Notas iniciais
Depois das emoções de "A Maldição do Acampamento", fiquem agora com a primeira parte de "O Retorno ao Campo dos Sonhos", onde nossos heróis enfrentarão pela segunda vez os perigos que se escondem no casarão mal assombrado. O mistério por trás dos pesadelos de Larissa está cada vez mais próximo de ser desvendado. Boa leitura e espero que gostem!

São Paulo, agosto de 2015

Adrian

As memórias daquele dia terrível ainda rondam minha mente, e só depois que os pensamentos me sobrepujam é que percebo que estou tão aterrorizado como estava no dia em que tudo aquilo ocorreu.

Jamais pensei que uma ideia dessas pudesse passar pela cabeça de Larissa, principalmente pelo fato de ela ter quase morrido. Assim que voltamos sãos e salvos para o camping, juramos que nunca mais voltaríamos a pôr os pés naquela casa, e que iríamos – ou pelo menos tentaríamos – deixar esse assunto no passado. Mas, agora, parece que a coisa toda está para se repetir. Isso faz algum sentido? Não, não faz!

Sinto vontade de perguntar isso a Larissa enquanto ela me encara com os olhos lacrimejando e os lábios carnudos se torcendo numa tentativa inútil de me comover e me fazer reconsiderar. Confesso que esse truquezinho sempre funcionou comigo, e que, no fundo – mas bem lá no fundo mesmo –, eu adoraria dar o braço a torcer e acompanhá-la nessa aventura. Mas ceder ao pedido dela significa pôr nossas vidas em risco. Voltar àquele lugar horrendo seria o mesmo que assinar nossa sentença de morte. Escapamos de lá uma vez, mas quem garante que teremos a mesma sorte na próxima?

— Adrian, por favor. Estou te pedindo. Estou implorando.

— Por quê? Por que você simplesmente não esquece isso?

— Porque não posso. Porque não é tão simples. Acha que eu não o faria se pudesse?

— Para começo de conversa, se você lembra do que aconteceu, não consigo entender por que quer tanto voltar a pôr sua vida em risco. Não vejo sentido nisso.

— Estou pouco me lixando se faz sentido ou não. Mas você precisa entender. Esse é o único jeito de acabar de vez com esse problema. De um jeito ou de outro, minha vida está em jogo. Então que diferença faz?

— A diferença é que...

Droga! Sem argumentos! Que ótimo!

— Ouça, querido. Sei que a gente quase morreu e aquilo foi terrível. Tem toda razão. É loucura imaginar que, mesmo depois de ter estado tão próxima da morte, eu ainda queira voltar lá e, outra vez, arriscar nossas vidas como se não fosse nada demais. Mas, infelizmente, se a única opção que me resta é me jogar de cabeça numa corja de lobos, então que seja. Eu aguento o tranco. Desde que você esteja comigo. Não estou jogando na cara, mas você prometeu que ficaria do meu lado para o que desse e viesse. Lembra disso?

Como ela consegue ser tão persuasiva assim?

— Tem certeza de que não há outro jeito?

— Tenho.

E pensar que a decisão de ficar aqui e buscar uma solução por meios menos radicais ou jogar tudo para o alto e ir ao encontro da morte está nas minhas mãos. Me pergunto se outra pessoa no meu lugar teria a mesma capacidade que eu tenho de manter a calma em momentos como este.

— Ok. Você venceu.

Encaro-a uma última vez antes de descer para a sala de estar.

***

Henrique reagiu da maneira como eu imaginei que ele reagiria. Com espanto. Enquanto discutíamos o assunto, tive a sensação de que ele desligaria o telefone na minha cara a qualquer instante, e eu não o culparia se ele tivesse feito isso, pois qualquer um no lugar dele faria exatamente a mesma coisa.

— Adrian, fala para mim que você está delirando.

— Antes fosse...

Lembro-me de ter sentido a ponta do sapato de Larissa cutucar meu calcanhar quando disse aquilo. Realmente não havia escapatória.

— Mas a parada é mesmo séria... Não, já disse que não estou blefando... Escuta... Quer me escutar, por favor? Sei que é muita doideira, mas a essa altura não temos muita escolha... E aí, o que me diz?

Lembro-me também que levei quase meia-hora para convencê-lo de me deixar ir na casa dele para combinarmos nossa ida ao ‘Campo dos Horrores’. Argumentos não me faltaram, mas, convenhamos, ninguém que tenha tido um contato tão próximo com a morte iria querer passar pela mesma experiência novamente.

Reflito sobre isso enquanto Larissa, Miguel e eu nos aproximamos da casa dele.

Toco a campainha quando finalmente me sinto psicologicamente pronto e espero ele atender.

A porta se abre cinco segundos depois. A cara que Henrique faz ao nos ver sugere que somos as últimas pessoas que ele queria ver hoje.

— Olha, eu detesto fazer a mesma pergunta duas vezes. Mas adoraria saber quem de vocês teve a magnífica de ideia de voltar ao Campo dos Pesadelos.

— Fui eu – responde Larissa com firmeza. – Por quê? Algum problema?

— Algum problema? – Pergunta Henrique, dando um passo em sua direção. – Está me perguntando se tem algum problema? Achei que fosse mais esperta, Larissa.

— Escuta aqui, garoto...

— Não, escuta você. Pelo que parece, você não anda muito bem dos neurônios.

— Está me chamando de louca?

— Não, só estou dizendo que você não está agindo de maneira racional.

— Para mim dá praticamente no mesmo. – Larissa sacode a cabeça em negação. – Olha só, você não precisa vir com a gente se não quiser, ok? Acho que me enganei quando pensei que você poderia me ajudar.

— Você não se enganou, Larissa. Eu posso, sim, ajudar você. Mas o que aparentemente não está claro para você é que isso é uma tremenda estupidez. Qualquer um diria que você enlouqueceu.

— A mim não interessa o que você pensa, nem o que pensam os outros. Só o que me interessa...

— Me desculpe, amor, mas o Henrique está certo – digo, sem saber ao certo se à essa altura qualquer argumento que a contradiga causará algum efeito. – É muito arriscado o que estamos fazendo. Acho que deveríamos repensar isso.

— Não, Adrian. Não vou voltar atrás. Eu preciso ir até lá. É uma questão de vida ou morte, será que você não consegue entender?

— Agora você disse tudo – diz Miguel. – Se voltarmos lá, é morte na certa. Lembram do que aconteceu há dois anos?

— Que pergunta! É claro que eu lembro. Mas nem por isso eu vou parar.

— Desculpe-me, Adrian, mas desta vez sua namorada dormiu no ponto. Isso é loucura demais. Além disso, estou muito surpreso. O que deu em você para concordar com uma coisa dessas?

Aproximo-me de Henrique e encaro-o seriamente.

— Vou ser bem sincero contigo. Não faço a mínima ideia do que deu em mim. Mas você me conhece. Eu sou um cabeça-dura, não tenho remédio. – Pouso a mão em seu ombro. – Pensamos em você primeiro porque ninguém mais se arriscaria a ir para onde vamos por uma causa nobre. E também porque... – Abro um sorriso de canto de boca. – Você e o Miguel são meus companheiros de aventura. Eu não confio em mais ninguém.

Depois de um longo silencio durante o qual ficara seriamente pensativo, ele ergue os olhos para mim e me encara com um misto de profunda atenção e consideração preocupada.

— Mesmo tremendo dos pés à cabeça – diz Miguel –, podem contar comigo.

Volto a encarar Henrique, ansioso pela sua resposta. Ele me observa em silêncio por alguns segundos e então diz com um sorriso de canto de boca:

— O que estamos esperando?

Notas finais
See you soon! ♥