Pandora
14 Capítulo XIV - Não Agir Sem Pensar
Notas iniciais
Capítulo XIV — Não Agir Sem Pensar
— Tudo bem pessoal, podem ir. — Falei quando terminei de ler as regras pra a próxima etapa do campeonato de História.
Eles iam saindo e me agradecendo. Eu sentia meu rosto esquentar com tantos sorrisos. Quer dizer que eu estava fazendo um bom trabalho. Isso era fantástico.
— Acha que temos chance? — Escutei e virei pra ver Artie Abrams sorrindo pra mim da sua cadeira de rodas. Ele foi rolando até chegar mais perto. — Todo mundo está bastante animado.
Dou de ombros. Somente ele, Tina e Rachel continuaram na sala. Rachel me lançou um sorriso timido quando eu olhei pra ela antes de me voltar para o garoto.
— O que importa é se divertir, senhor Abrams.
— Sim, claro. — Ele ri e cruza os dedos, se inclinando pra frente. — Mas acha que temos chance, professora?
Sorri e balancei a cabeça. Me inclinei pra frente, imitando sua posição, só que por cima da mesa.
— Sinceramente? — Ele acenou e eu dou de ombros mais uma vez. — Acho que poderiamos.
Artie sorriu e pelo que percebi, ele tentou fingir que não estava animado com a possibilidade. Cruzei os braços me empurrando pra trás na cadeira e pisquei pra ele quando Tina se aproximou e o empurrou para fora da sala.
Somente Rachel ficou na sala e ela estava andando na direção da porta, fechando-a e trancando-a, logo em seguida descendo a persiana da janelinha.
— O que tem nessa sua mente pevertidinha?
Mas minha pergunta só foi respondida quando ela sorriu maliciosamente pra mim e andou até ficar na minha frente, empurrou minha cadeira para ficar de frente pra ela e sentou no meu colo. Uma perna de cada lado. O peso de Rachel em minhas pernas fez meu ventre se apertar. Ela colocou as mãos em meus ombros e escorregou para mais perto do meu torso.
O sorriso malicioso não deixava seus lábios.
Ah, devo lhes lembrar, Rachel estava de saia. Uma saia bem curta.
— Rachel...
O riso que saiu dos seus lábios era maléfico demais pra ela.
— Decidi que vamos ter um encontro, hoje. — Ela sussurrou e desceu as mãos para as minhas que agarravam fortemente os braços da cadeira. Rachel tocou meus dedos antes de apanhar minhas mãos e colocá-las em sua cintura.
— Decidiu?
— Mmmhmm. — Ela se inclinou colocando as mãos em minha nuca, apertando-a suavemente. — E vamos pra sua casa.
Com essa eu arregalei os olhos.
— Rachel?
Ela me lançou um olhar timido.
— É que... eu quero passar mais tempo com você, Quinn. — Seu olhar implorava pra que eu aceitasse. — Não gosto que não temos liberdade aqui, e eu quero poder ter liberdade com você em algum lugar. Já que na minha casa não podemos, obviamente, pode ser na sua?
E eu continuava olhando pra ela.
As mãos de Rachel caíram pra minha camisa flanela. Ela passava os dedos pelos botões, desviando os olhos dos meus para suas mãos.
— Você tem ideia do quanto isso é arriscado? Se alguém ver você entrando na minha casa... — Eu tentei, mas o bufo irritado dela me fez parar de falar.
Olhou pra mim com o rosto franzido. Suas mãos se fecharam apertadas na minha camisa.
— Essa vai ser a desculpa que você vai usar sempre que eu quiser fazer algo com você?
Engoli em seco e desviei meus olhos dela. Olhando pra a parede cinza atrás dela. Rachel claramente não entendia o quanto estávamos arriscando nesse relacionamento, e mesmo arriscando muito mais do que ela, eu não queria falar sobre o assunto. O meu tempo com Rachel era bom demais pra estragar falando sobre esse tipo de coisa.
Mas era importante, e o que Rachel estava me pedindo, era demais.
— Rachel...
Ela bufou mais uma vez e empurrou-se para fora do meu colo, andando até a porta e virando-se pra mim com os braços cruzados. Seus olhos aguados fez meu peito apertar. Cruzei os braços e passei uma mão pelo cabelo, voltando para os braços cruzados. Eu estava me sentindo desconfortável.
— Quando você vai entender que nossos sentimentos são fortes demais pra ficarmos caladas? — Rachel rosnou e eu pisquei.
Ela estava certa. Eu sentia coisa demais por Rachel, e esses sentimentos que me movimentavam. Se eu não os tivesse, ou melhor, se eles não fossem tão fortes, eu não estaria nesse relacionamento com ela.
— Ou você esqueceu disso?
Levantei meus olhos pra ela e pisquei mais uma vez. O que eu possivelmente falaria? Seu tom era doloroso, e eu me sentia mal por isso.
— Desculpe, mas nós precisamos...
— Eu não quero escutar nada depois desse 'mas', nada que vem depois do 'mas' é coisa boa. — Rachel me corta antes que eu pudesse terminar. Engoli em seco e acenei.
— Tudo bem, sem 'mas'. — Passei a mão pelo cabelo mais uma vez enquanto sentia os olhos dela em mim. — Tem como voltar pra casa?
— Inacreditável! — Ela rosna e balança a cabeça.
Franzo o rosto e me levanto da cadeira, colocando a mão na mesa para me impedir de andar até ela e segurar seu rosto.
— Eu te deixo em casa, e penso melhor sobre esse assunto. Okay? — Sugeri e ela fez beicinho pra mim. Tentei não sorrir, desviando o olhar com um suspiro antes de voltar pra ela. — Eu preciso pensar sobre isso, Rachel. Você sabe o quanto estamos colocando em risco aqui.
E ela me encarou por alguns segundos, antes de acenar suspirando.
— Tudo bem. Eu sei. Você me deixa em casa e nós conversamos sobre isso depois. Entendi.
E ela foi até a sua mesa, apanhando suas coisas. Abaixei os olhos e os fechei. Rachel estava magoada por seus planos terem dado errado. E eu conseguia perceber isso por linguagem corporal.
Quando subimos na minha moto mais tarde, ela hesitou colocar as mãos na minha cintura, mas teve que fazê-lo quando liguei a moto. Mesmo assim, ela apenas apertava minha camisa. Rachel não querer me tocar, era um sinal claro de que ela estava magoada comigo.
— Te vejo amanhã? — Perguntei, o que era meio obvio. Amanhã era dia de semana e Rachel nunca faltava aula, mas saber que ela estava magoada comigo, estava me deixando insegura sobre essas coisas. O que era realmente estranho.
Rachel acenou e me entregou o capacete.
— Eu não falto aula.
— Eu sei que não, mas...
— Não se preocupe, professora. — Ela me encarou, engoli em seco. Esse 'professora' saiu tão seco que pareceu um soco no estômago.
— Tudo bem.
— Tudo bem. — Ela acenou e se afastou de mim.
Observei ela entrar em sua casa e o que passava pela minha mente, era: Porque ela não se despediu?
—_
Rachel estava oficialmente chateada comigo. Era obvio. Na primeira aula que tive com o terceiro ano, ela me ignorava completamente. Não me dava olhares, não sorria pra mim sempre que todos tinham a cabeça abaixada.
Foi realmente frustrante.
Então esperei até a hora do almoço. Quando ela não entrou na minha sala como normalmente fazia, me levantei e andei até a sala dos professores resmungando baixinho sob a respiração. Não tomei cappuccino hoje, então teria que me contentar com café na hora do almoço. E com Rachel me ignorando, eu não sentia fome. Então comeria no meu tempo livre, que é depois da próxima aula.
Eu não iria ficar esperando que Rachel fosse pra minha sala como geralmente fazia, se ela não queria ficar perto de mim hoje, eu não iria insistir.
— Quinn? — Escutei atrás de mim enquanto esperava minha xícara encher de café.
Virei e vi que Holly Holliday tinha o rosto franzido.
— Sim?
— Achei que não gostasse de café.
— Não gosto. — Respondo desligando a máquina quando minha xícara encheu. Apanhei ela tomei um gole, estremecendo e escutando a risada da mulher na minha frente. — Mas não tenho outra opção.
Holly cruzou só braços olhando pra mim enquanto eu tomava mais um gole do café, reprimindo mais uma careta.
— Sabe, o Lima Bean é bem pertinho daqui, podemos ir lá agora e tomarmos um cappuccino. — Ela sugere dando de ombros e eu cerro meus olhos. O que me garantia que ela não estava fazendo isso apenas pra fazer o que fez da ultima vez. Me beijar, no caso. Holly revirou os olhos. — Prometo que vamos só tomar um cappuccino.
— Tem certeza? — Pergunto colocando a xícara em cima do balcão e me virando pra ela.
Holly deu de ombros e soltou uma risada.
— Eu quero também uma fatia de torta, então não vai ser só cappuccino. Foi mal. — Ela deu de ombros e eu não consigo evitar uma risada.
— Ah, merda, você mentiu pra mim. — Levei uma mão ao peito, fingindo estar ofendida e ela ri comigo.
— Eu sei, eu sei, me desculpa. — Ela entrou na brincadeira usando um tom de lamento e riu mais uma vez.
Era uma cena estranha, tenho que admitir. Estávamos nós duas rindo e combinando de sair para comer alguma coisa. E, realmente, eu não queria negar. Tomar café não era algo que eu sentia vontade de fazer, principalmente depois de Rachel ter me ignorado a manhã inteira. Já bastava um gosto amargo na minha boca.
— Tudo bem então. — Enfio as mãos nos bolsos e aponto pra porta com um aceno. — Vamos para o Lima Bean.
Holly sorriu e acenou com a cabeça para que eu a seguisse.
Quando chegamos na porta da sala dos professores, me surpreendi ao ver que Rachel estava por perto. Ela estava de costas pra porta, de frente para os armários conversando com Kurt Hummel. Como ela não virou quando respondi alguma coisa que Holly me perguntou, tive certeza de que Rachel tinha escutado a conversa que tive com a mulher ao meu lado.
Soltei um suspiro que, com toda certeza, chamou a atenção de Holly, mas ela não comentou nada.
Nós continuamos saindo. Eu agi como se Rachel não estivesse ali. Sei que foi um movimento ruim, mas do mesmo modo que ela estava me ignorando por não ter tido o que queria, eu não poderia dar o braço a torcer e dizer que vai ficar tudo bem se ela vier na minha casa.
Eu precisava pensar no assunto. Não era algo que eu poderia pensar apenas com o que eu sentia por Rachel. Precisava da minha mente no assunto. E Rachel precisava entender isso. Nada que faziamos poderia ser feito sem pensar duas vezes.
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Meu humor estava muito melhor quando voltamos para o McKinley. Holly comentava sobre alguns alunos que ficavam desconfortávelmente excitados em suas aulas e eu não conseguia parar de rir e me engasgar com o cappuccino que trazia. Sempre que passavamos perto de algum aluno, ela soltava uma risadinha que me fazia rir junto com ela. Era irritante como ela conseguia me divertir exatamente como fazia anos atrás.
Nós andamos pelos corredores até pararmos em frente a minha sala, foi quando o sinal que indicava o fim do almoço tocou e ela soltou uma risada sem jeito.
— Chegamos na hora certa. — Disse e eu aceno vendo os alunos passarem por nós e entrarem nas salas.
— Sim, obrigada pelo cappuccino. — Aponto para o copo na minha mão e Holly dá de ombros. — Da próxima vez eu pago.
Os olhos de Holly brilharam e foi quando percebi o que tinha dito. Próxima vez.
— Quem sabe? — Ela comenta e ri mais uma vez, totalmente em jeito. E é a primeira vez que vejo que Holly realmente está sem jeito.
— É, quem sabe?
E sorri mais uma vez, entrando na sala quando ela acenou pra mim e virou de costas para ir pra sua sala, que era na frente da minha.
Os alunos do quarto ano iam entrando na minha sala quando me sentei na cadeira. Tomei alguns goles do meu cappuccino enquanto acenava para cada um que entrava. A aula passou rápido. Como geralmente fazia quando os alunos do quarto ano se sentiam cansados demais pra prestar atenção na aula, ou até mesmo cansados demais pra fazer alguma bagunça.
De certo modo, eles eram bons alunos.
O resto do meu dia não foi diferente, tirando pelos alunos do primeiro ano, que estavam impossiveis. Passei uma atividade que vale ponto e eles se acalmaram em duplas pra fazerem. E eu apenas fiquei ali, pensando se eu encontraria Rachel antes que o dia acabasse.
Mas quando eu subi na minha moto pra voltar pra casa, tive certeza de que isso não iria acontecer.
Então apenas liguei a moto e saí do estacionamento, dirigindo até o meu apartamento. Realmente decepcionada que só veria Rachel depois do final de semana.
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— É, não posso dizer que você 'tá errada. — Santana comentou de boca cheia no sábado quando estávamos sentadas no meu sofá comendo a pizza que eu fiz. Ela estava aqui desde ontem e não parecia querer sair. Então contei pra ela o que Rachel sugeriu e sua reação depois que neguei. — Mas você magoou a garota. Ela, provavelmente, é menina mimada, não aceita um não como resposta.
— Ela não é...
— Como você sabe disso? — Santana finalmente parou de falar de boca cheia e eu fecho os olhos por alguns segundos, balançando a cabeça antes de suspirar e abrir os olhos.
— Tudo bem, ela é mimada. — Concordei. Não era mentira. Rachel era uma garota mimada.
— Sim, ela é. — Santana se inclinou e pegou a garrafa de cerveja, tomando um gole antes de colocar de volta e voltar-se pra mim. — Mas você a magoou também. Ela quer passar um tempo só com você, e achou que aqui seria o melhor lugar.
— É muito perigoso... — Suspirei e coloquei o prato vazio na mesa de centro, pegando a minha cerveja. — Se algum aluno, ou professor, ver ela por aqui...
— Sim, é perigoso. — Santana coloca mais uma fatia de pizza no seu prato e me lança um olhar que me deixou confusa. — Mas não custa tentar.
— Santana...
— Ela gosta de você, você gosta dela. — Santana dá de ombros e morde a fatia. — As chances de alguém ver alguma coisa é de cinquenta por cento!
— E os outros cinquenta?
— Joga pra cima. Ninguém sabe que você mora aqui, Quinn. Diz pra ela o endereço do apartamento, ela vem pra cá e vocês fazem o que quer que querem fazer. — E ela balança a mão em descaso. — Mas use proteção!
Revirei os olhos e levantei do sofá, pegando o prato vazio em cima da mesa de centro e indo na direção da cozinha. Santana estava certa. Ninguém sabia que eu morava nesse apartamento, se virem Rachel chegando, não fariam ideia de que ela estava vindo até mim.
Então estaria tudo bem.
Quando acordei no domingo de tarde, minha mente já estava trabalhando em maneiras de conversar com Rachel e explicar o que fariamos. Ela, obviamente, estava chateada comigo, exatamente como Santana tinha dito.
E, provavelmente, tudo estaria pior depois do que aconteceu na sexta. Ela me viu conversando com Holly, e claramente não gostou daquilo. Ela me ignorou um dia inteiro. Como vou fazer pra falar com ela na segunda? Bem, não faço a minima ideia.
— Vamos fazer alguma coisa hoje? — Santana irrompeu pela porta do meu quarto.
— Porra, Santana! — Sentei na cama com o susto e passei a mão pelo cabelo enquanto escutava a risada dela.
— Não acredito que você realmente se assustou. — Ela cruzou os braços rindo e revirou os olhos. — Eu 'tô a meia hora falando com você da cozinha e você 'tava me ignorando?
— A porta estava fechada! — Apontei pra porta aberta e joguei os cobertores pra lado e levantei da cama. — O que você 'tava falando?
Santana revirou os olhos mais uma vez e sentou na minha cama, os olhos me seguindo enquanto eu arrumava algumas roupas pra tomar um banho.
— Quero fazer alguma coisa hoje. — Ela resmungou e eu murmurei alguma coisa pra sinalizar que estava escutando. — Não tem nada pra fazer.
— Hoje é domingo.
— Sim! Eu sei, mas não quero ficar em casa. — Ela se joga pra trás na minha cama.
— Você está na minha casa, não na sua.
— Tanto faz, quero sair pra algum lugar.
— Hoje é domingo, não tem lugar nenhum pra sair. — E fechei a porta do banheiro, escutando os resmungos dela.
Tomei um banho quente e vesti uma roupa confortável, me preparando pra passar o dia inteiro na frente da televisão assistindo filmes e séries no Netflix.
Mas quando sair do banheiro, Santana ainda estava sentada na cama, só que com o meu notebook no colo, teclando rapidamente.
— O que 'tá fazendo? — Perguntei jogando a toalha no cesto de roupa suja e cruzando os braços pra ela.
— Procurando algum lugar aqui perto que tenha alguma coisa boa pra fazer.
— Não tem nada pra fazer num domingo, Santana.
— Achei.
Franzi o rosto e sentei ao lado dela. Santana virou a tela do notebook pra mim.
— Um festival?
— Sim, vai ter um festival pré-halloween. — E ela voltou o notebook pra ela. — Acho que vai ter banda e tal. Nós vamos.
— Santana, eu tenho que trabalhar amanhã, e você também. — Lembro e ela bufa.
— Não precisamos ficar até tarde e nem beber, só vamos. Não quero passar o dia em casa.
— Você está na minha casa.
— Tanto faz.
—_
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