Pandora
7 Capítulo VII – Surpresas Nem Sempre são Boas
Notas iniciais
Capítulo VII – Surpresas Nem Sempre são Boas
Faltavam trinta minutos para a hora do almoço. Ou seja, faltavam trinta minutos para a apresentação do clube do coral.
O final de semana se passou tão rápido quanto a semana que veio antes dele. Eu apenas fiquei em casa, trabalhando nas minhas futuras aulas, fazendo ligações para minha mãe, e ignorando ligações do Gregory.
Não me entenda mal, Gregory é um cara legal, por isso que casei com ele, mas ele é irritante.
Minha aula com o quarto ano já estava terminando quando Will bateu na minha porta com um sorriso estranho. Todos estavam fazendo as atividades que eu tinha passado, então apenas andei até a sala e abri a porta, enfiando a cabeça do lado de fora e lançando um olhar questionador para Will.
— Você não pode sair agora?
— Eu estou dando aula, Schuester. — Expliquei o obvio e ele comprimiu os lábios, olhando para os lados nervosamente. — O que foi?
— Tem alguém aqui querendo te ver.
— Quem?
Will passou as mãos pelo colete laranja avermelhado e eu revirei os olhos. Nossa que colete feio. Meu Deus.
— Acho melhor vir comigo. — Ele diz e eu solto um suspiro.
— Eu preciso terminar de dar aula, Will. Faltam só vinte cinco minutos, me deixe terminar que eu vejo quem está querendo me ver.
Will acenou rapidamente e saiu andando, ainda parecendo nervoso.
Balancei a cabeça e fechei a porta, olhando para os alunos que me encaravam estranhamente.
— Terminem a atividade. — Apontei para o caderno e eles abaixaram a cabeça imediatamente, voltando para a atividade.
A meia hora passou mais rápido do que eu gostaria. Will deveria estar fazendo todas as preces possíveis para que tudo passasse rápido. Quem estava querendo me ver? Será que era Santana? É, provavelmente.
Saí da sala já me encaminhando para o pátio quando vi a moto de Santana do lado de fora. Balancei a cabeça e me direcionei até ela, vendo que a latina estava na frente dela, mexendo em alguma coisa no capacete. Ao me aproximar mais um pouco, percebi que Santana fazia uma cara feia para qualquer pessoa que se aproximasse da moto. O que acontecia o tempo todo, ou seja, Santana tinha uma expressão de desagrado claro no rosto.
— Lembra que você já foi um deles? — Zombei quando me aproximei, cruzando os braços com um sorriso maroto.
Santana revirou os olhos.
— Cala a porra da boca porque eu só estou fazendo essa cara por culpa sua.
Ergui as sobrancelhas e soltei uma risada. Santana era impossivel.
— Oras! Mas você está aqui. Isso que importa.
— Ninguém fala 'oras' hoje em dia, Fabray. — Foi o que ela disse antes de passar os olhos ao redor, franzindo o rosto. — Quando é que vai começar isso?
Fiz o mesmo que ela, observando alguns alunos confusos com nós duas alí.
— Estou esperando um aviso do Schuester pra saber. — E suspirei, voltando-me para ela. — Está ansiosa?
— Cala a boca, Fabray. Eu sei que isso vai ser algo vergonhoso.
Lhe lancei um olhar curioso.
— Como tem tanta certeza?
Santana soltou uma risada incrédula.
— Está falando sério? — Acenei e ela riu mais uma vez, dessa vez mais baixo. — Um clube vai fazer uma apresentação para os alunos no horário do almoço deles. E eles são adolescentes, não vão querer ser obrigados a assistir.
Franzi o rosto e voltei meus olhos para os meu alunos do terceiro ano que fazem parte do coral no canto do pátio, conversando animadamente enquanto arrumavam suas roupas temáticas. Isso podia dar errado. E se desse errado a culpa seria minha. Inteiramente minha por ter dado essa ideia.
— Talvez eles gostem?
Santana soltou uma risada irônica baixa.
— Claro que não vão gostar. Não conhece o colégio que ensina?
E isso está me preocupando.
—_
Tudo bem. Não foi tão ruim assim. Bem, também não foi muito bom. Santana diria – ela disse, várias vezes – que foi humilhante. Mas eu não levaria para esse lado. Diria que foi algo interessante. Porque, como professora, foi interessante assistir o comportamento dos meus alunos no horário do almoço.
— Porque está parada aí na porta, professora? — Finn Hudson me perguntou e eu ergui os olhos dos pés para os alunos que estavam recolhendo pedaços de macarrão e batata no cabelo.
— Pode entrar, Quinn. — Will chamou sorrindo e eu ergui as sobrancelhas. Porque ele ainda estava feliz?
— Está tudo bem? — Pergunto olhando para cada um dos alunos, parando o olhar especificamente em Rachel, que sorriu timidamente enquanto ajudava a tirar pedaços de frango do cabelo de Finn. Em seu próprio cabelo tinha arroz e alguma coisa que eu realmente não queria identificar.
— Sim. — Will acenou animadamente e me entregou um papel.
— O que é isso? — Perguntei e olhei bem para o papel. Tinha apenas algumas linhas neles, e nelas tinham nomes.
— É a lista de alunos que vieram falar comigo para marcar audições.
E todos eles comemoraram, mesmo que com pouca animação pelo motivo de ainda estarem distraidos com as comidas nas roupas e nos cabelos.
— Então... deu certo? — Indaguei me dirigindo a Will, que deu um sorrisinho presunçoso.
— Aparentemente sim. — Rachel respondeu baixinho do outro lado e olhei pra ela. Ela não parecia acreditar muito em Will.
Schuester passou uma mão pelo colete, nervoso.
— É, bem. Ainda vamos ver se essas pessoas vão aparecer nas audições. Se sim, então deu certo.
— Achei que tinha sindo traumatizante. — Comentei mais baixo e Will deu de ombros. O resto do pessoal não escutou.
— Por um momento foi, até que Puck apareceu com esse papel. E ele estava bem feliz.
Sorri para ele e escutei a porta atrás de mim abrir e virei para ver Santana entrar com os olhos cerrados e os braços cruzados.
— Esse lugar não mudou nada.
— Santana Lopez! — Will parecia encantado. — Não imaginava que fosse encontrá-la mais uma vez.
Santana olhou para ele com os olhos mais cerrados ainda.
— Quem é você?
Ela realmente fez isso. O sorriso de Will foi sumindo lentamente e ele disfarçou olhando para o papel na sua mão.
— Santana. — A repreendi e ela deu de ombros.
— Enfim, eu estava procurando você. — Ela apontou pra mim e depois para a porta atrás dela. — Vem.
Acenei e olhei para todos os alunos, vendo-os ainda catando as comidas por suas roupas e cabelos. E Rachel lançou um olhar para mim, um olhar curioso. Suas bochechas coraram quando seus olhos encontraram os meus e ela sorriu, desviando e voltando a catar as coisas nos ombros do namorado.
Balancei a cabeça com um sorriso e segui Santana para o lado de fora, fechando a porta atrás de mim depois disso.
— O que quer?
Santana me lançou um sorriso malicioso.
— A baixinha é a Berry?
Senti meu rosto esquentar e soltou um bufo.
— Não acredito que só me chamou pra isso.
— Nah, não é só isso. É que eu já estou indo para o trabalho.
Revirei os olhos.
— Não precisava me chamar para isso.
— E eu também queria falar sobre aquela Cheerio loira. — E Santana olhou pelo vidro da porta com um olhar curioso. — Ela é bem interessante... dança pra caralho. Bem gostosinha.
— Você está falando da Brittany?
— Então o nome dela é Brittany... — Santana estava interessada demais para o meu gosto.
— Ela é seis anos mais nova do que você, Lopez.
Santana riu indignada.
— Ela não é minha aluna, Fabray. — E piscou passando por mim. — Boa sorte com a Berry.
E saiu andando pelo corredor, me deixando nervosa e irritada.
Santana sabia onde cutucar.
—_
Minhas aulas acabaram e eu voltei para a sala dos professores para ver se encontrava com algum professor de História. Ainda teria, daqui à uns vinte minutos, a aula que eu daria para os meus alunos para o Campeonato de História, já que a primeira prova era daqui à uma semana. Entrei na sala dos professores e soltei um bufo ao ver que não tinha nenhum dos outros dois professores de História por lá.
— Procurando alguém?- Will perguntou do sofá. Ele tinha uma caneca na mão e tomava pequenos goles enquanto escrevia algo em uns papeis.
— Sim. Os outros dois professores que eram para me ajudar resolveram ir mais cedo. — Revirei os olhos e sentei ao seu lado, passando uma mão pelo cabelo e olhando para os papeis que ele tinha nas pernas. — O que está fazendo?
— Corrigindo alguns tons. — E ele fez uns 'X' em algumas letras. — Sempre que Rachel e Finn vão fazer um dueto, tenho que mudar algumas coisas no tom da música.
A menção de Rachel e Finn fez com que eu fizesse uma careta.
— Porque?
Will soltou um suspiro cansado.
— Porque Finn não consegue atingir algumas notas. — Ele justificou. Bufei e revirei os olhos. Will faz qualquer coisa para o Hudson. — Então, a pessoa que estava te procurando te achou?
Ele me lançou um olhar meio temeroso e eu franzi o rosto.
— Está falando de Santana? Sim, nós nos encontramos no pátio antes da apresentação.
Will balançou a cabeça em negação.
— Não estava falando de Santana.
Franzi o rosto mais ainda.
— De quem, então?
Ele me encarou por alguns segundos. Não consegui identificar o seu olhar. Então fiquei calada até que ele desviou e voltou-se para seus papeis.
— Tenho certeza de que ela vai te achar ainda hoje. — É o que ele diz e continua fazendo x's no papel.
— Porque não me fala logo?
— Porque você tem que dar aula agora. — Ele apontou para a porta e sorriu sem graça. — Boa aula.
Franzi o rosto e levantei dando de ombros. Quem quer que fosse, iria me encontrar de qualquer jeito.
—_
A aula tinha acabado quando me sentei na mesa e percebi Rachel se aproximando. Os outros alunos saíam da sala e ela foi se aproximando timidamente, chamando minha atenção. Sorri para ela e pulei para sair da mesa.
— Precisa de carona?
Rachel riu timidamente.
— Não. — Ela balançou a cabeça, e não deixei de ficar decepcionada com isso, mas apenas sorri para ela. — Meu pai está me esperando lá fora. Lhe mandei uma mensagem antes de começar a aula e disse a hora que terminaria.
E ela ainda deu de ombros. Sorri e acenei.
— Tudo bem então. — Suspirei e comprimi os lábios, tentando olhar para outro lugar que não fosse ela. Deus! Rachel não tinha como ficar mais maravilhosa! Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo. Ela usava uma saia preta e uma camisa de manga curta amarela. E, como sempre, linda. — Te vejo amanhã, então.
— Até amanhã. — E acenou preparando-se para sair da sala.
— Sabe, eu acho que é bem capaz que você seja uma das pessoas a ganhar esse campeonato. — Comentei cruzando os braços e sorrindo quando vi uma caneta cair e ela se abaixar desajeitada para pegar.
— E porque acha isso? — Rachel pergunta, ainda pegando a caneta embaixo e se levantando levemente descabelada.
Ri suavemente e dei alguns passos até ela, erguendo a mão e organizando sua franja.
E provavelmente foi a maior merda que eu já fiz. No momento em que meus dedos tocaram seu cabelo... puta merda. Que cabelo macio. Eu poderia parar e tirar a mão do cabelo dela, mas estava tão bom arrumando a franja de volta no lugar.
Ela estava incrivelmente vermelha e eu, provavelmente, não estava muito diferente.
— Você é a única que realmente está interessada no assunto. — Pigarreei recolhendo minha mão. — Responde minhas perguntas sem problema.
— Eu não sou a única, Quinn.
— Mas é a única que responde o questionário que eu mando responder. — Retruco e ela ri timida. — E os outros realmente não sabem que eu já sei que eles não responderam.
— Deviam ganhar pontos ao menos por tentar. — Ela brinca rindo e eu lhe acompanho. — É melhor eu terminar aqui.
E aponta para as coisas em cima da sua mesa.
— Claro. — Aceno e me afasto a contragosto.
Escutei uma batida na porta e olhei para ela, ainda atenta em Rachel arrumando as coisas na sua mesa para poder sair. Ela estava de costas para a porta, portanto não sabia quem estava nela, mas eu reconheci a pessoa assim que ela apareceu na janelinha da porta.
Cinco anos. Cinco anos que eu não tinha encontrado os olhos azuis daquela pessoa. Cinco anos sem ter a mente perturbada por aquela pessoa. Foram bons cinco anos.
— Ah, merda. — Murmurei e lancei um olhar rápido para Rachel, que me olhava ainda timidamente. Ela tinha terminado de se arrumar. — Então eu te vejo amanhã.
E andei com ela até a porta, ignorando a pessoa que ainda estava lá.
Rachel lançou um olhar surpreso para a pessoa.
— Professora Holliday! — Rachel chamou antes mesmo que eu pudesse falar alguma coisa.
Como assim Rachel conhecia ela? Ah, é mesmo. Ela ensinou aqui.
— Olá, srta. Berry. — Holly a cumprimentou animadamente. — Não imaginei que ainda estivesse por aqui.
— Eu estou no campeonato de História... E achei que não estivesse mais trabalhando por aqui.
Holly soltou uma risada suave.
— Ah, bem, aparentemente precisam de mim mais uma vez em Educação Sexual. — E ela piscou para Rachel. Bem, eu achei que era para Rachel, mas ela tinha os olhos em mim. Engoli em seco. — Com uma professora dessas eu não imagino porque alguém não iria querer particiapar do campeonato de História.
E Rachel me lançou um olhar franzido e confuso por cima do ombro.
— Te vejo depois, srta. Berry. — Me despedi nervosamente, rezando para que ninguém tenha percebido isso. Eu queria cortar aquela conversa logo. — Amanhã, no caso.
Rachel acenou lentamente e voltou-se para a professora Holliday, que ainda me encarava e eu ainda tentava disfaçar que ela não estava fazendo isso.
— Foi bom te ver, professora. — Ela fala e volta-se para mim. — Até a amanhã, professora Fabray.
E saiu andando apertando o caderno no peito. Era dificil não me sentir mal quando Rachel andava para longe de mim, mas era algo que eu superava quando lembrava que ela era minha aluna.
— Mas que surpresa! — Escutei Holliday atrás de mim e respirei fundo, virando-me para entrar na sala e indo até a minha mesa, juntando minhas coisas na minha bolsa. — O que houve? Não gostou da minha surpresa? Achei que já sabia, afinal, falei com o Schuester mais cedo e ele disse que falou com você.
Então era ela. Isso explicava o olhar de Will.
Ainda de costas, resolvi falar:
— O que quer?
Escutei a risada de Holly e virei para encontrar seus olhos azuis. Cinco anos atrás aqueles olhos me desarmavam completamente, agora, eu apenas tenho vontade de ir embora. Mas ela sabia que eles ainda podiam me desarmar, e por isso fazia questão de olhar profundamente dentro dos meus.
— Você ainda está chateada pelo que aconteceu quando você estudava aqui?
Senti um frio no estômago ao lembrar do que tinha acontecido há cinco anos.
— Por favor. — Pedi revirando os olhos e voltando-me para minhas coisas, terminando de juntar tudo e pendurando a bolsa no ombro. Voltei-me para ela e me assustei ao ver o quão próxima ela estava. — Eu já superei.
— Será mesmo? — Seu olhar deixava claro o quanto ela duvidava da minha afirmação. — É bem dificil superar um primeiro amor, Quinnie.
Fechei os olhos quando senti sua mão tocar na minha, que apertava a alça da bolsa com força. Droga. Ela realmente sabia como me atingir. E isso é péssimo.
— Não me chame de...
— O quê? Quinnie? — Ela estava mais próxima. Se eu abrisse os olhos, encontraria os seus e me perderia. Sabia disso. Não poderia deixar. — Você sabia que eu tinha que ir, desde o início eu deixei bem claro.
Seu tom era sério e isso fez com que eu abrisse os olhos. Ela me encarava de volta com o rosto franzido em arrependimento. Holly sabia como me desarmar, e o olhar que me lançava agora é uma das maneiras fáceis de me desarmar. Mas foram cinco anos e, de algum modo, eu consegui me fortalecer.
Para os que ainda não entenderam. Holly Holliday foi minha namorada na epóca em que eu estudava no McKinley. Ninguém no colégio sabia que ela era minha namorada, mas sabiam que eu andava bastante com ela, já que ela era uma universitária que andava fazendo estágios como assistente e professora substituta de Educação Sexual.
Holly era uma garota bonita que andava pelos corredores e dava aula de Educação Sexual do melhor e mais divertido jeito possível. Então ela era uma pessoa notável. E mais notável ainda quando eu comecei a andar com ela. Afinal, eu era a líder de torcida que participava de Campeonatos de História por diversão. Eu era uma pessoa notável.
É só que... o término do nosso relacionamento não foi algo muito bom. Na verdade, terminou do pior jeito possível.
— Porque voltou? — Perguntei baixo. Minha voz ainda saiu mais baixo do que imaginava. — Fiz questão de não vir pra cá quando soube que você estava ensinando. Porque voltou?
Holly engoliu em seco e desviou o olhar para algo atrás de mim.
— Eu recebi uma oferta maior. — Então voltou os olhos pra mim. — Eles querem que eu volte a ensinar Educação Sexual. Aparentemente, os alunos gostavam e realmente aprendiam comigo. Alguns fizeram até uma petição para tirar o sr. Guthart.
Sr. Guthart era um senhor de quase 80 anos que só sabia falar que as crianças não devem fazer sexo e que as mulheres só foram feitas para satisfazer os homens.
Pois é, eu odiava o velho. Não me surpreendia que os alunos quisessem tirar ele dalí. Que eu saiba, ele já deveria ter se aposentado.
Soltei uma risada sem humor e me afastei, passando por ela e indo até a porta.
— Boa sorte. — Falei e parei na porta, olhando por cima do ombro e encontrando-a encostada na minha mesa com um sorriso para mim. — Espero que não nos esbarremos.
E saí com o sangue fervendo.
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