Paraíso Sombrio
1 O inferno é aqui
Notas iniciais
A ORDEM é uma organização que hierarquiza as manifestações magísticas desse mundo. Tudo aquilo que há entre a realidade e os outros mundos que não sabemos existir, passa pelo domínio da ORDEM e de seus líderes.
A interferência dessa organização no nosso mundo se dá a partir de como se organizam seus membros. A hierarquia da ORDEM designa títulos aos escolhidos de acordo com seus dons e habilidades. Seus adeptos dividem-se entre aqueles que utilizam seus poderes para ajudar a humanidade a caminhar rumo à um futuro melhor. Outros, utilizam suas habilidades em benefício próprio, e outros trabalham estritamente com forças pesadas que não podem fazer bem à ninguém.
E existem também aqueles que caminham sobre a linha tênue que existe entre bondade e maldade. E que vão além dos limites monótonos que a humanidade dá aos conceitos de bem e de mau.
Tais manifestações magísticas apresentam-se no domínio dos elementos da natureza, de seres invisíveis aos olhos humanos, de habilidades inimagináveis. E é nessa realidade absurda que irá se passar a história que narro a seguir.
Você pode pensar, caro leitor, que estou a imaginar coisas, ou até ficando louca. Mas eu lhe pergunto: o que é o ato de viver, se não acreditar nas possibilidades mais loucas e maravilhosas dessa realidade dura? Como passar pela vida amarga sem tentar enxergar o fantástico?
Pois eu lhes garanto: o mágico e o fabuloso estão por trás de cada parede do que vocês imaginam ser a realidade.
Alguns aprendem isso pelo amor.
Outros pela dor.
Ainda não consegui decidir de que maneira aprendi.
Hyuuga Hinata
Naruto estava sentado em posição de meditação em um canto de sua casa. Tentava a todo custo concentrar-se, jogando-se cada vez mais fundo em seu transe. E quanto mais afundava na inconsciência, mais nitidamente conseguia distinguir o Vale das Vidas. Ali ele podia observar as várias sombras existentes no mundo, algumas vagando sem sentido, outras de brilho forte e intenso. Mas procurava por uma sombra em específico. Respirou fundo, tentando se concentrar ainda mais. Passava pelas sombras rapidamente, tentando localizar aquela que lhe interessava. Elas se desfaziam em fumaça na medida em que atingiam seu corpo imaterial, enquanto impacientemente vasculhava todo o local.
–Coma de boca fechada, seu cavalo. – Ino reclamou.
–Cala a boca, loira burra. – Gaara respondeu, abrindo a boca cheia de comida na direção da loira.
–Loira burra o caramba! Seu cabeça de tomate ridículo! Custa ter um pouco de educação pelo menos pra comer?! – respondeu, indignada.
–Calem a boca! – gritou Sakura, da cozinha. – Não estão vendo que Naruto está tentando se concentrar?!
Naruto abriu um olho. E depois o outro. Sua sobrancelha esquerda tremia de frustração enquanto ele respirava fundo, na intenção de controlar-se para não matar ninguém.
–Seus amaldiçoados! – explodiu. — Que baderna é essa na minha casa?! Por que vocês não dão o fora daqui?!
–Ui, ele se estressou. – ironizou Gaara, sorrindo descaradamente para Naruto. – Ainda não conseguiu achar essa garota?
O loiro esfregou as mãos no rosto, impaciente.
–Não. Nem vou conseguir com vocês enchendo o saco aqui dia e noite. Por que não vão embora de uma vez? – perguntou, levantando-se.
–Fala a verdade, você adora quando a gente vem aqui. – provocou Gaara, esticando-se confortavelmente no sofá, empurrando um pouco a loira sentada ao seu lado.
Ino bufou.
–Afinal, porque seu mestre quer tanto que você encontre essa menina? – perguntou Sakura, entrando na sala.
Naruto suspirou.
–Eu não sei. Tudo o que ele me disse é que ela é como nós. E que precisava ser... resgatada. E cale a boca você também! – estressou-se.
–O quê?! – perguntou Sakura, irritada.
–Não estou falando com você... – resmungou o loiro.
Gaara revirou os olhos.
–Você precisa parar com essa mania de falar com seu Bijuu interior em voz alta.
–Não consigo! Kyuubi me torra a paciência, o tempo inteiro me lembrando de que eu tenho que encontrar essa maldita garota! Sinceramente, eu nem a conheço e já a odeio! Onde essa pirralha se meteu? – questionou, abrindo uma garrafa de uísque. Despejou o conteúdo em um copo, e bebeu em um único gole.
Sakura o observava com o olhar cuidadoso.
–Você bebe demais. – repreendeu.
–Não começa. – resmungou para ela.
Ele então encheu novamente o copo, andando para a sala e jogando-se na poltrona.
–Não seja tão incompetente. – Gaara disse, a expressão comicamente desgostosa.
–Ah, é? Então tenta achar ela você! A garota não tem registro em nenhuma rede social, não há vestígio dela em lugar algum. No Vale das Vidas, é como se ela não existisse. Como é que pode? Se você quiser provar que é mais competente do que eu, deixo você procurar por ela sem problema.
–Ei, a missão é sua. – o ruivo lhe lembrou, querendo tirar o corpo fora daquela situação. – Cumpra com a tarefa que seu mestre lhe confiou sozinho, idiota.
Antes que os dois começassem uma discussão sobre aquilo também, ouviram passos saindo de um dos quartos da casa e aproximando-se de onde estavam.
–Já estão discutindo feito crianças novamente? – perguntou Sasuke, aparecendo na porta da sala vestindo apenas uma calça jeans, enquanto enxugava os cabelos negros com uma toalha. Pendurada em seu ombro jazia uma camiseta preta.
–Droga, você não tem casa, não? Tome banho no seu próprio banheiro. – resmungou o loiro.
Sasuke largou a toalha sobre a cara de Naruto, que bufou de raiva e a jogou de volta no moreno com força. Ele pegou sua camisa, mas antes que pudesse vesti-la, Sakura pôde ver a pequena marca em seu pescoço. A figura do Selo Amaldiçoado.
O símbolo da Akatsuki.
–Onde está seu mestre? – ele perguntou a Gaara. – Tenho assuntos a tratar com ele, mas aquele idiota não atende ao celular.
–Na ORDEM. Resolvendo alguma coisa complicada. Aparentemente, as coisas por lá estão... muito ruins.
–O que quer dizer? – perguntou Sakura.
–Ah, você sabe... Aquilo lá é um ninho de cobras, cheio de fraudes, corrupção e crimes por debaixo dos panos. Deve ter acontecido algo.
Sasuke ponderou sobre aquilo. Da última vez em que aconteceu “algo” na ORDEM, a vida de seu mestre havia sido levada.
Por esse motivo, ele havia se desvinculado dela, e entrado para a Akatsuki. Mesmo contra a vontade de seus amigos, e de todas as pessoas que conhecia. Mesmo contra a sua própria vontade, o desespero causado pela dor da perda falou mais alto.
Abandonou todos os ensinamentos que seu mestre lhe deixara, largou a vida de paz que levava. Largou tudo em nome de sua sede de vingança.
A ORDEM levara a vida de seu mestre. De seu irmão.
–Estou indo embora. – Sasuke falou, e virou-se para Naruto. –Caso eu encontre alguma informação que ajude na busca dessa pentelha, aviso a você. – disse, a expressão entediada pela incompetência de Naruto.
Naruto estreitou os olhos para o amigo.
–Vê se não demora a voltar. – falou.
Sem responder, Sasuke caminhou em direção à porta, saindo da casa.
O loiro então virou-se para Sakura, tentando desvendar a expressão da rosada. Ela estava parada ao lado de sua poltrona, fitando Sasuke, os lábios curvados em uma linha incerta e trêmula.
–Vai logo. – murmurou, de cara enfezada.
Ela piscou, como se acordasse de um transe. Vendo a expressão com a qual o loiro a encarava, ela revirou os olhos, e saiu dali a passos apressados.
Ino observava a rosada saindo da casa com uma expressão preocupada, quando sentiu Gaara cutuca-la.
–Ei. – chamou – Por que tá com essa cara?
–Q-que cara? – gaguejou, surpresa.
–Sei lá... essa cara de bruxa desolada.
–Quêêêê?! Seu infeliz! – falou, esbofeteando o ruivo. Gaara se encolheu no sofá, protegendo o rosto com os braços.
Naruto suspirou pesadamente. Ia começar tudo de novo.
–Sasuke! – gritou.
Sakura fechou a porta da entrada atrás de si, e andou na direção do moreno, que já estava na calçada.
O Uchiha interrompeu seus passos, e voltou-se para ela.
A expressão fria com a qual ele a encarou fez Sakura dar um passo involuntário para trás.
–Eu... – ela falou, sem saber exatamente o que dizer. Fazia muito tempo desde que o vira pela última vez. As visitas de Sasuke eram cada vez mais raras desde que ele se filiara a Akatsuki. – Quando você vem nos visitar novamente? – perguntou, por fim.
Ele havia chegado na noite anterior, reunindo-se com Gaara e Naruto para discutir questões sobre as quais nenhum dos garotos queria que ela soubesse.
Sem saber da presença do Uchiha na casa do loiro, ela saiu de seu plantão no hospital e dirigiu-se a casa de Naruto para assegurar-se de que ele estava se alimentando com comida, e não somente com bebidas.
Não tiveram tempo de conversar, e durante todo o tempo em que estiveram juntos na casa de Naruto, Sasuke parecia evita-la. Percebendo isso, ela não tentou se aproximar, mas não resistira ao impulso de falar a sós com ele por um minuto.
–Não sei. – foi tudo o que ele respondeu.
Ela não soube como reagir à frieza daquelas palavras.
–Você não tem plantão no hospital hoje, doutora? – ele perguntou, e seu tom era irônico.
Ela suspirou.
–Tenho... mas...
–Então se apresse. Médicos não podem chegar atrasados em seu turno. – falou, e sua expressão ainda era fria. Virou-se para ir embora, mas sentiu a mão de Sakura apertando-lhe o ombro.
–Não me toque, Sakura. – disse, sua voz pesada de autoridade.
Ela retirou a mão do ombro dele rapidamente, arrependendo-se instantaneamente. Talvez ainda fosse cedo demais.
Sasuke deu as costas para Sakura, saindo dali. Antes de ir, pôde ouvir o sussurro embargado da rosada:
–Volte logo para nós... – pediu.
Ele apenas seguiu seu caminho, sem sequer olhar para trás.
Gaara e Naruto estavam sentados displicentemente em um dos últimos bancos da igreja, enquanto aguardavam que o padre Shikamaru terminasse seu sermão. Ouviram durante duas horas aquele cara divagando sobre o inferno e a danação eterna, enquanto suspiravam de desgosto.
Se todos ali soubessem o quanto Shikamaru era pecador, com certeza ele seria linchado.
Naruto observava as pessoas que assistiam àquele sermão de cara amarrada. Não temia o inferno, nem a danação eterna. Ele já conhecera sofrimento o suficiente para deixar de acreditar naquele tipo de coisa.
Naruto sabia que o inferno é aqui.
Quando enfim a missa terminou, os dois aguardaram até que todas as pessoas tivessem pedido suas bênçãos ao Padre Nara. Vendo o amigo se afastar do altar e entrar em uma sala no fundo da igreja, os dois também se dirigiram para lá.
Entraram na sacristia sem sequer pensarem em bater na porta antes. Shikamaru se trocava, tirando a roupa branca cheia de panos que usara durante a missa. Por baixo, usava uma camisa verde e uma calça jeans. Em seu pescoço, pendia um colar discreto, cujo pingente minúsculo caracterizava-se pela figura de um sol e uma Lua, fundindo-se em um só. O símbolo da neutralidade.
–Até quando vai continuar se fazendo de padre por aqui? – perguntou Gaara.
Shikamaru sorriu para ele.
–Até obter as informações de que preciso. – falou, virando uma garrafa de vinho na boca.
–Fala sério, isso devia ser proibido. – debochou o ruivo, rindo. – Onde já se viu um padre que bebe desse jeito? Como é que você está conseguindo enganar a toda essa gente?
–Como é, seu infiel? – brincou. – Ah, são boas pessoas. Ficarei apenas tempo o suficiente para tentarmos decifrar o padrão de todos aqueles incidentes. Asuma quer que eu resolva isso o mais rápido possível.
–Cara, por que você não faz as suas investigações do jeito tradicional? Igual a todo pau mandado da ORDEM?
–Porque o jeito tradicional é problemático. E eu tenho preguiça. – disse ele, como se aquela fosse a resposta mais óbvia do mundo.
–Para um Mago das Sombras, você está sendo muito bonzinho. – provocou Naruto.
–Se continuar me enchendo, não conto o que descobri sobre a garota que o Jiraya está te obrigando a procurar. – ameaçou.
–Quê?! Descobriu alguma coisa?
–Claro que descobri, quem você pensa que eu sou?
–O padre Nara? – debochou.
Shikamaru estreitou os olhos para Naruto, mas logo riu com eles. Os três se sentaram, e ele estendeu a garrafa de vinho aos dois amigos.
–Não tem nada mais forte pra beber, não? – perguntou o loiro.
–Claro que não, respeite a Igreja! – disse Gaara, soltando uma risada alta que ecoou por toda a sacristia.
–Quem disse? – perguntou Shikamaru, tirando uma garrafa de vodka de baixo da mesa onde estavam as hóstias, e estendendo-a ao amigo.
Naruto estreitou os olhos.
–Você vai para o inferno. – avisou, sorrindo.
–Ah, qual é. Nós sabemos bem que já estamos nele.
Os três assentiram, e viraram uma dose que desceu rasgando a garganta.
–E então? O que descobriu? – perguntou Naruto, sem conseguir esconder sua ansiedade.
Mais um dia.
Hinata abriu os olhos para aquela realidade morta, sem entusiasmo, sem raiva, sem alegria.
Sem vida.
Mais uma tortura.
Encarou o teto por um instante, pensando na noite perturbadora que tivera. Havia sonhado com alguém a persegui-la insistentemente, mas não em uma rua deserta, como normalmente aconteceria. Sonhara que alguém a perseguia dentro de sua própria mente, o que lhe deu a sensação de estar encurralada; infelizmente, e Hinata sabia disso, dentro de sua consciência não haviam escapatórias.
Levantou-se devagar, calçando os chinelos, e vagando pela casa vazia. Seus olhos perolados mantinha uma expressão apática, enquanto tomava seu café da manhã. Não havia ninguém para lhe desejar bom-dia, nem para lhe beijar o rosto quando saísse de casa. Não havia ninguém em sua vida.
Com a mesma expressão, ela tomou banho, e trocou de roupa. Já não tinha grandes expectativas quanto ao seu dia – nem quanto à sua vida, diga-se de passagem.
As únicas pessoas em sua vida eram Tenten, sua amiga do colégio com quem dividia as poucas emoções que ainda conseguia demonstrar, e um primo distante que lhe mandava dinheiro do Japão para que pudesse sobreviver sozinha no Brasil.
Hinata mudara-se para o Brasil no início da adolescência, e não se lembrava exatamente de quantos anos tinha naquela época. Depois de ter passado quatro anos no sanatório, tudo parecia confuso em sua mente. Ainda não gostava de lembrar-se da época em que viveu em Tóquio. Não gostava de lembrar-se das coisas que via e ouvia naquela época, nem de seu pai abandonando a casa onde moravam sua mãe e ela. Não gostava de se lembrar de sua mãe casando-se novamente com aquele homem horrendo que fez de sua vida o maior dos infernos, tirando dela toda gota de alegria e esperança que pudesse ter. Não gostava de se lembrar de nada daquilo...
Mas aquelas memórias estavam gravadas em sua mente sem que ela pudesse fazer nada a respeito.
Na infância, a mãe de Hinata percebeu que a filha tinha certas atitudes estranhas. Via coisas nas pessoas que ninguém era capaz de ver: doenças, maldade, bondade, desejos, traumas. As vezes, falava sozinha, como se estivesse com alguém. Algo normal para uma criança que sempre brincava sozinha, porém, as vezes, a garota desmaiava e falava de seres fantasiosos que a acompanhavam em casa e estavam sempre zelando por seus sonhos...
Quando Hinata passou a ver coisas ruins demais nas pessoas ou nos lugares, começou a ter crises frequentes de pânico. Gritava muito, chorava descontroladamente, tremia de medo, e não dormia a noite. As vezes, aconteciam alguns fenômenos estranhos.
Então, a mãe achou que o melhor seria interna-la. E assim o fez.
Hinata achava que o melhor seria tê-la matado.
No período em que esteve presa no sanatório, vivia sob o efeito de variados remédios, e passava por várias sessões de choque para conter suas crises. Obviamente aquilo não resolvia o seu problema; ela ainda conseguia ver e ouvir tudo. Mas passou a ignorar aquela realidade distorcida.
Fez de conta que não via nada. Que não sabia de nada.
Até que, quatro anos depois, os psiquiatras convenceram sua família de que ela estava curada.
E todos acreditaram.
Aos poucos, Hinata suprimia suas visões estranhas, suprimia seu desejo de ver e ouvir além do que as outras pessoas podiam. E agora, com dezessete anos, sem mãe, sem pai, em um país estrangeiro, ela não via, nem ouvia nada.
Ainda era sensível o suficiente para sentir certas coisas, mas ignorava qualquer pressentimento que tivesse. Aos poucos, toda aquela realidade mirabolante foi desaparecendo de sua vida, restando apenas a dura realidade na qual agora se encontrava.
Sua mãe estava morta, seu padrasto também. E não sabia por onde andaria seu pai.
Sua mãe havia escolhido o nome Hinata para ela, pois imaginava que o significado daquela palavra iria preencher os dias da garota.
“Lugar ensolarado”, era esse o significado que seu nome carregava... mas, apesar de estar morando em um país conhecido por seu clima tropical, fazia muito tempo que não via a luz do sol em sua vida.
Tenten era seu único rastro de felicidade, e sabia que era uma péssima amiga para ela. Hinata não conseguia sentir as emoções fluírem com facilidade. Não consegui reagir mais à vida.
Tudo se resumia à um grande espaço em branco, e ela não tinha expectativas de preencher aquele vazio.
Com o mesmo olhar inexpressivo de quem não tem nada o que esperar da vida, ela colocou sua mochila nas costas, fechou a casa, e partiu para a escola.
Sem presente. Sem futuro. Carregando nos ombros um passado que queria a todo custo esquecer.
Mas não conseguia.
Naquela noite, Naruto chegou muito tarde em casa. Tirou os sapatos, deixando-os jogados no meio da sala, e dirigiu-se à pequena adega que mantinha ali.
Pegou uma garrafa e despejou o conteúdo em um copo de vidro. O líquido marrom espalhou um cheiro forte por toda a casa. Fitou o vazio por alguns instantes, lembrando-se daquela manhã, quando a sala a sua frente era preenchida pelos gritos e risadas de seus amigos. Deu um gole da bebida, e voltou a encher o copo.
Seu mestre estava em uma viagem, e a data de seu retorno era indeterminada.
Mesmo estando distante, ele ligava quase todos os dias para saber se Naruto havia conseguido algum avanço na missão que lhe dera. E, claro, para saber se ele estava se cuidando.
Jiraya era o único pai que havia conhecido. O único que o acolheu, que o aceitou. O único capaz de salvá-lo do monstro que Naruto se tornara.
Por causa dele, havia conhecido tantas outras pessoas que se tornaram seus amigos, seus mais fiéis companheiros. Depois da vida solitária e sofrida que teve, poder contar com eles era algo realmente reconfortador.
Perdido naqueles pensamentos, ele caminhou até o sofá, espalhando-se confortavelmente ali. Mas o que diabos Jiraya queria com aquela garota? Naruto ainda não era nenhum bom samaritano, mesmo depois de anos de treinamentos e ensinamentos com seu mestre. Não concebia a possibilidade de “resgatar” alguém de uma vida difícil apenas por bondade. Além do mais, aquele velhodesgraçado não havia lhe dado nada mais que um nome como pista.
Hyuuga Hinata. Ele conhecera membros daquele clã. Sabia das habilidades que um Hyuuga tinha. Mas não se interessava por aquilo.
Na maioria das vezes, Jiraya terminava por lhe designar missões que Naruto julgava serem absurdas, na esperança de que um dia o loiro fosse capaz de compreender o sentido de tudo, até mesmo de sua vida. A revolta ainda era o sentimento determinante no coração de Naruto, e seu mestre tinha plena consciência disso.
Pensou um pouco nas informações que Shikamaru lhe fornecera.
“-Foi um saco ficar amolando as bruxas do Norte, você sabe como aquelas malucas são problemáticas. — Shikamaru reclamava. O Nara realmente não se dava bem com feiticeiras. — Mas acabei conseguindo informações sobre essa garota que o Jiraya quer que você encontre. Elas me mandaram isso por e-mail. – disse, estendendo alguns papéis para Naruto.
O loiro encarou as folhas em suas mãos, lendo a primeira linha do documento.
Ergueu o rosto para Shikamaru.
–“Sanatório Konohagakure”? – questionou.
–Sim. Jiraya estava certo. Ela é uma de nós. Leia a segunda folha.
Naruto virou a página, lendo em voz alta o conteúdo do relatório em suas mãos.
–“A paciente alega poder ver e sentir as angústias e medos das outras pessoas, além de enxergar seres fantásticos, como animais gigantescos, alguns deles acompanhando seres igualmente fantasiosos.”– ergueu o rosto novamente, sem se importar em ler o resto. –O que isso significa, afinal?
–Significa que ela deve ter passado por algum tipo de tratamento de choque nesse lugar, e provavelmente nunca aprendeu a manipular suas habilidades. Imagino que tipo de pessoa ela deve ser hoje em dia, depois de ter passado por uma experiência dessas. – falou Shikamaru, tomando mais um gole de sua bebida. Fitando a garrafa de vodka vazia a sua frente, ele ponderava sobre por quanto tempo conseguiria enganar aquelas pessoas, se fazendo de padre.
–Não tem endereço, nem foto, nem nada que me ajude a encontrar essa maldita garota? Se o Ero-sennin voltar e eu ainda não tiver localizado essa menina, ele vai arrancar o meu couro.
–Sinto muito. Isso foi tudo o que consegui . – respondeu o Nara.”
As lembranças se calaram em sua mente. Que tipo de pessoa ela deveria ser?
Antes que pudesse prosseguir em seus questionamentos, sentiu seu celular vibrar no bolso da calça.
Número Restrito.
–Fala Sasuke. – falou, revirando os olhos azuis. Sempre que recebia uma ligação de número restrito, sabia que era o Uchiha fazendo contato.
–Tá legal, idiota. Me ame. Eu consegui o endereço da garota.
–Ahn?
–Da garota que o Jiraya tá te enchendo pra você achar! Acorda, Naruto!
–Não acredito nisso. Como foi que você conseguiu esse endereço, desgraçado?
–Obviamente, sendo mais competente do que você.
O loiro bufou.
Anotou rapidamente o endereço que Sasuke lhe passava, a letra garranchada pela pressa.
–Valeu, Uchiha! Salvou minha vida!
–De novo. Salvei sua vida de novo, Uzumaki.
–É, tá, não precisa ficar passando na cara. – falou, emburrado. Ouvindo nada além de silêncio do outro lado da linha, ele resolveu arriscar – Ei... quando é que você vai esquecer esse negócio de Akatsuki e vingança e vai voltar pra cá, hein?
Naruto ouviu Sasuke suspirar do outro lado da linha.
–Tchau, Naruto. – despediu-se, e sem esperar por retorno, desligou.
–Mas, Sas... – tentou, mas se interrompeu ao ouvir o som da ligação sendo finalizada.
Encarou o celular com uma expressão enfezada.
–Cara... Você é ainda mais complicado do que eu! – reclamou.
Fitou o endereço em suas mãos por um instante. Pelo menos agora tinha por onde começar a procurar.
Ele respirou fundo, encarando o vazio de sua casa novamente.
Sentia-se exatamente igual àquele lugar: vazio. Um vazio gritante, sufocante...
Impaciente, ele levantou-se dali, e voltou a calçar os sapatos. Mesmo sendo tarde, abriu a porta da frente, saindo da casa, enquanto passava os nomes na sua lista de contatos – que eram de mulheres em sua maioria.
Sem conseguir se decidir, clicou em um nome qualquer.
–Alô, Shion? Estou passando aí na sua casa agora... – falou, sua voz sumindo na medida em que distanciava-se de casa e seguia até seu carro.
Nada melhor para ocupar a noite vazia do que se perder em corpos de mero prazer.
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