Pandora
21 Capítulo XXI – Foi a Coisa Certa a Fazer
Notas iniciais
Capítulo XXI – Foi a Coisa Certa a Fazer
Desde o momento em que acordei, percebi que deveria ficar na cama. Nada, definitivamente nada, estava ao meu favor. Começando pela janela que eu esqueci aberta na noite passada. Choveu de noite, e molhou todas os meus modelos de provas que tinha em cima da mesa. O que resultou em: eu acordando de madrugada, me assustando, e correndo pra escrever rapidamente tudo o que tinha nas provas pra poder digitar quando voltasse do McKinley.
Logo em seguida, minha mãe me deixou uma mensagem falando sobre um jantar que ela queria dar no final do mês e queria chamar toda a família. Afinal, era Ação de Graças. Ou como Judy Fabray gostou de falar 'O Primeiro Ação de Graças com a Quinn'. É. Eu não a culpava, afinal, foram quase 5 anos.
Ou foram 5 anos.
Não lembro mais.
Logo depois disso, eu me arrumei e resolvi saí para ir pro McKinley. No meio do caminho dois carros batera e os motoristas ficaram discutindo no meio da rua. Não sei quantas vezes revirei os olhos e buzinei até que eles saíssem da frente ou, ao menos, tirassem os carros do meio da rua.
Então, com quase uma hora de atraso, cheguei no McKinley. Com sorte, minha aula só tinha começado há dez minutos. Ainda não era tanta sorte, mas foi o suficiente.
Era aula com o primeiro ano, e quando entrei na sala, foi horrível pra conseguir controlá-los. Foi realmente difícil não gritar com eles, então apenas derrubei o maior livro que tinha, na mesa e eles calaram, olhando pra mim assustados.
Eu não era uma imagem muito boa nessa manhã. O cabelo estava completamente desgrenhado, minha camisa azul estava completamente desarrumada e minha expressão não era a mais feliz. A única coisa que consegui manejar essa manhã, foi minha calça e meus saltos. Fiquei surpresa por eles não terem quebrado ainda. Com a sorte que eu to hoje, eles devem quebrar ainda a qualquer minuto do dia.
Ainda bem que a aula não passou tão lentamente. Óbvio, foram apenas quarenta minutos já que perdi dez enquanto tentava chegar aqui.
Quando a aula acabou, saí da sala me encaminhando pra sala dos professores. Como saí atrasada, não tive tempo de comer e nem de parar no Lima Bean. Entrei na sala dos professores, que estava vazia e foi até a cafeteira. Suspirei colocando café em uma xícara com o 'C' de Cheerios. Provavelmente da Sue.
Ou não. Eu estava com fome, então não estou realmente me importando com isso.
Tomei um gole, fazendo uma careta enquanto estremecia. Apanhei um saquinho de adoçante e abri no café.
— Foi a Sue que fez, definitivamente vai estar mais amargo do que ela. — Escutei atrás de mim enquanto mexia o café. Era Holly.
Virei e encontrei seus olhos azuis. Havia algo diferente em seus olhos. Preocupação e... eu não sei bem o que era.
— Algo mais amargo que Sue Sylvester? Achei que não era possível. — Brinquei vendo Holly relaxar um pouco.
— Aparentemente, é possível. — E ela estremeceu olhando pro café na cafeteira. — Deve estar realmente desesperada se vai continuar tomando.
Ela comenta e enquanto eu tomava outro gole. Dei de ombros tentando ignorar a amargura na língua.
— Estava atrasada hoje de manhã e não tive tempo pra comer. — E apontei pra xícara, tomando outro gole e gemendo com a dor que senti atrás dos dentes de tão amargo que tava o café.
— É... — E ela pareceu distante. Franzi o rosto. Holly parecia realmente preocupada com algo, e a ultima vez que vi esse olhar nela, foi quando eu terminei tudo com ela anos atrás.
— Está tudo bem? — Perguntei e ela olhou um pouco perdida pra mim antes de acenar. — Tem certeza?
Holly continuou olhando pra mim por alguns segundos antes de respirar fundo.
— Precisamos conversar. — Ela sussurrou e eu soltei uma risada que poderia, facilmente ser dita como uma 'risada nervosa'.
Acenei pra ela.
— Claro, sobre o quê?
E antes que ela conseguisse produzir algum som, o toque pra próxima aula bateu. Foram os dez minutos mais rápidos da minha vida.
Holly balançou a cabeça.
— Nos falamos no intervalo. — Ela murmurou e saiu da sala sem falar mais nada.
Um sentimento na boca do estômago me dizia que o que ela tinha pra me dizer, não era nada bom.
—_
Chegou a hora do intervalo e uma cadeira foi colocada na frente da minha mesa. Eu digitava ferozmente no meu notebook, mas sabia que era Rachel que estava sentando-se na minha frente. Senti seus olhos em mim enquanto ainda teclava furiosamente no notebook. Afinal, eu tinha que digitar essas provas.
Aconteceu alguma coisa? — Escutei Rachel perguntar e levantei os olhos rapidamente da tela antes de voltar.
— Sim, sim, só preciso ter isso digitado antes de quarta-feira.
Percebi com o canto dos olhos, que ela se debruçou na mesa, seus olhos ainda em mim.
— Achei que já tinha digitado na semana passada.
— E digitei, mas hoje estou completamente sem sorte. — E me afastei do notebook, esticando os braços para os lados e respirando aliviada quando eles estalaram.- Não deveria ter saído da cama.
Se bem que tudo começou a dar errado antes mesmo de colocar o pé pra fora da cama.
— E o que aconteceu?
Suspirando pesadamente, passei a mão pela testa e lancei um olhar doce pra Rachel. Ela tinha aquele olhar preocupado extremamente fofo. Sorri e passei uma mão pelo cabelo, me arrumando na cadeira antes de me preparar para listar as coisas que aconteceram.
— Começou de madrugada, esqueci a janela aberta, não lembro como, e choveu de noite, a janela fica em cima da minha mesa, molhou todos os meus modelos de prova... — E comecei, listando e detalhando cada uma das coisas que aconteceram comigo em menos de oito horas. — Aquele café estava horrível.
Rachel franziu o rosto, sua expressão preocupada e aflita tinha se intensificado.
— Porque não me disse que estava com fome? Eu poderia ter algo pra você agora! Se tivesse me mandado uma mensagem mais cedo eu teria passado no Lima Bean e comprado um cappuccino e alguma coisa pra você comer.
— Rachel. — Chamei, esticando o braço para pegar sua mão na mesa, parando-a no seu monólogo. — Tem comida na sala dos professores, e não é tão ruim. Tem umas bolachas interessantes. Então me entupi delas. Fome é a ultima coisa que eu sinto agora.
E acariciei sua mão em cima da mesa. Sua expressão se suavizou e um sorriso surgiu em seus lábios.
Fomos interrompidas por uma batida na porta. Franzi o cenho vendo a cortina da janela da porta fechada. Provavelmente a porta estaria trancada. Quando foi que Rachel trancou aquela porta?
Soltei sua mão e ela se recostou na cadeira, olhando curiosa pra porta. Levantei da cadeira e fui até a porta, abri e ergui as sobrancelhas ao ver que era Holly. Ela não fez nenhum movimento pra saber quem estava dentro da sala, e nem ao menos me perguntou porque eu tinha trancado.
— Podemos conversar? — E eu assenti. Ela não esperou, apenas foi andando pra longe da minha sala. Lancei um olhar pra Rachel por cima do ombro e ela deu de ombros antes de se inclinar na mesa e fechar os olhos.
Sorri docemente e segui Holly.
Ela foi andando até o lado de fora do McKinley e nós fomos para baixo das arquibancadas. Minha ansiedade estava atacando, minhas mãos estavam suando e eu não conseguia parar de passar a mão pelo cabelo de tão nervosa.
Debaixo das arquibancadas tinha coisas que eu preferia não comentar, mas certamente, vi algumas camisinhas usadas. Estremeci, esfregando uma mão na outra e olhei pra Holly, assustada.
— Você não veio me matar não né? — Brinquei, rindo nervosa.
— Não, eu quero comentar sobre algo que aconteceu na sexta-feira passada. — Ela sinalizou o 'passada' apontando pra trás com o polegar. Holly também estava nervosa.
— O que aconteceu? — Cruzei os braços e olhei ao redor mais uma vez, fazendo uma careta. — E porque não podemos ter essa conversa em um lugar mais higiênico?
— Porque eu sei que você não quer que alguém escute o que eu tenho pra falar.
Um arrepio desceu pela minha coluna e eu levantei meus olhos pra Holly. O olhar que ela me dava era claro.
Ela sabia.
Ela sabia sobre Rachel e eu.
Como que ela sabia disso?
— Holly...
E ela soltou uma risada sem humor.
— Já sabe o que é, né?
Balancei a cabeça e virei de costas pra ela. Agora, estar debaixo das arquibancadas, não parece uma opção ruim comparando com o que eu estava prestes a passar.
De repente, todo o ar sumiu e meu estômago se revirou. Fechei os olhos com força, tentando puxar ar, mas ele não vinha. Era um ataque de pânico. Meu coração acelerado e minhas mãos suando. Certamente, um ataque de pânico.
— O que você quer?- Perguntei ofegante. Virei pra Holly, puxando a gola da minha camisa pra baixo, tentando respirar.
Holly franziu o rosto.
— O que eu quero? — Ela pareceu confusa. — Quinn, eu não vou contar pra ninguém.
Revirei os olhos. Ninguém viria falar esse tipo de coisa pra não querer nada em troca do silêncio.
— Eu sei que você quer alguma coisa, Holly. — Cruzei os braços, puxando o ar e balançando a cabeça. — Não viria até mim se não quisesse algo pra ficar em silêncio.
Holly parecia ainda mais confusa.
— Eu não quero um suborno, Quinn. — Ela tentou se aproximar, mas não deixei, dando alguns passos atrás, tomando cuidado pra não pisar na camisinha usada. — Eu quero te ajudar.
Soltei uma risada, que certamente foi uma risada sarcástica.
— Quer me ajudar.
Talvez não fosse uma boa ideia debochar, mas estava nervosa demais pra pensar.
— Eu falo sério, Quinn. Você deveria ficar feliz por ter sido eu e não outra pessoa. Se fosse o Will...
— Holly, você não teria vindo até mim se não quisesse nada. — Repeti e balancei a cabeça. — Só diz logo o que você quer.
Holly balançou a cabeça mais uma vez.
— Eu quero que você pare com isso. — Ela finalmente disse e eu respirei fundo, ainda tentando puxar o ar que parecia inexistente. Logo em seguida soltei uma risada sem humor. Claro. Claro que ela queria isso.- Você tem ideia do quanto está pondo em jogo aqui? Quinn, você pode ser presa!
— Tudo bem, você quer que eu pare de fazer o que estou fazendo. Sim, eu não deveria ter esperado outra coisa sair da sua boca. Óbvio. — Balancei a cabeça, novamente, uma risada sem humor saiu dos meus lábios. — Você não tem ideia do que tá pedindo.
— Sim, eu sei. — Ela ficou séria. Seus olhos brilharam com algo que parecia 'ciúmes'. — Eu sei o que eu vi na sala de astronomia, Quinn. Eu sei o que você sente por ela. Não precisei ter mais do que um minuto pra entender o que você sente por ela. Mas lembre quem ela é...
— Eu sei disso, Holly. — A interrompi, engolindo em seco. — Eu sei o que estou arriscando nisso.
— Então por está fazendo?
E eu balancei a cabeça mais ainda vez. Minhas unhas estavam cravadas no meu braço.
— Holly.
— Você sabe que não está fazendo mal só a você? E que também está fazendo mal pra ela?
Franzi o rosto.
— Do que está falando?
— Aquela garota vai perder de viver a vida dela, de ter um namorado que segure sua mão pelo corredor, lhe leve para as salas de aula, lhe leve pro baile. Tudo isso porque você quer ficar com ela.
Um soco no estômago teria doído menos. Mas a sensação do soco eu tinha. Junto com ela a vontade enorme de vomitar. E o ar, realmente, o ar estava aonde?
— Não é como se eu estivesse forçando ela a ficar comigo. — Tentei rebater, mas ela tinha razão. Rachel estaria perdendo de viver uma vida de colegial, só porque eu quero mantê-la comigo. Rachel está perdendo de ter a chance de ir para um baile e dançar no meio do ginásio com um namorado ou namorada, porque eu quero mantê-la comigo. E isso doía.
Doía saber que eu não poderia dar nada disso pra ela. Ao menos não agora. E talvez nunca.
— Sabe o que você vai estar perdendo, Quinn? — Ela perguntou, seu tom suave, como se ela soubesse que jogar navalhas não era exatamente o que eu precisava.
— Vai me dizer que é 'você' o que eu preciso? — Debochei, sim, ainda não sei como debochar é a melhor opção, mas eu não tinha muito controle do que saía da minha boca.
— Eu nunca diria isso. — Ela murmurou e meus olhos foram pra ela. — Nunca diria que sou a pessoa certa pra você. Talvez ela seja a pessoa certa pra você. Mas não agora. Não quando ela é a sua aluna.
E a imagem de Rachel sorrindo pra mim na sala da aula, sentada no seu lugar enquanto eu explicava sobre Pandora e Prometheus. Todos os alunos faziam perguntas, mas meus olhos sempre derivavam para Rachel, porque ela era a minha Pandora. A minha tentação. E eu realmente não conseguia ver outra pessoa no lugar dela.
— Então me diga, Holly. O que estou perdendo? — E engoli com força, apertando a mandíbula e ela respirou fundo.
— A sanidade, seria a primeira coisa que eu pontuaria. — Ela começou e eu revirei os olhos com força. Isso não era novidade pra mim. — Mas se alguma coisa acontecer, você não só perde o emprego, Quinn, mas perde a credibilidade. A chance que você teria de ensinar em algum outro colégio, seriam mínimas. E além do mais! Você pode ser presa. Ela tem dezesseis anos, Quinn.
— Dezessete — Corrigi, como se isso fosse melhor. Mas acabei revirando os olhos. Só piorava a minha situação.
— Sim, é. — Holly apontou pra mim. — Eu não quero ver você atrás das grades Quinn. — E ela me olhou com algo que eu chamaria de 'pena'. — Sei também que você gosta de ensinar, sei porque vejo o olhar que você tem de orgulho sempre que um aluno seu responde corretamente. Lima é uma cidade pequena, Quinn. No momento em que essa notícia se espalhar... não vai ser nada bonito.
E eu acenei lentamente, meus olhos aguavam e respirei fundo. Não poderia chorar. Principalmente na frente dela.
— O que eu tenho que fazer então? — Perguntei e ela franziu o rosto tristemente.
— Termine isso, Quinn. Espere que os anos passem. Se for pra acontecer, vai acontecer.
Cerrei meus olhos pra ela.
— Se você acha que vou correr para seus braços no momento em que terminar o relacionamento com ela... Depois disso eu não quero nem olhar...
— Eu nunca vou pensar nisso, Quinn. — O olhar de Holly era triste. Como se ela tivesse fazendo um grande sacrifício. — Eu prefiro ter um coração partido do que ver você sofrendo porque não conseguiu tomar cuidado suficiente. Prefiro ver você segura do que atrás das grades.
E eu não sabia como responder aquilo. Holly não parecia estar mentindo. E o brilho triste nos olhos dela era o que deixava isso claro. Acenei lentamente. É. Talvez seja a melhor opção. Terminar meu relacionamento com Rachel é a melhor opção. Tanto pra mim do que pra ela. Era mais seguro, mas certo. Se for pra ser, então alguma coisa vai fazer com que nós fiquemos juntas mais uma vez.
Mas por hora, será a melhor opção.
E meu coração se partindo enquanto o toque sinalizando o fim do almoço ressoava pelos corredores, era um sinal claro de que eu não iria conseguir passar por isso tranquilamente.
—_
O dia acabou mais rápido do que eu queria. Não tive aulas com o terceiro ano o resto do dia, mas minha falta de concentração nos assuntos, deixava bastante claro que eu não estava com cabeça pra isso, então um aluno do segundo ano perguntou se não poderiam fazer duplas e resolver alguns exercícios do livro. Eu acenei e sentei na cadeira, respirando fundo e esfregando as mãos no rosto.
Era a ultima aula e tudo o que Holly me disse estava perambulando pela minha mente. Ela estava certa, não tinha como negar isso. Terminar meu relacionamento com Rachel é a melhor opção. Tanto pra mim quanto pra ela. Principalmente pra ela. De certo modo, eu agradeço por não ter sido Will, ou Sue que viu Rachel e eu naquela sala de Astronomia.
Se fosse qualquer um deles, certamente, nesse exato momento, eu estaria na sala do Figgins sendo demitida.
E Holly veio até mim, ela veio me oferecer uma saída segura. E ela está certa.
O sinal bateu e meus alunos saíram da sala, mas eu continuei alí, olhando pra algum ponto no fundo da sala. Minha cabeça iria explodir e meu coração iria junto com ela.
Não demorou pra Rachel entrar na minha sala. Não levantei os olhos pra ela, continuei fitando o fundo da sala, esperando criar um buraco negro que sugasse tudo ao me redor e eu não precisasse passar por nada disso, mas quando a mão de Rachel tocou minhas costas eu senti minha guarda quebrar.
— Tudo bem? — Escutei ela perguntar suavemente e fechei os olhos com força. — Quinn?
— Nós precisamos conversar. — Murmurei e levantei. — Mas não aqui.
Ainda não olhei pra ela, não queria ver o olhar que ela me direcionava, então apenas saí da sala e esperei que ela me seguisse. O McKinley estava vazio, então fui andando até ficarmos debaixo das escadas, nos corredores. Eu precisava de um lugar aberto pra conseguir fazer isso se fosse na minha sala, seria muito mais fácil me jogar da janela.
— Quinn? — Escutei sua voz mais uma vez e o corredor parecia estar fechando.
— Rachel. — Virei pra ela e seu olhar assustado me indicou que ela já temia o que ia acontecer. — Nós precisamos...
— Não. — Ela parou, estendendo a mão na minha frente, pedindo-me pra parar. Rachel soltou uma risada nervosa e meio aguada. — Não termine essa frase. Não tem sentido. Você está só tendo um dia ruim, o que vai dizer não tem sentido.
Meu coração se partiu. Fechei os olhos passando a mão pelo rosto.
— Eu preciso fazer isso, Rachel. Eu não consigo pensar em alguma coisa sem que você esteja no meio...
— Não. Por favor, Quinn. Não faz isso. — E a primeira lágrima caiu.
— Não da Rachel! — Passei a mão pelo rosto e andei de um lado pro outro. — Não é saudável pra você. Não é saudável pra mim!
E finalmente olhei pra Rachel com os olhos abertos. Inteiramente abertos, analisando tudo em seu corpo, seu rosto. Ela arfava e suas mãos tremiam. Parei de olhar. Era desespero. Ela estava se sentindo desesperada. Exatamente como eu me sentia agora.
Abri os olhos quando estranhei o silêncio, mas ela ainda estava li. Rachel me olhava com aqueles enormes e lindos olhos castanhos. Deus do céu! Como isso foi acontecer? Como me deixei fazer isso?! Meu corpo não deveria responder daquela maneira. Não deveria implorar tanto pra que eu me aproximasse dela e a tomasse em meus braços.
Esse era mais um motivo pra Holly estar certa. Quanto mais meu relacionamento com Rachel se aprofundasse, mais impossível seria de manter minhas mãos longe dela. Não dava. Não dava pra continuar assim.
— Quinn...
— Não, Rachel. — Falei e me sentei no degrau da escada. Ainda estávamos naquele corredor e tudo o que eu queria era me levantar e correr.
— Porque não? — Ela me pergunta em um tom manhoso e mimado. O desespero desapareceu, agora ela aparentava tentar me convencer do contrário usando esse tipo de coisa. Fechei os olhos e enfiei os dedos no cabelo. — Porquê?
— Porque não posso.
— Não pode ou não quer?
Levantei meus olhos pra ela. Tenho certeza de que meus olhos demonstravam pura indignação. Como eu não podia querer? Porra! Meu corpo queria tanto que era uma tortura ficar ali com ela em apenas três metros de distância.
— Por favor Rachel. — Implorei quando ela ameaçou se aproximar. Parou aonde estava e seus olhos marejaram mais ainda, uma lágrima escorrendo pelo seu rosto, mas ela rapidamente limpou.
— Meu deixa tocar em você. — Ela pede. Quase implorando. Fechei os olhos mais uma vez e escondi o rosto entre as mãos.
Meu corpo doía. Meu coração apertava. Minha cabeça latejava. Me sentia enjoada e doente. Eu só queria ir embora de lá.
— Minha pequena Pandora. — Sussurrei e abri os olhos. — Se você me tocar eu posso não aguentar.
Rachel tinha o lábio inferior projetado para frente e os olhos cheios de lágrimas. Meu corpo implorou pra que eu me aproximasse dela e a envolvesse com meus braços. Levantei da escada e passei uma mão pelo rosto antes de voltar a encará-la.
— Quinn..
— Eu vou embora. — Avisei e as lágrimas começaram a escorrer por seus olhos. Eu não podai aguentar. Não poderia ver aquele lindo rosto ser manchado por lágrimas. Me aproximei dela. — Não! Não, minha Pandora. Não chore, por favor.
— Rachel abaixou a cabeça, seus ombros tremendo enquanto chorava. Segurei seus ombros e levantei seu rosto, deslizei minhas mãos até seu pescoço, segurando seu olhar pra mim.
— Porque não podemos? — Rachel choraminga e segura meus pulsos, apertando-os.
Quase estremeço quando seus dedos envolvem meu pulso, apertando minha pele e sentindo minha pulsação acelerada. Seus dedos macios e delicados tocando minha pele fazia algo absurdo comigo.
— É muito errado. — Sussurrei e acariciei sua mandíbula com os polegares.
— Não é errado se é o que queremos. — Rachel tenta justificar no mesmo tom manhoso.
— Oh! Minha Pandora. É errado nos olhos dos outros. No momento em que alguém descobre sobre nós, não só eu, mas você também vai sofrer as consequências disso. É muito perigoso. Muito. — Tentei e ela comprimiu os lábios, desviando o olhar do meu.
— Porque...
Respirei fundo e fechei os olhos, colei meus lábios na sua testa e esperei que meu coração parasse de quebrar.
— Você é tão gentil. Tão inocente. Tão linda. — Sussurrei contra sua testa e senti suas mãos apertarem meus braços. — Tão nova e tem tanto pra aprender ainda. Ficarmos juntas só vai lhe impedir de viver sua vida.
— Você pode me ensinar. — Rachel levantou a cabeça e nossos rostos ficaram malditamente próximos. Ela olhou para meus lábios e eu me perdi em seus olhos pro alguns segundos.
— E eu vou. Sou sua professora. E esse é o meu trabalho. E é por isso que não podemos ficar juntas. — Explico com a voz tremendo e me forcei a não quebrar. Não na frente dela. Não poderia deixar que isso acontecesse. Eu teria que estar sozinha no meu apartamento pra poder quebrar e esperar consertar sem a ajuda de ninguém.
Rachel me encarou por alguns segundos e fechou os olhos, seus lábios tremendo e eu desviei o olhar par ao outro lado do corredor. Era impossível continuar olhando-a e não querer beijar seus lábios incansavelmente.
— Não é justo...
— Eu odeio machucar você. — Sussurrei impotente enquanto assistia as lágrimas caírem pelo rosto de Rachel.
— Então porque está fazendo isso? — Ela levou as mãos para o rosto e eu respirei fundo, tentando juntar forças pra conseguir terminar aquilo. — Porque está me machucando?
Balanço a cabeça e me sentou no chão, com as costas nos armários, esfregando as mãos no rosto e enterrando os dedos no cabelo. Rachel estava na minha frente, de costas pra mim. Engoli em seco e apoiei os braços nos joelhos.
— Vai ficar tudo bem, Rachel. — Seu nome rasgou na minha garganta e eu fechei os olhos por uns segundos, então os abri encontrando seus olhos. Rachel estava de joelhos na minha frente, tão próxima. Respirei fundo, me arrependendo imediatamente ao sentir o cheiro dela me embriagar quase que completamente.
— As Regionais são daqui a uma semana. — A voz dela saiu rouca. — E você quer acabar com isso... isso que a gente tem e que você tem tanto medo de rotular... você quer acabar com isso... — Ela coloca a mão na boca e abaixa o rosto. Fechei os olhos com força, esperando não escutar o soluço sufocado que saiu abafado por sua mão.
— Rachel... — Tentei, mas até minha garganta estava apertada. Se eu falasse mais, não seria possível segurar o que estava por vir. Mas ainda assim... — Rach...
— Você... — Ela tirou as mãos do rosto. As lágrimas ainda escorriam, mas ela tinha uma expressão de traída. Como se o que eu fizesse fosse um absurdo.
E era mesmo. Mesmo com as coisas que Holly me disse mais cedo, o que eu estava fazendo, ainda não deixava de ser algo que eu iria me arrepender, mas ao mesmo tempo, iria ser bom. O que sentíamos agora, esse buraco enorme, iria tampar. Em algum momento, algum dia, não iria doer mais.
— Eu não estou fazendo isso pra que você se desconcentre do seu solo nas Regionais, Rachel. Eu estou fazendo isso exatamente pra lhe ajudar. Você vai poder se concentrar nos estudos, na música, em arrumar um par para o baile de formatura. Quem sabe ser rainha do baile?
E eu ainda ri, tentando aliviar o que sentia por dentro. Não deu muito certo.
— Porque você está falando tudo isso? — Ela choramingou e eu balancei a cabeça. Nem eu entendia o porque. Minha mente estava totalmente em uma névoa. — Eu nunca disse que queria isso.
— Você é só uma adolescente, Rachel. Você vai se formar em um ano e no dia da sua formatura você vai dançar com alguém no meio do ginásio. E tudo isso que passamos foi apenas... apenas uma...
Não consegui terminar. Não dava pra terminar essa frase. Era impossível. Rachel e nunca fomos um 'apenas'. Mas nesse momento, eu não sei o que fomos ou o que seríamos.
E foi a coisa errada pra falar. Rachel me encarou ofendida. Eu deveria ter pensado numa frase melhor, palavras melhores.
— Eu te amo. — Ela rosnou e eu arregalei os olhos.
Ninguém nunca tinha dito isso. Nem eu, nem ela. Eu nem ao menos tinha pensado nisso. Engoli com força. Meu coração batia rápido e minha respiração era forte. Rachel me ama.
— Rachel... — O que eu deveria fazer? Falar que a amo de volta? Mas nem disso eu tinha certeza! Minha cabeça não estava no lugar agora. Nada estava no lugar agora.
— Eu te amo. — Ela repetiu engolindo com força. Seu olhar dizia claramente que ela estava decepcionada porque eu não disse de volta. Ela se levantou e respirou fundo, olhando pro teto antes de se afastar de mim. — Isso que você disse não tem significância alguma. Sim, eu quero me formar, sim eu quero dançar com alguém no meio de todo mundo. Mas acima de tudo, quero que esse alguém seja você.
Levantei do chão, desviando o olhar dela. Não dava pra olhar pra Rachel. Não depois do que ela acabou de falar. Não dava. Respirei fundo, aproveitando a distância dela pra respirar alguma coisa que não fosse o cheiro maravilhoso que ela tinha.
— Eu sinto muito. — Foi a última coisa que saiu dos meus lábios antes de me afastar, seguindo na direção da minha sala pra apanhar minhas coisas.
O choro que escutei atrás de mim quebrou meu coração e algumas lágrimas saíram dos meus olhos, escorrendo pelo meu rosto. Passei a mão pelo rosto rapidamente e corri pra minha sala. Um mantra se repetia na minha mente.
Foi a coisa certa a fazer. Foi a coisa certa a fazer. Foi a coisa certa a fazer.
Só esperava que esse mantra funcionasse de verdade.
Na minha sala apanhei meu celular dentro da bolsa e fui pra lista de contatos, meus olhos derivando para a porta da sala enquanto eu procurava o número dessa pessoa. Eu não sabia exatamente como consegui esse número. Provavelmente Rachel que o colocou. Apertei pra ligar e coloquei o celular no ouvido.
— Kurt Hummel falando.— A voz dele soou e eu suspirei.
— Kurt.
A outra linha ficou silenciosa por uns segundos.
— Professora?— Sua voz tinha ficado repentinamente mais baixa. — Como conseguiu meu número?
— Isso não é importante, venha para o McKinley pegar Rachel. — Falei quase ordenando, arrumando minha bolsa enquanto deixava o telefone preso entre o ouvido e o obro.
— Porque você não pode...
— Kurt. — Suspirei pesadamente. Meus olhos queimando quando os fechei. — Rachel está precisando de você agora.
E desliguei antes de desligar o celular definitivamente. Enfiei ele na bolsa e apanhei tudo, saindo da sala. Logo em seguida saindo do colégio e entrando no carro.
Ainda sem deixar uma lágrima escorrer. Liguei o carro e dirigi até o meu apartamento. Subi de elevador e abri a porta do meu apartamento.
Santana estava lá.
— Heeeey! — Ela sorriu sem tirar os olhos da televisão. — Aparentemente aquela garota beijando a Supergirl na festa de sexta-feira era a Lena Luthor. A Supergirl tem um clima incrível com a Lena Luthor nessa série. Agora a fantasia dela fez mais sentido. Bem inteligente.
Ela zombou rindo e eu me aproximei da mesa de jantar, colocando a bolsa nela, apoiando as mãos na cadeira, abaixando a cabeça e fechando os olhos. Tinha um bolo na minha garganta e eu engoli com força tentando não deixar o choro violento que queria me dominar, sair.
— Está tudo bem? — Escutei a voz de Santana mais próxima e acenei, ainda sem abrir os olhos ou levantar a cabeça. — Não parece bem. O que houve?
Finalmente levanto os olhos pra Santana, as lágrimas já desciam sem minha permissão e eu tentei segurar um soluço levando o punho até a boca. Santana me olhava assustada.
— Quinn... — Ela franziu o rosto. — O que...
— Terminei tudo com Rachel.
— Puta merda. — Santana praguejou e me puxou pelo pulso, envolvendo os braços ao meu redor. Enfiei o rosto em seu pescoço e deixei que os soluços finalmente controlassem meu corpo. — Puta merda.
Ela repetiu e eu sabia porque. Santana sabia que esse momento iria chegar algum dia, ela só não sabia como lidar quando ele chegasse.
Eu realmente não deveria ter acordado hoje.
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