Para sempre
1 Capítulo único
Notas iniciais
A brisa acaricia meu rosto enquanto eu abro as janelas. Uma figura querida do lado de fora. Uma garotinha loira de lindos cabelos cacheados e longos, olhos azuis que me refletem tudo que eu amo. Um homem adulto e preservado sai de casa e sorri, olha para mim e ajeita os cabelos roxos bagunçados. Os cabelos que me lembram uma rosa azul, uma rosa fantasiosa, uma cor que eu amo muito. O homem se aproxima da menina e lhe dá um abraço surpresa, ambos sorriem me despertando um sorriso em conjunto. Observo tudo de longe. O homem pisca para mim e demonstra seu amor com um sorriso familiar e amado, eu correspondo. Meu coração se enche de alegria e uma onda de amor me invade, mas, ao mesmo tempo, sinto-me triste. O sorriso da criança novamente enche meu coração.
Ainda me lembro bem daquela historia de anos atrás...
Estava com medo. Eu não queria morrer. Papai e mamãe estavam me esperando do lado de fora, eu tinha que voltar com eles, eu tinha que ser sua filha, como sempre fui. O egoísmo se confundiu com o medo e me fez tomar aquela decisão. Eu não queria machucá-la. Eu te adorava...
Lembro de ter o visto chorar, de como nossa dor foi compartilhada mesmo antes de eu poder entender o que significa compartilhar uma dor. Lembro de como a culpa quase nos engoliu, mesmo depois que cresci... lembro de como aguentamos aquilo. Juntos. Foi isso que nos aproximou? Foi isso que fez com que o destino se estendesse entre nós mais uma vez? Foi por causa dela que nós descobrimos, juntos, a felicidade de viver e de amar um ao outro? Se sim, acredito que eu só tenha a agradecer... estes sentimentos "a mais" terem aparecido tanto tempo depois foi como uma bênção. Mas eu só queria entender o porquê. Por que ela precisou sumir? Eu ainda não compreendo. Não sei se um dia compreenderei. Eu queria fazê-la feliz, assim como quero ser feliz ao lado dele. Isso seria pedir demais?
Nós saímos. Nós ficamos juntos e felizes. As vezes, antes de dormir, eu pensava:
— Mary, se você me ouve de algum lugar... me diz, está feliz pela nossa felicidade? Tudo bem, eu sei que você era uma pessoa generosa. — Não conseguia me referir a ela como uma simples pintura. — Eu sempre pensarei que a resposta é “sim”.
Eu me sentia culpada, sabia que ele também. Se fosse apenas por mim eu não ligaria, conseguiria conviver a vida toda com esse sofrimento. Mas eu não poderia vê-lo se perguntar o que havia feito todos os dias, não ele. Eu não poderia vê-lo triste todos os dias. Eu realmente não aguentaria.
Mary viveu na solidão. E quando eu a encontrei... na época não percebi, mas nunca vi uma criança tão feliz em conhecer alguém. Era a esperança que ela tinha de ser livre, de ser amada e de ter alguém ao seu lado. Todas as noites nós pedimos desculpas, as vezes até chegamos a fingir conversar com ela. Com o tempo percebemos que pedir desculpas já havia sido demais, só fazia parecer que não éramos sinceros. Como uma criança que promete algo e depois descumpre por não levar a sério. Era isso que parecia que estávamos fazendo. Eu queria tirá-la daquela dor, mas eu já não podia mais. Tive outra ideia. Eu estava com vinte e cinco anos, nenhuma criança chegara ainda... Uma ideia iluminou minha mente.
— Garry?
— Sim?
— Não sente falta de algo?
— Como assim? Ah! — ele sorriu, travesso — O que você escondeu dessa vez?
— O-Oras! Eu não sou tão travessa assim, seu bobo! — Atirei uma almofada em seu rosto. — Não é isso... É... Sabe, uma companhia menor.
Os olhos dele se iluminaram e ele finalmente pareceu entender a ideia. Ele deixou escapar um sorriso, e eu soube que ele havia entendido.
— V-Você está querendo dizer que... — Ele levantou-se com ânimo.
— Garry. — Eu me levantei e segurei as mãos dele, olhei em seus olhos. — Vamos fazer o que sempre nos arrependemos por não ter feito... Vamos tirar uma criança da solidão. Eu quero... Eu quero adotar uma criança!
Ele entendeu o propósito. Ele entendeu o que eu quis dizer com todas aquelas palavras. Ele entendeu a amizade que eu nunca esqueci... Mas Garry sempre quis uma criança, ele já teria idade para tê-la, mas eu era nova demais. Ele sempre foi compreensivo e aceitou minha decisão, esperou que eu estivesse pronta para isso. Eu também queria conceder a ele o desejo guardado por tanto tempo. Ah... Eu realmente o amo. Eu o amo mais do que qualquer pessoa que eu poderia amar minha vida inteira. E esse amor agora seria compartilhado com mais alguém.
No dia da visita ao orfanato eu derramei lágrimas no instante em que passei pela porta. A primeira pessoa que vi foi uma garota com um vestido leve esverdeado correndo pela sala, era loira e de cabelos longos cacheados, só depois pude ver seus olhos, azuis como o céu, o mar e as lágrimas pintadas em um desenho infantil. Nesse momento eu senti meu coração apertar, meu sorriso murchou e não pude evitar que as lágrimas caíssem. Garry afagou meus cabelos e me abraçou, acolhendo minha dor como sempre faz. Quando solucei, a menina percebeu nossa presença e parou. Ela se virou para nós, quando viu minhas lágrimas seu sorriso também murchou e ela se aproximou de mim.
— ... E-Eu fiz alguma coisa?
Não aguentei, tive que abrir um sorriso.
— N-Não, querida. Você não fez nada. Eu que sou uma boba. P-Pode continuar brincando... — Afaguei levemente os cabelos dela, ela corou e foi brincar.
Eu sorri novamente, enxuguei as lágrimas e tentei dar atenção para àquela que dirigia o orfanato, mas sempre deixava escapar uma ou duas lágrimas. Eu não sabia se eram de felicidade ou de saudades.
— Tenham a consciência que adoção é um processo complicado e a criança deve passar alguns dias convivendo com vocês para estarmos cientes que é adequado para ela.
— Sim, nós estamos cientes... — Garry confirmou.
— Eh... Senhora. Aquela garotinha... Qual o nome dela? — consegui perguntar.
A resposta me veio como um soco no coração, as lembranças me afetaram fortemente...
— Ah? Ah, sim. Aquela é a nossa doce Marie.
Olhei para Garry e ele sorriu. Fez um sinal de sim com a cabeça e eu sorri junto.
— Eu... nós queríamos conversar com ela!
Não achei que fosse ser fácil. Nós conversamos um pouco e ela me olhava curiosa, me encarava com aqueles profundos olhos azuis. Profundos, mas não complicados, ele quase me pediam: “Me tire daqui... Deixe-me ser feliz ao seu lado”. Ou seria apenas minha imaginação lembrando de coisas que não deveria. Eu a encarava e a cada segundo passava a amar mais aqueles olhos, aquele sorriso e a forma enrolada de falar as coisas. Eu me entendia com ela. Sim, ela seria minha criança, nossa criança. Seria meu novo motivo de viver. Seria uma nova pessoa a quem eu podia amar.
— Marie, então, você quer vir conosco? Você quer ser parte da nossa família? — convidei-a, eu estava nervosa, temendo sua resposta mesmo que ela parecesse clara.
O sorriso de antes fugiu do rosto da menina, ela me olhou espantada como se eu tivesse dito algo assustador. Uma ou duas lágrimas caíram do rosto dela e eu segurei as minhas. Gritando um “É claro que sim!” ela correu para me dar um abraço. Ela se aconchegou nos meus braços, pela primeira vez eu me senti responsável. Senti que deveria a proteger com tudo que eu tinha, se algo a machucasse eu não me perdoaria jamais. Agora, aquela era minha criança, com ou sem documentos, não... era nossa criança. Garry continha um sorriso ao meu lado, ele parecia demasiado emocionado, pensei até que o veria derramar lágrimas, mas ele apenas nos abraçou. O abraço dela ainda me cativava, agora parecia que era ela que me protegia, e não o contrário. Agora eu teria uma preciosidade na minha vida. Alguém que ninguém nunca tomaria de mim. Alguém que era uma parte de mim, uma enorme parte de mim... é isso que é ser mãe? Pensei nisso e não pude me conter, eu que estava parecendo a criança, chorando como uma boba enquanto sorria.
Agora estamos aqui. Em casa. Felizes.
Me recordo do dia em que a tutora do orfanato sugeriu que mudássemos o nome dela para alguém especial. Pensei no assunto, mas me horrorizei com a ideia. Mary certamente deveria ser lembrada, mas ela nunca seria substituída por ninguém. Mary era única. Minha Marie também era única. Ela não deveria ser um objeto usado para preencher a falta de Mary, ela era minha filha, não um bichinho de estimação o qual eu escolho o nome e o uso para o que eu quiser. Ambas eram únicas e especiais. E ambas tinham seu espaço no meu coração. Nenhuma delas jamais seria substituída.
Retorno para o presente e largo meus flashbacks inesperados, sempre assim... Eu estava realmente distraída. Garry me surpreende com um selo nos lábios do lado de fora da janela. Marie olha para nós e começa a rir como se alguém tivesse lhe contado a piada mais engraçada da história. Nós rimos com ela e eu corro para a porta, assim que saio de casa ela corre para os meus braços e me surpreende com um abraço. Garry a levanta no alto e a acolhe no seus braços, ganhando espaço para que ele me abraçasse. Ela se aproveita e coloca os bracinhos em torno de nossos pescoços. É assim que uma família é? Acho que já estou descobrindo tudo... Ser esposa é maravilhoso. Ser mãe é surpreendente. E ter uma família é a melhor coisa que alguém pode conseguir...
(Garry, você sempre será meu amado, pela eternidade...)
(Mary, você sempre será minha melhor amiga...)
(Marie, você... você sempre será a melhor coisa que me aconteceu.)
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