Notas iniciais
Yo, minna! Tudo bem com vocês? Não preciso nem dizer que estou amando os comentários de vocês, né? A cada dia me surpreendo mais pelo carinho que vocês dedicam ao que escrevo. Afinal, são as palavras de vocês que me motivam e inspiram a escrever! Então não deixem de comentar, dar as suas opiniões e principalmente de recomendar a leitura da fic aos amigos! A autora-san agradece. Espero que gostem! Boa leitura, e nos vemos nas notas finais!

Memórias de um passado distante

Naquele beco escuro, a lama que se estendia por boa parte do chão refletia a Lua cheia que brilhava no céu. Alguns ratos se esgueiravam pelo local, em busca de qualquer migalha de comida. Um cheiro forte e desagradável afastava qualquer um que ousasse passar por aquele caminho. Exceto pelo jovem que sentava perto da lama, observando a luz da lua refletida ali. Uma aura maligna pairava em torno do garoto, que fitava aquela água fétida enquanto encostava-se na parede. Seu rosto expressava revolta, ódio e abandono.

Não tinha mais nada que pudesse usar, e aquilo o deixava mais irritado que o habitual. Manter o vício era algo difícil sendo alguém sem nada nem ninguém que o ajudasse a encontrar dinheiro. Por isso já havia feito de tudo para conseguir o que desejava. Mas sempre precisava de mais.

Mas algo atrapalhou aqueles pensamentos. O garoto ouviu passos vindo em sua direção, mas não se virou para ver quem era. Algum desavisado incapaz de perceber que teria sua vida dilacerada se chegasse mais perto? Não... era impossível deixar de perceber aquela energia pesada que o jovem emanava.

Alguém parou a sua frente. Mas o jovem continuava encostado na parede, sentado no chão, seu rosto de lado encarando o reflexo da lua cheia.

–Finalmente encontrei você. – fala o homem que havia parado à sua frente. O garoto então se vira devagar para identificar o dono daquela voz. Mas não o reconhece de nenhum lugar, de nenhuma memória.

O homem encara aquele garoto com uma expressão tranquila. Mas fitando aqueles olhos vidrados, ele percebe toda a revolta, a maldade, o ódio, a mágoa. Percebe o vazio, a solidão, e sente uma profunda pena. Pena porque aquele cenário sempre se repetia, como uma maldição. Tanta revolta em um rosto tão jovem...

–Saia daqui. – o garoto falou, baixo. Parecia mais um aviso. Mas o homem não ligou.

–Vim buscar você, garoto. – ele fala. – Estou à sua procura há muito tempo. – explica, sorrindo um pouco.

–Está falando com o cara errado. Ninguém procuraria por alguém como eu. – diz, e sua voz ainda soava baixa, mas ameaçadora.

–Era você quem eu procurava. – insiste o homem – Eu sei o que você é.

O garoto então passa a encará-lo com curiosidade.

–Se sabe o que eu sou, esse é mais um motivo para você ir embora. Não consegue sentir? Se não fugir agora, vou acabar matando você. – diz o garoto. A maneira como ele explicava aquilo deu ao homem a sensação de que matar era algo comum para o menino.

–Eu já fui como você. Eu quero e posso te ajudar, se você deixar.

O menino ergueu uma sobrancelha.

–Já foi como eu? Ninguém já foi ou é como eu, cara. – falou. E o homem percebeu que agora a voz sem vida do garoto estava carregada de sarcasmo.

–Está enganado. Nós somos iguais. Por isso eu sou capaz de entender todo esse ódio que sinto emanando de você. Sou capaz de entender o seu sofrimento, a sua angústia. Sou capaz de compreender tudo o que você passou.

–Não, você não sabe. Eu sou... um monstro. Não sou humano.

O homem sorriu mais abertamente. Abriu o casaco e desabotoou a camisa, exibindo o peito ao garoto. Alí havia um coração artificial, à mostra, agarrando-se precariamente ao corpo por meio de veias roxeadas.

–Também não tenho mais certeza se ainda sou humano. Sempre fui tratado como um monstro, e levando em consideração tudo o que fiz no passado, talvez eu mereça isso. Mas tudo pode mudar. Eu posso ajudar. – repetiu o homem.

O garoto agora encarava o homem com uma expressão confusa. Algo estava se agitando dentro de si de forma estranha e incômoda.

–Posso ajudar você a controlar o Bijuu que mora dentro de você. Posso ensinar você a respeitá-lo e usá-lo. Não o rejeite nem o odeie. Ele é o seu poder, a sua força. E foi por isso que você sobreviveu até agora.

–Eu não sobrevivi, cara. – respondeu o menino, exibindo ao homem um sorriso vazio – Eu já morri.

Mas o homem ainda sorria.

–É porque te falta amor. Você precisa conhecer esse sentimento, e renascer para a vida que te espera.

–Amor?

–Sim. Amor é o que estou fazendo agora. Foi por amor que eu vim até aqui para te resgatar. Foi por amor à vida, por amor à minha missão. Você também precisa encontrar algo ou alguém a quem possa amar. Somente o amor pode dar sentido à uma vida. Sem amor, realmente, você será alguém morto.

O menino não compreendia bem o sentido daquelas palavras. Mas o que o homem dizia tocava fundo em seu coração dormente pelo ódio há muitos anos. O homem então voltou a falar:

–Qual é o seu nome, garoto? – perguntou.

–Gaara. – o menino respondeu.

O homem estendeu a mão para Gaara, sorrindo paternalmente para ele.

–Muito prazer, Gaara. Meu nome é Sasori. E eu sou seu mestre a partir de agora. Está na hora de alguém te ensinar a viver.

O menino de cabelos vermelhos sentiu, pela primeira vez em sua vida, um sol brilhando timidamente em seu peito, aquecendo o inverno pelo qual havia passado durante todos aqueles anos. Não sabia explicar direito, mas sentia como se as palavras daquele homem calassem as suas dores.

Resolveu então se dar uma chance.

Pegou na mão daquele homem de cabelo rosa e deixou que ele o conduzisse rumo à uma nova vida, e transformasse aquele garotinho revoltado em um novo homem.

Desde aquele dia, Gaara jurou lealdade ao homem que o salvara de si mesmo, e nunca mais se soltou das mãos dele.

***



O ruivo fitava o olhar preocupado da loira ao seu lado. Ela encarava atentamente a tela que informava os voos que aterrissavam naquele momento, procurando aquele que ansiosamente aguardava.

Aquela situação deixava Gaara um pouco irritado. Não conseguia ignorar a empolgação de Ino para receber o amigo que chegava de viagem. E aquilo despertava no ruivo um ciúme que ele tentava a todo custo manter encoberto por suas implicâncias, mas nem sempre aquilo funcionava.

Alí, enquanto preocupava-se pela falta de notícias de seu mestre, o passado pintou-se em sua mente como uma lembrança desagradável. Mas depois de conhecer Sasori, tudo em sua vida mudou. Ele havia se transformado em alguém melhor graças a ele, havia deixado aquela vida de vícios e promiscuidade, havia deixado de machucar as pessoas apenas por prazer. Mas esse processo de mudança não aconteceu de um dia para o outro.

Novamente, o passado pintava em sua cabeça a imagem do primeiro dia em que vira Ino. Os dois tinham uma história juntos, e Gaara jurou para Ino que nunca mais se aproximaria dela como homem, pois não queria magoá-la de novo. Ino era uma pessoa boa, e ele jamais se esqueceria da dor que a causou no passado.

O pior castigo que ela lhe dera, depois do que Gaara havia feito, foi mostrar que era realmente alguém melhor que ele, e continuou sendo sua amiga. Continuou sorrindo para ele, tentando a todo custo entender que a atitude de Gaara naquela época se devia ao fato de que o ruivo não tinha sentimentos. Apenas depois do ocorrido, seu mestre o obrigou a se abrir para a vida.

Antes que a história daquele passado passasse novamente em sua cabeça, ele viu Ino se levantar. Os olhos verdes de Gaara se estreitaram enquanto ele fitava o rapaz que se aproximava de onde eles estavam.

–SAI! – gritou Ino, pulando em cima do rapaz.

Sai retribuiu o abraço de forma discreta. Mesmo depois de tantos anos de convivência com Ino, ele ainda não estava habituado a demonstrações de afeto. Mesmo assim, ele se esforçava.

Beijou o rosto de Ino.

–Como eu senti sua falta, loira baranga. – sussurrou no ouvido dela, e Ino deu-lhe um beliscão, fazendo-o se encolher um pouco.

–Eu também estava morrendo de saudades, seu sonso! – falou, exibindo um grande sorriso.

Gaara respirou fundo. O sorriso de Ino era tão caloroso que o desnorteava.

Mas ele prometera a ela.

Pigarreou um pouco, antes de se levantar também e enfim falar.

–Oi, Sai.

O recém-chegado acenou com a cabeça. Ino se virou, o braço enlaçando a cintura de Sai, e ele mantinha seu braço em volta dos ombros dela.

–Você tem noticias do Sasori lá na ORDEM? – perguntou Gaara.

A expressão de Sai agora demonstrava surpresa pela pergunta.

–Não. Ele não estava lá, pelo menos eu não o vi.

–Que história é essa? Onde o Sasori se enfiou? – o ruivo questionou. Aquilo estava começando a lhe dar nos nervos.

–Sai, vai pegar o restante das suas malas. – pediu Ino.

–Tem gente pra trazer as malas, Ino...

–Vai pegar a droga dessas malas! – falou, arregalando os olhos azuis para ele.

Sai não era muito bom para entender indiretas. Mas vendo a expressão preocupada de Ino, ele saiu dali, fingindo entender do que se tratava aquela situação.

–Aahhh... ér... onde será que estão minhas malas? Que incompetência. Vou atrás delas. Com licença. – falou, tentando avisar a Ino que havia entendido que ela queria falar a sós com Gaara.

O ruivo revirou os olhos para aquela encenação ridícula de Sai.

Mas logo seu olhar se voltou para o chão. O que estava acontecendo, afinal? Por que Sasori não dava noticias? Era como se ele tivesse sumido do mapa...

Mas antes de concluir aqueles pensamentos, ele sentiu a mão de Ino levantando seu rosto, afim de olhar para ele.

–Não fique assim. Tenho certeza de que ele está bem.

O passado novamente veio à mente de Gaara. O dia em que ele a viu chorar por sua causa, o dia em que ele se permitiu sentir. O dia em que seu mestre lhe punira pelo que havia feito. O dia em que ele aprendeu que não poderia machucar as pessoas pelo simples prazer e cobiça.

Mas o toque de Ino era macio e quente.

–Gaara? – chamou ela. – Sasori é forte. Você não tem com o que se preocupar. Não fique assim tão sério, está bem? – pediu.

Ele respirou fundo novamente. Segurou a mão de Ino, tirando-a de seu rosto.

Ele prometera ficar longe dela. Iria manter aquela promessa.

–Estou indo embora. Fique de olho naquele sonso. Eu não confio nele. – falou, estreitando os olhos.

Ino sorriu.

–Pare de ser tão implicante, seu cabeça de tomate. Sai é meu amigo, e eu confio nele.

–É porque você não tem miolos nessa sua cabeça loira. – falou, olhando para o alto.

Ela sorriu um pouco mais.

–Eu vou arrancar esses seus cabelos vermelhos um por um com uma pinça se você disser mais alguma piadinha sobre a cor do meu cabelo.

Ele deu um passo para trás, arrepiando-se com a ameaça. Ela riu daquela atitude.

Gaara então deu as costas à loira, caminhando na direção da saída do aeroporto. Vê-la sorrir nunca era fácil para ele.

Afinal, foi aquele sorriso que o levou aos abismos de si mesmo, e o fez renascer como alguém capaz de compreender o que é o amor.



–Bem-vinda ao novo lar. – falou Naruto, abrindo a porta de sua casa.

Hinata estanca ali, sem saber exatamente o que fazer. Apenas fita a porta aberta, o torpor tomando conta de seu inconsciente novamente. As emoções que vivera já eram passado para ela. Deixou-se voltar ao normal, e logo aquilo passou a ser apenas mais um fardo que teria de carregar, mais uma lembrança ruim para persegui-la a noite.

Logo aquilo seria apenas um novo trauma. E ela já estava acostumada a conviver com isso.

–Você não vai ficar aí na porta, não é? – falou Naruto, a voz tomada pelo desgosto e impaciência. O jeito daquela garota lhe dava nos nervos.

Percebendo que Hinata não iria responder, ele passou por ela, entrando na casa primeiro. A garota o seguiu, em silêncio, e o viu passar direto para uma grande estante de bebidas que havia ali. Continuava sem dizer uma única palavra, e esperava que ele explicasse alguma coisa, que lhe desse qualquer informação mais plausível. Viu o loiro virar duas doses de rum sem sequer piscar.

–Você quer? – perguntou ele, olhando para ela sem muito entusiasmo.

–Na-não. – ela respondeu.

Naruto revirou os olhos. Aquela menina era realmente uma chatice.

–Então você ainda sabe falar. Eu já estava começando a achar que tinha perdido a língua no meio do caminho para cá.

–O que vai fazer comigo? – ela perguntou.

Naruto suspirou. Encheu novamente seu copo com uma nova dose de rum e caminhou na direção da garota, que permanecia na sala. Ele se sentou no sofá, o copo em sua mão ainda cheio.

–Sente aí. Preciso explicar algumas coisas.

Ela permaneceu de pé, olhando para ele.

–Não foi uma sugestão. Mandei você se sentar. – ele falou, sério.

Hinata deixou-se escorregar para o sofá, a autoridade na voz de Naruto fazendo sua garganta se fechar.

–Ótimo. – falou ele, vendo-a se sentar. – Meu mestre me pediu que procurasse por você, pois sabia que você era uma de nós. Assim como um dia ele procurou por mim, para... me... resgatar, digamos assim.

–Seu... mestre? – Hinata perguntou.

–Sim. Você não achou mesmo que eu estivesse feito um maluco atrás de você apenas por diversão, não é? Se você ao menos fosse mais legal, mas não aguenta nem uma dosezinha de rum... – resmungou, num cômico desgosto.

Ela continuava a encará-lo, sem sorrir nem mesmo um pouco.

Naruto suspirou novamente. Além de tudo, ela também não tinha senso de humor. Ótimo.

–Meu mestre me pediu que te procurasse, porque você também precisava ser resgatada. Ele pode te ajudar.

–Ajudar em quê? – ela perguntou, e sua voz era carregada de sarcasmo. –A me manter presa aqui como uma refém? A me sequestrar, machucando a única pessoa existente em minha vida?

–Ainda está remoendo isso? Já disse que aquela garota está bem! Eu não bati com tanta força.

Mas Hinata apenas o encarava, a raiva brotando novamente naqueles olhos vazios.

–Escute. –ele continuou. – Nós sabemos de tudo. Sabemos pelo que você passou na infância, presa naquele sanatório. Nós sabemos que você nunca foi normal, que via e ouvia coisas. Nós sabemos, garota Hyuuga. E só queremos ajudar.

–Eu... não sei... do que você está falando. – falou ela, querendo sufocar o pavor que a invadia pelas lembranças que Naruto colocava diante dela.

–Hinata. – ele falou, olhando fixamente para ela – Nós sabemos. – repetiu. – Meu mestre quer ajudar você a controlar seu poder.

–Po...poder?

–Sim. Você tem um dom. Se não aprender a dominá-lo, irá ser consumida por ele.

Ela arregalava seus olhos perolados cada vez mais, o choque pelas informações que o loiro lhe dava fazendo inúmeras perguntas ecoarem em sua mente. Por que aquele estranho sabia tanto sobre sua vida? Por que queria ajuda-la? Por que queria resgata-la daquela vida?

Hinata achava que sua vida era boa. Sim, ela já estava habituada àquele torpor, e achava que mudar era desnecessário. Aprendera a conviver com a dor, e aos poucos fez dela sua única companheira. O rancor que a sufocava pintava o único cenário que ela conhecia naquela realidade dura, e não conseguia imaginar-se vivendo de outra forma. Sentir e viver eram coisas perigosas. Doíam. Faziam sangrar.

–Não... não quero... – sussurrou.

–O quê?- perguntou ele.

–Não quero sua ajuda, nem de ninguém. Quero... voltar para a minha vida. Não quero saber de dons, nem de poderes. Não quero saber de nada disso. Depois de tudo o que já passei por causa disso, ainda não basta? – perguntou, sentindo o desespero tomar conta de si.

–Você precisa aceitar as coisas do jeito que elas são, garota. Você é assim. Você tem esse poder dentro de você, estagnado, preso. Estou dizendo que se você não deixa-lo fluir, ele vai acabar matando você em algum momento. Vai torrar o seu cérebro, vai destruir o seu coração. – dizia Naruto, a voz baixa, suas palavras soando como uma ameaça real.

Ela ainda tinha os olhos arregalados pelo medo, sem conseguir dizer mais nenhuma palavra.

Naruto bebeu sua dose de rum, e levantou-se.

–Vou levar você até seu quarto. Você precisa ficar aqui até meu mestre voltar. Aí ele decide o que fazer com você.

–O que... ele vai fazer comigo?

–Matar, tocar fogo, dar de comida aos tubarões, não me interessa. Qualquer que seja a ordem que ele me dê, eu irei cumpri-la. E minha parte já está feita. – falou, caminhando para um corredor.

Hinata ficou parada por algum tempo, mas logo começou a andar atrás dele. A casa era de porte médio, aconchegante e muito bem decorada, num estilo meio rústico. Tinha um cheiro bom que ela não conseguia identificar.

Ele parou em frente à uma das portas do corredor.

–Este é seu quarto. – falou, indicando a porta, e dando espaço para que ela entrasse.

Ela obedeceu; já havia percebido que Naruto não era do tipo paciente.

Mas antes de entrar, virou-se para ele. O azul daqueles olhos parecia devorá-la; Não sabia se aquilo fazia parte do poder dele, mas sabia que não adiantava negar que ela também tinha certas esquisitices sobrenaturais.

–Você disse que eu... sou uma de vocês.

Ele assentiu.

–Então... você também...

–Sim. Sou um Junchuuriki.

–Um o quê?

–Jinchuuriki. – repetiu ele. – Tenho um Bijuu selado dentro de mim. Uma besta, para ser mais exato.

Ela ponderou sobre aquelas palavras.

–Eu também...?

–Não. Seu poder é outro. Mas nós vamos descobrir isso com o tempo. Meu mestre vai...

–Se você sabe desse poder, deve saber também o quanto eu sofri. O quanto isso me fez mal. Deve saber um pouco do peso que eu tive que carregar por toda a minha vida.

–Eu sei. – falou ele. Afinal, ele também havia carregado aquele peso.

–Então, apenas me deixe ir embora. Me deixe seguir com minha vida vazia, me deixe apenas definhar...por favor, eu imploro, me deixe ir!

–Não posso. – ele falou, a expressão séria. Os olhos perolados de Hinata suplicavam por socorro, como se a alma da garota estivesse em chamas. Ela devia ter visto o inferno de perto para ter aquela expressão nos olhos. E disso, ele entendia.

–Me deixe ir! – ela voltou a pedir, e agora quase gritava. – Não pense que você entende da minha dor! Não sei quem esse seu mestre é, mas ele deve ser outro maluco como você.

–Não fale assim de meu mestre. – sibilou Naruto.

–Me deixe ir! Me deixe ir embora! – ela agora gritava, batendo os punhos fechados no peito do loiro. Ele segurou os pulsos da garota e a empurrou com força de encontro à porta.

Uma aura maligna agora fazia o ar do local pesar ao redor de Hinata, fazendo-a respirar com dificuldade. Novamente o horror a invadiu como agulhas espetando cada parte de seu corpo. Sentia que seu cérebro se partiria ao meio.

Mas o verdadeiro pavor veio ao encarar os olhos de Naruto. O azul havia desaparecido; Agora, um negror apavorante cobria o olhar do loiro, e sua voz soou dual, arrastada, como um rosnado.

–Entre em seu quarto agora, Hinata.

Ela ficou paralisada, achando que fosse morrer. Ele apertou mais um pouco os pulsos da Hyuuga, e ela sentia os dedos do loiro transformarem-se em garras.

Numa reação involuntária, Hinata sentiu seus olhos doerem. Algo dentro dela reagia contra a aura maligna que Naruto emanava. Sentiu as veias próximas aos seus olhos pulsarem, como se quisessem rasgar seu rosto, como se desejassem lembra-la de que aquele poder de que o loiro tanto falava era uma maldição, um sinal de toda a mágoa que ela guardava dentro de si.

E por um instante, ela pôde enxergar dentro do coração de Naruto: um lugar sombrio, solitário, carregado de culpa, ressentimentos, desespero, desejo de fuga. Ela tirou as mãos dele, e fechou os olhos, encolhendo-se junto à porta.

Naruto deu um passo para trás, percebendo que o dom da Hyuuga manifestara-se de forma involuntária pela pressão à qual ele a submetera desde que a encontrara.

As veias ressaltadas dos olhos da garota desapareciam lentamente. Ele sabia exatamente o que ela havia visto, e se sentia ofendido, invadido. Como se tudo de ruim dentro dele estivesse exposto.

Imaginava que o coração dela também não deveria ser um lugar muito agradável de se visitar.

Hinata tremia, os olhos ainda fechados. Naruto aproximou o corpo do dela, apoiando as mãos na porta do quarto, encurralando a garota.

Naruto sabia que Hinata devia ter visto algo dentro dele que ela não merecia ver. Ninguém merecia compartilhar daquele inferno, e o loiro aguentava aqueles sentimentos sozinhos há tantos anos que até acostumara-se com eles. Assim como ela havia se acostumado com a ausência de vida.

–O que... o que foi isso...? – ela sussurrou, sem conseguir abrir os olhos.

Por um momento, Naruto deixou-se distrair pela proximidade da Hyuuga. As formas perfeitas da moça não haviam lhe passado despercebidas na primeira vez em que a viu, e estar tão próximo a ela despertou pensamentos de cobiça em sua mente.

Ele sorriu com desdém, e aproximou seus lábios da orelha de Hinata.

–Entre! – ordenou, a mesma voz animalesca sufocando-a de desespero. Ele então se afastou dela, deixando-a livre para fugir.

–Vo... Você é um monstro! – gritou, antes de entrar no quarto e fechar a porta com força.

Ele encarou a porta a sua frente por um minuto, antes de escorar-se de costas nela, deixando-se escorregar até o chão. Seus olhos novamente assumiram o azul característico, e fitavam o vazio daquele corredor, o vazio deixado pelas palavras que acabara de ouvir.

–Sim... somos todos monstros, garota Hyuuga... – sussurrou ele.



A noite caía. Naruto estava na varanda de sua casa, a expressão séria, os pensamentos distantes. Lembrou-se de que tinha que comprar comida, e de que precisava ir atrás do Gaara. Lembrou-se que se Sakura o visse bebendo daquela maneira, provavelmente lhe quebraria os dentes. Lembrou-se de Hinata e do que ela dissera antes de trancar-se no quarto, e aquela memória o fez passar a mão no rosto, incomodado.

Ela não havia saído do quarto até então, e imaginou que ela ainda deveria estar assustada com o que vira. Mas ele não conseguia se importar com aquilo. Simplesmente achava que não era da sua conta se ela estava com medo ou não; sua missão era trazê-la para casa e esperar que Jiraya resolvesse o que fazer com ela. O resto não o interessava.

Outro pensamento invadiu sua mente: a proximidade de seu corpo junto ao dela, na porta do quarto. Ela era uma garota muito bonita, e aquilo o fez sorrir. Será que se ele resolvesse se divertir com ela, seu mestre iria ficar muito bravo?

Aquele pensamento foi interrompido pelo celular que vibrava em seu bolso.

–Ero-sennin! – falou, exibindo um sorriso franco.

–Yo, Naruto! Conseguiu cumprir a missão?

–Com quem você pensa que está falando? Claro que consegui.

Naruto ouviu Jiraya dar uma risada alta.

–Que bom! Então você vai ficar encarregado de despertar o dom dela enquanto eu não chegar, está bem?

–O QUÊ?! A MISSÃO NÃO ERA ESSA, SEU VELHO DESGRAÇADO!

–Ah, não era? Bom, mas agora é. Não fique tão estressado. Onde ela está agora?

–Trancada no quarto. Essa garota é muito irritante.

Ele ouviu Jiraya rir novamente.

–Ei, nada de se divertir com ela enquanto eu estiver fora, hein? Seu pervertido!

–Eu não... eu não ia fazer isso! – respondeu Naruto, rindo também.

–Claro que ia. Afinal, você é meu discípulo. Seu pervertido.

–Velhote de uma figa...

–Eu ainda preciso resolver algumas coisas por aqui. As coisas estão complicadas.

–Algo muito grave?

–Nada com o que você precise se preocupar. Se concentre em despertar o dom da garota enquanto eu não chego. E não seja bruto com ela, ouviu? Ela é uma Hyuuga!

–Que é que tem aquela menina ser uma Hyuuga? Os Hyuugas que se fodam!

–Se você não cuidar dela direito, vou acabar com a sua raça quando eu chegar, ouviu?

–Tá, que seja! Mas quando é que você volta?

–Eu preciso ir, Naruto! Acho que está começando a nevar, e você sabe que eu odeio a neve... as mulheres andam com roupas demais em dias frios, não dá nem pra fazer “pesquisa”...

–Velho, você não vai me largar aqui com essa pirralha, vai? – falou, percebendo as intenções de Jiraya.

–Naruto, eu preciso desligar! Uma moça linda passou aqui agora, e tenho certeza de que ela tava olhando pra mim!

–Seu desgraçado pervertido! Elas nunca estão olhando pra você, seu ridículo! Não mude de assunto! Você não pode me deixar aqui com essa...

–Cuide bem da menina Hyuuga! Tchau! – despediu-se, antes de desligar o telefone.



O mestre sorriu um pouco. Naruto ainda não conseguia enxergar que Hinata não era a missão dele, era a missão de Jiraya. O loiro ainda não compreendia que ela era a chave para mudar a sua vida e entender o passado sombrio que o atormentava.

Mas Jiraya tinha certeza de que tudo daria certo no final. Naruto tinha o dom de agarrar-se à vida apesar de todas as dificuldades, e poderia ensinar isso à Hinata também.

Afinal, os dois eram o destino um do outro.



–Eu vou matar esse desgraçado... – praguejava Naruto, olhando para o celular, tentando ligar para seu mestre novamente. Mas antes que pudesse fazer isso, o aparelho vibrou.

Ele não conhecia aquele número.

–Alô?

–Onde ela está?

–Ah, é você? – surpreendeu-se Naruto. – E aí? – cumprimentou, sua voz cheia de deboche.

–Você sabe que se fizer alguma idiotice com ela, eu vou aí pessoalmente para te matar, não sabe?

–Não seja tão nervosinha. Ela está trancada no quarto, não quis sair. Eu tinha me esquecido de como os Hyuugas podem ser irritantes.

–Seu filhote de raposa do inferno, se você não trata-la direito eu...

–Você vai me matar, eu já entendi. Mas porque é que você estava com ela? Por que não avisou à ORDEM? Teria me poupado muito trabalho.

–Minha tarefa era protegê-la. Eu não devo satisfações à ORDEM.

–Sei... e como tá a cabeça?

Naruto ouviu a garota sibilar algo que não compreendeu, mas parecia ser um xingamento.

–Ah, qual é. Eu nem bati com tanta força assim, Tenten.

–Não se preocupe, vai ter revanche.

–Ui, que medo. – debochou.

Ele ouviu a garota suspirar pesadamente, tentando não perder a paciência.

–Cuide dela direito. Ela é sua missão. E... ela precisa de ajuda.

–Eu sei. – ele falou, sério.

–Minha parte aqui já está feita. Estou voltando para o Japão amanhã.

–Ainda não entendi porque você não contou para a gente que estava com essa garota.

Ela pensou um pouco antes de responder.

–Porque a Hinata é uma garota de alma e coração quebrados, Naruto. Ela não merece sofrer mais apenas por ser como nós.

Foi a vez de Naruto suspirar, sem querer responder àquelas palavras.

–Cuide dela. – Tenten pediu, mais uma vez. – Ela é sua responsabilidade agora.

–Vou tentar. Mas ela é chata!

Ele ouviu a garota rindo antes de desligar. Não sabia exatamente por onde começar. Mas teve uma idéia.

Procurou um número na sua lista de contatos e discou.

Após quatro chamadas, alguém atendeu.

–Já quer me pedir favor, não é? – perguntou a garota.

Naruto riu.

–Você me conhece tão bem, Ino. – falou, debochado. – Preciso da sua ajuda. Pode vir aqui amanhã?



Notas finais
Oi! Gostaram? Espero que sim! Acho que nesse capítulo deu pra entender um pouco mais sobre a relação entre Mestre e Discípulo. E também um pouco mais sobre o passado do Gaara. O que vcs acham que aconteceu com o Sasori? E da Tenten? O que vc acharam? Tava todo mundo tão alarmado achando que ela tinha morrido. Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk O que acharam da relação NaruHina? Contem-me tudo! Mais uma vez agradeço a todos que favoritaram, comentaram, enfim... vocês são minha principal motivação, então não deixem de me dizer o que acharam, tá? Se quiserem, deem uma olhada na minha outra fic: http://fanfiction.com.br/historia/500126/Lacos/ Seria ótimo ter a opinião de vocês por lá também. Prometo que o próximo sai logo, loguinho, então aguardem! Bjks!