Para Sempre - Sombras do Passado
5 Ameaça sobrenatural
Notas iniciais
Estava dormindo tranquilamente. Fiquei até surpresa. Passei duas horas sentada na cama, apoiando a cabeça sobre as pernas dobradas e tentando manter os olhos abertos. Mas antes que desse meia-noite, acabei sendo vencida pelo cansaço e adormeci profundamente. Fazia uma semana que eu não sabia o que era dormir sem acordar aos berros a cada cinco minutos por causa daqueles malditos pesadelos. Achei que Deus finalmente ouvira minhas preces e me dera a paz que eu tanto supliquei.
Mas, para o cúmulo do meu azar, não foi bem isso que aconteceu. Eu deveria ter confiado na minha intuição. Alguma coisa dentro de mim estava tentando me alertar de algo que eu não conseguia compreender, mas que com certeza não era nada bom. Sentia um calafrio arrepiante cruzar todo o meu corpo, uma onda elétrica de angústia que me queimava por dentro. Sabia que era minha imaginação – ou pelo menos supus que fosse –, mas podia jurar que tinha ouvido passos pesados e som de madeira rangendo avançando na direção da porta. Me atrevi a perguntar “quem está aí?”, mas ninguém respondeu. Não sou muito de acreditar em fantasmas e assombrações, mas agora não consigo encontrar uma explicação mais lógica.
Mesmo fazendo todo o esforço de que sou capaz, não consigo ficar calma e muito menos ignorar isso. Adrian me aconselhou a não ceder ao medo, mas à essa altura do campeonato é quase impossível manter a situação sob controle. Aliás, sinto que já não tenho mais o controle da coisa há muito tempo. Sinceramente, não sei como isso ainda não ficou evidente para os meus pais. Estou sem me alimentar direito há dias e, contando com hoje, me flagraram quatro vezes dormindo durante a aula. Minha última nota em matemática não foi nada boa e se eu não descobrir como resolver de uma vez por todas esta insustentável situação, vou acabar sendo reprovada ou, pior, expulsa de Crossfield.
Mas como posso pensar em uma solução para o meu problema se, para começo de conversa, não sei o que esses sonhos significam? Tentei buscar respostas na internet, mas não consegui encontrar nada que me satisfizesse.
Se há mesmo uma resposta, onde posso encontrá-la? Em que parte do mundo vou encontrar alguém que me explique por que estou tendo esses sonhos? Sem que eu perceba, estou me perdendo em devaneios. Já são quase uma da manhã e, enquanto todos em minha casa dormem e descansam, fico sentada, me obrigando a lutar contra o sono para não ter que voltar a ouvir aquelas vozes esquisitas, dizendo coisas sem sentido. Mas, se fico acordada, começo a ter alucinações, e ouço claramente a voz monstruosa ecoando de algum lugar no canto escuro do quarto:
— Pobre criaturazinha! O medo a persegue! Não tem para onde fugir!
Há algo terrivelmente errado acontecendo. Vejamos: uma floresta escura e assustadora, olhos grandes e brilhantes, sombras falantes, vozes de advertência... Junto tudo isso numa sopa de letrinhas e começo a formular minhas próprias teorias. Tento relacionar isso com fatos do mundo real, mas tudo parece fantasioso demais. Adrian, uma vez, me disse que Miguel havia sonhado com meu retorno ao internato. Algo próximo de um presságio. Talvez esses sonhos queiram dizer que algo provavelmente irá acontecer. Mas o que? É algo bom ou ruim? Pensando bem, nenhuma dessas coisas faz sentido.
Mas, fazendo sentido ou não, preciso chegar ao fundo disso. Tudo tem um significado. Preciso de respostas. Não vou descansar enquanto não consegui-las.
***
Está tudo escuro. Não consigo ver absolutamente nada. Dou um passo à frente e ouço o desagradável ruído de folhas sendo pisoteadas sob minhas sandálias. Essa não! Não pode ser!
De novo não!
Estendo as duas mãos para a frente, na tentativa de encontrar algo sólido para usar como guia, mas não há nada diante de mim além do vento.
Um vento frio e gélido.
Começo a andar, os braços estendidos à frente do corpo com as palmas voltadas para cima, sentindo as folhas inférteis se despedaçarem a cada passo dado. Posso ouvir também as folhas acima de mim se moverem no ritmo da brisa amigável, e acho isso muito estranho. Está tudo muito quieto. Quieto demais. E isso nunca é um bom sinal.
Nenhum sinal das criaturas minúsculas, até então. Nem da voz esdrúxula.
Afinal de contas, onde estou?
— Enfim, resolveu aparecer!
Falei cedo demais. Típico.
— Achou que poderia se livrar de mim, garotinha travessa? Lamento desapontá-la. Como eu disse, você não tem para onde fugir.
— Por favor, fique longe de mim! Me deixe em paz!
Não me contenho e começo a gritar feito uma doida varrida. Em seguida, me ponho a correr. No mesmo instante, começa um show de luzes no céu. Raios cortantes e barulhentos rasgam a escuridão da noite, permitindo-me ver para onde estou indo. A floresta, que já parece colossal, cresce mais e mais perante meus olhos, fazendo crescer em mim um sentimento indescritível, algo como medo aliado a um repúdio violento por este lugar amaldiçoado.
A trilha parece seguir por quilômetros, o que me leva a perguntar se faz algum sentido continuar correndo. Sinto o ar faltar em meus pulmões. Uma aflição me domina. Paro para respirar, sentindo a garganta arder e os olhos começarem a coçar, saindo de foco. Apoio as duas mãos sobre os joelhos e respiro fundo. Deixo o ar frio invadir minhas narinas, procurando libertar meus pensamentos agrilhoados.
— Ei, menina!
Ouço uma voz ecoar a poucos metros de mim. Uma voz grossa e profunda.
— Quem está aí?
— Não se assuste. Não vou feri-la.
Posso ouvir, mas não posso ver. Inevitavelmente, sinto minhas pernas bambearem. Quero correr, mas meu corpo está paralisado de medo.
— Quem é você? – Grito outra vez. – Vamos! Apareça!
Do nada, uma bola de fogo se lança sobre mim como um meteoro e, sem saber como, dou um salto largo para trás. Uma enorme esfera de fogo irrompe diante dos meus olhos, e do meio dela surge uma criatura de pelo menos um metro de altura, de aparência nodosa e usando um único traje amarelento e cheio de buracos, como se alguém tivesse tentado devorá-lo.
Nunca vi algo parecido com isso. A cabeça da criatura é cinzenta e deformada, como se alguém lhe tivesse dado inúmeras marteladas no cocuruto, e há uma cicatriz arroxeada atravessando o rosto, da têmpora direita ao queixo. Fios longos e esbranquiçados descem pelos dois lados da cabeça lisa e careca, e as orelhas grandes e pontudas me lembram um pouco os elfos de Tolkien. Posso ver também um par de asas grandes saindo de suas costas e garras pontiagudas projetando-se de seus pés enormes e peludos.
A coisa se aproxima de mim em passos lentos. Alguma coisa em seus olhos me diz que ele está falando a verdade, que não quer me machucar, mas dou um passo para trás só por precaução.
— Não tenha medo, criança. Já disse que não vou machucá-la.
— O que é você? E o que quer de mim?
— Você está correndo um grande perigo, criança. Querem-lhe fazer mal. Muito mal.
— Do que está falando? Quem quer me fazer mal?
— Corra, menina! Corra o quanto puder! Fuja e não olhe para trás! E prepare-se!
— Para quê?
— Para a maior batalha da sua vida.
Num piscar de olhos, todo o corpo da criatura fica envolto em chamas. Arregalo os olhos, impressionada. A coisa está pegando fogo na minha frente, como uma tocha viva, mas ela continua intacta.
— Como você...?
— O jogo está só começando. E você é a peça-chave!
— Não estou entendendo.
— Você entenderá, mais cedo ou mais tarde! Agora fuja!
— Fugir? Mas para onde?
— Apenas corra! Vá antes que ela...
Na mesma hora, uma risada diabólica ecoa pela floresta sombria, deixando-me com os pelos eriçados de puro medo. O vento ao redor começa a ganhar força. Vejo as árvores se inclinarem como se fossem quebrar, e antes que eu possa perguntar para a criatura o que está acontecendo, ela desaparece como um fantasma, e outra vez a escuridão volta a reinar.
— É tarde demais! — diz a voz maligna. – Você nunca vai se livrar de mim!
Recomeço a correr. Sigo o conselho daquela criatura “esquisistranha” e tento fugir para o mais longe possível.
— Eu quero acordar! Por favor, eu quero acordar!
Ouço novamente a risada demoníaca misturada ao assobio horripilante do vento espalhar-se ao redor da mata. Continuo a correr, mesmo que pareça inútil. Mesmo que não haja esperanças de escapar. Corro até não suportar mais.
— Olhe por onde anda!
Tento ignorá-la, mas é quase impossível. Ela está em toda parte. E eu estou em total desvantagem. Seria impossível lutar contra ela. Não faria sentido nem tentar. Por isso corro. Corro na esperança de acordar a qualquer momento.
Um outro raio corta os ares lúgubres. Avisto algo adiante e diminuo o passo. Me parece...
Paro de correr e me aproximo do que parece ser...
— Uma cruz?
Outro raio cai, iluminando tudo a minha volta. Por um segundo, consigo identificar o lugar em que estou. Um lugar que, estranhamente, me parece bem familiar.
Outro raio cai, desta vez atingindo uma árvore a poucos metros de mim. A enorme árvore explode em chamas e rui com estrondo. A luz das chamas me permite visualizar o lugar com mais clareza.
Uma clareira. Estou numa clareira.
— Este lugar... Será que...?
Olho para a cruz. Há algo escrito na lápide.
Aqui jaz Estephanie.
17/05/1989 – 05/08/2013
Tapo a boca no mesmo instante, sentindo todos os pelos do meu corpo eriçarem ao mesmo tempo.
— Estephanie? Não! Não pode ser! – Olho em volta. – Eu não posso estar aqui!
— Mas está!
A voz de novo. Desta vez mais alta.
Ela está perto. Posso senti-la.
— Maldita!
— Me deixe em paz! Diga o que quer e vá embora de uma vez!
A risada maligna se faz ouvir por toda a floresta, mais alta do que um trovão. Sinto que devo correr, mas quando penso em me mexer, as chamas que consomem a árvore literalmente saltam da madeira e começam a se espalhar ao meu redor, formando uma muralha de fogo gigantesca, prendendo-me num ponto sem saída.
— O que está havendo? – Grito, desesperada.
— Peguei a princesinha! Agora não há para onde correr!
Isso já é demais. Preciso acordar ou vou enlouquecer.
— Socorro! – Recomeço a gritar.
— Silêncio! – esbraveja a voz diabólica. – Cale essa maldita boca!
No segundo seguinte, um dos lados da muralha começa a se erguer como uma onda, uma enorme onda de fogo e calor. Recuo um passo, rezando para que não aconteça nada comigo. Uma cabeça monstruosa, com olhos vermelhos e tentáculos saindo de ambos os lados, toma forma em meio à confusão de chamas. Ela continua a se erguer, sustentada por um corpo sem membros, como o de uma serpente. Ela olha diretamente para mim, com um sorriso horrendo, mostrando suas presas afiadas em atitude de desafio.
— Não! Não!
— Tem razão! Ainda não acabou! Isso é apenas o começo!
A bocarra da coisa se abre e ela avança sobre mim. Numa tentativa debalde de me proteger, entrelaço meus braços na frente do rosto e grito, esperando pelo baque que nunca veio.
— Não!
Um frio intenso percorre meu corpo, a sensação lancinante de cair em um monte de neve, cada parte de mim formigando e em alerta.
Ofego, olhando ao redor do quarto, feliz por estar acordada. As chamas sumiram. As árvores, as criaturas... Tudo sumiu.
Acabou. Enfim acordei.
Noto a janela aberta, as cortinas dançando ao vento. A noite ainda reina.
São quase quatro e meia. Para minha sorte, não falta muito para amanhecer.
Espere um pouco, a quem eu quero enganar? Isso é péssimo! Mais uma noite em claro!
— Meu Deus – murmuro para mim mesma. Sinto vontade de chorar. – Não é justo. Isso tem que acabar. Tem que acabar...
Por um instante, ergo o olhar na direção do espelho.
Solto um soluço involuntário. Um arrepio cruza o meu corpo de uma extremidade à outra.
Tem algo escrito nele. Me levanto para ver melhor.
— Jesus! – É a primeira palavra que me vem à cabeça. – O que é isso?
Me aproximo.
— Isso parece... Oh, não!
Meu corpo inteiro estremece. Não posso acreditar no que estou vendo.
Com os lábios trêmulos, leio a frase que aparentemente foi escrita com sangue:
Ai de ti, alma patética!
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