Para onde você foi?
1 Capítulo 1
O dia já estivera mais atraente, lá fora os ventos uivavam e espalhavam folhas e folhas ao agredir as árvores, os relâmpagos rugiam e assustavam todos os cachorros da vizinhança. Ana observava a confusão pelas janelas da casa de seu namorado, Eduardo. Estava sozinha, era apenas ela e o escuro. Em seu colo apoiava um papel velho e uma caneta, tentava há horas escrever algo para surpreender o rapaz caso chegasse e ela já tivesse ido embora ou sido engolida pelo sono.
Fizera alguns rabiscos e rascunhos, mas nada digno. Observava as outras cartas que deixou nos dias anteriores, todas espalhadas pela casa sequer haviam sido abertas pelo amado, questionava-se o motivo, mas nenhuma explicação chegava em sua mente.
Começa a pensar sobre a briga com a mãe que tivera mais cedo, a jovem vivia um romance não aprovado pela família, chegaram a discutir se ela deveria ou não visitar Eduardo, não apenas hoje, mas todos os dias. Entretanto, a carne é fraca, e a moça realmente queria ver o rapaz, sentia sua falta. Há algum tempo não beijava seus lábios, não acariciava seu cabelo sedoso ou se perdia em seus olhos apaixonados e profundos. Saiu escondida de casa, no entanto foi em vão, o garoto não estava por aqui. Nunca está, na verdade.
Pega o celular e checa se não haviam chamadas dele, aproveitando para dar uma olhada no horário. A esse ponto do dia já deveria estar saindo do trabalho e a caminho de casa, mas a mensagem que sempre mandava nessa trajetória não havia chegado, talvez até não a tenha enviado. As ligações de nada adiantavam também, estaria ele a ignorando? Suas amigas haviam conversado com a moça alguns dias atrás sobre ele, disseram que ele havia ido embora...”É mentira”, dizia a menina, “ele não me deixaria, só está muito ocupado com o trabalho”
Ou deixaria?
Claro que não.
Ou sim?
Ah, o amor por muitas vezes é maldoso, machuca a alma e arranha o coração com navalhas, mas pior ainda que o amor é a confusão que ele causa. Não se viam há semanas, sequer sabia se estariam juntos ainda ou não.” Será que ele quer um tempo?”, questionava-se, “Ora se é um tempo que queria, era só ter pedido”. Estava preocupada, queria notícias do rapaz que nunca chegavam.
A moça se abraça com o cobertor do amado que estava por ali, um abraço forte e confortável, aproveita para sentir o cheiro do perfume que exalava do tecido e a lembrava de muitas noites que passaram juntos. A alegria logo é tomada pela tristeza, e seus olhos a traem liberando lágrimas e enchendo a garganta de bolhas.
Estava na hora de ir, ainda chovia e era tarde. Limpou as lágrimas, estourou as bolhas e cessou os soluços. Mais um dia se passou e não conseguira ver seu namorado. Deixou mais um recadinho na geladeira avisando que havia passado para lhe dar alguns beijinhos.
Há algumas horas o sol dissera um casual “até logo”, deixando que a lua e as estrelas competissem com a neblina e escuridão. As lágrimas desabavam na noite fria e explodiam ao tocar o asfalto, o choro era silencioso e calmo. Passava entre as casas e pensava nas crianças que antes brincavam pelas ruas e agora estão em suas camas sonhando com o amanhã, com toda sua pureza e inocência, enquanto seus pais num sentimento de estresse se preparavam para mais um longo dia de trabalho.
Tinha seus 20 anos nas costas, o rosto estava manchado da pouca maquiagem que passara antes de sair, suas macias madeixas bem cuidadas estavam encharcadas e sem brilho. Ainda sofria com a traição de seus olhos que liberavam ainda mais lágrimas, estas se fundiam com a chuva, tornando-se apenas uma.
Voltava para o conforto de casa. Para seus pais e amigos, mas não para sua vida. No entanto o processo era lento e necessário, mesmo que difícil, é preciso aceitar a inevitável morte para que o futuro seja visível, já que ele não chega para todos.
Lembra-se daquela rosa?
Você me disse que ela viveria para sempre
Eternamente mesmo
A rosa durou por um bom tempo
Entretanto, longe do tal “para sempre”
Discussões bobas faziam suas pétalas caírem
Crises de ciúmes faziam-na perder sua cor
Suas folhas ressecavam ao ver lágrimas
Até que por fim
Ela murchou e faleceu
Rosas não são para sempre
Você também não foi.
Fale com o autor