Notas iniciais
Yo, minna! Tudo bem com vocês? Antes de qualquer coisa, preciso mandar um beijaço pro galerê-san que não deixa de ouvir as músicas que coloco aqui. Obrigada! Bom... Sei que não falei muito nas notas do capítulo passado, deixei para fazer isso no capítulo seguinte, e aqui estou. O motivo de eu não ter falado nada é porque eu não fiquei muito feliz com a morte do Jiraya. Sim, eu adoro as tretas, adoro abalar as estruturas, mas confesso que, assim como acontece quando assisto ao anime, acabo me apegando às personalidades que elaboro, de uma maneira ou de outra. Um exemplo disso é o Sasori: se eu pudesse, o traria de volta. Adorei retratá-lo nessa fic, mas, infelizmente, o que está feito, está feito. A morte do Jiraya era algo que, como muitos devem supor, eu tinha planejado desde quando a ideia desta fic surgiu. Trabalhar com o personagem para que ele se solidifique como uma peça importante no enredo e no desenvolvimento dos personagens principais para que sua morte provoque um grande abalamento em todos, – personagens e leitores – e desencadeie acontecimentos importantes, esse era o plano. Mas confesso que, quanto mais eu escrevia sobre Jiraya aqui, menos eu queria que ele morresse. Pensei e repensei o rumo que eu havia traçado para o enredo inúmeras vezes, e cheguei a conclusão de que, assim como foi triste ver o Jiraya morrer no anime, seria triste fazê-lo morrer aqui também. E, mesmo correndo o risco de despertar a ira e a tristeza dos leitores que acompanham PS, resolvi apostar tudo e continuar com a ideia original. Jiraya iria morrer, assim como estava planejado desde o primeiro capítulo. Apenas a morte dele poderia desencadear os eventos que estão por vir. Quando eu falava das ameaças, da pressão dos leitores e fazia aquelas brincadeiras todas em torno desse tema, aquilo era uma maneira de preparar vocês para o fato de que a morte do Jiraya era, sim, uma possibilidade, mas eu estava preparando a mim mesma também. Jiraya era o meu grande apoio aqui: não havia nenhuma treta que ele não pudesse resolver. Foi por causa dele que a família destroçada do Naruto se reuniu novamente. Ele trouxe até mesmo o Sasuke de volta, e não se esqueçam de que fazer o Uchiha ajudar a Hinata com o desenvolvimento do poder dela foi ideia do Jiraya, e ele nunca dava ponto sem nó. Sem esforço algum, o sennin colocou a casa em ordem, protegeu aqueles a quem amou, e carregou consigo os laços preciosos que fez. Por esse motivo, ele não hesitou um segundo sequer quando esteve diante da escolha de sacrificar-se por Naruto. Por causa da coragem, do respeito, das lembranças felizes, mas, principalmente, por causa do amor. Foi sim, muito cruel fazer com que Naruto fosse o único discípulo que viu a morte de seu mestre acontecer diante de seus olhos, eu sei. Mas, apesar da tragédia, da tristeza, da dor, de tudo, eu quis dar ao sennin uma morte digna e bonita. Afinal, se tem um personagem, nessa fic e no anime, que faz falta... Esse personagem é o Jiraya. Sentiremos sua falta por aqui, Ero-sennin! Mas lembraremos sempre que você morreu sorrindo, então, que possamos seguir o exemplo do mestre e sorrir também! Boa leitura, e nos vemos nas notas finais!



Um sonho ruim.

Aquilo só podia ser um sonho ruim. Não havia outra explicação para o que estava acontecendo. Porque quando Naruto desapareceu do cemitério, embrenhando-se em meio ao matagal que rodeava o lugar, ninguém pôde impedi-lo; sua pele queimava a quem tentasse tocá-lo. Desnorteado, ele vagou pela mata, tentando controlar o chakra negro que tomava conta de sua mente, de seu corpo, de seu coração. A dor latejava por cada terminação nervosa de seu corpo, ecoando em uníssono aos uivos de Kyuubi, que rugia de forma enlouquecida, um uivo dolorido, magoado, triste, triste...

E não adiantava que a dor dos galhos por onde se embrenhava lhe atingisse como facas, cortando-lhe a pele – essa dor externa, Naruto não sentia. A dor que o afligia vinha de dentro para fora, espalhando-se por sua mente, tomando conta de seu corpo, fazendo seu coração apertar, suas veias saltarem. Já não sabia se era noite ou dia; seus olhos enxergavam apenas o negror da solidão infinita, na qual o loiro afundava sem saber como voltar. E ele vagava, vagava sem saber o que fazia, escutando o eco fraco das vozes que chamavam seu nome.

–NARUTO!

–Naruto!

–Naruto...

As vozes soavam distantes, como se viessem de outra dimensão. Sem conseguir mais se conter, o loiro se atirou de joelhos no chão, as mãos na cabeça, tentando evitar que sua mente explodisse. Ele arfava, as lágrimas rolavam, pesadas, como se fossem lâminas arrastando-se por seu rosto. Uma dor sem fim, latejante, profunda, lenta...

–Naruto...

As vozes ainda ecoavam, soando cada vez mais distantes, de um ponto indefinido. As vozes que procuravam por ele, preocupadas, querendo resgatá-lo, apoiá-lo, acolhe-lo, mas Naruto não estava interessado naquilo. Tudo que ele queria era fazer aquela maldita dor passar, fazer a ferida da solidão estancar, fazer parar de latejar. O Bijuu em sua mente uivava de forma descontrolada, num choro cansado. Enlouquecido, Naruto bateu os punhos cerrados na terra, as mãos esbarrando em alguns espinhos, fazendo sua pele sangrar. Mas ele não sentiu e não viu o sangue jorrar. O loiro apenas arfava e tentava conter as lágrimas negras que caiam, molhando a areia. Seus dedos cravaram-se na terra, querendo arrancar dela algo que lhe pertencia, mas que ele não se lembrava bem o que era. Havia apenas a dor enlouquecedora e a sensação de vazio que não passava nunca.

Seu estômago revirava em fortes rajadas de dor, e sem conseguir se controlar, Naruto vomitou. Uma outra pontada lhe atingiu, e uma nova golfada de vômito molhou a terra. Ele tentou se agarrar às plantas, mas tudo lhe parecia escuro, embaçado. Passou a mão na testa molhada, respirando profundamente, sabendo que não aguentaria aquilo. Não poderia perder seu único raio de esperança, seu guia, pai, luz. Jiraya era a fé que ele tinha em si mesmo. Sem seu padrinho, Naruto se esquecia de quem era. Afinal, foi o sennin quem o ensinou a ser o homem que ele era hoje. Sem Jiraya, não havia nada. Nem presente, nem futuro. Havia apenas um passado repleto com as melhores lembranças de sua vida e a sensação dolorosa de ver tudo desaparecer à sua frente. Jiraya era sua fortaleza. Era a esperança de que, não importava quão pavorosa fosse a noite, um novo dia não tardaria a nascer. Jiraya era seu alento, conforto e confiança. Sem ele, não havia nada. Simplesmente nada.

Uma nova rajada de dor atingiu seu corpo, fazendo-o arfar. Todo o seu autocontrole, seus dias e mais dias de treinamento e meditação para conter sua energia negra agora transformavam-se em esforços vãos. As barreiras de sua mente rachavam, fazendo Kyuubi grunhir, angustiada. Se aquilo continuasse, Naruto não iria aguentar. E ela sabia disso. Podia sentir o selo que Jiraya havia feito na mente do rapaz se desfazendo em pedaços, esfarelado pela dor.

Naruto deixou-se esparramar no chão, sentindo o corpo inteiro ruir. Será que ainda havia algo com o que se importar, algum motivo para resistir? Naquele momento de desespero, ele não conseguia se lembrar. Havia apenas a dor. A dor contra a qual ele não tinha mais forças para lutar.

–KYUUBI! – Naruto chamou, cansado. Já não queria mais sentir aquilo, não queria mais sentir nada. Que o Bijuu desse um jeito de lhe levar, de acabar com o restante de vida que lhe sobrara. Não importava. Tudo o que ele mais queria era apenas acabar com aquilo...

E foi quando o total negror o envolveu de forma repentina, fazendo-o afundar na inconsciência.

Não demorou até que o loiro acordasse, para logo ver a si mesmo em um lugar conhecido. Ele sabia bem o que havia desejado. Talvez Kyuubi tivesse lhe dado ouvidos e estivesse disposta a livrá-lo de tudo aquilo.

Dentro do transe de sua consciência, Naruto não se deu ao trabalho de levantar. Continuou deitado no chão inexistente e infinito de sua mente, esperando que Kyuubi lhe desse uma morte rápida.

“Olá, Naruto...”, o Bijuu cumprimentou seu hospedeiro.

Gaara ainda caminhava com dificuldade, apoiando-se em muletas, mas tentando ser o mais rápido que podia. Havia conseguido despistar os outros e procurava por Naruto sozinho em meio ao matagal, aflito. O ruivo sabia que Yugito fazia o mesmo – os dois eram os únicos jinchuurikis ali além de Naruto, e ambos sabiam que havia um grande risco naquele tipo de situação. Um Bijuu possui um poder grande demais, uma consciência própria, podendo se tornar uma energia traiçoeira, e por isso é tão perigoso. Existem aspectos da relação entre um Bijuu e um Jinchuuriki que apenas ambos conhecem. É necessário anos de treinamento até que se consiga dominar um Bijuu por completo; mesmo sabendo o nome do seu, Gaara ainda não tinha tanta certeza se conseguia controlar Shukaku. Na maioria das vezes, achava que o Bijuu era quem mandava nele.

“Não me venha com tolices agora, garoto.”, Shukaku grunhiu, mau humorado, como sempre. “Você controla grande parte de meu poder, dê-se por satisfeito. Quando amadurecer mais um pouco, será capaz de usa-lo por completo.”

Gaara revirou os olhos, impaciente. Continuava se arrastando pelo matagal, apoiando-se nas plantas, vez por outra topando em um espinho.

“Não é hora pra isso. Temos que achar o Naruto.”

O Bijuu soltou um suspiro pesaroso e preocupado, o que fez com que Gaara parasse de andar por um minuto. Shukaku era um Bijuu um tanto insensível, e não era dado a demonstrações de preocupação. O que era aquela reação repentina?

“Você acha que ele vai se render à dor, não acha?”, Gaara perguntou em pensamento, distraindo-se com aquela possibilidade e topando em outro espinho.

–Ai! – ele gritou.

“Sim. Acho muito provável que ele se renda.”, Shukaku respondeu, sério. “Você também quis fazer isso, não se lembra? Quando Sasori morreu.”

“Por isso mesmo que sei que ele pode pirar e querer morrer. Eu conheço essa dor e essa vontade. E é por isso que nós temos que achar aquele idiota logo.”, Gaara rebateu, tratando de recomeçar a andar. “Você acha que a Kyuubi seria capaz de fazer isso?”, perguntou, receoso.

“Não sei. Espero que Kyuubi tenha amadurecido junto com Naruto. A evolução do jinchuuriki é tão significativa para ele quanto para o Bijuu que ele carrega dentro de si. Nós também ainda precisamos amadurecer. Vamos esperar que Kyuubi seja capaz de tomar a melhor decisão.”

“Mas e se ela decidir obedecer aquele doido? Ele não está em condições de fazer esse tipo de escolha agora!”

“Então nós deveremos aceitar a vontade de Naruto e respeitar a decisão de seu Bijuu em satisfazê-la.”

“O quê?!”, Gaara se desesperou, “Então quer dizer que tem mesmo a possibilidade de ela matar o Naruto, se ele der permissão?!”

“Se o coração de Naruto desejar a morte, ela irá obedecê-lo. Teremos que respeitar a vontade dos dois.”

“Ela não pode fazer isso!”

“Cresça, Gaara!”, Shukaku rugiu, irritado. Gaara se calou com o rosnado do Bijuu. Shukaku parecia magoado. “Você não entende ainda os sentimentos de um Bijuu por seu hospedeiro? Nós nos alimentamos da força de um jinchuuriki para sobreviver. É a garra de vocês que nos dá alma e forma. Em troca, nós os protegemos e os ensinamos a amar como nós aprendemos a amá-los.”

O ruivo engoliu em seco, compreendendo. Shukaku era sábio, assim como eram todos os Bijuus. Ele não podia argumentar com aquilo – quando Gaara decidiu que queria morrer, após a morte de Sasori, Shukaku não teve coragem de tirar sua vida. Mesmo que ele tivesse implorado, mesmo que estivesse sendo consumido pela dor. O Bijuu o amava. Não poderia fazer aquilo que seu hospedeiro havia pedido.

“É preciso respeitar a coragem de um Bijuu que decide ouvir o coração de seu senhor e tirar a vida daquele a quem ele mais ama e respeita.”

Gaara assentiu, permanecendo em silêncio por um instante, refletindo sobre o que Shukaku havia dito. Suspirou. Procurar por Naruto naquele momento era uma tarefa inútil.

Cansado pelo esforço, o ruivo largou as muletas, sentando-se no chão, apoiando as costas em uma árvore. Talvez Yugito chegasse àquela mesma conclusão e parasse de procurar também. Os outros não eram jinchuurikis – jamais entenderiam aquele tipo de relação.

Restava apenas esperar que tudo acabasse.

Do outro lado do matagal, também sentada perto de uma árvore, Yugito aguardava o desfecho de toda aquela confusão. Havia acabado de ter uma discussão com Matatabi, seu Bijuu, e apostava que Gaara deveria estar na mesma situação em que ela se encontrava agora. A loira conhecia a dor que Naruto estava experimentando – um mestre era a ligação do discípulo à vida e à tudo o que existe nela, mas para um jinchuuriki, aquilo é um pouco mais complicado. Um mestre não é apenas a ligação do jinchuuriki à vida, ele acaba se tornando a própria vida, o amor, a intensidade, o controle. É mais difícil porque o Bijuu também jura fidelidade ao mestre, assim como a seu hospedeiro. Também aprende e evolui, também amadurece e se sente acolhido, não como uma aberração, mas como o Dom de superação e força. Foi a partir de seu mestre que Yugito voltou à vida e ganhou novamente a vontade de sorrir, juntamente a Nibi. Sem a memória de um mestre, tudo se resume a lembranças tristes e sombrias. Não há vida, equilíbrio, ou esperança. Há apenas o que existia antes deles chegarem: tragédias, medos, angústias, morte. Há apenas a sensação de vazio e perca que nunca cessa, o sangue da ferida que nunca estanca. Há apenas o rancor e a vontade de morrer.

Sim, ela conhecia aquela sensação. E esperava que Naruto fizesse a escolha certa, como ela havia feito. Esperava, do fundo de seu coração, que ele não se rendesse à dor.

Mas Yugito também sabia que ver o mestre morrer era o mesmo que morrer junto com ele.

–Kyuubi... – Naruto murmurou para o vazio de sua consciência, enxergando nada além da escuridão. Sentia-se exausto, dolorido, como se sua existência não passasse de algo desnecessário, um fardo pesado que ele não queria mais carregar. Seu único pensamento era o de que tinha que se livrar daquela sensação insuportável de estar morrendo aos poucos. Queria morrer de uma vez. Já bastava.

“Estou aqui, Naruto...”, o Bijuu respondeu, a voz dual soando arrastada, parecendo tão cansada e triste quanto a de seu hospedeiro.

Estar ali era difícil para os dois; afinal, a consciência de Naruto, naquele momento, estava inundada com o vazio que Jiraya deixara na vida de ambos. Todas as paredes imateriais da mente do loiro ecoavam a ausência dolorida do mestre em suas vidas, uma ausência que os enfraquecia. Jiraya achava que Naruto era forte o suficiente para passar por tudo aquilo, mas o discípulo achava que seu mestre havia se enganado – ele não era forte coisa nenhuma. Não aguentaria aquela dor por muito mais tempo.

–Você... – o loiro arfou, sufocado pela nova rajada de dor que o atingia em ondas lentas e pavorosas de desespero – Você tem minha permissão. Faça. – ordenou.

“Se esta for a vontade do seu coração, eu irei obedecê-lo.”, disse Kyuubi. O grande focinho do Bijuu estava franzido, os olhos imensos embaçados de tristeza. Estava fraco pela rendição de seu hospedeiro, fraco pela perda de Jiraya, pelo laço desfeito. A dor de Naruto era a sua dor também.

–Meu coração já não... já não aguenta mais. Por favor, por favor, me livre desse inferno... – Naruto implorou, passando as mãos pelo rosto, querendo apagar de sua mente a lembrança insistente do corpo de seu mestre morrendo em seus braços, encharcado em sangue e... sorrindo. Sorrindo para sempre.

“A dor do seu coração é a dor da minha alma. Nós compartilhamos uma vida inteira, e eu já vivi por muitas eternidades. Estou pronto para partir também, se essa for a sua vontade.”

–Você vem comigo? – o loiro perguntou, confuso.

“Eu, que já vivi muitas vidas, que já vi muitas existências se apagarem, nunca conheci uma dor como esta. Também não sou tão forte quanto você pensa, garoto. Seu amor por Jiraya é minha fraqueza e rendição. Nem em minhas infinitas memórias consigo me lembrar de uma única vez em que tenha experimentado tamanha dor. Não sou capaz de suportar esta perda. Seu coração está em frangalhos e eu sou a sua força. Se você fraqueja, sou eu quem cai. Se você treme, sou eu quem perde. Se você deseja morrer, minha existência se esvai no vazio. Eu não existo sem a sua vontade de viver.”

Naruto sabia o que aquelas palavras de despedida significavam. Jiraya havia sido a sua força e vontade de viver desde o inicio, e era aquela força que alimentava a existência de Kyuubi dentro dele. Sem o sennin, não restava nada, nenhuma esperança, nenhuma migalha de amor. Não restava nada...

–Estou pronto. – ele respondeu. Não sentia medo e não fraquejava. O frio de sua mente rendida o envolvia, preparando-o para o eterno vazio.

Kyuubi se aproximou de Naruto, saindo da escuridão. Seu rosto ficou próximo ao do jinchuuriki, os olhos tristes fitando o loiro com pesar. O Bijuu achava que aquela havia sido uma grande vida, afinal. Nunca, em todas as suas existências, Kyuubi havia conhecido alguém como Naruto. Seria uma grande honra levar em seus braços a vida do menino guerreiro que o libertara da escuridão.

“Que a mão do Bijuu que tem a coragem de livrar seu senhor do sofrimento não fraqueje, não trema. Que nossa existência não se apague, mas ecoe por todas as outras gerações, para que ninguém duvide de que a Kyuubi amou tanto o seu jinchuuriki que foi capaz de atender a vontade que esvaia de seu coração.”

Naruto respirou profundamente, lembrando-se de seu mestre mais uma vez. O sorriso de Jiraya e a misericórdia de Kyuubi seriam as últimas lembranças que ele levaria consigo.

“Que o meu amor por você e por seu mestre sejam a lâmina capaz de extinguir a dor. Obrigado... Por tudo, Naruto.”

O loiro assentiu, mentalmente agradecendo ao Bijuu. Seu “obrigado” silencioso ecoou pelas paredes de sua consciência, fazendo a mente de Naruto vibrar. Tudo desmoronaria em breve. Estava perto do fim.

Kyuubi apoiou a pata direita no coração de Naruto, interligando seus chakras. O Bijuu achava que sua existência não era mais necessária naquele mundo, depois que o loiro se fosse. Com ele, já havia aprendido tudo o que deveria e conhecido mais do mundo do que em qualquer outra vida. Havia visto a vida e a morte entrelaçarem-se em um só coração dentro de Naruto, havia visto o loiro resistir bravamente a todas as adversidades, havia conhecido o amor.

E aquilo bastava.

“Adeus, Naruto...”


–Naruto! – Hinata gritava, aflita. De onde estava, ela podia ouvir a voz de Ino, Sakura, Kiba, Shikamaru e Temari, que se espalhavam pelo matagal em busca do loiro. Sasuke havia corrido atrás do homem que atacara Jiraya, e Hinata nunca havia visto os olhos do Uchiha com tanto ódio. Nem mesmo ele conseguira se conter vendo Jiraya morrer daquele jeito.

A morena parou por um instante.

–Naruto!

O grito desesperado de Hinata ecoou pelo matagal quando ela se deparou com o corpo inconsciente do loiro jogado em meio às plantas. Havia vômito e sangue ali, mas ela não se deteve àquilo. Atirou-se sobre o corpo de Naruto, sentindo-o estranhamente frio.

–Naruto! – ela sacudiu, mas não havia retorno. Seu rosto latejava, o poder descontrolado querendo sair. As veias saltaram na pele de sua face, fazendo-a arfar e soltar o corpo de Naruto de uma vez ao perceber o que estava acontecendo. O chakra do loiro se esvaia lentamente e uma sombra se alastrava pela consciência dele como fumaça. O que Naruto estava fazendo?

Confusa, ela novamente o agarrou, cada vez mais angustiada ao sentir o chakra de Naruto se esvaziar do corpo inerte. As batidas do coração do loiro estavam cada vez mais fracas. Definitivamente, havia algo de muito errado com ele. E quando ela tentou mergulhar na mente sombria de Naruto para saber o que de fato estava acontecendo, uma forte rajada de chakra negro a expulsou, fazendo com que ela largasse o corpo dele novamente.

Hinata estava proibida de enxergar o que se passava no coração de Naruto. E, para ela, aquilo era um mau sinal. Um péssimo sinal.

–Naruto, não! Volte! Naruto! – Hinata tentou sacudi-lo novamente, mas não havia retorno. Se ele ao menos estivesse lutando contra aquilo, mas ela sentia que o loiro se rendia completamente, deixando-se envolver pela escuridão – O que você pensa que está fazendo seu loiro bastardo, idiota, volte agora! – ela esbravejou, sentindo os olhos embaçarem com as lágrimas que se acumulavam nas pálpebras. Não, Naruto não faria aquilo com ela. Ele não decidiria abandoná-la, não depois de tudo. Impossível.

Ele era forte, e Hinata estava disposta a cumprir a promessa que havia feito à Jiraya – cuidaria de Naruto, não importava o que acontecesse. Ela não deixaria que ele se entregasse às trevas da tristeza daquela maneira. Se ele precisava de uma razão para continuar vivendo, ela o daria uma. Se ele precisava destruir algo para sentir-se satisfeito, ela daria a própria alma em sacrifício. Qualquer coisa que fizesse aquele loiro idiota compreender que Hinata estaria sempre ao lado dele, a qualquer momento, em qualquer circunstância. E aquilo não era uma opção para ela. Hinata tinha o coração nas mãos de Naruto. Entregara sua alma a ele no minuto em que permitiu que ele resgatasse sua vida.

–Você não pode fazer isso! Eu não vou deixar! Naruto, acorde! Volte, volte pra mim! Naruto! – ela implorava, sem conseguir conter as lágrimas ao ver um filete de sangue escorrer do nariz do loiro. Ele estava se entregando, se deixando ruir. Por que ele não acordava, por que ele não voltava? – Naruto, lute! Eu estou aqui, eu vou ficar com você! Naruto, por favor, por favor!

Mas ele não acordava.

–NARUTO!

Quando estava prestes a se entregar aos braços negros de Kyuubi, Naruto ouviu seu nome ecoando em algum ponto indefinido e distante de onde ele estava.

“Naruto... Volte... Naruto...”

A voz doce e feminina soava fraca, como uma carícia em seus ouvidos. Um som familiar, mas que ele não reconhecia, e que naquele momento de dor, lhe parecia ser o alento de que ele tanto precisava, o conforto que ele desesperadamente buscava nos braços da morte.

Sentindo o calor da pata de Kyuubi em seu coração, com a voz doce que o embalava, chamando seu nome, e com a lembrança do sorriso de seu mestre na memória, Naruto estava pronto. A dor já se dissipava, e ele via a si mesmo a beira de um precipício. O precipício que o fazia lembrar dela...

“NARUTO!”

A voz desesperada irrompeu o vazio de seu torpor, fazendo com que sua consciência tremesse. A mente embaralhada de Naruto começou a ser inundada por lembranças recentes, mas que já estavam esquecidas pela rendição. Um brilho estranho e perolado fez com que o loiro enxergasse as memórias que se entrelaçavam diante de seus olhos, ainda sendo embalado pela voz doce que continuava a chamar por ele, soando cada vez mais nítida na medida em que o brilho perolado que o despertava se transformava em um par de olhos bonitos que o encaravam com receio.

Ele via a si mesmo em frente a uma escola, acompanhando a moça morena que caminhava a sua frente, trêmula de medo.

Memórias de um passado não tão distante

–Raios, pare de fazer tantas objeções e entre logo na droga desse carro! – estressou-se Naruto.

Sim, paciência não era exatamente o seu ponto forte.

A garota se assustou com a aspereza do loiro e entrou logo no carro. Àquela altura, de nada adiantaria tentar resistir.

Pela janela, Hinata encarou a fachada de sua escola, mentalmente se perguntando se ela poderia voltar ali, algum dia.

Ao sentar no banco do motorista, Naruto ouviu Kyuubi dar outro riso debochado em sua mente.

“Que é?”, perguntou.

“Você conseguiu, Naruto. Cumpriu a missão.”, falou ela, a voz rouca e sombria ecoando na consciência do loiro.

“É. Eu consegui.”, pensou, mais consigo mesmo do que para Kyuubi, deixando escapar de seus lábios um sorriso de satisfação.

*

–Ainda não entendi porque você não contou para a gente que estava com essa garota. – ele falou de forma acusadora.

Do outro lado da linha, o loiro pôde ouvir Tenten suspirar. A garota pensou um pouco antes de responder.

–Porque a Hinata é uma garota de alma e coração quebrados, Naruto. Ela não merece sofrer mais apenas por ser como nós.

Foi a vez de Naruto suspirar, sem querer responder àquelas palavras.

–Cuide dela. – Tenten pediu, mais uma vez. – Ela é sua responsabilidade agora.

–Vou tentar. Mas ela é chata!

*

–Eu sinto muito. – a morena sussurrou para Naruto, abraçando-o – Não entendo direito o que aconteceu, mas... sei que está sofrendo. E eu não sei como posso ajudar você, assim como você me ajudou. Tudo o que poso fazer é... não deixar você sozinho.

Os olhos de Naruto se arregalaram, enquanto ele tentava assimilar o que Hinata dizia, tentando se desvencilhar da nuvem de embriaguez que o envolvia.

–Não vou deixar você sozinho. – ela repetiu, sentindo o coração disparar – Eu sinto muito, Naruto... – sussurrou.

O loiro pareceu voltar um pouco a sí. Afundou o rosto no pescoço de Hinata, sem compreender como aquela pessoa estranha, alheia a tudo o que ele vivia, poderia entender e se importar com o que ele passava naquele momento.

Mas ela havia ido até ele, na intenção de confortá-lo.

Rendendo-se, Naruto embaraçou-se nos cabelos de Hinata, querendo esconder as lágrimas que desciam.

Naquela madrugada fria e turbulenta, ele adormeceu nos braços dela.

*

–Onde pretende chegar com toda essa revolta? Qual é o problema? – Hinata perguntou, vendo os olhos vermelhos de Naruto.

–Você não sabe de tudo o que aconteceu? Não está vendo a única família que conheci sendo destruída? Não está vendo que tudo o que eu tenho está sendo tirado de mim? Não acha que esses são motivos suficientes para justificar a minha revolta?

–Não! Você deveria tentar se controlar porque o que sobrou da sua família precisa de você, agora. E se você pretende mesmo trazer o Gaara de volta, vai precisar de uma estratégia melhor do que quebrar tudo e tentar me fazer ter medo. Entendeu?

Ele deu um passo para trás, encostando a cabeça na parede, passando as mãos no rosto. Não acreditava que estava levando um sermão daquela garota.

–Droga. Droga, droga, droga, droga, droga! Que diabos está acontecendo? – ele perguntou, mais para si mesmo, do que para Hinata.

Ela tocou o rosto de Naruto, carinhosamente, tentando... sorrir para ele.

Naruto arregalou os olhos para aquela proximidade, ficando paralisado, surpreso.

–Não sei. Mas eu vou ajudar. Vou me esforçar para despertar o que quer que seja esse poder que você diz que eu tenho. Vou me tornar útil e vou ajudar você a recuperar sua família. Mas tente se acalmar, tá bom?

Naruto sentia as palavras de Hinata aquecerem seu coração de maneira estranha. Sentia um brilho no olhar perolado dela, que parecia ser... esperança.

*

–Naruto, espera. – Hinata pediu.

Ele parou, com as mãos no volante.

–O que foi? – perguntou, apático. Ela o havia rejeitado novamente, e aquilo o frustrava profundamente.

–Fique quieto! — ela mandou, aproximando o rosto do dele.

Os olhos de Naruto se arregalaram ao sentir Hinata depositar um rápido selinho em seus lábios. Não durou muito, mas foi tempo o suficiente para que, surpreendentemente, um sorriso se espalhasse na expressão do loiro quando ela se afastou um pouco.

–Tenha paciência comigo, está bem? – ela pediu, e voltou ao seu lugar.

A garota encostou a cabeça no banco, olhando fixamente para frente, sentindo o coração acelerado. Cravou os dedos no assento, tentando controlar o tremor.

Naruto olhava para ela, ainda sorrindo, o que tornava tudo ainda mais estranho. Por que diabos ele se sentia tão feliz?

–Mas o que... – ele começou.

–Cala a boca e dirige, Naruto! — Hinata mandou, ainda olhando fixamente para frente.

O sorriso do loiro se alargou com aquela reação. Desde quando ela era tão mandona?

Em silêncio, ainda sorrindo, Naruto deu partida no carro e acelerou, ainda com o pedido de Hinata ecoando em sua cabeça.

Infelizmente, – ou felizmente — paciência não era um de seus pontos fortes.

*

–A porta estava destrancada e eu... – ela tentava justificar sua presença ali. Não só para ele, como para si mesma.

–Eu sei. Fui eu quem deixou destrancada. Estava esperando que você viesse. – ele finalmente falou, e seu tom de voz se mantinha baixo e inflexível.

–Você... estava me esperando? – Hinata perguntou, surpresa – Por quê?

Naruto então se virou, ainda encostando-se na janela. Esfregou as mãos no rosto, impaciente com a bagunça em sua mente.

–Não sei. – respondeu. – Mas queria que você viesse. Pra que... eu não me sentisse tão sozinho.

Ela se aproximou, e sentou-se na lateral da cama, de frente para ele.

–Você não está sozinho. Seu padrinho e Ino sempre estiveram ao seu lado, e... agora eu também estou.

–É... você está. – ele respondeu, encarando-a com seriedade.

Os dois ficaram em silêncio, sem saber como prosseguir com aquela conversa.

Ele então suspirou e aproximou-se de onde ela estava sentada. Ajoelhou-se na frente de Hinata, vendo-a arfar de medo.

–Na-Naruto, por favor, va-vamos voltar para a sala... – ela falou, o nervosismo fazendo as palavras saírem atropeladas. Mas, para a sua surpresa, tudo o que ele fez foi apoiar a cabeça nas pernas dela, fechando os olhos. Uma única lágrima escorreu das pálpebras fechadas, que ele logo tratou de esconder, enterrando ainda mais o rosto no tecido da roupa que cobria as coxas da morena.

–Tudo bem. Posso... ficar aqui, só um pouco? – pediu, ainda de olhos fechados.

Hinata engoliu em seco. Era difícil ver o loiro frágil daquela maneira, e aquilo significava que ele, de fato, passava a considera-la alguém que não só merecia confiança, mas como parte de sua família. Alguém cujo colo ele poderia desabar suas mágoas.

–Claro que pode, Naruto... – ela sussurrou, suas mãos acariciando os fios loiros de Naruto. Alí, como um menino, ele era embalado pelo cheiro de Hinata, que carinhosamente acolhia suas mágoas sem nada perguntar.

*

–Ah, merda. – Naruto murmurou, mais consigo mesmo do que com Gaara.

O ruivo riu, olhando para o amigo com um misto de alegria e preocupação.

–Você estava certo. – Naruto continuou.

–Sobre o quê? – Gaara provocou.

–Sobre tudo.

Pelo visto, Naruto seria idiota o suficiente para se deixar envolver pelo sentimento que ganhava cada vez mais terreno dentro dele. Gaara sorriu ainda mais.

–Acho que estou apaixonado pela Hinata. – falou Naruto, as palavras soando como se ele não acreditasse no que dizia.

O ruivo apoiou a mão no ombro do amigo, solidário.

–Bem-vindo ao clube dos idiotas, Naruto!

O Uzumaki permaneceu paralisado, sem conseguir assimilar suas próprias conclusões.

–Quando foi que... quando foi que eu deixei isso acontecer? – questionou, perplexo.

–Foi quando você ensinou ela sorrir daquele jeito. Acredite, aquele tipo de sorriso é um perigo! – Gaara comentou, divertindo-se – Tenho que ir... cuide da loira por mim. – pediu.

Ainda entorpecido pelo choque, Naruto assentiu, vendo o amigo afastar-se e sumir pela escada de incêndio.

***

Naruto abriu os olhos, erguendo-se de uma vez, respirando fundo. O ar ardeu em seus pulmões, mas ele não se deteve à isso. Olhou em volta, percebendo que ainda estava preso no transe de sua consciência. Ao seu lado estava Kyuubi, que se mantinha deitada, com a cabeça apoiada nas patas. A expressão do Bijuu era triste, mas seus olhos tinham um brilho esperançoso.

“Resolveu ficar?”, Kyuubi perguntou.

O loiro suspirou, tentando entender o que havia acontecido. Estava tonto e enjoado, sua mente fraca, seu corpo, vazio.

–Foi você quem fez isso? – ele perguntou, referindo-se ao turbilhão de lembranças que haviam se embaralhado em sua mente. A imagem do rosto de Hinata martelava em sua cabeça, pouco a pouco enchendo-o de vida novamente, fazendo-o arfar. A vontade de voltar para sua família aquecia seu coração na medida em que o sorriso da Hyuuga insistia em brilhar para ele.

Kyuubi assentiu.

“Achei que ela seria um bom motivo pelo qual você poderia voltar e lutar.”

O loiro fitava o Bijuu com uma expressão embasbacada, sem entender absolutamente nada do que havia acontecido.

“Eu disse a você que não era forte o suficiente para conviver com a sua dor. Mas também não sou forte o bastante para obedecer à vontade do seu coração. Por isso, transformei sua dor em uma nova esperança. Essa garota fez por você o que eu não pude fazer: ela salvou a sua alma das trevas e da escuridão na qual a dor o havia aprisionado.”

–Não estou entendendo nada, Kyuubi. O que Hinata tem a ver com isso?

“Eu avisei que essa menina estava mudando o seu coração.”, o Bijuu disse, “A escolha de voltar ainda será sua. Mas ela estará esperando por você. Assim como eu vou sempre estar aguardando o dia em que você estará realmente pronto para voltar aqui. Nesse dia, eu terei grande prazer em levá-lo comigo. Mas ainda não é a sua hora.”

Naruto piscou, cada vez mais confuso. Um pranto sofrido ecoava em sua mente, soando cada vez mais nítido, a voz feminina ainda chamando por ele, implorando que ele voltasse.

“Ela está esperando por você, garoto.”, Kyuubi avisou, enroscando-se nos braços de Naruto como se fosse um pequeno gatinho em busca de colo. “Esta garota é a missão que seu mestre lhe confiou. Você sabe o que deve fazer.”

O loiro assentiu, sentindo os olhos embaçarem, as lágrimas rolando por seu rosto. Ele soluçou, sentindo a dor novamente apertar seu coração. Havia Ino, Gaara, Sakura, Shikamaru, Sasuke e... Hinata. Eles deveriam estar procurando por ele. Sua família. Seu amor.

A luz perolada brilhava em sua consciência, insistindo em chama-lo. Em uníssono aos seus soluços, Naruto ouvia claramente o choro sofrido de Hinata. O toque angustiado dela em seu corpo também se tornava cada vez mais nítido. Era hora de voltar.

Naruto tinha um motivo para continuar. A vida ainda fazia sentido.

Jiraya se fora, mas deixara em suas mãos um legado de valor imensurável. Uma família pela qual valia a pena lutar.

E um amor a quem ele deveria proteger.

Desconsolado, Naruto suspirou em meio ao pranto silencioso que rolava por seu rosto.

–Foi minha culpa... – o loiro murmurou – Minha culpa...

“Não, não foi sua culpa. A missão do seu mestre era proteger você. Não desonre a coragem de Jiraya com a sua tristeza.”

Ao ouvir aquelas palavras, Naruto respirou pesadamente, tentando recuperar o controle de si. Kyuubi tinha razão. Não deveria manchar a memória de seu mestre com palavras inúteis ou sentimentos de culpa. Era tarde demais para aquilo.

Kyuubi choramingou como um filhote, buscando o amparo de seu jinchuuriki.

“Sentirei falta dele...”, disse o Bijuu, referindo-se à Jiraya, apoiando a grande cabeça no colo do loiro.

Naruto acariciou o pelo espesso de Kyuubi, fitando as lágrimas que caiam daqueles olhos imensos e tristes.

–Eu também... – ele disse, respirando profundamente – Preciso ir, Kyuubi. Preciso voltar para ela. – falou, exibindo um sorriso mínimo.

Kyuubi choramingou novamente, vendo o loiro se erguer. Os pelos da nuca do Bijuu se eriçavam sempre que lembrava de Hinata. Mas, naquele momento, não diria nada a Naruto. Não era hora para discussões inúteis.

“Você sabe que essa dor não vai passar, não sabe?”

–Sei... – Naruto respondeu, incerto – Mas preciso aprender a conviver com ela. Afinal, Ero-sennin me ensinou a amar a vida... e a vive-la... Não é justo desistir do maior presente que ele me deixou.

O Bijuu ficou em silêncio, vendo o corpo imaterial do loiro se dissolver à sua frente. Mas, antes que ele voltasse, Kyuubi também lhe daria um presente.

“Naruto...”, Kyuubi chamou, vendo o rapaz virar-se para olhar para ela.

–O que foi?

“Jiraya tinha razão. Você se transformou em um grande homem, garoto.”

Os olhos de Naruto novamente se embaçaram. Falar sobre seu mestre era muito doloroso.

Com a garganta fechada pela emoção, tudo o que o loiro pôde fazer foi assentir.

“Antes de você ir, tem mais uma coisa que eu gostaria de lhe dizer.”, Kyuubi falou “Foi uma grande honra conhecer seu coração. A sua força e vontade de viver me libertaram das trevas. Sou grato por tudo o que você me ensinou. Você está pronto para se tornar ainda mais forte do que já é.”

Naruto apenas sorriu, sem entender aonde Kyuubi queria chegar com aquela conversa.

O Bijuu ergueu a grande pata direita na direção do loiro, os lábios se esticando, mostrando os caninos. Kyuubi estava... sorrindo?

“Muito prazer, Naruto. Meu nome é Kurama.”

Uma rajada de poder inundou a consciência do loiro, fazendo todas as estruturas de seu corpo tremerem. As grades que prendiam o Bijuu em um selo se quebraram, fazendo com que um novo chakra percorresse seu corpo, inundando-o com um calor negro que o acolhia e circulava por todas as suas veias. Os olhos azuis de Naruto brilharam com a nova energia que se fazia presente em seu coração.

Ele ergueu a mão na direção da pata do Bijuu, ainda com a expressão embasbacada.

E antes que pudesse esboçar qualquer outra reação, antes mesmo que pudesse agradecer, tudo ao seu redor virou borrão.

A única coisa que Naruto viu antes de desmaiar foi o sorriso orgulhoso de Kyuubi, emoldurado pelo brilho perolado dos olhos que insistiam em brilhar em suas lembranças.

O loiro abriu os olhos devagar, surpreendendo-se com a realidade embaçada ao seu redor. Não estava mais em sua consciência – ali estava o matagal no qual havia se embrenhado antes de desmaiar. À sua frente, Hinata olhava para ele com uma expressão aflita. Os olhos dela brilhavam para Naruto de forma insistente, como se ela soubesse das lembranças que ele tivera quando estava em transe junto a Kyuubi.

–Hinata... – ele murmurou, ainda tentando distinguir se a imagem da moça a sua frente era real, ou se aquilo se tratava de mais uma lembrança.

–Naruto! – Hinata alarmou, atirando-se sobre ele, abraçando-o.

Embora sua pele estivesse um pouco cortada pelos golpes das plantas e dos espinhos com os quais topara no meio daquele matagal, Naruto não sentia dor física. Mal percebeu que os braços de Hinata o envolviam em um forte e aliviado abraço. Tudo o que ele sentia era o novo e maciço poder que circulava em seu corpo, as palavras do Bijuu ecoando em sua cabeça de forma repetitiva e poderosa.

“Meu nome é Kurama.”

Kurama era o nome de seu Bijuu. E como ele era forte! Tão forte que o chakra que agora circulava nas veias de Naruto fazia com que seus ouvidos zunissem um pouco. A revelação daquele nome havia chegado em boa hora. Kyuubi deveria estar ciente disso.

“Você sabe o que deve fazer.”, dissera o Bijuu.

Sim, Naruto sabia exatamente o que devia fazer.

Com cuidado, ele se desvencilhou do aperto de Hinata, segurando-a pelos ombros, encarando-a.

–Naruto, eu sinto mui... – ela tentou começar, mas Naruto logo tratou de interrompê-la.

–Está tudo bem, Hinata.

–Eu sei que não está tudo bem. — ela insistiu – Mas eu...

–Me deixe sozinho. – o loiro pediu, sério.

Hinata piscou, surpresa com aquelas palavras.

–Mas Naruto...

–Por favor. – ele pediu, se levantando – Não quero ninguém procurando por mim.

A Hyuuga também se ergueu, encarando Naruto com o cenho franzido. Por que ele estava agindo daquela maneira estranha?

–Para onde você vai? – a morena perguntou, angustiada.

Ele deu às costas à garota, decidido a seguir em frente.

–Não se preocupe comigo. Está tudo bem. – ele respondeu sem olhar para ela, para em seguida caminhar a passos apressados na direção de onde havia estacionado seu carro.

Hinata não sabia como responder àquilo. O que Naruto pretendia? Por que ele queria se isolar, quando deveria estar com sua família, apoiando-se naqueles a quem amava até que toda aquela dor passasse? Por que ele estava agindo exatamente como Gaara e Sasuke, isolando-se de todos?

–Mas Naruto... – ela tentou.

–Vejo você em breve. – o loiro murmurou, desaparecendo sob as sombras das árvores.

Entrando no carro, Naruto apoiou a cabeça no volante, respirando profundamente. Suas roupas e pele ainda estavam manchadas pelo sangue de seu mestre, mas ele não queria pensar naquilo. Sabia exatamente o que tinha que fazer. Devia proteger e lutar por aquilo que lhe era precioso. O resto não importava. O resto não existia.

Com aquilo em mente, ele tateou o bolso da calça jeans em busca do celular. E quando o encontrou, vasculhou a agenda de contatos em busca de um número para o qual não telefonava há muito tempo.

Após chamar três vezes, a voz feminina soou do outro lado da linha, atendendo a ligação.

–Naruto? – ela alarmou, parecendo surpresa.

–Oi. – ele sorriu, debochado. Tinha que manter o controle. Ele tomaria as rédeas da situação e resolveria aquela palhaçada de uma vez. Já estava decidido.

–Aconteceu alguma coisa? – a moça perguntou, preocupada. Algo de muito sério deveria estar se passando para que Naruto estivesse fazendo contato com ela.

–Sim, aconteceu. – ele respondeu, sem deixar de lado o tom irônico – Tome o primeiro avião que puder e venha pra cá.

–O quê? Por quê?

Naruto respirou profundamente antes de responder.

–Quero que venha busca-la. – ele falou, decidido.

Notas finais
Oi! E ai? Gostaram? Bom... Sei que esse capítulo foi meio fraquinho, já que todos estavam apostando no barraco e na piração do Narutim. Ainda não se sabe ao certo o porquê de a Kyuubi se eriçar toda só de pensar na Hinata, mas ao menos acho que esse capítulo foi um tira-teima das dúvidas que alguns leitores levantaram ao longo da estória, sobre a Kyuubi ser boa ou ruim. Gente, ela não é má! Só que... bem... er... Bom, são as tretas. Sem treta, não há vida. MUWAHAHAHAHAHAHA! O que acharam do diálogo dela com o Narutim? Claaaro que ele ia se culpar, uma hora ou outra, e claaaro que a morte do Jiraya ia desencadear uma coisa importante. Naruto libertou um novo poder quando Kyuubi finalmente revelou seu nome. Além do mais, ele tomou uma decisão. Mas que decisão é essa? Quem é a pessoa pra quem ele ligou, e quem é a pessoa que ele quer que venham buscar? Viesh! Apostem ai! Bom... por hoje, é só. Sei que ainda tem gente lamentando a morte do sennin, eu também estou, porém, não me deterei mais nisso. A estória tem que seguir. As tretas tem que continuar. AH, um Special Thanks para os leitores fiéis que estão sempre por aqui e nunca deixam de comentar! Muuuuito obrigada, galerê-san! Por favor, não esqueçam de comentar e fazer essa autora-san feliz. Lembrem-se de que a opinião de vocês é meu principal incentivo para continuar com essa fic! xD Até o próximo! Bjks!