Paraíso
1 Prólogo
Mel estava ansiosa. Ir até Cinnamon já era angustiante, quanto mais esperar o grande Pai naquela sala branca e vazia. E se ele não escutasse o que ela tem para dizer? Ah, aquele homem era repugnante, e aquilo teria que acabar, pelo menos para ela e para sua filha. Ela daria um fim naquela loucura.
Ouviam-se passos se aproximando, o coração acelerando. Estava chegando a hora da decisão.
O Pai entrou na sala acompanhado de quatro guardas, superior e velho como só o próprio conseguia ser. Estava na casa dos 50, mas aparentava ter uns 80. Vestia roupas elegantes de marcas que Mel não conhecia, e que lhe custariam os olhos da cara. O Pai sempre gostou de cinza, ela estranhou ele estar vestindo vermelho naquele dia.
Pai sentou-se à sua frente.
- Olá, Mel. A que devo o prazer?
Aquela era a parte difícil. Não deveria fazer rodeios.
- Quero que me dê minha filha.
O curioso Pai ergueu as sobrancelhas. Provavelmente pensando: ela ficou louca.
- Por favor, me dê ela. Deixe-me leva-la, é só o que peço.
- Você pede muito. Você pede o impossível.
- Não é impossível. Se você quiser você pode me cedê-la.
- Mas eu não quero, Mel.
- Não faça isso!
- Já fiz.
Ele levantou-se como um aviso de que o assunto havia acabado. Estava se dirigindo para a porta, quando Mel decide tomar uma atitude desesperada, e que poderia – poderia não, lhe custaria de certeza – a sua vida.
- Você me dará ela, Philip. Se você não me der minha filha eu vou acabar com você!
Ela disse o nome dele! Disse o nome dele na presença de quatro guardas! Ninguém sabe o nome de um Pai, nem suas próprias esposas... Porém Mel sabia. Sabia porque, por infelicidade, ela havia sido o primeiro amor dele.
- Cretina! Desgraçada! Você vai pagar por isso!
O Pai estava nervoso. Seus guardas se olhavam nervosos também. O que aconteceria com eles agora que sabem o nome do Pai? Era um futuro incerto e escuro para aqueles homens.
Mas para Mel, o futuro era bem certo e claro, porém apavorante.
- Me dê minha filha, Philip.
- Pare de dizer esse nome!
- Eu direi a todo mundo o que eu sei! Direi a todos o que você me disse!
- Cale a boca!
Num ataque de fúria, o Pai foi até ela e a esbofeteou. Mel caiu no chão atordoada. Seu lábio se cortou e sua boca sangrava.
- Você não vai contar nada a ninguém. Sabe porquê? Porque você nunca mais sairá daqui.
Mel levantou-se e ficou de pé. O encarou com toda fúria que conseguiu reunir.
- Acha que sou idiota? Eu não estou sozinha nisso. Se algo me acontecer, grande Pai, todos irão saber. Compartilhei o segredo com diversas pessoas, escrevi um relatório e o coloquei na nuvem em cinco servidores diferentes. Você está acabado.
Os guardas estavam inquietos e intrigados pelo fato de haver um segredo. O que seria? Era algo que ameaçava as suas vidas? O Pai notou isso.
- Saiam da sala. Se eu precisar de vocês eu chamo.
Os quatro homens saíram relutantes.
- Então, Mel... O que me garante que terei o segredo protegido se eu lhe devolver nossa filha?
- Minha palavra.
- Sua palavra vale tanto?
- Você sabe que eu nunca fui altruísta. Podem continuar com essa coisa doentia, eu não me importo. Só quero minha filha e eu longe disso.
- Sabe, Mel... Nossa filha é extraordinária. Apenas com 15 anos e já é um destaque. É o mais perto do que chegamos de um resultado animador. Anne é o futuro.
- Em outro ponto de vista, isso é regredir. Não quero minha filha no meio disso.
- Não me importa os outros pontos de vista. Anne é valiosa e a quero aqui, e o segredo é perigoso demais para se tornar público. Você acha que sou tão fácil de me deixar levar, Mel.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que não acreditei em merda nenhuma do que você disse. Você não deixou o segredo na responsabilidade de alguém de fora. Nem você é tão estúpida.
- Seria melhor não arriscar, não?
- Arriscar seria perigoso se eu não tivesse certeza do que sei. Você é previsível, Mel. Sinto em lhe dizer que Anne não sairá daqui.
Mel estava tão furiosa que não conseguia esconder. Estava frustrada, mas ainda não perdeu as esperanças. Tiraria sua filha daquele lugar com certeza.
- Não desistirei dela. Vou tirar minha filha daqui, escute o que eu digo, Pai.
O Pai deu uma risadinha. Mel ficou apavorada, pois ela sabia o que vinha depois da assustadora risadinha do Pai. Ela estava ferrada.
- Bom, então você vai ter que ser criativa, minha querida. Porque você não sairá daqui também.
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