Pandora
2 Ii
Notas iniciais
II.
A melodia ecoava pelo cômodo, lenta e dolorosamente preenchendo-o com seu veneno adocicado, matando-o tentadoramente a cada nota tocada de maneira insaciável. A menina deixava que a música a dominasse cada vez mais profundamente, se deixando ser possuída enquanto sua alma era-lhe tomada de um jeito delicioso. Não se arrependia de estar ali, não conseguia se arrepender.
Deixou que seus dedos se tornassem independentes, brincando com as teclas do piano empoeirado em sua frente, criando lindas e desgraçadas cantigas de ninar que um dia já lhe foram relaxantes. Hoje tinham se transformado em uma marcha fúnebre, espalhando um rancor que não deveria existir.
Mas a garota não se importava com a natureza mórbida de suas notas, ela não temia o que poderia acontecer se continuasse tocando. Naquele momento, sua vida se resumia em uma perfeita partitura. Porém, no entanto, não tinha o luxo de cometer um erro, sendo que o menor deles poderia estragar sua melodia criada no desespero em procurar uma luz que iluminasse seu fatídico caminho, resultando em uma dolorosa morte sem piedade ou culpa. Ela sabia disso.
E por saber de sua condição, pôde sentir lágrimas cortantes descerem por seu rosto, contornando-o delicadamente enquanto o nó em sua garganta tornava difícil a respiração. Ela só queria sumir, correr para longe das brigas, da discórdia causada por seus erros, da dor que tivera ao cair, de tudo o que um dia ela já tinha deixado pra trás. Ela queria desesperadamente ser feliz, mas a tarefa lhe parecia impossível no momento. Ela estava sendo abandonada novamente.
A música tomou um ar mais melancólico, expressando seus sentimentos corruptos sobre as teclas inocentes de um piano amargurado. Ela queria que alguém lutasse por ela, que alguém se importasse, mas odiava a pena nos olhos daqueles que a assistiam. Por um momento, ela queria gritar, confrontá-los, quebrar suas regras e cuspir em suas faces minuciosamente esculpidas, mas ela sabia que não poderia fazê-lo. Tocou em silêncio seus sentimentos mais obscuros, expressando-os em forma de uma triste melodia, enquanto lágrimas insistiam em sair de seus olhos agora inchados. Ela não emitia som ao chorar, e aquilo lhe parecia tão doloroso quanto se estivesse berrando aos céus suas dores.
Quanta coisa já tinha deixado para trás... Desejava voltar no tempo para se impedir de abrir aquela maldita caixa, tentando desesperadamente mostrar a si mesma de que os monstros não eram tão tentadores assim. Por mais deliciosa que seja a sensação de mergulhar no desconhecido incrivelmente seduzente, não era digna de tal e tinha pleno conhecimento disso. Mas sua infantilidade pôs sua cabeça a forca, e esperava desesperadamente conseguir sobreviver.
Mas sobreviver pra quê? Ela não tinha uma meta. Seu sonho era ser feliz, e apenas ser feliz. Talvez não demonstrasse isso, talvez ela nem devesse demonstrar em si, mas ela ansiava pela felicidade de uma forma insana. Talvez fora por isso que acabou abrindo a caixinha e se deliciando com seu conteúdo avassalador. Porém agora, naquele inoportuno momento, ela se via sem algo em que acreditar. Sabia que seu sonho nunca seria realizado, e agora encontrava-se sem algo para que lutar, sem alguém para valorizar sua luta. Ela estava completamente sozinha.
Lentamente a música foi se esgotando. Caindo na desgraça do silêncio cortante e constrangedor. Não haviam aplausos, não haviam ouvintes. Sua luta contra as notas nunca fora prestigiada, e agora ela se via tomada pela escuridão que um grito mudo lhe causava. Sentia-se desprotegida sem a melodia que antes preenchia seus ouvidos de maneira confortadora. Sentia-se imunda por ter acreditado que a música iria durar para sempre e curar-lhe de todos os seus pecados malditos. Sentia-se traída, sentia-se injustiçada. Novamente, desejou morrer.
Por mais que o sentimento seja egoísta, a morte agora lhe era tentadora, apesar de já ter sido tentada com várias coisas. Descanso eterno, sem alguém para lhe importunar, sem mais gritos, sem mais lágrimas, sem mais a dor que dilacerava seus ossos. Aquilo não era o que sempre quis? Talvez a definição de felicidade fosse viver em mundo sem preocupação, descansando eternamente em seu leito cheio de rosas brancas que acariciavam sua pele a sete palmos de terra.
Sentia como se a morte fosse sua única saída, e talvez realmente não estivesse completamente errada. A morte era sua salvação, e não podia discutir quanto a isso. Mas ela queria correr pelos campos mais uma vez, sorrir em companhia de seus pais mais uma vez, amar seu amor eterno mais uma vez, sentir o vento em seu rosto mais uma vez. Antes de partir, ela queria ser feliz mais uma vez. Ela sabia que a morte lhe daria sua tão tentada felicidade, mas ela também sabia que aquilo não lhe seria suficiente. Não era uma felicidade pura, mútua. E sentia-se culpada por roubar uma felicidade que não lhe era de direito. Não era sua hora.
A verdade era que não era ela quem deveria estar ali, aquela não era a vida que lhe fora planejada. A morte não lhe convidara, e a felicidade do descanso eterno era destinada a outra pessoa que merecia aquilo. Mas lhe era tão convidativo, tão tentador... A vontade de tê-la para si era insaciável, e sentia-se satisfeita em saber que o sopro gélido de uma morte calma lhe aguardava mais a frente. Morreria dormindo, sem precisar se arrepender de seus pecados enquanto a vida lhe abandonava. Não era perfeito? Não era tudo com o que sempre sonhou?
O copo em cima do piano reluzia um líquido incolor que lhe parecia delicioso. Lambeu os lábios uma, duas, três vezes, tentando decifrar o gosto daquela bebida que logo depois se mostrou amarga e horrível. Ela não tinha mais tempo para se arrepender, uma vez que agora todo seu corpo já estava sendo tomado e o veneno cuidadosamente já circulava por entre suas veias. O gosto terrível da morte agora estava em sua boca, seu corpo agora se encontrava em estado agridoce. Não sentia dor, mas também não sentia como se tudo estivesse bem. Ela podia perceber que a vida estava se esvaindo, podia sentir sua alma lhe abandonando sem qualquer remorso ou sem nem mesmo se questionar ou olhar para trás em um pequeno sinal de afeto ou pena. Estava completamente sozinha.
Mas ela conseguiu, certo? Encontrou sua felicidade em meio ao eterno negrume por baixo de suas pálpebras, ou pelo menos era isso que esperava. Mas ela merecia uma punição por ter aberto a caixa que implicitamente nunca deveria ter sido encontrada, quanto mais decifrada. Ela sofreria pelo resto de sua vida imortal, não possuía o direito de morrer. Sua alma vagaria por sua mente corrupta, enfrentando todos os monstros libertados por Pandora.
Deixou com que sua cabeça caísse sobre as teclas do piano, criando um estrondo que judiaria dos ouvidos de um músico. Sem mais cantigas, apenas o silêncio. Sem mais luz, apenas a escuridão. Sem mais calma, apenas a dor. Sem mais vida, apenas a morte. Aquelas notas nunca mais seriam tocadas novamente.
Pandora... Abra os olhos.
Fale com o autor