Paraíso
3 Capítulo 2: Fuga
Aquela situação era estranha. Mas que diabos Anne faria? Estaria mesmo sua mãe querendo lhe tirar dali ou esse tal de Caleb seria um sequestrador? O que ele quis dizer com “não é humano continuar a viver ali”?
Se sua mãe estivesse mesmo querendo tirá-la dali, então Anne teria que obedecê-la.
– Como posso saber se não está blefando para me sequestrar ou algo do tipo?
O moço chamado Caleb ficou ainda mais inquieto.
– Você é mais inteligente que isso, Anne. Sua mãe me falou de você, como você sempre questionou tudo e todos e sua determinação para qualquer coisa. Você sabe que há algo de errado aqui, neste lugar. Por favor, venha comigo.
Um barulho agudo mecânico discreto veio do interior do prédio futurista, o qual Anne e Caleb estavam bem perto da sua entrada. Anne pôde ver que era o seu Pai. Raramente via o Pai, apesar de o ver com mais frequência do que vê a sua mãe. Ficou um pouco feliz em vê-lo.
Mas Caleb não ficou nada feliz em vê-lo. Na verdade, estava assustado.
– Ah não! Ele está aqui e nada da Mel. Ele a prendeu!
– O que? – Anne ficou perplexa. – Minha mãe o que? Não estou entendendo. O que está acontecendo?!
– Vamos sair daqui.
Caleb já estava pegando no braço de Anne, mas ela o puxou. Não estava entendendo nada. Ela olhou para o Pai lá no hall de entrada e viu que ele estava de costas falando com alguém.
– Me solte, eu tenho que falar com o meu Pai.
– Não posso permitir isso. Garota, você não faz a mínima ideia do que sua mãe teve de sacrificar para tentar tirar você daqui. Agora ela está presa! Por favor, vamos sair daqui da frente!
Mas por que ela não podia falar com o seu Pai? Aquilo era ridículo. Ela olhou novamente para o interior do prédio e viu que seu Pai estava virando-se para o lado no qual os dois estavam. Ela olhou para Caleb, que suplicava com os olhos.
– Por favor!
Olhou novamente para onde estava seu Pai. Dessa vez, seus olhares se cruzaram. O Pai viu Anne e o garoto estranho Caleb. Ele pareceu confuso por um breve momento, mas a confusão em seu rosto foi substituída por surpresa e algo semelhante a...
Raiva!
De repente ele começou a correr em sua direção. Mas que porra estava acontecendo? Ela se viu em um conflito de escolha. O que faria? O que faria? Ah, por que estava questionando isso? Claro que ela escolheria esperar seu Pai! Mas por outro lado...
Aquele Caleb disse coisas que a perturbaram e que talvez fizessem sentido. Ah, que situação!
Anne decidiu fazer a coisa mais estúpida que podia fazer.
Ela foi com Caleb.
Ambos correram do seu Pai. Estavam indo para Norte, desviando de uma série de monumentos, estátuas e pequenos memoriais que se faziam de obstáculos. Anne deu uma breve espiada nas suas costas e viu que o Pai não os acompanhava mais.
Quatro homens, que ela supôs serem guardas, corriam em sua direção.
Tem como isso ficar ainda mais bizarro?
Finalmente chegaram à pequena floresta que antecede a mansão do Norte. Correram em ziguezague na esperança de despistar os guardas, mas eles se faziam presentes.
Uma voz atrás deles ecoou.
– Não atire!
Não atire? Atirar???
Em mim? Mas que porra!
– Eles não vão atirar, não se preocupe. Ah, não desacelere! Já despistamos dois.
Anne estava exausta, mas continuou a correr. Esse era o bom de ser magrela e não-sedentária: ela podia correr mais e mais um pouco. Porém esperava despistar os outros dois guardas antes de se esgotar. Nem queria pensar em como ficaria dolorida e travada no dia seguinte.
– Conseguimos!
Ao som da exclamação de Caleb, Anne desabou no chão cheio de terra e folhas da floresta. Sorte deles já ser tarde, consequentemente escuro.
– Eu nunca corri tanto na minha vida!
– Fale baixo, eles podem estar por perto.
Caleb deitou-se ao seu lado. Anne estava deitada e respirando forte. Não se importou que ele deitasse ao seu lado. Deixou escapar uma risada nervosa.
– É emocionante, não é? A adrenalina e toda essa coisa de se estar em uma situação de perigo.
– E como é – falou ela entre as respirações aceleradas. – Mas me diga... Por que isso... foi necessário?
Caleb sentou-se e passou a mão em seu cabelo escuro e desfiado. Anne viu a preocupação em seu rosto, apesar de sua visão turva.
– Ah, Anne... É tanta coisa que você não sabe. É uma história tão longa. Sua mãe me fez querer fazer parte disso. Ela é tão corajosa.
– Disso o que?
– Como eu disse, é uma longa história. Você saberá de tudo quando saímos daqui.
– E para onde iremos, posso saber?
– Para o lado de fora. O resto do mundo.
Anne ficou muda. O “lado de fora” é o lugar que pessoas sortudas vão para construírem uma família.
– Mas espera... Achei que íamos para Júpiter.
– Por que você achou isso?
– Você não é de Júpiter?
– Hm, não.
– Então você... Ah.
Então ela se deu conta: Caleb era do lado de fora, provavelmente filho de uma mulher de Vila Orquídea e de um homem de Júpiter. Pessoas do lado de fora não podiam entrar nessa parte do mundo onde se concentra Cinnamon, Júpiter e Vila Orquídea. Curioso. Como ele conseguiu entrar sem ser barrado pelas fortalezas deste lugar? Com toda certeza isso faria parte da explicação do “tudo isso”.
– Minha mãe está mesmo presa?
– Provavelmente sim, mas faremos de tudo para libertá-la.
– Quem a prendeu?
Caleb ficou sombrio.
– O seu Pai.
Por que era tão fácil acreditar naquilo? Apesar de ter o seu poderoso Pai como uma pessoa do bem, Anne conseguiu facilmente transformar o seu conceito sobre ele. Desde que se entende por gente, Anne escutou a mãe falar sobre o seu Pai com frieza e mecanicamente nas visitas. Agora ela via que havia algo errado ali. Por que ela não falou dele com amor? Ela não o amava?
De repente se deu conta de algo. Como pôde ser tão estúpida? Ela sempre condenou o estilo de vida que as mulheres como sua mãe levavam, servindo como meio de parir crianças para serem descartadas depois. Por que com sua mãe seria diferente? Ela estava sofrendo. Agora algumas coisas estavam ficando claras.
Toda essa proteção contra o mundo exterior, todas essas regras rigorosas que as ensinavam a temer e amar seus Pais e a ver suas mães três miseráveis vezes por semana...
Uma vez, talvez uns dois anos atrás, Anne achou um livro bem velho na livraria da cidade, escondido entre vários outros livros que ninguém lia. Anne adorava explorar, e por acaso achou essa obra. O nome era E O Vento Levou. Falava de uma garota chama Scarlett O’Hara que tinha seu estilo de vida extinto por causa de uma guerra civil. Anne demorou semanas para terminar de ler, e sempre procurava ler escondida das velhas. Aquele tipo de literatura antiga não era permitido. Anne gostava de pensar que havia acontecido um milagre, pois só assim para encontra-lo. Ela o guardava até os dias atuais, escondido na gaveta de suas roupas íntimas
A história de Scarlett a emocionou e a inspirou de uma maneira absurda. Era tão feminista! Scarlett se tornou sua heroína a partir de então. Ela sempre procurava ser forte e inteligente como ela.
Mas uma coisa que chamou muito a atenção de Anne foi o universo. As meninas estudavam na mansão com as velhas, e nas matérias não incluía história. Teria o mundo sido assim um dia? Teria existido uma America? Teria acontecido uma guerra igual a guerra do livro que findara no mundo que conhecia agora?
Aquilo era tão emocionante. Se não fosse pelo fato de sua mãe ter sido raptada, ela estaria mais excitada.
– Eu vou com você, Caleb. Mas com uma condição.
Ele revirou os olhos.
– Qual?
– Minhas três irmãs vão junto. E um livro.
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Quando regressaram e chegaram na entrada da floresta, avistaram carros e mais carros e luzes de lanterna por toda a cidade. E havia algo ainda menos usual ali.
Homens. Por todo lugar.
– O que está acontecendo? – Perguntou Anne a Caleb. Eles estavam atrás de uma grande árvore tentando se proteger da luz.
– Os guardas estão procurando você. Provavelmente alguns estão sendo enviados para a floresta também. Talvez seja melhor irmos e deixarmos suas irmãs. Nós voltaremos para buscar elas depois.
– Mas é claro que não. Talvez se eu aparecesse eles paravam de procurar e eu podia chamar as meninas.
– Isto está fora de cogitação. Provavelmente se a vissem iriam prendê-la até concluírem um interrogatório interminável.
– Então o que vamos fazer?
Uma resposta divina apareceu. Sofia apareceu a uns 30 metros dali. Ela estava chorosa e passava a mão no rosto como se estivesse enxugando lágrimas.
Ah, pobre Sofia! Estava procurando Anne.
Ela mostrou Sofia a Caleb, que acenou.
– Você tem uma lanterna? – Perguntou ela.
– Tenho, mas também tenho um lazer.
– Ótimo. Me empresta.
Caleb passou um aparelhinho de metal do tamanho do polegar de Anne para ela. Anne apertou no botão e a luz do lazer apareceu no chão a sua frente. Era verde. Ela arrastou a luz até Sofia, mirando nos olhos.
A garota, atordoada, piscou e olhou na direção da floresta. Ela viu Anne!
– Ah, Anne! Graças a Deus! – Gritou ela.
Anne rapidamente fez sinal para que ela não gritasse e fosse para onde eles estavam. Ela viu Caleb e ficou confusa, mas obedeceu. Foi correndo até eles.
– Ah, Anne! Que susto você deu na gente! O que você está fazendo aí? Vamos voltar! Quem é esse?
– Fale baixo, Sofia! É o seguinte, eu não posso voltar. Esse pessoal que está me procurando não quer só me achar. Eles vão me prender.
– Oh!
– Eu preciso que você vá até as meninas e diga que estou bem, e que venham me encontrar na...
– Onde?
– Onde os homens já procuraram por mim? Um lugar isolado e escondido.
– Hm... O arboreto do Leste.
– Leve as meninas até o arboreto, estarei esperando lá. E, ah, pegue meu livro que está na gaveta das minhas calcinhas.
– Deixa comigo.
Sofia saiu correndo para o Sul enquanto Anne e Caleb corriam para o Leste. Chegaram ao arboreto e sentaram num banquinho de pedra que tinha lá, entre todas aquelas arvores coloridas. Anne adorava o arboreto do Leste. Era tão colorido e bonito.
– Caleb.
– Oi, o que foi?
– Eu estou com medo. E se você não for a pessoa que diz ser e eu estiver levando a mim e a minhas irmãs para a morte ou algo do tipo?
Ele sorriu gentilmente para ela.
– Eu nunca faria isso. Eu prometo que eu vou levar vocês para um lugar decente, onde não há regras cruéis e testes desumanos. Vocês irão gostar desse lugar, garanto.
– Também temo pela minha mãe.
– Nós vamos tirá-la daqui também. Já fizemos isso antes.
Anne pôs as mãos na cabeça. Era difícil processar tanta coisa quando não se é acostumada com tanta ação.
– Eu vivi mais nessas últimas horas do que nos últimos 15 anos.
– E com certeza viverá muito mais no lado de fora para compensar esses 15 anos.
– Espero que não seja sendo perseguida como agora a pouco.
Ele riu. Ele tinha uma risada engraçada e meio contagiante. Anne riu também.
Os dois esperaram por uns quinze minutos em silêncio total. Anne simplesmente não sabia o que falar com ele, então permaneceu quieta.
O silêncio foi quebrado quando as meninas chegaram sussurrando. Anne e Caleb ficaram de pé.
Sofia e Rute apareceram à sua frente. Ao virem Caleb, ficaram mudas.
Mas espera... Onde estava Jane?
– Onde está Jane? – Perguntou Anne com urgência.
– Não a encontramos – disse Sofia, com certa relutância.
– Como assim não a encontraram? Jane precisa estar aqui!
– Mas não a encontramos, tá bom? – Repondeu Rute. – Ela evaporou igual a você. Aqueles homens bonitões estão procurando por ela também. Olha aqui seu livro. Mas fala aí, por que você está escondida?
Antes que Anne pudesse responder, Caleb deu um passo à frente, com a mão no queixo.
– Quando foi que a viram pela última vez?
– Alguns minutos depois da Anne desaparecer. Num momento ela está com a gente e no outro não. – Respondeu Rute.
– Ah não.
– O que você quer dizer com “Ah não”? – Questionou Anne.
– Hm, ela era sua amiga, não era?
– Ela É minha amiga. Ela não morreu.
O rosto de Caleb ficou sombrio novamente. Anne ficou preocupada.
– O que foi?
– É só uma hipótese. Ele realmente pensa muito rápido.
– Que hipótese? Ele quem?!
Caleb olhou para as meninas assustadas. E depois para Anne.
– Eu acho que sua amiga foi sequestrada porque você está comigo. Se um pai é capaz de fazer isso com a própria filha, ele é capaz de tudo. Vamos sair daqui agora.
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