre tão imprevisíveis...

Shizu-chan nem parece humano. Sempre arrancando coisas pesadas do chão para atirar nos outros, não seguindo os padrões da humanidade... Isso consegue me irritar e me intrigar ambiguamente.

Mas hoje...hoje ele realmente extrapolou minhas expectativas.

Em minhas explorações de assuntos sensíveis a Shizu-chan, chegamos ao assunto de amor. Enquanto eu falava de todo tipo de vulgaridade, sentia ele me repreender com o olhar. Quando dirigi o assunto a ele, começou a idealizar um romance tão nobre e verdadeiro que me deu vontade de vomitar.

Aquilo era perturbadoramente...humano. Um monstro como Shizu-chan sonhava em uma vida pacata... Inaceitável. Poderia fazer tanto com aquela força!

A pior parte, entretanto, foi quando perguntei se já tinha provado esse sentimento, e Shizu-chan esboçou um sorriso tímido enquanto corava.

Estou decidido a investigar até o fundo desse sorriso irritante.

Afinal, quem ousou se achar no direito de permitir que uma besta experimentasse algo como amor?

04/05/1993

Este é aquele tipo de data no que acho melhor nem sair da cama.

É só mais um lembrete de que meu corpo envelhece a cada ano; não sei como humanos ficam felizes em celebrar seus aniversários.

Normalmente, não compareço à aula nesse dia do ano, mas aparentemente minhas irmãs querem me surpreender com alguma coisa, pela forma como praticamente me expulsaram de casa.

Shinra sabe da minha aversão a esta data, mas mesmo assim mencionou no horário do almoço junto a Kadota e Shizuo no telhado.

Kadota simplesmente me deu parabéns com meia dúzia de palavras, mas esperava que Shizu-chan nem fosse se incomodar com algo como desejar feliz aniversário a alguém que detesta.

Aparentemente, ele achou que era mentira. Depois, imagino que tenha ficado surpreso com minha falta de empolgação com minha data especial, pois passou um bom tempo apenas me encarando descaradamente. Foi aí que se levantou em um pulo e anunciou que já voltava antes de sair por aí pisando forte e praguejando.

Por um momento, imaginei que fosse ao pátio arrancar a maior cerejeira do chão e tentar me esmagar com ela. Achando o telhado um lugar meio inapropriado para uma fuga decente e não exatamente participando no discurso de Shinra sobre sua linda Celty, me despedi dos dois e procurei algum lugar deserto lá embaixo.

Minutos depois de ter achado um banco na sombra e recostado minha cabeça para trás, senti uma presença bloquear meu sol. Antes que abrisse os olhos, um pequeno objeto foi jogado no meu colo e o sol voltou a iluminar minha cara.

Sinceramente, se eu não tivesse aberto os olhos naquela hora, não estaria confuso e incomodado como estou agora, porque não teria percebido que Shizu-chan tinha me dado um chiclete da cantina.

Porém, o mais absurdo foi pensar, por um ínfimo instante naquele momento, que talvez aquela data não fosse tão horrenda assim.

Estúpido, não?

28/05/1993

Ando ansioso.

Normalmente, se estou ansioso, é por algo bom que virá a acontecer. Desta vez, entretanto, estou ansioso no pior sentido da palavra. Tudo por causa de uma única pessoa. Ou um único monstro, se preferir.

Ultimamente, Shizu-chan não me persegue mais como antes. Parece que nem está mais tentando.

Será que perdeu o interesse em mim?

Até parece. Eu sou uma pessoa muito interessante. Se alguém sai da minha vida, é porque eu fiz ela sair.

Mas se, por alguma remota chance, Shizu-chan perdeu mesmo o interesse em mim, terei que arranjar outro passatempo.

04/06/1993

Eu...já não sei mais o que está acontecendo.

Só Shizu-chan mesmo para deixar minha cabeça este caos de agora. Mas me pergunto desde quando penso tanto nele como único. Ou melhor, desde quando penso tanto nele.

Humanos no geral são interessantes. Nunca me canso de observá-los, de estudá-los.

Entretanto, Shizu-chan não é um humano comum, se é que pode sequer ser considerado humano.

Ultimamente, nenhuma expressão ou reação dos meus humanos me entretém ou me envolve tanto quanto uma de Shizu-chan. A pior parte é que não faço ideia do que isso significa.

Nessa semana, ele vinha me evitando descaradamente. Não sou o tipo de pessoa que se conforma em ser ignorado, admito, então posso ter feito uma pequena...travessura envolvendo seus sapatos do colégio e um tubo de cola. Sim, clássico e infantil, mas funcionou.

Acabamos nos fundos do ginásio por conta da perseguição que se seguiu, e tentei arrancar alguma informação sobre o novo comportamento dele. Infelizmente, fui descuidado e acabei por chegar muito perto da fera; Shizu-chan agarrou meu pescoço e me prendeu à parede.

Esperava socos, esperava insultos, esperava uma expressão de raiva fulminante. A única coisa que não esperava era que Shizu-chan me beijasse.

Esperava ainda menos que isso fosse tudo que fizesse antes de me soltar com uma cara completamente vermelha e uma expressão inédita para mim, e simplesmente sair caminhando após.

Fico grato pelo fim de semana. Não que faça muita diferença; eu poderia simplesmente faltar às aulas que não faria diferença.

Aliás, ando indo muito frequentemente à escola.

18/06/1993

Shizu-chan veio aqui hoje.

Faz duas semanas que não vou à escola, procrastinando achar um comportamento adequado para encará-lo. Imaginava que ele ficaria apreensivo, mas nunca pensei que pudesse se incomodar tanto a ponto de vir aqui de tarde.

Como minhas irmãs estavam na escola, não tive que explicar a elas o porquê de ter um cara arrombando nossa porta da frente e vociferando meu nome pela casa. Até porque eu mesmo me espantei um pouco. Shizu-chan é mesmo imprevisível.

Quando ele finalmente chegou à minha porta, eu já tinha alcançado o canivete e brandia-o em minha frente. Ao invés de elevar minha guarda ao perceber quem era, entretanto, senti a tensão em meus ombros evaporar.

Logo fui bombardeado por perguntas e sermões sobre minha ausência na escola. Não estava preparado para lidar com Shizu-chan ainda, então tentei o melhor que pude continuar com meu comportamento de sempre. O que era difícil, principalmente com meu pulso acelerado me distraindo tanto.

Quando Shizu-chan finalmente se calou, parece que sua mente só então registrou o que estava acontecendo, porque ele pareceu se encabular e pediu desculpas pela destruição.

Resolvi perguntar por que tinha vindo até minha casa, mesmo tendo uma vaga noção da resposta. A reação imediata foi fornecida por sua pele, que queimou em um novo tom de vermelho. Enquanto se atrapalhava com as palavras, me aproximei, atraído pela curiosidade.

A reação de Shizu-chan foi impagável: praticamente deu um pulo para trás, mas acabou por chocar-se contra a parede, sendo encurralado quando cobri a distância entre nós com alguns passos. Para ênfase, colei uma mão na parede ao lado de sua cabeça. Era irônico que eu estivesse prendendo uma besta à parede com um simples braço, até porque confesso não ser a pessoa mais fisicamente capaz em quesito de força.

Vendo-o pressionado daquele jeito, me senti tentado a provocá-lo e perguntei sobre aquele último dia em que fui à escola. Sentia falta daquela nostálgica expressão de pura ira exclusiva a mim, então continuei a provocá-lo mesmo quando uma ou duas veias saltaram em sua testa.

Só parei minhas provocações quando Shizu-chan me calou com um beijo. Foi breve, mas eficaz. Fiquei completamente sem palavras, apenas fitando aqueles olhos castanho-amarelados que, olhando de perto, são incríveis. Era tarde demais quando percebi que estava me inclinando para a frente e fechando os olhos, e desisti de tentar raciocinar quando os lábios de Shizu-chan encontraram os meus.

Não sei quanto tempo ficamos explorando a boca um do outro, mas era tão viciante que não conseguia ter noção de nada externo ao calor dele. Sei que, eventualmente, nos separamos, ofegantes, e Shizu-chan me fez prometer que iria à escola segunda-feira.

Ainda não entendo bem o que aconteceu, nem o que está acontecendo comigo, nem o porquê de Shizu-chan não sair da minha cabeça quando fecho os olhos, mas acho que é esse o problema:

Estou pensando demais.

Com cada nova confissão ou revelação, Shizuo percebe seu pulso acelerar mais. Sente-se como se enfim estivesse olhando diretamente para o coração de Izaya, sem máscaras ou filtros. Não aguenta ler até o final; fecha o diário e o deposita na cabeceira. Em seguida, observa o volume enrolado imóvel sobre a cama com uma expressão estúpida e jovial de afeto. O informante sabe exatamente como o barman se encontra, por isso se encolhe debaixo das cobertas com a esperança de que elas o engulam.

— Izaya... — o loiro chama, sentado na beira da cama. Sem obter resposta, se posiciona acima do enroladinho de pulga, apoiado nos cotovelos e joelhos — Ei, Izaya.

— Sai de cima de mim, Shizu-chan.

Shizuo ri divertidamente. Pelo menos não usou meu nome todo.

— Desculpa, Izaya. Mas saber o que você pensava me deixou muito feliz.

— Não me interessa. — o moreno o corta com a voz abafada pelas cobertas — Isso é invasão de privacidade.

— Nós moramos juntos, Izaya. Você não tem mais direito à privacidade.

Izaya sente-se obrigado a descobrir o rosto para lançar um olhar fulminante ao namorado. Infelizmente, a intenção não é comunicada devido aos tons rubros fortes em todo o rosto.

— Você é tão fofo às vezes. — o loiro sorri e sabe que vai pagar caro pela afirmação mais tarde.

— Cale a boca. E já mandei sair de cima de mim, sua ameba inútil.

— Não saio até você me desculpar. — aproxima o rosto ao do menor, que vira a cabeça teimosamente.

— Eu falei que não iria te desculpar. Agora sai, você está me sufocando.

Ignorando completamente as ordens do amante, Shizuo baixa os lábios à pele alva e macia de seu pescoço. Delicia-se com o arrepio que corre pelo corpo de Izaya ao começar a movê-los lentamente desde seu ombro à sua orelha, distribuindo calorosos beijos pela área.

— Sh-Shizuo... Pare com isso, estou bravo com você... — Izaya resmunga, mas suas sobrancelhas estão franzidas por um motivo completamente diferente de raiva.

— Eu sei. — o maior sussurra, deslizando os lábios sutilmente pela pele que arrepia-se com o traçado de sua boca até que eles pousem no ouvido da vítima — Estou te compensando.

Qualquer protesto que o moreno possa ter a intenção de verbalizar se perde em sua garganta quando o barman captura o lóbulo de sua orelha entre os dentes, mordiscando a pele sensível provocativamente. Toma o suspiro falhado como encorajamento para ir mais longe, furtivamente livrando Izaya de seus confinamentos.

Agora sem barreiras entre os corpos exceto seus finos trajes, uma das mãos do loiro esgueira-se por debaixo da camisa do outro, sentindo cada curva do abdome à medida que levanta sua camisa. Quando esta atinge seu pescoço, Shizuo transfere sua boca para a clavícula saliente, sensualmente destacada na pele pálida e virgem.

Sente o coração acelerado debaixo da pele refém, batendo descompassado como a respiração do próprio informante. Repete o processo executado previamente no pescoço em seu peito, traçando uma trilha ardente até o umbigo e, eventualmente, até o começo da virilha; o tempo todo motivado pelas falhas na respiração pesada de Izaya.

— Shizu-chan, já ch-chega. — amaldiçoa o vacilo de sua própria voz — Não estou a fim agora...

— Deixa eu me desculpar, Izaya. — o homem sorri sobre a pele do mais novo, lançando-lhe um olhar sedutor sem levantar a cabeça.

Shizuo não encontra mais protestos quando suavemente engata os dois indicadores no elástico das boxers do namorado, puxando-as para baixo até deslizarem por seus pés. Satisfeito e orgulhoso por encontrar o membro revelado já semiereto, retorna à trilha de beijos e mordiscadas a partir da virilha, traçando uma linha de saliva por ambas coxas até os calcanhares.

Ao fim do percurso, Izaya já está impossivelmente corado, suado e excitado. O barman cessa as carícias para absorver a paisagem, inconscientemente passando a língua pelos lábios. Com a respiração irregular se atrapalhando na passagem pela boca entreaberta, o informante abre seus olhos escarlates quase negros pelas pupilas dilatadas.

— Sh-Shizu-chan?

O mais velho não se preocupa em responder, optando por apenas sorrir predatoriamente e abocanhar a ereção do menor. Sabe que conseguiu o efeito de surpresa quando ouve um gemido rouco ecoar pelo quarto.

— Ah-- Shizuo! — lança as mãos à cabeça do outro, enroscando os dedos nas mechas tingidas ao mesmo tempo que joga a cabeça para trás em puro êxtase.

Antes que Izaya possa recuperar o fôlego, entretanto, Shizuo desfere uma longa chupada da base à ponta de seu membro, seguida de uma lambida na glande já lubrificada por uma mistura de saliva e sêmen. Um par de mãos largas segura suas pernas separadas pela dobra do joelho.

Movido pelos sons de prazer que escapam dos lábios trêmulos do moreno, o mais velho impiedosamente ataca seu órgão com chupadas firmes e lambidas lubrificantes para enfim abrigar todo o comprimento dentro de sua boca. Então estabelece um ritmo inicialmente lento e profundo, que acaba progredindo para um passo mais acelerado e curto à medida em que o volume em sua boca inflama.

Um gemido arrastado introduz o clímax de Izaya, que arqueia as costas a um ponto inacreditável enquanto é vendado por seu orgasmo. Quando volta a si, solta a respiração que nem percebeu estar segurando.

Enquanto o menor recupera o ar carente, o barman endireita-se na cama de joelhos, limpando os resquícios do fluido em seus lábios com as costas da mão. Com uma suave puxada em seus shorts, libera seu membro já rijo da prisão das vestes, chutando-as para fora da cama posteriormente. Porém, antes que possa voltar a deitar sobre o informante, este ergue o tronco do colchão e trava os braços ao redor de seu pescoço, assumindo uma posição sentada sobre seu colo.

Shizuo entende o recado, invadindo enfim a boca do amante em um beijo sensual e demorado ao mesmo tempo em que reajusta sua própria posição. Enquanto encaixados perfeitamente com os calcanhares trançados – os de Izaya atrás das costas de Shizuo e os deste embaixo do outro –, o loiro se ocupa em lubrificar seus dedos com saliva e o moreno em masturbar ambos pênis juntos. A combinação lânguida de estímulos sensoriais arranca ofegos e gemidos impudicos ora alternados, ora simultâneos dos dois homens.

Ao sentir um dedo pedindo passagem em seu traseiro, Izaya ergue os quadris, colando o peito ao do maior e apoiando-se em seu pescoço. Tão logo sente seus interiores estimulados, começa a friccionar seu corpo contra o intruso, que logo ganha a companhia de outro dedo.

— Sh-Shizu-chan, já chega... — murmura, quase sem voz, o mais novo, lançando um olhar pecaminoso ao barman. Este não hesita em remover seus dedos imediatamente e tomar tanto a boca do parceiro quanto ele próprio para si simultaneamente.

Dentro do abrigo úmido de suas bocas, os gemidos dos dois residentes de Ikebukuro se misturam em uma amálgama de sentimentos incomunicáveis e doces pecados à trilha sonora de dois corpos chocando-se irrestritamente e tornando-se um.

Com uma firme posse das coxas esbeltas, Shizuo combina o movimento de seus quadris aos de Izaya, alcançando o máximo de profundidade dentro do informante. A sinfonia, sintonia e sincronia são atingidas com graciosa vulgaridade momentos antes de ambos chegarem a seus ápices; o loiro desencadeando o do moreno ao lançar sua carga dentro dele.

Por alguns momentos enquanto voltam os sentidos, o casal apenas aprecia o calor um do outro, soldados pelos fluidos corporais e esforçando-se para recuperar o oxigênio negligenciado durante o sexo. Assim que seus pulsos se estabilizam, desembaraçam-se e deitam-se enfim na cama; Shizuo em suas costas e Izaya de bruços.

Passados alguns minutos, o mais novo suspira:

— Bem, vou tomar um banho. — anuncia, levantando-se do colchão e sentando-se à beira da cama para calçar seus calçados de interior.

O loiro, ainda atirado na cama, estranha o tom neutro do moreno, livre de qualquer rancor ou qualquer indício de ter estado furioso previamente.

— Não está mais bravo? — estreita os olhos à figura esguia saindo da cama, sustentando seu tronco a fim de poder acusá-lo com o olhar mais efetivamente.

— Não exatamente. — ele dá de ombros; um leve traço de diversão delineando suas palavras.

Desgraçado.

— ...Você planejou tudo isso, não foi? — Shizuo pergunta cautelosamente, mesmo já tendo 99% de certeza da resposta.

E, logo antes de entrar no banheiro, aquela mesma expressão de malícia, formada por um sorriso de lado e um olhar ousado de olhos semicerrados, se espalha venenosamente no rosto do informante ao olhar por cima do ombro:

— Vai saber.

Notas finais
Então, é isso. Espero que tenham gostado! Não esqueçam de comentar! Amo vocês, obrigada por lerem
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!