Pandora
20 Capítulo XX – Esquece Por Alguns Minutos
Notas iniciais
Capítulo XX – Esquece Por Alguns Minutos
Uma semana se passou desde aquele dia. E o Baile de Halloween estava chegando. Era segunda quando as decorações de Halloween começaram a surgir pelos corredores. E no dia seguinte, anunciaram o dia em que seria a festa. No final daquela semana. Na sexta. Questionei Will sobre os professores na festa, e ele falou que não são todos que se candidatam a tomar conta dos alunos, mas que ele se candidatava porque o pessoal do clube do coral sempre cantavam as músicas do Baile.
Depois da conversa que tive com Santana, passei a pensar mais sobre o que faria até que Rachel terminasse o colégio. Iria demorar. Ela apenas estava no terceiro ano, e nós estávamos na metade do ano. Eu só conseguiria ficar inteiramente com Rachel se ela não fosse minha aluna. E a culpa na minha cabeça só desapareceria nesse momento.
Enquanto eu ainda pensava sobre isso, os corredores do McKinley estavam com um burburinho familiar. Algo que acontecia quando estava próximo de alguma festa grande no colégio. Aquele burburinho nervoso e ansioso. Todos esperavam convidar seus amados para o baile, alguns seriam rejeitados, outros conseguiriam o que tanto almejavam.
Era clássico.
Mas também tinha aquele burburinho ansioso por ser Halloween. Os alunos preparavam suas fantasias, outros formavam grupos para fazer tal fantasia.
Era contagiante.
Até mesmo eu comecei a pensar no que iria fazer.
— O que vai usar no Halloween? — Escutei Rachel me perguntar e ergui os olhos pra ela. Ela tinha os braços cruzados na minha mesa e o queixo apoiado neles. Fazia um tempo que eu tinha percebido seus olhos em mim, mas era tão reconfortante que eu não parei de ler meu livro para retribuir seu olhar.
Era hora do almoço, e como sempre, Rachel estava comigo na minha sala. Já tínhamos almoçado e agora estávamos naquele silêncio confortável. Até que Rachel me fez essa pergunta.
— Ainda não sei. — Dei de ombros e lancei um olhar pra ela por cima do livro. — O que você vai usar?
Joguei a pergunta de volta e ela se inclinou pra trás, esticando-se na cadeira antes de suspirar com um sorriso.
— Kurt disse que tem algo perfeito pra mim. — E ela também dá de ombros. Sorrio suavemente e volto meus olhos para o livro. — Vai trazer a sua amiga? Santana? É.
Novamente olhei pra ela.
— Quer que eu traga Santana pra uma festa no colégio? — Zombei e Rachel soltou uma risada. — Não sei ainda, tenho que perguntar pra ela.
— Tudo bem. — E Rachel volta para a posição anterior, faço o mesmo que ela, e volto os olhos para meu livro. Mas não durou muito. — Promete que vai me dizer o que vai usar?
Soltei uma risada baixa e ergui os olhos do livro mais uma vez.
— Porque? Não posso fazer surpresa?
— Porque... — E ela não terminou a frase. Sorri divertida e finalmente abaixei o livro, marcando-o com um marcador e o coloque na mesa.
— Porque?
E ela corou suavemente, me fazendo sorrir mais ainda.
— Porque. — Ela concluiu levantando as sobrancelhas, como se tivesse me desafiando a falar mais alguma coisa. Lambi os lábios e me inclinei na mesa.
— Na hora certa, você vai saber. — E recostei na cadeira, abrindo meu livro e sorrindo por trás dele quando escutei o bufo de Rachel.
Mas ela não disse mais nada, apenas se manteve em silêncio, mesmo assim, consegui sentir seus olhos em mim, e quando eu deixava um olhar escapar por cima do livro, no cantinho dos seus lábios algo se inclinava, como se ela sorrisse sempre que meus olhos se encontravam com o seu. Mas ainda era rápido demais pra que eu notasse isso.
Naquele mesmo dia, voltei pra casa com um sorriso no rosto, e a mente descansada. Como se tudo que eu precisava, era um tempo de qualidade com Rachel pra poder me sentir melhor. Mas o sorriso logo desapareceu quando vi Santana deitada no sofá da minha casa comendo o sorvete vegan que eu fiz pra Rachel tomar na sexta quando ela viesse.
— Isso não é pra você. — Foi a primeira coisa que eu disse depois de fechar a porta e colocar meus materiais na mesa de jantar.
— Isso não era pra mim. — Santana repete, enfatizando o verbo no passado. Abaixei a cabeça respirando fundo. — E isso, que não era pra mim, nem era tão bom assim. Que porra foi essa que você fez?
Levantei a cabeça e virei pra ela com uma sobrancelha erguida. Santana enfiou uma colher cheia de sorvete na boca e ainda fez uma careta.
— Sorvete vegan.
Santana olhou pra mim como se eu estivesse falando outra língua.
— Quê?
Revirei os olhos e fui até ela, puxando o sorvete da mão dela junto com a colher. Gemi irritada quando vi que, realmente, o 'era' foi mais verídico do que eu gostaria.
— E não era seu. — Me afastei dela, indo na direção da cozinha.
— E pra quem era? E porque você ia dar pra alguém esse sorvete horrível? E o que porra é um sorvete vegan?
Coloquei o depósito na pia e virei pra ver Santana entrando na cozinha com um olhar confuso e indignado.
— Um sorvete sem leite. — E assisti Santana fazer uma careta.
— Um sorvete sem leite? — A indignação dela pareceu aumentar. — Como porra você faz um sorvete sem leite?
— Sabe, frutas, são bem deliciosas. — E apontei para as bananas em cima do balcão. — E são com elas que eu faço isso.
— Banana? Não tinha gosto de banana.
Foi aí que eu recuei.
— Como assim não tinha gosto de banana?
— Na verdade, tinha um gosto muito estranho. — E ela fez uma careta. — Um gosto de gelo.
— Gelo?
— É, acho que sim.
Bufei e levei uma mão até a testa.
— Merda.
— Pra quem era esse sorvete? — E eu apenas lhe lancei um olhar. Santana abriu a boca quando entendeu o que eu estava fazendo. — Ah sim, sua aluna. Sim. Então ela é vegan?
Toda vez que Santana mencionava Rachel usando 'sua aluna' fazia meu estômago se revirar. E não era de um jeito bom. E as vezes eu nem sabia se ela falava isso simplesmente por falar, ou se ela gostava de me provocar.
— Sim, Rachel é vegan. — E me encostei na pia, respirando fundo. — E eu fiz esse sorvete pra ela.
Santana franziu o cenho e olhou para o depósito com o sorvete. Imitei sua expressão fazendo o mesmo.
— 'Tava horrível. Se você queria conquistá-la pela barriga, ao menos fizesse algo que não tivesse gosto de gelo.
Revirei os olhos balançando a cabeça.
— Não sei se fico irritada ou se fico feliz por você ter acabado com o sorvete. — Apontei para o pote e balancei a cabeça mais uma vez. — Pode tomar um resto. Provavelmente vou comprar algo pra quando ela vier.
E Santana deu de ombros antes de ir para o pote de sorvete, enfiando a colher dentro e virando de costas pra mim. Ela estava pronta pra voltar pra sala, antes de virar pra mim com o rosto ainda franzido.
— O que aconteceu? — Ela perguntou e enfiou a colher cheia na boca, estremecendo antes de tirar a colher da boca e colocar de volta no pote.
— Nada. É que... — Balancei a cabeça e cruzei os braços, olhando para o chão pensativamente. — As vezes eu não consigo parar de pensar em como as coisas seriam se eu não tivesse vindo pra Lima.
E levantei os olhos para Santana, seu olhar era confuso, ao mesmo tempo em que era ligeiramente ofendido.
— Você não queria ter vindo comigo?
— Não foi isso que eu quis dizer, Santana. — Me apressei pra falar. — É que... tudo facilitaria pra mim se eu nunca tivesse conhecido Rachel.
E o olhar confuso permaneceu em Santana, mas o ofendido desapareceu.
— Se tem tudo isso na sua mente, porque não termina? — Ela perguntou quase silenciosamente, mas eu queria muito que ela não tivesse feito essa pergunta.
— Porque não tenho forças pra isso. — E desviei o olhar. — O que eu sinto por ela é...
— Algo que você não consegue explicar. — Santana completa e eu a olho por alguns segundos antes de acenar lentamente. Santana tinha esse olhar que fazia com que eu me sentisse segura na presença dela. Eu gostava desse olhar. — Então a melhor opção é esperar pra saber no que vai dar.
Fechei meus olhos com os dela.
— Eu tenho medo desse 'no que vai dar'. — Confessei e Santana sorriu tristemente antes de enfiar mais uma colher de sorvete na boca.
—_
A preparação para o baile de Halloween estava ficando mais intensa a cada dia. Tão intensa que alguns professores liberaram os alunos nas ultimas aulas da sexta-feira pra que ajudassem na decoração do campo de futebol e do ginásio. Os professores acabaram se juntando na sala dos professores para beber café e conversar sobre as fantasias que fariam para mais tarde.
Enquanto faziam isso, me sentei no sofá ao lado de Will e apanhei meu celular, mandando mensagens rápidas pra Santana, perguntando se ela iria comigo para a festa. E depois de insistir bastante, ela concordou comigo. Porém eu teria que ir com ela escolher uma fantasia depois daqui.
— Quando é que podemos ir embora? — Perguntei casualmente para Will que levantou a cabeça com o rosto franzido.
— Achei que já podia. — Ele lança um olhar rápido por cima do ombro para o grupo de professores que estavam, claramente, fofocando sobre a vida dos alunos. — Aonde está a Holly?
Franzi o rosto com ele.
Realmente, Holly não estava na sala. Eu imaginei que ela estava aqui no momento em que entrei, então não pensei em procurá-la ou coisa alguma. Agora que Schuester comentou, olhei ao redor da sala.
— Eu imaginei que ela estivesse aqui. — Comentei e voltei meus olhos para o celular que vibrou na minha coxa. Era Rachel. Tentei não sorrir tanto.
— Ela estava aqui até alguns minutos atrás. — Levanto os olhos a tempo de vê-lo olhando ao redor com o rosto franzido. Então deu de ombros e voltou para os papeis que tinha em mãos.
Dei de ombros com ela e abri a mensagem de Rachel no celular.
“Não vai me falar mesmo? Ainda tenho tempo de achar a fantasia perfeita para irmos combinando! -RB”
Sorri tentando não sorrir muito grande e pigarreei me arrumando no sofá antes de pensar em uma resposta.
“É surpresa.-QF”
E guardei o celular quando escutei Will comentar algo sobre o que os professores fofocavam. Acenei sem realmente escutar e senti o celular vibrar mais uma vez na minha coxa. O apanhei e abri a mensagem.
“Eu deveria ter deixado bem claro quando começamos com nosso relacionamento, que eu não tenho muita afeição por surpresas. Na verdade, evitá-las é uma opção muito válida pra mim. — RB”
Comprimi os lábios e acenei com uma risada abafada.
“É uma pena que vai ter que esperar mesmo assim. Mas não se preocupe, Rach, é uma boa surpresa. ;) -QF”
Logo depois que eu mandei, não precisei esperar muito, a resposta chegou, e não era uma resposta feliz, mas me deixou com um sorriso nos lábios.
“Eu estou aqui ensaiando com Puckerman e queria me concentrar para ajudá-lo com algumas notas, mas o que você está planejando na sua cabeça está me distraindo. Então, por favor, eu preciso saber, ao menos, qual será o tema da sua roupa para pegar algo semelhantes.” — RB”
Rachel nunca iria desistir até que eu deixasse claro o que eu usaria na festa. Mas era algo que nem mesmo eu sabia. Santana iria me ajudar nisso mais tarde e tudo que eu poderia esperar, era que fosse surpreender Rachel.
Então eu teria que arrumar alguma desculpa pra que Rachel se acalmasse e parasse de ficar nervosa por causa da roupa que eu vou usar. Deveria adivinhar que em algum momento ela fosse ficar irritada com a ideia de não ter nada pronto horas antes da festa. Rachel era, claramente, o tipo de pessoa que gostava de ter tudo planejado com antecedência. Obviamente eu estava cutucando no nervo dela.
Sorri com os lábios comprimidos e lancei um olhar para Will que agora mexia no notebook com fones de ouvido, parecia imerso naquilo. Ele provavelmente estava pensando nas músicas que usaria na semana que vem. Outro motivo pra Rachel estar enlouquecendo com a situação de não ter nada planejado.
— Achei que você estaria ajudando o pessoa do clube do coral. — Comentei vendo Will levantar os olhos pra mim. Aparentemente, o fone não estava tão alto assim.
— E eu estava, mas Rachel me expulsou dizendo que não estava ajudando. — Ele deu de ombros e voltou para o notebook.
Soltei uma risada baixa e voltei minha atenção para o celular. Mais uma mensagem de Rachel surgiu na tela.
Aparentemente eu demorei demais pra responder a ultima mensagem.
“Tudo bem, vou tentar não insistir mais no assunto, mas não ache que minha cabeça não está explodindo por causa disso. Achei que com menos de 4 meses de namoro, nós já nos conheceríamos o suficiente pra você entender que eu não sou o tipo de pessoa que gosta de não estar preparada com antecedência. — RB”
A mensagem foi bastante longa. Tive que descer a tela algumas vezes para ler tudo, mas algo ficou preso na minha mente. '4 meses de namoro'. Primeiro, quatro meses? Fazem quatro meses desde que Rachel e eu começamos com isso? Eu cheguei no McKinley em Agosto, e já estamos no final de Outubro. Fazem três meses. Eu não consegui durar um mês sem essa situação entre Rachel e eu começar? Bem, não é algo que eu quero pensar.
Mas 'namoro' foi a outra coisa que ficou presa na minha mente. Rachel disse que estávamos namorando. Sim, na semana passada nós deixamos um pouco claro que eu era dela e ela era minha, mas nunca falamos abertamente na palavra 'namoro'.
E essa palavra me deixou nervosa.
— Tudo bem? — Escutei Will me perguntar e levantei olhos pra ele. Meu rosto estava franzido e minha testa doía com a força que eu estava fazendo apenas pra franzir o rosto. Acenei e esfreguei a testa rapidamente antes de acenar mais uma vez.
— Só uma mensagem de Santana sobre a fantasia que vamos usar mais tarde. — Menti e ele acreditou, acenando e voltando-se para o notebook.
Lhe lancei mais um olhar antes de voltar para a mensagem de Rachel.
“Te vejo mais tarde ;) — QF”
Sim, foi isso que enviei. Eu mesma estou decepcionada com isso. Rachel, definitivamente, vai pensar algo com essa resposta. Mas, infelizmente, foi o que eu consegui pensar.
Rachel não me enviou mais mensagens por várias horas. Em algum momento, eu decidi ir embora do McKinley e liguei pra Santana me encontrar no shopping de Lima. O único shopping bom que existia na cidade. E talvez, o único shopping da cidade. Bem, fazia um bom tempo que eu não andava pela cidade inteira, então se fizeram algum outro shopping enquanto eu estava fora com Santana, ainda não sabia.
Entrei no shopping com o rosto franzido para a tela do celular. Santana mandou uma mensagem avisando que eu seguisse no Google Maps, aonde ela estava dentro do shopping. Revirando os olhos com bastante força, fiz o que ela disse, clicando para receber a localização dela.
O shopping inteiro estava decorado para o Halloween. E em alguns estandes pelo meio dos corredores algumas pessoas vendiam ingressos para as festas de Halloween que tinham pela cidade. Apesar da cidade não ser tão grande, as festas eram bem movimentadas. Lembro até de uma vez que o prefeito de Lima enlouqueceu e fez uma festa de Halloween no grande parque da cidade. Foi uma festa simplesmente foda.
Talvez a melhor festa que já teve na cidade inteira.
Mas desde que mudou o prefeito, a cidade voltou a ficar monótona.
Andando pelos corredores do shopping e subindo uma escada, consegui chegar aonde Santana me esperava. Mas apesar que estar parada em frente a uma loja de fantasia, Santana não estava em lugar algum.
Entrei na loja e uma mulher se aproximou de mim, sua camisa de cor laranja enjoado me indicou que era uma vendedora. Antes que ela me perguntasse alguma coisa, perguntei sobre Santana.
— Uma mulher, menor do que eu, morena, cabelo preto, temperamento exagerado, provavelmente deu em cima de você. Passou por aqui? — Perguntei e a mulher arregalou os olhos. Olhei no seu crachá. Nathalie. — Nathalie, né? Então, ela passou por aqui.
Nathalie apenas indicou o caminho pra dentro da loja. Seguindo o caminho que ela indicou vi que era um provador.
— Santana? — Chamei batendo na porta de um provador fechado e a porta se abriu, revelando uma senhora com chifres de diabinho. Engoli em seco para o sorriso que ela me enviou. — Desculpe.
E passei pro próximo provador, mas antes que eu pudesse bater, a porta abriu e Santana saiu dele vestindo uma túnica preta.
— O que você está fazendo? — Perguntei e ela levantou os olhos pra mim como se tivesse me visto pela primeira vez em anos.
— Nada. — E ela tirou a túnica, jogando-a de lado e se enfiando nas prateleiras. — Qual você vai querer?
Dei de ombros, enfiando as mãos na calça jeans e olhando ao redor.
— Qualquer coisa pra mim 'tá bom. Sou professora, vou ficar lá só olhando os alunos e vendo se alguém vai levar bebida escondido.
— Provavelmente esse 'alguém' vai ser eu. — Santana admite e eu viro pra ela com o rosto franzido. Ela segurava a fantasia de diabinho que eu vi a senhora usando. Balancei a cabeça pra tentar esquecer da imagem. — Seria estranho se eu usasse isso?
— Iria caber perfeitamente em você. — Comentei e Santana me atirou um dedo do meio.
— Estava pensando em ir de mulher gato. — E ela continuou andando pelas alas da loja. — Mas acho que vou matar alguns alunos seus se fizer isso.
— Provavelmente está certa.
— Acho que a melhor opção seria ir de freira. — E ela pegou a fantasia, sua expressão era pensativa. Temi pelo mundo.
— Acho melhor não. — E tirei da mão dela a fantasia, colocando-a de volta no lugar e guiando ela pra ala de séries. — Vamos arrumar uma série.
— Game Of Thrones? Ah, seria bem foda. Eu iria de Cersei.
— Acho que vou de Supergirl. — E apanhei a fantasia. A mulher da foto era a atriz da série, e estranhamente, me parecia uma aluna do segundo ano. Franzi o rosto e coloquei de volta no lugar. — Deixa pra lá.
— Não! Eu vou de Morgana. — E Santana apanhou a fantasia, me mostrando Katie McGrath na capa. — Seria sexy.
— Ainda acho que a do diabinho lhe caberia melhor. — Debochei e o dedo voltou a se erguer pra mim.
— Escolhe logo a sua que eu vou escolher outra. Jessica Jones. É. Tá perfeito. — E ela apanhou a fantasia e foi pro caixa.
Cruzei meus braços olhando para as fantasias na minha frente. Poderia escolher qualquer uma, mas peguei de Canário Negro e fiquei admirando. Eu poderia vestir essa calça de couro com esse corpete e essa jaqueta. Mas não sei bem se deveria. Afinal, eu sou a professora. Era muito sexy para uma professora.
— Ainda tá nisso? — Santana surgiu ao meu lado com uma sacola. — Comprei da Jessica Jones.
— E eu estou com inveja. — Comentei suspirando e colocando de volta a fantasia da Canário Negro na prateleira. — Queria algo mais simples.
— Vai de Sherlock. — E ela pegou a fantasia de Sherlock atrás de mim. Dei de ombros e apanhei das mãos dela e nós seguimos para o caixa.
Depois que pagamos e saímos da loja com nossas sacolas Santana virou pra mim com uma expressão que dizia claramente o que ela queria agora. Comer. Revirei os olhos com força e andei na direção da praça de alimentação do shopping.
—_
Parei meu carro no estacionamento do McKinley e respirei fundo. Santana estava no banco do passageiro e saiu do carro sem pensar duas vezes. Ela estava usando a calça jeans preta, uma camisa roxa e uma jaqueta de couro. Seu cabelo estava desarrumado e sua expressão de tédio deixava bem claro que ela estava de Jessica Jones.
Saí do carro, mas não sem antes de apanhar o sobretudo preto do Sherlock no banco de trás. Santana olhou pra mim e sorriu discretamente.
—O que foi? — Perguntei olhando pra minha camisa de botão listrada.
— Não tem como você ser mais gay do que isso. — E ela continuo andando e gargalhando.
Revirei os olhos virei para me olhar no vidro do carro. Meu cabelo estava completamente desarrumado, minha camisa estava muito arrumada e só faltava o sobretudo. Estranhamente o clima não estava frio, o que era estranho por ser outubro e outono. Provavelmente iria chover mais tarde.
Vesti o sobretudo e o arrumei antes de me dirigir para a entrada do colégio.
Entrando no ginásio, sorri ao ver que tudo ficou como eu imaginava que iria ficar. Sorri mais ainda quando vi alguns alunos olhando pra mim e acenando. Muitos vestidos de personagens de quadrinhos, super-heróis. Outros vestidos de personagens de filme clássicos. E outros com os clássicos – zumbi, vampiro, alguma coisa sangrenta – estava bom demais.
Fui passando pelas barraquinhas de jogos e parei na frente de uma que Holly estava. Holly Holiday estava de enfermeira, não era enfermeira sexy, apenas enfermeira. Ela estava com o rosto franzido enquanto segurava um pé de plástico.
— Ei. — Chamei me encostando no canto da barraca. Holly levantou a cabeça e eu enfiei as mãos nos bolsos da calça.
— Ei. — Holly pareceu ficar nervosa. — O que faz aqui?
Olhei ao redor, vendo os alunos dançando ao som de Bad Romance.
— Sou professora aqui. Lembra? — E sorri pra ela, que riu e balançou a cabeça.
— Sim, lembro. Eu só... — E ela balançou a cabeça mais uma vez antes de erguê-la pra mim. Ela me olhou de cima a baixo. — Qual seria a sua fantasia?
Olhei pra minha roupa e depois pra ela.
— Não é óbvio?
— Não muito.
E ela ainda parecia confusa. Soltei uma risada leve.
— Sherlock Holmes. — Respondi apontando para minha roupa e me curvando em uma reverência.
Holly assentiu com uma risada.
— Agora que você disse eu consigo ver.
Dei de ombros e lancei um olhar por cima do ombro quando senti olhos em mim. Não encontrei ninguém olhando diretamente pra mim, então me voltei pra Holly, que agora arrumava algumas bolinhas na mesa. As bolinhas brancas com listas vermelhas foram colocadas em três pilhas em cima da mesa.
— Então... o que vai ser esse jogo? — Apontei para as bolinhas na mesa e as três pilhas de copos atrás dela. Holly olhou confusa para aonde eu apontava.
— Você nunca foi num carnival? — Ela perguntou, sua voz com um tom levemente divertido.
Comprimi os lábios, balançando a cabeça discretamente em negação.
— Eu sempre estava ocupada lá em Yale pra ir. — E soltei uma risada sem humor.
Holly balançou a cabeça com uma risada humorada.
— Bem, já que você claramente não entende nada sobre carnival. E nem mesmo nunca foi quando teve aqui em Lima na época que você morava aqui. — Ela falou isso rindo e se inclinando na mesa, tomando cuidado pra não derrubar as pilhas de bolas. — Você pega a ficha e atira essas três bolas nas pilhas de garrafas. Se derrubar a pilha você ganha um brinde.
Me estiquei pra ver o que tinha dentro da barraca pra onde ela apontava.
— Parece fácil. Qual é o brinde?
E ela se abaixou pra pegar uma caixa, colocando-a em cima da mesa, uma bolinha caiu e eu apanhei ela no chão, colocando-a em cima da mesa, tentando equilibrá-la no topo, mas não deu muito certo.
— Deixa que eu... — E quando ela foi pegar, derrubou as bolinhas da outra pilha. Ela riu e eu me juntei a ela, me abaixando pra apanhar as bolinhas que caiam do lado de fora da barraca.
No final, nós duas estávamos rindo enquanto tentávamos equilibrar as bolinhas em pirâmides. Eu segurava a base enquanto ela ia tentando equilibrar, mas não conseguia parar de rir e derrubava mais do que equilibrava.
Então ela derrubou a bola pra fora da mesa e eu não consegui pegar porque a bola continuou rolando, até alguém pará-la com o pé.
Pé esse que usava um salto preto com uma calça xadrez. Subi meus olhos encontrando os olhos castanhos de Rachel Berry. Ela vestia uma camisa de botão branca com uma gravata preta e um colete por cima da camisa. E além disso, ela usava um chapéu fedora cinza na cabeça. A camisa branca ia até os pulsos e seu cabelo solto por baixo do chapéu terminava todo o look.
— Puta merda. — Praguejei baixo e me levantei vendo Rachel se abaixar pra pegar a bolinha. Ela apontou a bolinha pra mim e eu acenei tentando impedir do sorriso rasgar meus lábios. Ela estava maravilhosa, e algo me dizia, que ela estava complementando a minha fantasia. Passei uma mão discretamente pelo meu sobretudo e peguei a bolinha da mão dela. Meus dedos passando pelo pulso dela antes de tomar a bolinha.
— Obrigada, senhorita Berry. — E acenei pra ela, colocando a bolinha de volta no lugar, milagrosamente, ela voltou a se equilibrar. Lancei um olhar rápido pra Holly, que olhava pra Rachel chocada.
— De nada, professora. — E ela me lançou mais um olhar antes de se afastar. Antes que ela virasse, vi seus lábios se inclinarem em um sorriso.
Puta que pariu.
— É impressão minha ou ela está de... — Holly não terminou a frase porque Santana se aproximou e:
— Watson, sim. — E antes que Holly comentasse alguma coisa, Santana colocou a ficha em cima de mesa e apanhou uma bolinha, jogando nos copos atrás de Holly, mas errando tragicamente.
Ela praguejou e pegou a outra bolinha. Mas eu não tinha cabeça pra prestar atenção nisso, minha mente gritava “Rachel”. E meu corpo também. Como porra ela conseguiu adivinhar a minha fantasia?
Lançando um olhar pra uma Santana emburrada atrás de mim, percebi que ela fez algo pela Rachel. Cerrei meus olhos pra ela, quando ela colocou outra ficha em cima da mesa e foi mais pro lado, pra próxima pilha de bolinhas. Holly estava abaixada, apanhando as bolinhas do chão.
Voltei a procurar Rachel com os olhos, ela estava do outro lado do ginásio, conversando com Kurt, mas seus olhos estavam em mim. E mesmo com toda a distância, eu conseguia ver seu sorriso direcionado pra mim. E estava ficando tensa por causa disso. Era assustador o poder que ela tinha sobre mim, e como ela conseguia manejá-lo com tanta facilidade.
— Quinn! — Escutei alguém me chamar e virei pra ver Will se aproximando de mim, lançou um olhar rápido pra Santana, que estava saltando porque tinha conseguido derrubar uma torre de copos. Holly suspirava. Provavelmente cansada com a ideia de arrumar tudo de novo.
— Sim? — Chamei a atenção de Will, que voltou-se pra mim com um aceno rápido.
— Sue quer você de olho nas comidas, aparentemente tem aluno querendo brincar com comida, ela já arrastou dois para fora do ginásio e está dando bronca neles lá fora. Então acho melhor ir agora.
Ele falava como se lamentasse por mim. Apenas acenei e fui com ele até a mesa de comidas.
Quem cuidou das comidas, realmente, fez um trabalho genial. Eu não conseguia parar de sorrir enquanto olhava para as comidas temáticas. Tinha uma jarra de algo que parecia sangue, uma bandeja de prata com algo que parecia tripas, uma tigela com vários globos oculares. Me diverti enquanto ia olhando as coisas que tinham na mesa. Ainda apanhei um copo, enchendo-o com o líquido que parecia sangue, tomando um gole surpresa por ser muito bom. Não tinha álcool, mas tinha bastante frutas vermelhas.
— Você estava se divertindo bastante ali. — Escutei ao meu lado e quase me engasguei com o suco. Tossi um pouco e passei o pulso pela boca antes de me virar pra Rachel, que fazia uma careta para o que tinha na mesa. — Nossa, isso está...
— Real demais. Eu sei. — Comentei e tomei mais um gole. Terminei de engolir o suco antes de pensar na primeira coisa que ela disse quando chegou perto de mim. — O que quer dizer com 'divertindo'?
— Eu não sei, apenas... — E ela dá de ombros, mexendo nos olhos da tigela com uma colher e fazendo uma careta. — Podemos conversar a sós?
E ela olhou pra mim. Franzi o rosto e olhei ao redor.
— Agora não dá, tenho que ficar por aqui por um tempo. — E olhei pra ela. — Vai se divertir com seus amigos, ainda quero ter uma dança com você.
E pisquei pra ela, apontando para a mesa que Kurt me encarava curioso. Rachel olhou por cima do ombro e suspirou sorrindo pra mim. Mas ela não pode falar porque alguns alunos se aproximaram da mesa com olhos presos em mim. Lembrei o porque de estar aqui e ergui a cabeça desafiando-os a brincar com a comida.
Eles não fizeram, mas apenas porque tive meus olhos treinados neles. Foram rápidos em pegar um prato e colocar alguns fios de tripa antes de saírem conversando.
Acenando satisfeita, me voltei pra Rachel, que tomava um gole do próprio suco que tinha colocado.
— Você está linda. — Comentei e Rachel olhou pra mim assustada. Sorri discretamente.
— Obrigada. — Percebi que ela corou mesmo pela luz alaranjada do ginásio. Olhei ao redor antes de me aproximar dela.
— Santana te falou da minha roupa, né? Como fez isso?
Rachel me lançou um sorriso cúmplice.
— Eu tenho meus modos. — E piscou pra mim antes de sair andando.
Puta merda, ela estava lindamente sexy com aquela roupa. A calça apertada, xadrez, abraçando cada curva. A camisa branca por dentro da calça e a gravata preta. O cabelo solto e ondulado e o chapéu fedora na cabeça. Eu não sei o que faria se ficasse muito tempo perto dela. Então, certamente, foi uma boa ela ter saído de perto de mim e voltado para seus amigos.
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Alguma música de batida rápida tocava no fundo e algum aluno do Will cantava na palco. Eu já tinha a mente longe de qualquer coisa que estava fazendo. Estava encostada na parede, os olhos fixos na mesa de comida na minha frente, atenta pra qualquer movimento de algum aluno que queira brincar com a comida. Sue passou por mim algumas vezes, acenando satisfeita quando eu falei que ninguém tinha passado mais do que um minuto pegando suas comidas e indo embora.
Apesar da música boa, o tédio era grande. Perdi a vista de Rachel faz alguns minutos e tudo que eu queria fazer era ir embora.
Depois de mais alguns minutos, Santana se aproximou de mim com as bochechas coradas e levemente ofegante. Ela já tinha tirado a jaqueta de couro e arrastou uma cadeira até sentar ao meu lado com um suspiro.
Ela cheirava a sexo.
— Porra, Santana!
Ela olhou pra mim assustada antes de balançar a cabeça com uma risada.
— Sim, é... foi bom, antes que você pergunte. — Fechei os olhos e virei pra parede, apertando a testa nela. Santana soltou mais uma risada e completou com: — Foi bom pra caralho, na verdade.
— Meu Deus... — Gemi e bati a testa na parede antes de virar e lançar um olhar repreendedor pra ela. Que, claramente, não deu a foda pra mim. — Você...
Eu nem tinha o que dizer!
Santana balançou a cabeça e fechou os olhos, encostando a cabeça na parede com uma risada.
— Você está só com inveja que eu posso dormir com sua aluna e você não.
Revirei os olhos. Santana ainda fazia essa clara afirmação. Realmente, eu não sei o que ela quer de mim.
— Só cala a boca. — Pedi respirando fundo.
O silêncio permaneceu por alguns segundos, até que escutei Santana ofegar ao meu lado. Olhei pra ela com confusão e ela estava olhando pra um ponto mais na frente.
— O que foi? — Perguntei já impaciente e ela apontou.
— Aquela garota é a Supergirl? — Ela sussurrou com os olhos arregalados, ainda sem tirar eles da garota mais distante.
Segui seu olhar e me surpreendi quando vi que, sim, realmente, era a Supergirl. Mas então lembrei de uma aluna que parecia exatamente com ela.
— Eu tenho uma aluna no segundo ano que é a cara da atriz que faz ela. — E apontei pra garota vestida de Supergirl conversando com uma outra garota usando uma saia lápis e uma camisa de botão cor vinho por dentro da saia. — Ela é simplesmente idêntica.
— É absurdo. — Santana murmurou ofegando mais uma vez. Então ela ficou confusa. — Impressão minha ou Supergirl está beijando a outra garota?
Franzi o rosto e segui seu olhar mais uma vez. E sim, a garota beijava a morena. Elas riam entre o beijo e continuavam beijando sem parar.
— Eu não tenho ideia da fantasia da outra, mas acho que era pra combinar. — Comentei suspirando.
O que Santana falou depois, eu simplesmente ignorei e apanhei o celular no bolso do sobretudo. Ele estava vibrando desde o momento em Santana sentou na cadeira ao meu lado. Franzi o cenho ao ver que era de Rachel.
“Me encontra na sala da Astronomia? Ou na sua sala? Está com a chave? — RB”
Mexi nos bolsos com um suspiro, senti o olhar de Santana e voltei para o celular.
“Sem chaves. Porque? — QF”
“Quero passar um tempo com você e, claramente, não pode ser no ginásio. — RB”
Sorri discretamente e virei pra Santana, vendo que ela já tinha se distraído com o próprio celular.
“No caminho. ;) — QF”
— Toma conta daqui rápido que eu vou ver algo na minha sala. — Avisei pra Santana, vendo-a me lançar um sorriso malicioso.
— Vai comer tua aluna?
E eu só revirei os olhos e segui o meu caminho pra fora do ginásio. Indo pelos corredores, passei pela minha sala com um suspiro. Me sentiria melhor em passar o tempo com Rachel na minha sala. O tempo que eu passava com ela na minha sala era bom demais, e ir pra outra sala, era quase como uma traição.
Balançando a cabeça com uma risada, continuei meu caminho até a sala de astronomia.
Quando entrei na sala meus olhos foram, imediatamente, pra Rachel, sentada em uma cadeira olhando para os planetas no teto da sala. Suspirei. Ela estava linda. A luz da lua entrando pela janela batendo em seus olhos, o cabelo ondulado caindo em seus ombros, o chapéu levemente torto na cabeça. Ela estava sentada, inclinada pra frente, olhando pra cima com um sorriso suave nos lábios.
Santana estava certa, eu me apaixonei por ela no momento em que bati meus olhos nela.
— Quando você vai entrar? — Escutei e balancei a cabeça, saindo do torpor que era olhar pra ela. Seus olhos me encaravam com um brilho divertido, e ela se levantou. — Sabe, as vezes é estranho quando alguém fica te admirando a distância.
E ela deu alguns passos até mim, mas não chegando muito perto.
— Então é estranho quando estou admirando você? — E entrei na sala, fechando a porta atrás de mim, ainda sem deixar meus olhos saírem dela. — Achei que eu tinha essa permissão.
Rachel soltou uma risada que pareceu ser tímida. Sorri pra ela, dando alguns passos para ficar na sua frente.
— Você tem todas as permissões comigo.
Meu estômago se apertou com o que ela disse. Não de um jeito ruim, mas de um jeito excitante. Rachel gostava de soltar essas frases, e me deixavam louca.
Passei por ela, me encostando numa mesa e cruzando os braços na frente do corpo. Ainda usava o sobretudo, e a sala estava começando a esquentar. Saí da mesa e abri a janela, respirando fundo quando o vento frio do lado de fora invadiu a sala.
— Odeio quando você fica calada depois que falo essas coisas. — Escutei atrás de mim e olhei por cima do ombro, vendo Rachel balançar a cabeça frustrada. — As vezes acho que eu sou a única que estou no relacionamento.
Franzi o cenho e virei pra ela.
— Do que está falando?
E ela suspirou.
— Estou falando que você sempre se afasta depois que eu falo alguma coisa sobre como me sinto em relação a você.
Sua voz era levemente tremida. Rachel realmente estava decepcionada comigo. Ao menos era o que parecia. E o aperto no meio peito, vendo-a balançar a cabeça como se tivesse cansada, era a prova de que ela estava certa.
— Rachel, você tem que entender. — Comecei e andei até ela, segurando suas mãos. Seus dedos passaram pelo meu pulso antes que ela olhasse pra mim. Rachel tinha um brilho nos olhos, como se estivesse prestes a chorar. — Eu entendo porque você gosta de expressar o que sente, entendo, e eu adoro ver você se expressar. Mas você tem que entender que, apesar de sentir o mesmo, estou correndo um grande risco aqui. E um desses riscos, é perder você.
E seus olhos brilham com algo. Reconhecimento. Ela entendeu o que eu quis dizer. Seus pais nunca aceitariam, meus pais muito menos. Ninguém aceitaria nosso relacionamento. Por mais que eu quisesse andar por todo lugar do mundo com sua mão presa na minha, nós não podíamos. No momento em que alguém descobre sobre isso, eu seria demitida, Rachel seria transferida. Por que o universo não quis assim, o universo fez com que nós esperássemos. Dois anos. Só dois anos e Rachel e poderíamos ficar juntas.
— Eu sei. — Rachel fala, balançando a cabeça. Sua mão se solta da minha e vai para meu ombro. — Se você parasse de pensar, apenas por alguns minutos, em toda essa situação, talvez conseguíssemos fazer algo sem que sejamos descobertas.
Franzi o rosto, confusa. Do que ela estava falando? Eu sou uma pessoa tensa desde o momento em que nasci, não é muito possível deixar de pensar no que vai acontecer se eu relaxar por alguns minutos.
Então as mãos de Rachel foram para meus ombros, ela apertou minha nuca e me trouxe para perto dela. Minhas mãos foram para sua cintura e minha testa grudou na sua. Rachel suspirou e foi impossível não relaxar com o barulhinho feliz que ela soltou quando meus braços abraçaram suas costas.
O calor que se espalhou pelo meu peito foi reconfortante. E, de repente, o mundo fora daquela sala não existia.
— Minha Pandora. — Sussurrei sem nem perceber. Só percebi no momento em que ela soltou uma risada linda e baixa.
— Sua?
— Sim, minha. — E suspirei antes de sorrir e puxar ela pra colar no meu corpo. — Dança comigo?
— Sem música?
— Você, de todas as pessoas, deveria saber que não precisa de música pra dançar. — Meu tom divertido a fez rir, que acenou, sua testa descolando da minha. Abri meus olhos e ela sorria pra mim.
— Rachel Berry não dança sem uma música, querida. — E ela piscou pra mim, me fazendo rir.
— Tudo bem, então você canta. — E me inclinei pra beijar seus lábios. Ela segurou minha nuca, meu prendendo no beijo.
— Então eu canto. — Ela murmurou em meus lábios e voltou a grudar nossas testas.
E ela começou a cantarolar Gravity da Sara Bareilles. E nós começamos a balançar suavemente pela sala.
Something always brings me back to you
It never takes too long
No matter what I say or do
I'll still feel you here 'till the moment I'm gone
Ela separou nossas testas e colocou os lábios próximos ao meu ouvido. Subi uma mão para o meio das suas costas, sentindo o tecido da camisa sobre sua pele quente. Ela cantava suavemente contra meu ouvido e todos os pelos da minha nuca e meus braços se arrepiaram. Sua voz maravilhosa tão perto assim era torturante e reconfortante ao mesmo tempo.
You hold me without touch
You keep me without chains
I never wanted anything so much than to drown in your love
And not feel your reign
Senti sua mão direita descendo pelo meu braço e apanhando minha mão na sua cintura. Ela segurou minha mão ao nosso lado, mantendo nossas mãos unidas. Sorri vendo-a grudar nossas testas mais uma vez e comecei a guiá-la suavemente pela sala, ainda escutando sua voz baixa e linda tão próxima dos meus lábios.
Set me free, leave me be
I don't want to fall another moment into your gravity
Here I am, and I stand
So tall, just the way I'm supposed to be
But you're on to me and all over me
Rachel cantarolava suavemente e eu fechei os olhos, sentindo aquele momento. O mundo lá fora não existia. Tudo o que eu sentia era o calor da mão de Rachel na minha e o corpo dela tão perto do meu enquanto balançávamos de um lado pro outro na sala de Astronomia.
Oh, you loved me 'cause I'm fragile
When I thought that I was strong
But you touch me for a little while
And all my fragile strength is gone
Ela soltou uma leve risada quando murmurei algo elogiando sua voz. Um elogio baixo, não tinha intenção de soltá-lo antes que a música acabasse, mas foi impossível quando sua voz foi ganhando uma intensidade, mesmo tão baixa.
Set me free, leave me be
I don't want to fall another moment into your gravity
Here I am, and I stand
So tall, just the way I'm supposed to be
But you're on to me and all over me
I live here on my knees as I try to make you see
That you're everything I think I need here on the ground
But you're neither friend nor foe though I can't seem to let you go
The one thing that I still know is that you're keeping me down
You're keeping me down, eh ooh
You're on to me, on to me, and all over
Ela abriu os olhos, esticando o pescoço pra trás e olhando nos meus olhos. Estavam tão brilhantes e tão intensos. Meu coração bateu mais forte do que antes. Tão forte que engoli em seco, me sentindo perdida. Uma imensa vontade de chorar tomou conta de mim e foi quase impossível de segurar. Enfiei o rosto no pescoço dela, escutando-a terminar a música.
Something always brings me back to you
It never takes too long
O silêncio que tomou conta da sala de Astronomia era palpável. Eu não sentia vontade de falar, mas nós continuávamos balançando enquanto Rachel continuava cantarolando alguma outra música que eu não reconhecia.
Até que meu telefone começou a tocar. Soltamos um suspiro juntas e nos separamos. Rachel tinha esse olhar tranquilo no rosto, eu tinha certeza de que meu olhar era semelhante. Eu não sei quanto tempo que nós ficamos nos olhando, mas o celular tocou mais uma vez e tive que soltá-la com um suspiro.
— É Santana. — Comentei desbloqueando a tela. Senti Rachel me abraçar por trás e colocar o queixo no meu ombro. — Sue está perguntando porque não estou lá. E tá importunando ela. Aparentemente Sue está surpresa por vê-la lá.
E Rachel riu no meu ombro. Senti que ela deu um beijo na minha nuca antes de me virar pra ela.
— Quando vamos ficar assim de novo?
Sorri suavemente antes de dar de ombros.
— Quando você quer?
O sorriso de Rachel cresceu tanto que eu tive que rir de tão fofa que foi a expressão que ela fez.
— Amanhã? Vou dormir na casa do Kurt hoje, ele poderia em deixar na sua casa amanhã?
E eu acenei quando ela saltou e me abraçou beijando meus lábios.
Eu nunca imaginei que tanta felicidade fosse durar tão pouco.
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