Para Além da Beleza
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Bónus
Christian desceu do carro, acionando o alarme em caso de algum perigo. O bairro era o mais decadente que pensou existir, com restos do que deveria ser o asfalto, e as casas e prédios tão juntos, que nem dava para distinguir onde começava um e terminava outro. Muitas estavam parcialmente destruídas, mal pintadas e com pouca iluminação.
Pequenos grupos de pessoas se uniam em amontoados e latas acesas para fazer fogo, olhavam-no com devido reconhecimento de ele não pertencer àquele lugar.
Tinha ligado para o delegado a pedir informação de onde fora encontrado o carro que oferecera à Jamie. Não acreditara de início, uma pontada de raiva o cobriu ao saber que ela teria trocado o mesmo num beco destinado ao tráfico de drogas. Não tinha visto nenhum indício nela que identificasse o consumo de narcóticos. Tentara em vão falar com a teimosa, desistindo de continuar a insistir em algo que a mesma não queria partilhar. De alguma forma aquilo o magoara, sentindo-se traído e sem poder a proteger dos ataques obviamente sofridos. Isso, até ganhar coragem para perguntar Darcelle, esta que tão sincera e direta, lhe contara suas suspeitas sem hesitar.
Agora estava ali.
— Perdido aqui, gringo? — Um homem corpulento, de cabeça raspada e barba bem-feita, apareceu junto de mais outros dois atrás, como guarda-costas. — Pretende comprar algo bom?
— Procuro por uma jovem, deve estar com uma senhora com não mais de cinquenta anos — respondeu sem medo, os olhos encaravam os do homem a sua frente.
— Não sei que língua fala, rapaz. Melhor ir embora daqui! — Retorquiu, a voz grossa era ameaçadora e ouviu quando os outros atrás começaram a estalar os dedos.
— E essa língua aqui, percebe? — Chris retirou três notas de cem dólares do bolso, um certo receio começava a se apoderar, mas não podia demonstrar.
— Quem mesmo estás procurando? — O homem arrancou as notas da mão com força, sorrindo enquanto as levantava até ao olho para ver se eram verdadeiras. — Alguma branquela? Tem muitas aqui.
— Negra, negra como a noite. Jamie Johnson e a mãe.
Os outros riram e assobiaram empolgados, enquanto gritavam impropérios contra o nome Johnson.
— A puta da Jamie apanhou por nos dar um carro que a polícia veio buscar. Enquanto não pagar o que deve, a mãe vai continuar a ser fodida como um animal, isso se a preta linda não quiser ocupar o lugar para salvar a velha drogada — declarou com toda maldade possível na voz, salivando enquanto falava.
Dash teve vontade de vomitar, ir embora e nunca mais colocar os pés naquele lugar, mas se manteve quieto, se perguntando por que razão estava a suportar tudo aquilo.
— Quanto?
— Com a multa são mil.
— Quinhentos agora e quinhentos depois — Disse a abrir a carteira quando sentiu uma mão segurar a sua com força. Levantou os olhos preguiçosamente. — Lembra dos policiais que vieram levar o carro? Eles sabem que estou aqui.
— Na boa meu irmão. Quinhentos antes e quinhentos depois. — O homem bruto soltou a mão do psicólogo, se afastando com calma e deu sinal a um deles para acompanharem o rapaz rico para onde estaria Jamie.
Christian não se lembrava de sentir tanta angústia como naquele momento, desceram duas ruas em silêncio, podia-se ouvir gritos, ora risos, ora gemidos de dor. Cheirava a urina, fezes, sangue e esperma. Uma mistura nojenta, sem esquecer do lixo a cada canto.
— Larga, ela! Larga!
A voz da médica fez o jovem Dash despertar do transe, lutava contra um homem com o dobro do seu tamanho, e este a empurrou contra o chão com todas forças possíveis. Chris foi impedido de reagir pelo homem que o acompanhava.
— Acabou a festa para você, saía já daí. A velha quitou a dívida! — ordenou, falava de um jeito arrastado e ameaçador. O que levou o outro homem a se afastar rapidamente.
— Christian! — A admiração na voz da prima de Darcelle não demonstrou se estava feliz ou zangada, pois todo o rosto estava carimbado por um inegável descrédito.
— Passa o dinheiro e podem ir por sua conta e risco. Sua princesa ta intata, tirando a surra que levou, ninguém tocou nela não. Não fazemos nada a quem não nos deve.— O suposto guarda-costas falou, e conferiu o dinheiro que Chris lhe entregou.
Assim que ficaram sozinhos, Jamie se arrastou até a mãe, enrolada num cobertor velho, tremia e falava coisas sem nexo. As duas estavam sujas, algum sangue podia ser visto.
— Vem, eu vos levo.
— Não. Por favor vá embora. — Sequer olhou para ele, tinha a cabeça baixa e com dificuldade tentava erguer a mãe e apoia-la no seu ombro.
— Sei que não me pediu nada, mas um obrigado era bem-vindo.
— Por favor Christian, estou morrendo de vergonha. Preciso que vá embora. — A médica insistiu, lutando com o corpo frágil da mãe drogada, que vez ou outra se ia abaixo.
O administrador da Beauchamp dobrou as mangas da camisa social e andou até elas, apoiando a outra parte do braço da senhora em seu ombro. Caminharam em silêncio e com dificuldade, as duas não pareciam ter condições de se mover com facilidade. Por sorte conseguiram chegar até ao carro, e Chris colocou a senhora no banco de trás, antes mesmo da filha se dignar a reclamar ou resistir.
Quando entraram no carro, Jamie sequer teve tempo de perguntar o que acontecera ao carro de dois lugares, apenas desabou com a mistura de sentimentos, a raiva, a vergonha, o alívio e tudo o mais que habitara seu coração nos últimos dias. Tinha gastado todas suas poucas economias a tentar ajudar a mãe, se desfeito de seus bens, livros de medicina caros e tudo o que pode. Não chegou. Nunca chegava.
— Não chora filha, o moço bonito veio salvar a gente — Alda falou atrás e riu em seguida, a cabeça parecia não aguentar ficar parada em cima do pescoço, sempre pendendo para o lado.
— Sua velha maluca, eu odeio você! Odeio! — Num minuto de surto, a médica gritou contra a mãe e queria se atirar para o banco de trás, mas Christian a segurou pela cintura, obrigando-a a permanecer no lugar.
— Ela não está nas próprias faculdades mentais. O vício é uma doença — lembrou com paciência, enquanto ligava o carro e conduzia para longe dali.
— Pois senhor psicólogo, isso eu sei, por que desde os cinco anos eu cuido dela. Desde que meu pai se afundou no alcoolismo por frustração da mulher drogada e prostituta. Desde que os pais de Darcelle tiveram pena e me acolheram e educaram como filha. Quando meu pai se casou novamente e nunca mais quis saber de mim. Faço medicina em busca de poder curar essa gente, e nada, nada muda! — Desabafou tudo de uma vez, como se uma bola presa na garganta finalmente tivesse sido regurgitada. Cobriu o rosto com as mãos, escondendo as lágrimas que insistiam em cair, autónomas.
— Você não precisa ser forte o tempo todo. Pode ser frágil sim. Não se esqueça nunca que é humana.
— Não tenho dinheiro para pagar consulta no psicólogo!
Chris conseguiu sorrir ao escutar a resposta chorona. Era teimosa como nunca, daquelas que achava que podia resolver tudo sozinha, e que não precisava de ajuda de ninguém para que não tivessem pena de si. Não a condenava, deveria ter crescido com olhares penosos acerca da sua história de vida, e agora em adulta não queria mais passar por isso.
— Essa maldita sempre volta, me persegue para todo lugar! Sempre querendo arruinar a minha vida. — Mais uma vez acusou a mãe, e recebeu os lenços de papel que o condutor a entregou.
— Por que precisa de ajuda. Séria!
— Você pensa que eu nunca a ajudei?
— Eu não disse isso!
A grande clínica privada Dash & Dash era toda branca com várias janelas amplas e azuis. Dava um aspeto bem moderno e caro. Só o pátio gigante possuía mais de mil hectares, com um pequeno lago e várias árvores e lugares de lazer.
Alda Johnson foi levada numa maca para os cuidados intensivos, e só depois de uma boa discussão, Jamie aceitou que cuidassem de seus ferimentos.
— Christian! Faz tempo que não te vejo por aqui. — Lola apareceu com sua bata branca, era baixa com os olhos rasgados e os cabelos lisos até ao queixo, uma mistura certa de caucasiano e japonês. Sorriu.
— É, as vezes lembro que este lugar existe. — Salientou de forma despreocupada, obrigando os olhos a girarem por toda sala da receção como se fosse algo novo.
— Deixa disso. Sentimos sua falta aqui! — Esticou o braço pequeno para dar um estalo no ombro do antigo colega e namorado. Lola fora a única mulher que conseguira subir ao título de namorada por dois anos. Nunca antes e nunca depois. — Onde encontrou essas mulheres? Foi uma sorte, a senhora por um pouco apanhava alguma infeção séria.
— Me diga apenas o estado de Alda. — Esquivou da resposta e junto das palavras, veio um longo suspiro, cansado. Lola o inspecionou, o conhecia muito bem para saber existir algo para além daquela lamentação.
— Conseguimos desintoxicá-la por ora, tinha contusões e lesões graves o suficiente para ser internada. Vamos ter que coloca-la na reabilitação?
Sim, era uma pergunta pois a Dash & Dash possuía todo tipo de tratamentos possíveis em várias alas distribuídas em edifícios e blocos, mas o preço não parecia cabível para o bolso das Johnson.
— Sobre minha responsabilidade — garantiu sem hesitar, e levou a mão para massajar a têmpora. Os olhos ardiam.
— Já a mais jovem entende de medicina, estava sempre a dizer ao enfermeiro como devia proceder no atendimento. — A forma como Lola falou não deixou claro se era uma censura ou elogio, apenas continuava com o ar neutro e profissional.
— E como ela está? — Não conseguiu ficar sem perguntar, mas a resposta surgiu em forma física de Jamie saindo de um dos corredores com um ar grave e cansado. Naquele momento o coração de Chris se compadeceu, e correu para a envolver em seus braços num movimento instintivo.
— E a minha mãe? — A raiva tinha passado, dava para ver. Tudo o que restara era a preocupação de sempre, a mesma que a levara a se deslocar sozinha para aquele beco perigoso.
— Você é uma idiota. Pensei ter dito que eu ajudaria caso me pedisse, desde que estivesse ao meu alcance! — Primeiro zangou, e só depois percebeu estar a ser observado pelos trabalhadores e conhecidos do hospital.
— Olá, eu sou a Lola Hazumi. Responsável pela sua mãe, de momento ela foi sedada e precisa descansar. Pela manhã pode receber visitas. — Sorriu para os dois e se despediu em silêncio, afastando-se para longe dos dois.
— Obrigada por tudo, não sei como agradecer — disse Johnson ainda com a cabeça escondida no peito de Christian. — Não tenho como pagar.
— Vou levar você comigo e lhe dar um banho — murmurou contra a orelha, ignorando o cheiro desagradável e apertando-a mais para si.
— Eu queria ir para casa. Prometi para Darcelle não esconder mais nada e...
— Sua prima está com Damien. Ele me pediu para avisar quando estivesse tudo bem, e assim pode acalmá-la também. Está certo?
O aceno de cabeça foi suficiente como resposta, recebeu o casaco de Chris e aguardou ele acertar as contas do hospital, para logo em seguida seguirem em silêncio para o apartamento do outro lado nobre da cidade. O conforto e o silêncio do lugar serviram para relaxar um bocado a tensão anterior, sem demora o dono da casa conduziu-a para a sua suíte e ela não pode deixar de reparar no bom gosto da decoração. Em tons azuis e prateados, com bases e cabeceiras em madeira. Um guarda-roupa do tamanho de um quarto e uma casa de banho com jacúzi e televisão plasma nos azulejos escuros.
Encheram a banheira de água quente e sais, e Jamie se deixou ficar lá dentro a relaxar até ele voltar com duas taças de vinho e entrar do lado oposto.
— Há quanto tempo nos conhecemos?
A pergunta veio do nada, manchando o silêncio anterior. A médica pareceu despertar ao ouvir a questão, e encarou os olhos verdes com insegurança.
— Alguns meses? — Deu de ombros, sem saber ao certo e bebeu um gole do vinho.
— Sabe quando foi a última vez que eu me importei com alguém?
— Como eu vou saber?
Christian sorriu, colocando gel numa esponja e começou a lavar o corpo nu sem pressa, apreciando cada detalhe deste, talvez para gravar com atenção.
— Juro que hoje eu queria deixar você se estrepar, para aprender a saber expor seus problemas para os outros. Se não para mim, pelo menos para sua prima.
— Onde está o Christian que eu conheço? — Jamie ergueu uma sobrancelha em forma de provocação, os olhos escuros brilhavam só de ver a cara bonita a sua frente.
— Bem aqui, olha só. — Levou a mão dela para o meio de suas pernas, revelando o membro ereto, e arrancando um grito incrédulo por parte dela.
Se beijaram devagar, as mãos se libertaram das taças para poderem passear pelos corpos nus, havia ansiedade em cada virar da cabeça e cada toque. Certa urgência também. Dash segurou-a pela cintura e a levou para cima de si, deixando-a no comando desta vez. Ouviu-a gemer assim que se completaram, o calor acompanhava a vibração dos corpos.
Quando acordou, estava na cama e cheirava a ele. Tinha dormido bastante, e a lembrança de sua mãe, a fez saltar da cama e correr para se lavar e procurar o que vestir.
— Comprei uma roupa para você e sua mãe. As de ontem estavam nojentas. — O psicólogo estava com um ar sério, apontou para a sacola em cima dos sofás e para o pequeno-almoço posto na mesa.
Comeram em silêncio, Christian fingiu trabalhar no processo e aguardou Jamie terminar antes de a levar para o hospital. Nenhum dos dois se dignou a ter uma conversa mais séria, tirando o clima e as horas.
Alda estava deitada num quarto de luxo, usava a roupa do hospital e recebia soro. A ressaca das drogas ainda não parecia afeta-la, pois sorriu ao ver a filha como se fosse a primeira vez.
— Vem aqui minha princesa, você está muito linda — chamou com a voz arranhada, os cabelos por pentear pareciam uma juba de leão.
— Trouxe roupa para mudar. A comida e a enfermeira é por conta do hospital, aliás, do Christian. Agradeça a ela por favor — disse Johnson, e pousou a sacola junto a cama. Os olhos não encaravam os da mãe.
— Esse rapaz é o pai do seu bebé? Muito obrigada, moço, e bem-vindo a família.
A médica congelou por dentro, se perguntando em que momento teria revelado tal coisa para aquela que não merecia sua consideração. Pior ainda foi imaginar como estaria o rosto de Christian naquele momento.
— Bebé? — Ele questionou.
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O Bentley Mulsanne parou por baixo da grande ponte da cidade, em frente ao mar. Dali dava para ver a paisagem bonita cheia de luzes e prédios altos com reclames e outdoors gigantescos. Damien dispensou Étienne, lhe dando algum dinheiro para que pudesse apanhar um táxi para casa, em seguida encaminhou Darcelle para um dos vários bancos de pedra, onde se podia ouvir o barulho do mar e os carros que passavam e buzinavam lá em cima.
Um casal passou a exercitar os corpos numa corrida, quando olharam para eles ali sentados, a mulher indiana não resistiu a comentar qualquer coisa na sua língua materna, sem deixar de dar a entender mesmo num outro idioma, exatamente o que falava.
— Para que me trouxe aqui? — A assessora chamou sua atenção, ignorando o que a outra mulher poderia ter dito. Não queria que Damien se concentrasse naquilo agora.
Ele respirou fundo e virou o corpo para frente, sentando-se com uma perna de cada lado do banco, algo nada informal vindo dele.
— Sei que pensa que gosta de mim... shh, espere. — Colocou um dedo nos lábios carnudos assim que viu estes se abrirem para protestar. — Eu nunca fui uma pessoa agradável. A verdade é que os meus amigos não se afastaram de mim, eu é que nunca tive muitos. Era rico, esnobe e arrogante. Desfilava a minha beleza e inteligência por todo lado. Namorava mulheres que talvez não me amassem ou eu não as amasse, mas isso nunca foi importante, desde que estivesse nos padrões: Tinha que ser bonita, de boa família e conhecida na sociedade.
Os olhos de Darcelle pareciam ouvir mais que os próprios ouvidos, pois tinham-se transformado em duas esferas dilatadas, embora ainda assim, escuros.
— Na Academia Militar eu era o melhor, sempre atento a cumprir tudo com certeza. Não me misturava com os que achava inferiores a mim. Se fiquei amigo de Chris, foi porque ele sempre me desafiou e dizia as coisas na minha cara, sem medo. A verdade é que o resto me odiava, e eu não me importava! Era Damien Jacqes Beauchamp!
As ondas do mar estavam serenas, e o Monstro du Camp segurou as mãos escuras e delicadas, sentindo o próprio coração batendo no ato.
— Provavelmente eu nunca teria olhado para você, Darcelle. Se não tivesse acontecido isto — Apontou para o rosto. — Ia achar que era inferior, longe dos padrões certos, sequer lhe daria a oportunidade de me dirigir a palavra. A pessoa de quem você gosta não existe, e por isso eu fui embora naquele dia. Me senti uma fraude se não lhe contasse isso.
— Ninguém é perfeito.
— Me diga algo que tenhas feito de errado nesta vida? — Riu baixo, sequer imaginando possível ela fazer coisas erradas.
— Eu pedia para Jamie fazer trabalhos para mim da escola, e dizia que era eu. Ah! E roubava as canetas da minha mãe. E mentia para meu pai que precisava comprar livros para escola enquanto ia comprar romances e almanaques.
Desta vez Damien riu com veracidade, os olhos se afinando no processo. Negou com a cabeça, e passou uma mão no rosto da negra.
— O acidente foi nesta ponte. Nunca tinha voltado aqui antes. — Levantou a cabeça para olhar por baixo da ponte, e soltou outro suspiro profundo. — O camião vinha descontrolado na minha direção, carros vinham atrás. Se eu virasse o carro todo para a direita, a minha companheira seria afetada, se eu virasse para a esquerda... seria eu. Ou então batíamos de frente.
Um mar cobriu os olhos da Johnson, e se inclinou para o abraçar, mas este a segurou pelos ombros, impedindo-a mais uma vez.
— Sei que por trás todos acreditam que eu mereço o que aconteceu, as vezes até eu penso nisso. Hoje eu aprendi a ver Para Além da Beleza. Nunca gostei de ninguém como gosto de você. Nunca. Chega até a doer.
Desta vez as lágrimas caíram como uma torrencial em dia de tempestade, Darcelle não conseguiu segurar, o coração parara de bater por um milésimo de segundo, e depois retornara a um ritmo tão forte quanto um grupo de índios a pedir por chuva.
— O que quer saber? — Ela questionou, lambendo o sabor salgado dos próprios lábios.— Se eu vou o recusar por causa daquilo que você era?
— Quero saber se estás disposta a trilhar o caminho difícil que temos pela frente. As pessoas vão nos medir, vão especular, vão fazer da nossa vida um inferno até que aceitem que estamos juntos. Você vai perder sua privacidade, sua vida será exposta do princípio ao fim. Vai haver uma perseguição incansável, e eu não quero submete-la a isso se não estiver certa.
— Esqueceu como eu sou, Damien? Esqueceu?
— Não. É exatamente por isso que meu coração quer você.
No meio da agitação da cidade e do mar, no meio do mundo inteiro, um silêncio ensurdecedor fez-se ouvir naquele exato banco. O início de um novo amor.
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