Para Ter Você (Divergente)
11 Capítulo 10 Parte I - Tanto Quanto
Notas iniciais
Algo me prendia á cama. Não era muito pesado, mas circundava a minha cintura terminando sobre a minha barriga.
Vagarosamente, abri os olhos. Alguns fios grudados em minha face atrapalhavam, porém não o suficiente para que eu visse — embaçado — o nascer do sol, os raios mínimos inundando o quarto através da cortina florida. Para todos os efeitos, minha cabeça latejava.
Eu me lembrava de ter me enrolado com o cobertor, flashes de frases longas e sem freio ditas horas antes invadindo minha memória, refrescando-a com o que eu imaginei ser irreal: eu falando sobre Caleb — meu assunto tabu — para Tobias; contando tudo, absolutamente tudo, mesmo. Desde o período que ele tinha se revoltado ao que ele transformara nossa prima numa viciada.
O engraçado, é que sequer recordava de quando caíra no sono. E nem se Tobias tinha voltado para o seu quarto. Virei minha cabeça e constatei, que não. Senti meu rosto arder com a nossa proximidade mas não me mexi. Queria evitar a todo custo que ele acordasse e me flagrasse o olhando. Ele estava deitado de bruços, a cabeça quase desaparecendo no travesseiro mole até demais; a respiração solene que me lembrava dele dormindo sobre a poltrona, velando meu sono. Tínhamos invertido as posições agora. Desta vez ele não tinha saído do meu lado, literalmente. Para ser sincera, eu também não queria que ele saísse, porque eu sentia algo tão certo em simplesmente estar ali, a ponto de meus problemas presos ás lembranças e vindo á tona quando eu fechava os olhos, esvaírem-se.
Como se ele fosse o lugar mais acolhedor que eu tivera chance de encontrar. Aquele sonho a longo prazo, que se realizava todos os dias, todos os minutos, todos os segundos. Toda a vida. Eu desejava felicidades a quem tinha seu próprio refúgio humano. E sorte para quem ainda estava procurando o seu ou permanecia como pedra preso no muro da indecisão — ou o que quer fosse.
Se não fosse pelo gosto azedo não tão distante subindo minha garganta, com certeza eu ficaria observando Tobias por muito, muito tempo. Com cautela, tirei seu braço ao lado do corpo e levantei, cobrindo a barriga que levantara com meu pequeno esforço. Embora eu estivesse abaixo do peso para uma grávida de três meses, nem mesmo as regatas da prima de Tobias serviam em mim e eu já previa ter de comprar roupas novas em breve.
Voei até o banheiro e lavei o rosto. Minha vontade de vomitar passou, entretanto; apoiei minhas mãos na pia e olhei para o meu reflexo no espelho. Cabelos fora do lugar, uma "macha" debaixo dos olhos e o amassado típico de quem dormiu mal — ou bem demais.
Quando adentrei novamente no quarto, Tobias estava se sentando, olhando para os lados. Permiti que meus lábios se deformassem de uma linha reta a um sorriso zombeteiro ao ver o cabelo dele, despenteado e bagunçado em contraste com sua aparência de homem de negócios sério e prepotente. Mas eu insistia em lembrar que ele não era aquilo, era apenas um rapaz normal — ou quase.
Ele retribuiu o sorriso e bateu a mão ao seu lado no colchão.
Sentei na cama e cruzei minhas pernas em forma de índio, buscando um cobertor para me cobrir.
— Está melhor? — sua voz rouca me desconcertou. Ele pigarreou.
— Muito. Obrigada, mesmo, por me ouvir.
— Não há de quê.
Momento exclusivo para silêncios constrangedores.
Eu bocejei e uma pontada em minha cabeça me alertou que embora eu tivesse tido um bom sono, ter chorado aos montes na madrugada tinha dado frutos e minha cabeça latejava como um martelo batendo num prego.
Tobias deve ter percebido porque logo levantou e tirou da gaveta uma cartela com comprimidos brancos e circulares e entregou-me um. Em seguida, pegou uma garrafa disposta sobre o criado mudo — eu sempre tinha sede, principalmente á noite para aliviar os enjoos noturnos, e um pacote de bolacha de água e sal, mas eu nunca tinha fome o suficiente para comê-lo — e deu na minha mão.
Devolvi a garrafa ao seu lugar e me recostei na cabeceira. Puxei minhas pernas e as abracei, apoiando minha cabeça nos joelhos e o fitando.
— Ontem você falou... — coçou a nuca — Quer conversar sobre ele? — Tobias indagou.
— Não. Caleb não é um dos meus assuntos preferidos.
— Eu não estava falando dele.
Olhei-o confusa.
— Então......? — quis que ele prosseguisse.
— Você falou sobre o seu ex, Uriah — ele disse, como se tivesse jogado uma bomba prestes á explodir.
— Ah.
Eu nem lembrava de ter mencionado o nome de Uriah.
De repente minha garganta ficou seca. Não que eu odiasse meu ex namorado ou tivesse sentimentos ruins por ele; mágoa não era tão ruim, mas tinha sido melhor para nós dois terminar tudo anos atrás. Melhor do que ficar chutando um relacionamento desgastado era terminar de uma vez, sem rodeios. Tudo bem que tínhamos combinado nunca mais nos vermos além de amigos, como era antes; Mas você só sabe que algo está errado quando um abraço não significa tanta coisa, nem um beijo te faz suspirar.
— Não nos vemos há uns meses, acho. Somos amigos. Acho também — ri, sem humor. Entrelacei e apertei o nó dos dedos diversas vezes. — Nunca tive certeza sobre nós, sabe? Amigos em primeiro lugar até... — suspirei e abaixei a cabeça, pensativa.
Uriah já tinha sido meu assunto preferido. Eu não conseguir acreditar que até mencioná-lo tonara-se banal ou complicado.
— As coisas nem sempre acontecem como imaginamos — falou mais para si mesmo.
Ele deitou na cama á uns trinta centímetros de mim.
— Se importar de eu dormir novamente?
— Nenhum pouco. A cama é sua, o quarto é seu. Mas se quiser eu que eu vá embora... — já foi se erguendo.
— Não!, precisa... — levantei a voz sem querer. — Não tem problema nenhum. A casa é sua.
Ele revirou os olhos, divertido.
— Tá né.
Deitei. Tobias pegou o cobertor e o jogou sobre mim, pegando uma parte para ele também. Fechei minhas pálpebras e já sentia estar adormecendo quando, sem evitar saber não ser correspondida, sussurrei:
— Você não vai embora, né?
Segundos depois, uma reposta distante veio:
— Pode ficar tranquila. Eu preciso de você tanto quando precisa de mim.
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