Pandora
15 Capítulo XV – Já Comentei Coincidências?
Notas iniciais
Capítulo XV – Já Comentei Coincidências?
— Não sabia que existia isso de 'pré-halloween'. — Comentei quando Santana e eu chegamos no parque que ocorria o festival. — Só tem criança aqui, Santana.
Santana tinha o rosto todo franzido enquanto olhava pra todo lugar.
— Agora eu entendi o porque do 'é pra todas as idades' logo embaixo do nome do festival. — Ela comentou e eu tive que não olhar pra ela pra me impedir de explodir em uma risada.
— E o que você achou que era?
— Sei lá, idosos? Não imaginei que seria um festival pra manter as crianças ocupadas. E ainda dão o nome de 'pré-halloween'. — Ela balançou a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos da calça. — Estou decepcionada com a minha falta de inteligência.
— Não estou impressionada. — Tentei falar baixo, mas senti um soco em meu ombro, provando que não tive muito sucesso nisso. — Mas sério, vamos andar, deve ter alguma coisa que não seja pescar peixe de plástico ou atirar em chicletes.
E levei outro soco no ombro, mas não me importei, apenas ri enquanto escutava as reclamações de Santana.
Enquanto andávamos pelo parque, percebi que Santana estava fazendo o máximo pra se esconder. Eu sabia que era muito provável encontrarmos alguém conhecido por aqui, principalmente ela, já que a maioria dos seus colegas de trabalho tem filhos.
O que era mais engraçado, era que ela tinha as bochechas tão coradas quando alguém vinha falar com ela, e sempre arrumava uma desculpa quando lhe perguntavam o que ela fazia ali. “Quê? Ah, não, estou aqui com a sobrinha dela” “Eu tenho um irmão mais novo, ele deve estar por aí com a minha mãe” “Meu primo mais novo 'tá na cidade.”
E eu não parava de rir da situação. Meu obro doía muito dos socos que ela me dava. Mas valeu a pena.
Bem, valeu a pena pra mim até que minha irmã e minha mãe surgem na minha frente com a minha sobrinha, Stephanie.
— Eu não queria perguntar... — Minha irmã começou quando Steph correu pra me abraçar e eu me abaixei pra pegá-la.
— Então não pergunte... — Santana murmurou entre dentes quando minha mãe foi abraçá-la.
— Não adianta, eu preciso perguntar. — Frannie cerrou os olhos pra Santana, seus lábios curvados em um sorriso sacana. — O que fazem em um festival pra criança?
Se eu deixasse Santana falar, ela provavelmente, jogaria a culpa em cima de mim. Então:
— Santana me obrigou.
— Filha da...
— Olha a boca, menina! — Minha mãe impediu Santana de me xingar... ou melhor, de xingá-la.
Santana claramente abaixou as orelhas e fez beicinho. Eu só me divertia.
— É, acho que não posso ficar surpresa por causa disso. — Frannie deu de ombros e eu gargalhei quando vi as bochechas coradas de Santana.
—_
Uma hora depois, Frannie sentou com Santana e minha mãe pra falar sobre o trabalho e quando Steph começou a ficar inquieta, puxei ela pra andar pelo parque comigo. Ela corria de um lado pro outro, mas não saía da minha vista. Sempre que ficava animada demais com alguma coisa, me puxava pra aquela coisa e pedia ajuda. Geralmente era o tiro ao alvo de chicletes. Ela me pediu pra parar ali cinco vezes. E estávamos andando em circulos.
Depois que ela andou de pônei em um cercadinho no final do parque, Steph me pediu pra voltar pra barraca de tiro ao alvo porque seus chicletes estavam acabando.
— Mas, Steph, você não deveria está comendo tanto doce. — Claro que foi inútil, ela já estava metros na minha frente. E eu apenas segui.
Coloquei a nota de um dólar na mesa do cara. Ele era loiro e bem gordo, sentava na cadeira jogado pra trás enquanto comia um cachorro quente. Franzi o rosto e ele acenou pra mim. Já era a sexta vez que parávamos alí.
Apanhei a arma a mirei nos doces que Steph me pedia pra pegar. Minha mira era boa, então Steph estava extasiada que eu conseguia pegar todos os doces que ela queria.
O cara custou pra levantar da cadeira, apanhou os doces do balde e colocou na mesa na minha frente, apanhei e entreguei pra Steph, que guinchou animada e correu pra longe. Bufei e coloquei a arma na mesa, correndo a trás dela.
— Stephanie! — Chamei e ela parou na fila pro passeio de carroça pela floresta do parque. Tudo bem ela parar na fila, mas Steph não tinha idade pra esse passeio, ele era o único passeio pra adolescente em todo o parque.
E o palhaço assustador na entrada deixava isso bem claro.
— Tia Quinn! Vamos nesse?
Ela me olhava com aqueles olhos claros e arregalados, implorando pra eu concordar. Lancei um olhar pro homem ao lado da carroça, ele me lançou um olhar que dizia, claramente um 'não'. Comprimi os lábios e me voltei pra Steph.
— Querida, sinto muito, mas não podemos. — Me agachei sorrindo pra ela, que fez beicinho. — Aquele brinquedo não é pra gente da sua idade, querida.
E o beicinho aumentou, me deixando meio desesperada. Lancei outro olhar para o homem que agora atendia um casal de namorados.
— Você sabe, tia Quinn, que eu sou crescida e que não tenho medo de palhaço. — Ela ergueu o queixo, se achando superior e ainda cruzou os braços. Quem ensinou isso pra essa menina?
E porque eu vejo o nome 'Santana' estampado na minha frente.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, alguém comentou algo atrás de mim.
— Quinn! Aonde você arranjou uma garotinha tão linda dessa! — Era uma voz masculina, e eu conhecia muito bem. Me ergui e vi Leroy rindo quando Hiram parou ao meu lado e se agachou pra ficar na altura de Steph. — Como é seu nome, linda?
Steph corou um pouco e me lançou um olhar apreensivo, pisquei e sorri pra ela, tranquilizando-a e ela sorriu pra Hiram.
— Stephanie, mas você pode me chamar de Steph.
— Mas que nome maravilhoso! — Leroy se agachou do outro lado e eu sorri encantada com o encantamento deles com Steph.
— O que ela é sua? — Hiram me perguntou com os olhos arregalados, e antes que pudesse responder alguém surgiu ao meu lado e guinchou. — Estrelinha? Tudo bem?
Rachel estava ao meu lado, e ela olhava pra Stephanie como se fosse um fantasma. Steph não ligou muito porque Leroy continuava fazendo perguntas e sorrindo empolgado quando Steph respondia orgulhosamente.
Fiquei tensa com Rachel ao meu lado. Não tinhamos nos falado desde a semana passada e estava tudo muito estranho entre nós.
— S-sim... — Ela pigarreou e me olhou de esguelha, acenando rapidamente antes de cruzar os braços e se afastar um pouco de mim.
Claro que isso magoou um pouco, mas eu pigarreei e me voltei pro Hiram que aguardava minha resposta.
— Ela é minha sobrinha. — Expliquei e enfiei as mãos nos bolsos do casaco, sorrindo pra Steph que tinha terminado de ser interrogada por Leroy e se aproximava de mim. Me abaixei pra pegá-la no colo e ela encostou a cabeça na minha. — Minha irmã está por aqui em algum lugar, então tomei a filha dela pra passear um pouquinho.
Leroy e Hiram estavam com corações nos olhos. E Rachel estava suavizando. Lancei um sorriso pra ela, que sorriu de volta e deu de ombros timidamente. Suas bochechas coraram e eu sorri mais ainda.
— Ela é a sua cara! — Leroy guinchou e eu ri acenando.
— Parece que sim. — E olhei pra Steph, que me olhou de volta com a cabeça inclinada pro lado.
— Tia Quinn parece com a mamãe. — Ela comentou e Hiram soltou uma risada suave.
— Ah, mas ela é a coisa mais fofa! — Ele guinchou e eu ri para as bochechas coradas de Steph.
— Sim! — Leroy concordou.
Steph corou mais um pouco e olhou pra mim.
— Tia Quinn, a gente pode ir pegar mais doce?
Corei com isso. Essa menina tava comendo doce demais, e era culpa minha.
— Steph...
— Ah, a gente vai junto! — Leroy falou rapido e Steph se animou e pediu pra ir pro chão. — Eu sou policial, sabia? — Steph balançou a cabeça chocada. — Sei mirar bem legal!
Steph estava mais empolgada do que antes.
E Hiram e Leroy foram levando ela pra barraca de doces deixando Rachel e eu pra trás.
Lancei um olhar rápido pra ela, sorrindo e apontando pra direção que eles foram.
— Acho melhor...
— Claro. — Rachel acenou e apontou pra irmos andando.
Enquanto andávamos um pouco atrás dos dois homens, vi que Stephanie estava bem acolhida com eles e se divertindo muito, então aproveitei o momento pra conversar com Rachel. Realmente, a gente precisava.
— Está tudo bem?
Rachel demorou alguns segundos antes de murmurar algo e balançar a cabeça em afirmação.
— E você?
Suspirei pesadamente eparei de andar, pegando-a pelo pulso delicadamente e fazendo-a se virar pra mim.
— Você sabe o que quero dizer. — Solto seu pulso quando ela direciona o olhar pra ele. Enfio as mãos nos bolsos e franzo o rosto pra ela. — Não pareceu nem um pouco feliz em me ver lá trás.
Sim, a minha voz saiu um pouco quebrada, mas eu pigarreei tentando disfarçar.
Rachel comprimiu os lábios, olhou para seus pais e voltou pra mim.
— Aqui não é o melhor lugar pra conversar sobre isso. — Ela comenta e respira fundo, olhando nos meus olhos. — Amanhã. Na ultima aula. Minha aula vai ser livre.
E eu não tinha aula pra dar naquele horário.
— Tudo bem. Tudo bem. — Suspirei e engoli em seco, pensando no que poderia falar agora pra diminuir o clima pesado que tinha ficado. — Pode ao menos me dizer porque ficou tão assustada quando me viu?
Rachel corou um pouco, me deixando curiosa. Ela colocou alguns fios de cabelo atrás da orelha, claramente tímida.
— É que... — Ela olhou pra seus pais mais na frente. Segui seus olhos e vi que Leroy tinha colocado Steph nos ombros. — Ela parece muito com você e...
— Você achou que ela fosse minha filha. — Concluí com uma risada e Rachel me acompanhou dando de ombros timidamente.
— Não me culpe por ficar assustada! A garota é a sua cara!
Ainda rindo, passei uma mão pelo cabelo e virei pra ver Steph apontando pra algo e Leroy lhe levando até aonde ela apontava.
— É impressionante que ela se pareça comigo já que passei tanto tempo sem nem conhecê-la. — Comentei sem pensar. Me arrependendo logo em seguida. A presença de Rachel fazia com que eu quisesse falar sobre minha vida inteira. E nem sempre isso é uma ideia inteligente.
Rachel me lançou um olhar confuso e virou-se completamente pra mim, cruzando os braços.
— Do que está falando?
Cocei a cabeça desviando o olhar.
— Realmente, não é um assunto pra o momento. — Olhei pra ela e dei de ombros. — Um dia eu te conto.
— Quando então?
Suspirei pesadamente e enfiei as mãos nos bolsos do casaco, dando de ombros.
— Não sei. — E saí andando.
Rachel me seguiu em silêncio e continuou em silêncio quando alcançamos seus pais. Hiram envolveu ela em um abraço apertado falando que estava frio. Steph ainda estava nos ombros de Leroy e parecia mais inquieta ainda.
Nós andamos mais um pouco até que minha irmã e minha mãe me alcançaram com Santana se arrastando atrás delas. Frannie lançou um olhar estranho pra Steph nos ombros de Leroy e pra mim que tinha deixado ela fazer isso. Minha mãe, por algum motivo, conhecia Hiram. E entrou numa conversa sobre comida para Ação de Graças. Rachel continuou distante e Santana cerrou os olhos pra mim o tempo todo.
Frannie se aproximou de mim lentamente enquanto nos aproximamos de um lugar pra sentar.
— Porque esse homem estava com a minha filha? — Ela perguntou quase rosnando com um sorriso no rosto. Arregalei os olhos pra ela e dei de ombros.
— Ela gostou dele.
— Sim, isso é obvio. — E nós duas olhamos para onde Steph estava com Leroy. Eles estavam sentados em cima de uma mesa com vários clicletes e balas entre eles. O que fazia? Bem, não sei. — Mas quem são eles? E porque mamãe os conhece?
— São os pais da minha aluna. — Apontei pra Rachel, que estava sentada ao lado de Santana com as bochechas coradas enquanto a latina falava alguma coisa bem baixinho.
O que porra Santana estava falando?
— É, bem... — Frannie voltou pra ver mamãe rindo com Hiram. — Acho que teremos convidados para Ação de Graças.
Meu corpo congelou com a ideia de Rachel no jantar de Ação de Graças na minha casa.
— Nem brinca com isso. — Murmurei sob a respiração e esfreguei as mãos na calça. — Acho melhor eu ir embora, amanhã tenho que acordar cedo pra dar aula.
Frannie acenou me olhando curiosa.
— Eu realmente queria saber o que tem na sua cabeça. — Ela resmungou e se afastou de mim ainda me olhando estranho.
Me despedi da minha mãe com um abraço, abracei também Hiram e Leroy antes de me aproximar de Rachel totalmente incerta. Vi que Leroy e Hiram estavam conversando com minha mãe e lancei um olhar pra Rachel, perguntando se poderia envolver meus braços nela.
Rachel sorriu e deu um passo pra perto de mim, envolvendo os braços na minha cintura. Claro que demorei alguns segundos pra processar o que ela fez, mas logo envolvi meus braços ao redor dela sentindo seu suspiro contra meu ombro. Um suspiro aliviado, o que indicava que ela estava aliviada por eu ter correspondido seu abraço.
Não durou muito tempo, claro, estávamos com nossas famílias. Nos separamos e ela me lançou aquele olhar timido antes de dar alguns passos pra trás e sorri timidamente pra Santana, que estava ao meu lado, me esperando pra ir embora.
— Então, que coincidência! — Foi a primeira coisa que Santana disse quando saímos do parque e começamos a andar para o meu apartamento. — Seus sogros e sua mãe já se conhecem!
— Cala a boca, Santana. — Pedi suspirando. Estava com coisa demais na cabeça pra pensar nisso. O que eu queria era conversar com Rachel e tirar esse peso da conciência.
— Ah, não porra! Passei a tarde toda sendo humilhada por você, agora quero falar alguma merda. — Ela bufa e eu reviro os olhos. — Tua menina sabe que eu sei de vocês. Como?
— Ela escutou quando você entrou na sala.
— Naquele dia? Ah mano, queria deixar ela assustada quando encontrasse com ela pessoalmente. Agora ela não acha que eu assusto. — E ela bufou mais uma vez.
— Você assusta? Por que alguém acharia isso?
Ela pareceu realmente ofendida com isso.
— Eu não acredito que você acabou de ferir a minha dignidade.
— Ah, cala a boca.
— Não, porra! Cala a boca você! — Ela apontou o dedo pra mim, nos fazendo parar. — O que porra tem de errado com você? 'Tá parecendo que te chutaram pra fora na mudança!
— Eu não pareço um cachorro. — Balancei a cabeça e Santana revirou os olhos.
— Sim, você parece. — E voltamos a andar, mas ela não terminou de perguntar. — Agora me diz logo, o que foi?
Suspirei pesadamente e deixei com que o que tinha na minha cabeça saísse, afinal, era Santana. Ninguém iria me julgar mais do que Santana, ao mesmo tempo em que, ninguém iria me ajudar mais do que Santana. Era perder pra ganhar.
— Acho que cometi um erro. — Comecei e Santana me lançou um olhar confuso.
— Quê?
— Com a Rachel.
— O que tem ela?
— Acho que... insistir nisso talvez não deva ser...
— Ah, pode parando por aí. — Ela me parou mais uma vez, segurando meu cotovelo. Ela me lançava um olhar do tipo 'você só pode ter enlouquecido'. — Primeiro de tudo: Quem iniciou tudo foi ela, não você.
— Mas...
— Cala a porra da boca e me deixa terminar. — Acenei bufando e ela continuou. — Segundo: Ela não é uma garota de doze anos, ela sabe o que quer, e se ela disse que quer você, ela vai atrás disso.
— Mas ela também não é maior de idade. — Voltei a andar com ela.
— Ela tem dezessete! Não é como se no ano que vem ela ganhasse maturidade mágica só porque fez dezoito!
— Mas ela deixa de ser uma criança nos olhos da lei. — Falei com um sotaque falsamente britânico e Santana revirou os olhos.
— Você não pode desistir de alguém só porque apareceu um obstáculo.
E antes que eu pudesse responder, tinhamos parado em frente ao meu apartamento. Santana olhou pra cima com os olhos franzidos. Ela também parecia surpresa.
— Eu sei que não. — Me virei pra ela. — Mas se ela não quiser... — Dou de ombros, derrotada. — Quem sou eu pra insistir?
Santana bufou e entrou no prédio, eu balancei a cabeça e lhe segui. Entramos no elevador e eu apertei o botão 5. Claro que ela iria passar mais uma noite no meu apartamento.
— Em algum momento, hoje, ela disse que não queria mais? — Satana me perguntou depois de alguns segundos de silêncio dentro do elevador.
Antes que eu pudesse responder, a porta abriu e alguém entrou. Era o homem alto e negro que morava no terceiro andar. Várias vezes me encontrei com ele no elevador e na academia do prédio. Ele sorriu pra mim e parou ao lado de Santana.
O elevador voltou a ficar silencioso até que parou no quinto andar e Santana saiu. Acenei para o rapaz e saí logo em seguida.
— Ela não disse. — Respondi e peguei a chave na bolsa. — Mas ela quer conversar e...
— E você vai conversar com ela.
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