Para sempre, primeiro amor
18 Capítulo 18 - Na sua pele
Notas iniciais
Sakura chegou de mais um plantão esgotada. A situação de Hinata e o pai problemático dela estava lhe sugando todas as suas energias. Como se não bastasse, ainda tinha a própria situação onde se descobriu grávida em meio a uma crise matrimonial.
Suspirou e agradeceu por estar sozinha em casa naquele horário. Tinha discutido de novo com Hiashi e seus seguranças. Aquela situação estava lhe dando nos nervos, ao ponto de considerar seriamente aceitar um processo por agressão física.
Ainda não havia contado a Sasuke sobre a gravidez. Desde que voltou para casa, ela se manteve calada e distante, tomando o máximo de cuidado para não dar nenhum indício. Sabia que aquilo estava deixando Sasuke uma pilha de nervos. Por mais que fosse frio e calculista, ele gostava das coisas bem resolvidas e ela estava postergando ao máximo.
Ele tentara lhe encurralar diversas vezes, e em todas elas, Sakura simplesmente deu-lhe as costas e se retirou. Seu comportamento estava calmo e omisso, totalmente o contrário de sua personalidade. Estava completamente introspectiva.
Tomou um banho rápido. Queria comer e dormir antes que a filha chegasse. Queria dar atenção a ela.
ㅡ Já chegou? ㅡ Sasuke perguntou, aparecendo no umbral da porta da cozinha.
Ela apenas virou a cabeça de lado num gesto afirmativo e continuou a passar geleia no pão.
Estranhou Sasuke em casa naquele horário, mas nada disse.
ㅡ Como foi o trabalho? ㅡ perguntou, abrindo a geladeira. Ele não era de puxar assunto, mas vinha tentando.
ㅡ Cansativo, como sempre.
ㅡ Não acha que deveria aproveitar para sei lá… tirar umas férias. Está muito envolvida no caso da Hinata, isso vai acabar sendo muito desgastante.
ㅡ Não ㅡ foi o que disse apenas. Como se aquela palavra fosse suficiente.
Sasuke suspirou. Só ela sabia fazê-lo inverter a personalidade e lhe torturar com o silêncio.
ㅡ Você não acha que já me castigou demais com seu silêncio?
Sakura levantou o rosto para encara-lo, um sorriso quase brotou em seus lábios, mas ela rapidamente disfarçou e saiu da cozinha, levando seu lanche.
…
Estava ficando difícil esconder a gravidez. Suas manhãs se resumiam a enjoos que acabavam no vaso. Ela sempre tentava se segurar até que Sasuke saísse de casa.
Sua mãe reduzira seus plantões e estava lhe pressionando a tomar uma decisão e usando o caso de Naruto para comprovar que esconder aquilo não a levaria a nada.
Sasuke já estava certo que ela estava lhe escondendo algo. Seu silêncio lhe indicava que não era só pelo que aconteceu. Ele a conhecia bem demais. Todas as suas manias e formas de pensar. Sabia que se ela quisesse se afastar, teria feito. Assim era ela. Ela tomava suas decisões definitivamente, doa a quem doer.
Mas não saber estava lhe corroendo. Ela nunca foi assim, omissa. Sempre foi muito tagarela e impulsiva. Mas agora não. Ela não dava um passo sequer em sua direção. Todas as suas palavras eram medidas, pensadas, poupadas.
Ele havia pedido transferência de distrito, pois passou a notar a investidas de Karen e a ausência de qualquer arrependimento. Ele estava com medo do divórcio e sabia que não poderia culpar ninguém se Karen decidisse beija-lo de novo. Por isso estava trabalhando apenas meio período.
Chegou em casa por volta das 17h da tarde. Olhou de um lado para o outro achando o silêncio infernal. Tomou um banho e desceu.
Escutou um carro estacionando e abriu a porta, esperando ver Sakura.
Para sua surpresa não era o carro dela em sua garagem, mas era ela no banco do carona. Piscou os olhos atônito com o que estava vendo. Nunca viu sua mulher chegar acompanhada de nenhum cara, muito menos um que ele não conhecia.
Observou o comportamento dela, sorrindo e gesticulando, como se estivesse muito confortável. Seu rosto corado e feliz.
Ela abriu a porta do carro e desceu, acenando e agradecendo ao homem.
Sasuke fechou a cara, sentindo um gosto amargo na boca. Suas mãos suavam e coçavam.
ㅡ Oi, Sasuke ㅡ Sakura disse a contragosto, passando por ele.
ㅡ Sasuke?! ㅡ ele perguntou, indignado.
ㅡ Não é seu nome? ㅡ Devolveu com ironia.
Sasuke fechou a porta e a seguiu de perto.
ㅡ Quem era com você?
Sakura virou bruscamente e ele quase esbarrou nela. Cruzou os braços e o mediu com a sobrancelha arqueada.
ㅡ Um amigo.
Sasuke imitou o gesto, cruzando os braços.
ㅡ Por que seu amigo te trouxe? Poderia ter me pedido para te buscar!
ㅡ Ah, é isso? ㅡ disse e deu as costas saindo da cozinha e subindo as escadas.
Sasuke a seguiu novamente.
ㅡ Então quer dizer que enquanto saio para trabalhar você anda por aí com seu amiguinho?
Sakura não deu ouvidos. Tinha vindo para casa mais cedo porque passou mal. Não estava em condições de dirigir e Ethan estava de saída, então ofereceu-lhe carona.
ㅡ O que isso significa? ㅡ Insistiu, já que ela não respondia.
ㅡ Sasuke, por favor, eu só quero me deitar.
ㅡ Quer se vingar, é isso?
Sakura massageou a testa, chegando no limite. Virou-se para olhá-lo nos olhos.
ㅡ O que diria se soubesse que nos beijamos? ㅡ Encarou as íris ônix profundamente, como se pudesse tocar seu âmago com apenas um olhar.
Apertou as mãos em punho. Sakura observou sua expressão oscilar entre mágoa e ódio.
ㅡ O que?
ㅡ Hein? O que diria? Se eu te dissesse que estava vulnerável e Ethan se aproveitou para me beijar?
Sasuke não respondeu. A confusão em seus pensamentos sem entender se era um fato ou uma suposição. Sakura não era uma mulher de passar panos quentes em uma situação. Mas não era injusta. Seu caráter era impecável, ela não faria mal a um inseto, de propósito.
ㅡ Pediria o divórcio? ㅡ Instigou.
ㅡ Não sei ㅡ respondeu, sincero. Amava-a com a própria vida, mas não sabia se suportaria o peso da traição.
ㅡ Eu digo que seus ciúmes são infundados e que somos apenas colegas de trabalho. Nunca aconteceu nada entre nós, ele somente é gentil comigo. E agora, pode conviver com isso?
O rosto de Sasuke foi ficando vermelho e Sakura achou que ele fosse explodir. Ela estava certa e ele estava errado e ela acabou de provar seu ponto de vista.
Ele queria dizer que não era a mesma coisa. Que Karin confundiu as coisas, mas ele nunca dera abertura. Mas não saiu nada. Como poderia dizer que ela estava errada, se mesmo confiando no caráter dela sentia um ciúmes só de vê-la acompanhada de algum homem.
ㅡ Você nem mesmo é capaz de admitir isso, Sasuke. ㅡ Sakura abriu a porta do quarto, mas parou antes de entrar. ㅡ Não quero ser incomodada, por favor, durma no quarto de hóspedes.
Sasuke queria dizer que não. Que ela estava colocando uma distância ainda maior entre eles. Mas resolveu dar o que ela queria por hora, mais uma vez tinha piorado as coisas.
Não sabia o que fazer. Estava de mãos atadas. Qualquer atitude dele pareceria falsa ou forçada, diante da situação. Ela não via sinceridade em suas palavras ou ações e ele sentia que seu tempo estava se esgotando. Como diria isso à família e amigos? Que seu casamento acabou por conta de um erro seu? Nem ele mesmo conseguiria conviver consigo mesmo.
…
Sasuke quase não pregou o olho durante toda a madrugada. Não podia impor sua presença, nem forçar que ela o aceitasse de volta. Teria que dar o espaço necessário até que ela se decidisse. Mesmo que isso o amedrontasse.
Levantou bem cedo e foi até seu quarto pegar algumas mudas de roupas. Ficou surpreso ao encontra-la acordada.
ㅡ Estou saindo para o trabalho ㅡ falou. Sakura desviou seu olhar do teto para encara-lo. Dessa vez seu olhar não havia acusações ou mágoa, talvez uma ponta de interesse. ㅡ Eu vou te dar espaço… acho que minha presença constante não está ajudando em nada. Eu vou tentar estar aqui para Sarada e fazer parecer como se eu não tivesse ido. Não quero que ela sofra mais com isso ou pense que a abandonei.
Sakura apenas observou seus movimentos.
ㅡ Eu te amo, Sakura. Desde o colegial, isso nunca mudou, mesmo nos anos que passamos separados, eu te amei com tudo o que tinha. Nenhuma outra mulher jamais preencheu esse lugar. Eu nunca te trairia. Eu nunca quis que isso acontecesse. Jamais colocaria nossa família em risco. Jamais te colocaria nessa posição. Me desculpe se te fiz esquecer o quanto você é especial e única na minha vida. Eu só… precisava te dizer isso.
A expressão de Sakura não alterou um milímetro sequer. Sasuke pegou suas roupas e deu uma última olhada antes de sair do quarto. Sentia um peso, uma tristeza. Sentia-se fraco por ter que fazer o que falou que faria.
Sakura estava tomada por uma onda de náuseas e tentou manter a expressão neutra o máximo possível. Queria dizer algo, mas se abrisse a boca, não seriam palavras que sairiam.
Suportou até onde foi possível e assim que escutou a porta bater, correu para o banheiro. Teve que fazer quase uma acrobacia para manter os cabelos limpos. Se pudesse falar, teria choramingado. Era péssimo não ter alguém para segurar seus cabelos e apoiar suas costas. A sensação de solidão era traiçoeira.
Sasuke não estava feliz. Ele não era de se expressar e dizer o que sentia, mas a angústia que sentia revirava todas as suas certezas.
Chegou a ligar o carro, mas voltou ao ponto morto. Voltou para casa, queria dizer mais coisas à Sakura, implorar para não deixa-lo.
Subiu as escadas rapidamente e entrou no quarto que ainda tinha a porta entreaberta. Procurou por ela no quarto e escutou sons vindos do banheiros.
ㅡ Sakura… ㅡ disse, chocado. Não pensou duas vezes antes de segurar seus cabelos e apoiar o braço nos ombros dela. Era de manhã e ela estava vomitando. A aura iluminada dela, mesmo parecendo extremamente cansada, agora fazia todo o sentido. Ele sabia o que aquilo significava, já tinha vivido aquele momento, era como um déjà vu.
Após alguns minutos, Sakura limpou a boca e Sasuke a aninhou em seus braços. Os dois se encararam ainda em silêncio. Ela estava sensível, não percebera o quanto queria seu apoio e sua presença.
Sakura escondeu o rosto em Sasuke, para que ele não visse seu choro. Ele a apertou mais forte em seus braços.
ㅡ Por que, Sasuke? Por que você sempre decide me magoar?
Sasuke sentiu o bolo formar em sua garganta. Nunca as palavras de Sakura foram tão profundas.
Ele se agarrou a ela como se fosse sua tábua de salvação. E ela era. Lembrou-se do que sentiu quando descobriu que o seu orgulho não superaria o que sentia por ela. Tentou se enganar durante um tempo, mas não suportou sua ausência. Eram melhores amigos desde a infância, ela fora seu primeiro e único amor, não foi uma decisão fácil de tomar. Ele viveu um verdadeiro mártir até decidir que deveria arriscar reconquista-la.
Não importa o quanto eram diferentes, ou quanto brigassem e se magoassem, eles sempre acabavam juntos. Sasuke não conseguia imaginar um mundo onde ele não a amasse. Não mais.
Tinham um gênio difícil, muitas vezes suas personalidades entravam em confronto, mas de alguma forma se completavam.
Choraram suas dores agarrados um ao outro por um bom tempo. Sasuke a levou até a cama e se aninhou a ela.
ㅡ Você não tem que ir trabalhar?
ㅡ Não… tenho que ficar com você.
ㅡ Sasuke, você pode ser preso ou punido.
ㅡ Não me importo, minha mulher precisa de mim.
Ele pegou o celular no bolso e enviou uma mensagem avisando que teve um imprevisto e jogou o aparelho no criado mudo.
ㅡ Pronto ㅡ voltou a abraça-la. ㅡ Há quanto tempo está sentindo esses enjoos?
Sakura não respondeu de imediato.
ㅡ Há um mês ㅡ falou com cautela.
Sasuke se afastou para olha-la.
ㅡ E não pensou em me contar? ㅡ disse, ofendido.
ㅡ Não queria levantar um alarme falso e não estávamos bem.
ㅡ Tudo bem, eu posso entender. ㅡ Falou enquanto acariciava suas costas. ㅡ Sabe que vai ter que diminuir no trabalho, não é?
ㅡ Sei…
ㅡ Porque você estava com aquele cara?
Sakura suspirou, já havia chorado o suficiente para lavar toda sua mágoa.
ㅡ Eu não me senti bem e não tinha como vir dirigindo, ele apenas estava de saída e ofereceu uma carona.
ㅡ Desculpe, agora eu entendo seu ciúmes ㅡ ele disse, para a surpresa dela. ㅡ Estou mudando de distrito.
Sakura se afastou de supetão.
ㅡ Agora eu estou bem impressionada.
ㅡ Não vou mais permitir que nada fique entre nós, isso é uma promessa ㅡ Sasuke segurou seu rosto com as duas mãos e selou a promessa com os lábios. ㅡ Queria muito ficar, mas agora eu preciso ir. Volto cedo, ainda precisamos conversar. Enquanto isso… nada de esforço. Vou pedir para alguém passar aqui e ver como você está.
Sasuke trocou a camisa por uma limpa.
ㅡ Não precisa.
ㅡ Nem ouse em discordar, minha teimosinha. ㅡ Ele tocou a testa dela com dois dedos. ㅡ Eu te amo.
Aquelas palavras ainda tinham o poder de faze-la derreter por dentro. Observou Sasuke sair apressado e jogar um beijo no ar. Ela riu e se virou para encarar o teto.
ㅡ Que reviravolta foi essa? ㅡ Perguntou para si. Tudo colaborou, nem mesmo Sarada acordou.
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