O mundo de repente estava barulhento demais lá fora. Jane optou por ignorar as luzes e as vozes de Korsak e Frost vindo do lado de fora do carro, um ligando para a sede, outro ligando para o hospital. Os outros dois policiais colocavam o sujeito dentro de uma viatura.

Jane queria matá-lo. Esfolá-lo. Socá-lo até sentir suas mãos doerem, até perder toda a força do corpo. Ele era um animal. Não, ele era menos do que isso. Ele era o lixo, um bolo de sujeira seboso jogado no bueiro. E ele merecia toda dor que havia causado para os outros, causado para ela. Talvez em dobro. Talvez mais do que isso. Ela o faria sentir a escuridão, implorar, rezar, iria conhecer o frio, a dor. Ele iria sucumbir, cair sobre seus joelhos, mas ainda assim Jane não daria o golpe final. Ainda não. Não tão cedo. Ela esperaria ele se recuperar — não muito, apenas o necessário — para começar a tortura novamente. Ela poderia ser pega, presa, mas a essa altura ela não se importava. Ela jurou vingança enquanto chorava por Maura. Ela cumpriria a promessa. Talvez isso acabasse com ela, mas por Deus, ela iria fazê-lo pagar. Pagar por cada lágrima. Por cada soluço. Pela dor que apertava sem nenhuma misericórdia seu coração. Por ela e por Maura e pelas outras.

Jane abraçou o corpo frio de Maura junto a seu peito.

Jane o teria matado, ela o teria feito sem pensar duas vezes. E ela teria feito, teria perdido a cabeça se Korsak não tivesse acalmado ela. Korsak, seu salvador. Sempre ele. Trouxe-a de volta para a vida enquanto Hoyt a matava. Duas vezes. Salvou-a em tiroteios, em inspeções. Salvou-a de Dominic que a manteve acorrentada pelas mãos e pés na cama, dentro de uma versão de seu próprio quarto. Korsak que a salvava as vezes da próprio mãe, de Cavanaugh. De coisas mínimas, mas que ela era grata.

Korsak, o salvador de Jane e agora de Maura.

Pulso! Jane, ela ainda está viva. Ela está viva! Ele havia dito entre o desespero dela, e os soluços de desolação passaram a ser soluços de alívio, gratidão, quando ela mesma conferiu a pulsação fraca no pescoço de Maura.

Viva. Viva. Viva. Maura está viva.

E depois disso tudo foi muito rápido. Alguém gritou em algum lugar e um ou dois tiros foram disparados. Korsak sumiu na escuridão e Frost carregou Maura para o carro. Jane o seguiu e desde então estavam as duas lá: Maura em seus braços, gelada, provavelmente sofrendo de hipotermia; Jane segurando-a e acariciando o rosto, tentando mantê-la a qualquer custo aquecida.

Maura. Maura. Maura. Maura. O nome passava pelos seus lábios como um apelo, baixo, sincero, carregado. Maura tinha que acordar, ela tinha que abrir os olhos. Jane precisava encará-la, olhar para a imensidão verde. Ver a vida ali dentro. Ela ajeitou o casaco de Korsak que estava, assim como o dela, cobrindo a loira, e com o braço em baixo de sua cabeça, Jane a trouxe para mais perto de seu peito.

'Vamos lá, Maur. Volta pra mim.' Ela beijou-lhe a cabeça. Cinco minutos haviam se passado e mesmo com o ar quente do carro ligado, a médica parecia extremamente fria. Jane analisou a situação. Maura não tinha nenhum ferimento grave — pelo menos não que ela tivesse visto, e se o coração ainda estava batendo significava que, com o sangue circulando, o cérebro não tinha sofrido nenhum dano por falta de oxigênio. Certo? Ela franziu as sobrancelhas e tentou se lembrar de uma vez que Maura tinha explicado isso. Ela tinha prestado atenção, ela sempre prestava. Como que se em resposta aos pensamentos, a mulher se moveu levemente em seus braços.

'Hey...' Jane disse, a voz carregada pelo choro. 'Isso, você vai ficar bem.' Ela acariciou a bochecha da loira com o polegar, os outros dedos se enroscando no cabelo atrás da orelha. 'Vai ficar tudo bem. Eu te achei.' Ela viu como Maura franziu as sobrancelhas, provavelmente lutando para voltar à consciência. A respiração ficou um tanto mais pesada enquanto seu corpo tremia levemente. Jane colocou o dedo em seu pescoço. Sim, a pulsação estava aumentando. Agora seria a hora em que Maura sentiria mais frio: quando a circulação levasse todo o sangue gelado das extremidades para o restante do corpo. E possivelmente, seria logo que Maura acordaria, quando a percepção voltasse a trabalhar, sobressaltada por conta do fluído gelado circulando o corpo, causando frio, tremores no músculo, despertando a mente para a vida, se afastando do silêncio e da escuridão da morte.

E a mente de Maura era afiada. Em poucos minutos, ainda tremendo de frio e semi-acordada, a loira tentou se livrar de quem quer que a estivesse segurando. Era ameaçador e seu instinto instigava à luta. E quando 'Maura' lhe foi sussurrado, ela soltou um murmúrio de medo, uma arfada de dor. E então braços fortes a seguraram novamente, e ela queria pedir que não, mas porque ela não conseguia falar? E quando seus dedos agarraram um braço, ela encontrou força para empurrá-lo, mas a pele quente incendiava seus dedos gelados, e ela o largou imediatamente, lamentando a dor. E então 'Maura, sou eu, Jane, shhh...' ela ouviu de novo e ... Jane? Ela parou de se mover. Jane? Ela se perguntou de novo e sentiu seu corpo ser levemente embalado.

'Hey... Shhh. Tudo bem, Maur, você está a salvo.' Jane segurou a cabeça da loira carinhosamente contra seu ombro, o rosto de Maura descansando próximo ao seu pescoço. Calor. Maura precisava de calor. Ela tremia incontrolavelmente.

'Ja-jan-e?' Ela finalmente conseguiu falar, o queixo tremendo tanto a ponto de cortar as sílabas.

'Oi, Maur, hey.' Ela disse docemente, abraçando a loira com carinho.

'Fr-ri-o.' Maura suspirou enquanto suas mãos tentando desajeitadamente abraçar Jane.

Jane tentou responder, ela tentou ao máximo dizer algo, mas tudo o que saiu de sua boca foi um soluço. Alívio. Seu peito doía, mas agora era algo diferente, era gratidão. Jane jogou a cabeça para trás e apertou os olhos com força. Obrigada, obrigada, obrigada. Ela repetiu várias vezes na cabeça mesmo não sabendo a quem exatamente estava agradecendo, mas só o motivo para isso bastava. Maura estava viva. Ela sorriu entre lágrimas. Jane afastou a loira o suficiente para estudar seu rosto e beijou sua testa demoradamente. 'Você pode olhar para mim?'

'Nã-ã-o consigo ver.' Ela choramingou.

'Maur... é porque seus olhos estão fechados.' Jane riu, sacudindo o corpo e o de Maura consequentemente. Tão esperta você, Dr Isles.

'Oh.' Ela tentou abrir os olhos, eles estavam pesados, e era realmente difícil focar em alguma coisa.

'Aí está você.' A detetive sorriu para ela, os dedos deslizando no rosto do Maura levemente, trazendo um fraco sorriso aos lábios da médica.

E então ele desapareceu.

'Jane!' Ela exclamou quando a realidade se estabeleceu, e todo medo, terror, ansiedade fluíram em sua mente, agora consciente de tudo o que havia passado. Ela fechou os punhos com força na roupa da detetive, segurando-se como se sua sanidade dependesse dela, como se Jane fosse a última chance de se ingressar de novo na vida que conhecia. Lágrimas quentes cortavam seu rosto, e a respiração acelerada alarmou Jane.

'Maura. Já passou. Você tá bem. Escutou?' Ela apertou seus braços em volta da loira que travava uma batalha entre medo e razão. 'Tá tudo bem, a gente vai cair fora daqui. Juntas. Eu e você.' Ela agora acariciava o cabelo de Maura, enquanto a loira chorava em seu pescoço. 'Ninguém vai te machucar, Maur. Eu sinto muito por tudo isso, mas ninguém vai mais te machucar.'

Ela deu um tempo para Maura. Ela sabia que tantas palavras agora não iriam adiantar, o trauma tinha sido grande e, por experiência própria, ela sabia quais os caminhos Maura tinha que percorrer para se recuperar. Jane não iria apenas afirmar que tudo estava bem, ela iria mostrar.

Com um suspiro pesado, Maura se remexeu e encostou sua testa no pescoço da morena. 'Água?' Ela pediu com a voz baixa, rouca.

Certo, água. Jane tinha visto uma garrafa de água mais cedo no carro. 'Maur, perto do freio de mão. Consegue ver? Alcançar?'

A loira se inclinou com dificuldade para o lado e pegou a garrafa, mas foi Jane quem a abriu. 'Devagar.' Ela disse enquanto Maura tomava o conteúdo da garrafa, agora sentada, seu rosto nivelado com o de Jane. Ela estava desidratada. Quando terminou, Jane depositou o frasco no chão. Nesse mesmo momento luzes vermelha se aproximavam do carro: a ambulância.

'Maur, eles precisam examinar você, ok?' Jane disse, acompanhando o olhar de Maura para o outro carro.

'N-não.' Ela protestou, ainda assustada. A perspectiva de Jane deixando-a, levando sua segurança junto a atormentava.

'Eu prometo que vou ficar com você, o tempo todo.' A morena segurou seu rosto e encarou Maura, os olhos fixos e sérios no dela não deixavam dúvida.

E logo Maura se virou à beira de lágrimas mais uma vez. 'Você me encontrou.' Ela segurou o punho de Jane.

'É claro que sim, eu cruzaria os sete mares nadando se precisasse, Maur.'

A loira franziu o cenho. 'Isso é impossível.' Ela disse fungando e Jane se sentiu tão feliz ao ver a antiga Maura retornando que encostou a testa na dela, sorrindo e beijou-lhe levemente os lábios.

'Nada é impossível, Maur. É só ter um pouco de fé. Hoje eu sei disso.'

E quase sorrindo, um tanto impressionada pela atitude de Jane, a médica levou seus dedos levemente nos lábios da outra mulher. E o impossível, Maura descobriu nesta noite, era apenas uma linha tênue entre desejo e tentativa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.