Jamie

Triiiiim... Triiiiim... Triiiiim

Acorde assustada com o barulho do despertador. Olhei em volta e estava tudo no lugar, me lembrei da noite passada. Sentei na cama, me espreguiçando, olhei para o despertador e ainda eram 6hs da manhã, respirei fundo em frustração, queria um dia conseguir dormir até tarde, mas meu corpo já estava acostumado acordar cedo. Fiquei olhando para teto, talvez tudo que aconteceu na noite passada tenha sido um sonho, se é que posso chamar de sonho, estava mais para um pesadelo. Levantei da cama, fui caminhando até o closet abri a porta e dei um grito abafado quando o vi deitado em cima de uma toalha forrada no chão, respirei fundo frustrada. Ele abriu os olhos assustado, sentou-se rapidamente e me olhou confuso, ainda estava sonolento, fez uma careta segurando o lado esquerdo do abdômen.

“Ah é você! Pensei que tinha sido um pesadelo. “- Falei com desdém. O seu cabelo ruivo estava todo bagunçado e o rosto com as marcas da toalha que ele usou como travesseiro.

“Se isso fosse um sonho, teria sido um dos melhores que já tive na vida, há muito tempo que não sei o que é dormir em um lugar aquecido.” -Ele disse seco, levantando do chão e me encarando. Senti uma pontada de culpa, por mais que fosse errado, era uma pessoa, um ser humano. Ele me olhou de cima abaixo, fiquei tentando imaginar o que ele estava pensando e me toquei que estava com os cabelos bagunçados e o rosto amassado, deveria estar horrível, minhas olheiras deveriam estar bem escuras. Me virei rapidamente e entrei no banheiro, trancando a porta. Dei uma olhada no espelho e como imaginei, estava uma bagunça, olheiras escuras e a cara amassada, o cabelo uma zona. Mas isso era o menor dos meus problemas, tinha que tomar uma providência, deveria expulsa-lo daqui imediatamente, mas estava de dia e se fizesse isso, ele seria visto. Esse horário muitas pessoas estavam saindo para trabalhar, baixei a cabeça ligando a torneira, passei água no rosto, sem a menor ideia do que fazer. Minha cabeça doía só de pensar, fiz minha higiene matinal, penteei o cabelo e o amarrei em um coque bagunçado, fiz uma maquiagem leve, para disfarçar a noite mal dormida e sai. Ele estava parado em frente a porta, me segurei para não gritar. Quase cai em cima dele, mas mantive o equilíbrio.

“Você estava ouvindo atrás da porta? Já ouviu falar em privacidade? ” — Ele tinha facilidade em me irritar profundamente.

“Não! É que preciso usar o banheiro, mas não tinha certeza se deveria bater ou esperar você sair. Por sorte você saiu antes que eu precisasse decidir.” – Suas bochechas ficaram coradas, o que o deixava fofo. Balancei a cabeça em repreensão ao pensamento de agora. Por sorte ele achou que estava reprovando sua atitude.

Agora se me der licença, preciso usar o banheiro doutora e sugiro que não faça nenhuma gracinha nesse intervalo”. — Me irritava mais ainda quando ele me chamava de doutora.

“Meu nome é Clarice, não que isso seja da sua conta, mas já que salvei sua vida e que dormimos juntos, não juntos intimamente, mas debaixo do mesmo teto.” – Comecei a ficar perdida no meio da fala. — “Então acho que no mínimo você deveria saber meu nome. Enfim, você entendeu.”

“Meu nome é Jamie, não que isso seja da sua conta, mas caso queira saber.” — Ele falou passando do meu lado e entrando no banheiro, trancou a porta atrás de mim, fiquei parada ali ainda sentindo o calor do corpo dele à minha frente. Encarei o chão por uns segundos e fui até o closet me arrumar para ir trabalhar, não estava nem um pouco preocupada com a roupa que estava colocando. Peguei uma calça jeans e uma blusa de manga longa branca, coloquei minhas botas e uma jaqueta por cima, peguei meu cachecol favorito e sai. Ele estava sentado na beira da cama, quando me viu arregalou os olhos surpreso. Espero que isso seja um bom sinal.

“Que foi?” — Ele desviou o olhar ficando sem jeito.

“Na...nada” — Suas bochechas voltaram a corar, agora sei que não sou a única que ficava envergonhada com facilidade. Ele olhou em direção a janela e voltou a me encarar. “Aonde você pensa que vai? Não posso deixar que saia. Então ligue no trabalho e avise que não pode ir hoje. ” –

Ele caminhava em minha direção, me fazendo recuar. Mas seu eu falasse que não poderia ir hoje, Sol iria questionar, viria aqui em casa e só Deus sabe o que ela faria quando o visse aqui. Ainda mais que nunca faltei no trabalho.

“Vai ser pior se não for, nunca faltei ao trabalho. Vão me encher de perguntas e minha supervisora, provavelmente vai vir aqui, mesmo que eu diga que estou bem. Te dou minha palavra que não vou te entregar, se quisesse teria feito isso ontem, quando aquela policial veio aqui. Só me prometa que não vai aparecer na janela e nem fazer algo que levante suspeitas. Seria mais seguro que esperasse anoitecer para pensar em como fugir.” - Ele ficou apreensivo, passou a mão nos cabelos, respirando fundo. Depois de uns minutos parado pensando, concordou.

“Está certo! Mesmo que você me entregue, não faria nenhuma diferença mesmo. Cansei dessa vida de fugir, sei que vou morrer de uma forma ou de outra, pelo menos você daria um fim a esse inferno.”

Aquelas palavras me deram uma pontada no estomago. Mas tentei não demonstrar nenhum sentimento, não o deixei perceber que aquilo mexeu comigo, provavelmente eram mentiras. Peguei minha bolsa e virei as costas saindo do quarto. Antes de descer as escadas, deixei alguns avisos.

“Estarei em casa por volta das 20hs, hoje é um dia cheio no trabalho. Ah! Se quiser comer alguma coisa, tem comida na geladeira, caso ouça alguma coisa suspeita, vá para o porão, que fica na cozinha, é a porta estreita de madeira, mas a luz da escada está queimada, comprei uma nova, mas não tive tempo de trocar. Então cuidado para não cair escada abaixo, você é pesado demais para carregar.” — Tentei ser engraçada, mas não deu muito certo, ele deu um meio sorriso, levantando as sobrancelhas, aquilo o deixava tãoo.... Não sei ao certo o que sentia, tudo sobre ele parecia estar errado. Desci as escadas e fui para a garagem, primeiro verificando se estava tudo certo pela casa, no banheiro perto da cozinha. Joguei algumas toalhas no fundo do sexto, limpei qualquer vestígio de sangue pelos corredores e fui para o trabalho...

Estava cansada, preocupada, ansiosa e as horas no trabalho pareciam dias, atendi minhas pacientes e uma colega, que faltou por conta de um resfriado. Acabaria chegando em casa depois das oito e só Deus sabe o que aquela criatura poderia pensar.

Faltavam cinco minutos para acabar o expediente, Sol ficou me observando o dia todo e inúmeras vezes me perguntou se eu estava bem. Me esquivei o dia todo, ela sempre sabia quando tinha algo errado comigo. Por fim quando ela me encurralou no corredor, disse que tive uma noite de sono ruim. Odiava mentir, mas não poderia dizer o que estava acontecendo, seria arriscado demais e ela iria fazer algo a respeito.

“Tive um pesadelo com minha mãe”, tentei ser o mais convincente possível, Sol ficou apreensiva, ela sabia que esse era um assunto delicado . Fui até minha sala peguei minhas coisas e sai do hospital, caminhando normalmente, quando na verdade minha vontade era de sair correndo. Cheguei ao estacionamento, joguei minhas coisas no banco detrás, liguei o carro e sai. O caminho parecia mais longo e hoje estava muito frio. Fiquei imaginando como seria para Jamie passar a noite nesse frio, ainda mais depois de perder muito sangue, sem comida. Poderia facilmente morrer, mas isso não era da minha conta, já fiz muito salvando a vida dele e colocando a minha em risco, só queria chegar em casa e manda-lo embora e esquecer tudo isso. Mas algo nele mexia comigo, me fazia questionar tudo que aprendi, parecia loucura, já que tinha acabado de conhecê-lo e na pior das circunstâncias, não posso confiar nele. Talvez ele estivesse bagunçado minha cabeça de propósito, todo homem era mestre em distorcer as coisas, mas eu não vou cair nessa.....