Palpitation
2 Capítulo 2 - Brecha
Notas iniciais
Como esperado, a noite do lançador da Shutoku foi realmente conturbada. Após chegar a casa, ele jantou e se encaminhou para o banho, o que foi provavelmente o que mais lhe tomou tempo naquela noite. Cada pessoa possui um lugar no qual pensa melhor e para Midorima, este lugar era dentro da banheira ou enquanto manipulava a bola de basquete. Depois de ajeitar-se confortavelmente, ele começou a organizar os pensamentos em sua cabeça. Kazunari Takao havia se confessado para ele. A única pessoa que ele permitiu que se aproximasse de verdade e lhe acompanhasse em quase todos os momentos estava apaixonada por ele. Mas e Shintarou? Como ele se sentia em relação à Takao? Era estressante a forma como o moreno o irritava, mas de certa forma, ele gostava daquilo. Ficou surpresa ao perceber que não lembrava mais como era sua vida antes de se aproximar do armador. Pode-se dizer que a mudança foi bem significativa. Depois de se aproximarem, Midorima conseguiu se relacionar com os seus colegas de time. Além disso, apesar de às vezes fazer graça, ele é um dos poucos que não contesta suas manias, como por exemplo, o costume de enfaixar os dedos e a sua crença no horóscopo Oha Asa, o qual verifica todos os dias antes de sair de casa, levando consigo o objeto aconselhado. Então, o que Takao significava para ele? Um amigo? Não, não era isso. A amizade não era uma boa palavra para descrever a relação deles. Então qual palavra seria? Ele também não tinha essa resposta. O rapaz de cabelos verdes suspirou brevemente e fechou os olhos, descontente por ainda não ter chego a nenhuma conclusão. Enquanto bagunçava seus próprios cabelos na esperança de encontrar alguma resposta, uma pergunta lhe veio à mente. Ele seria capaz de abraçar Kazunari? Beijá-lo? Dormir ao seu lado? Nada disso lhe causava desconforto, mas não sabia se conseguiria fazê-lo. O que deveria fazer? Ele tinha prometido uma resposta e não queria fazer o outro esperar, mas não poderia simplesmente deixar as coisas assim e agir por impulso. Talvez ele devesse tentar fazer algo? Sim, talvez. Mas o quê? Com esses pensamentos, ele adormeceu.
Após duas horas, o lançador acordou assustado e seus olhos se arregalaram um pouco ao perceber onde estava. Ele havia dormido na banheira e agora a sentia como se estivesse congelando,pois a água tinha esfriado. Apressou-se em sair da banheira, secar-se e vestir uma roupa bem quente para dormir em sua cama, que era o lugar adequado para tal. Enquanto se encaminhava para a cama, percebeu que ainda não tinha decidido o que fazer. De qualquer forma, não adiantava pensar em nada daquilo agora, pois agora ele precisava descansar.
Na manhã seguinte
Acordou, mas teve dificuldade em abrir os olhos. Suas pálpebras pesavam e, de alguma forma, queimavam, apesar de estar sentindo muito frio no resto de seu corpo. Tentou se sentar,porém a imagem a sua frente embaçou completamente e seu corpo vacilou,fazendo-o voltar a deitar. A julgar pelos sintomas, era apenas uma gripe, mas sentia que estava com febre. Esticou o braço e abriu a gaveta do criado-mudo ao lado de sua cama e retirou do mesmo um termômetro. Colocou-o debaixo do braço e esperou até que ele apitasse, revelando a temperatura de 37,7°C. Levou a mão novamente até a gaveta e a vasculhou, mas não encontrou o remédio que costumava guardar ali. Provavelmente, havia acabado e ele se esqueceu de repor. De qualquer forma, ainda tinha uma cartela no primeiro andar, mas ele não tinha a mínima vontade de levantar naquele momento. Seu corpo doía e suas pálpebras pesavam cada vez mais, até que, por fim, ele cedeu e voltou a dormir.
No colégio, Takao olhava continuamente para o relógio, mas não importa o quanto esperasse Midorima não chegava. Ele estava preparado para talvez ser ignorado o dia todo, mas sabia que o lançador não costumava se atrasar e muito menos fugir,mesmo com a situação atual entre os dois. Os minutos passaram e a aula começou o que só causou preocupação ao moreno. Procurou por alguma sms em seu celular, mas não tinha nenhuma. O que havia acontecido? Talvez algum problema com o trem? Não, eles teriam noticiado no jornal matinal. Por fim, resolveu mandar uma sms. ‘’Shin-chan,você está bem?''. Digitou e apertou a tecla de enviar, enquanto suspirava. Ao ler a mensagem que confirmava que o seu sms havia sido enviado, fechou o celular e tentou prestar atenção na aula. Ele pelo menos poderia fazer anotações para o maior.
As horas praticamente se arrastaram e aquilo o irritou muito. Demorou a receber a sms dizendo ‘’Sim,eu apenas peguei uma gripe. Eu irei amanhã’’,mas aquela resposta só lhe fez desejar que as horas passassem mais rápido para que ele pudesse visitá-lo. Shintarou morava sozinho, então imaginou que uma situação assim seria complicada. Compraria alguns remédios e alguns ingredientes para o jantar no caminho e cuidaria dele. Sabia que provavelmente seria recebido com frases nada dóceis, como ‘’O que você está fazendo aqui, idiota?’’ ou ‘’Eu posso me cuidar sozinho’’, mas isso não o impediria. De qualquer forma, ele também amava esse lado de Midorima e agora só desejava poder ajudá-lo.
Finalmente as aulas acabaram e Takao apressou-se em conversar com o técnico sobre o lançador e pedir dispensa do treino, para então se dirigir a casa do outro. Após meia hora, o moreno tocou a campainha e, como esperado, ninguém atendeu. Percebeu que a porta não estava trancada, então a abriu lentamente e murmurou um ‘’Com licença’’, enquanto se encaminhava para a cozinha e colocava duas das três sacolas no balcão, ficando apenas com a que continha os remédios. Pegou um copo de água e se dirigiu para as escadas, subindo-as rapidamente. Deu duas batidas na porta.
– Estou entrando. – Disse, enquanto abria a porta e adentrava o local.
– Takao? O que você está fazendo aqui?- Respondeu com a voz um pouco abafada por estar debaixo do cobertor, apenas com os olhos visíveis. O outro logo notou a ausência dos óculos.
– Eu vim cuidar de você, Shin-chan- Brincou e se aproximou da cama.
–Eu posso me cuidar sozinho, nanodayo~- Murmurou e a única coisa que o outro pode fazer foi rir e sussurrar um pequeno ‘’Sabia que diria isso. ’’
– Já tomou algum remédio? Jantou? Tomou banho?- Interrogou, enquanto colocava a sacola e o copo de água sobre o criado-mudo.
–Não. — Virou-se para o lado,ficando de costas para o outro.
– Eu farei algo para você, então tome este remédio e vá para o banho. – Cutucou a cabeça de Midorima com a caixa de remédio, e o mesmo logo se virou e pegou a caixa de sua mão.
–Sério, por que veio aqui?- Perguntou, enquanto descobria-se e se sentava na cama, revelando uma imagem um tanto impressionante para Takao.
A blusa um pouco grudada ao corpo pelo suor e as bochechas completamente vermelhas fizeram os olhos do moreno brilharem por alguns instantes. Se não soubesse que ele estava doente,talvez pensasse que ele estava envergonhado. Takao abriu um grande sorriso e levou a mão a testa do maior,afastando delicadamente a franja que cobria sua testa para sentir sua temperatura.
–Porque eu estava preocupado. Ei, quanto estava da última vez que tirou sua temperatura?- Perguntou ao perceber o quanto o outro estava quente.
– 37,7°C – Sem tentar afastar a mão do menor, tentou levantar, mas sua visão embaçou novamente e os seus ossos pareceram congelar.
–37,7°C? E mesmo com febre, você não tomou remédio? O que deu na sua cabeça?- Repreendeu-o, enquanto buscava desesperadamente o termômetro na gaveta do criado mudo. 39°C. Não era esperado um resultado diferente, mas isso só fez com que o armador ficasse mais preocupado. Não era costume de Midorima se descuidar assim.
–Fique quieto e me ajude a levantar. — Pediu em um sussurro e o moreno tratou logo de atendê-lo.
–Você poderia pedir com mais carinho. –Brincou,enquanto passava o braço direito de Midorima por cima de seu ombro,apoiando-o. Calmamente o guiou até o banheiro e só o deixou quando ele confirmou que o rapaz de cabelos esverdeados estava bem o suficiente para tomar banho sozinho.
Encaminhou-se logo para cozinha e tratou de preparar um mingau de arroz. Como era quente, ajudaria a aquecer Midorima, além de ser bem leve, o que não lhe causaria problemas. Quando estava pronto, arrumou tudo em uma bandeja e se dirigiu para o quarto do outro, que já estava enrolado novamente em seu cobertor.
–Shin-chan, eu trouxe um pouco de mingau para você. — Disse,enquanto colocava a bandeja sobre o criado-mudo.
–Eu estou sem fome... — Murmurou,imóvel.
–Tente comer ao menos um pouco. Não é bom tomar o remédio com a barriga vazia. – Insistiu, preocupado com o lançador.
–Certo... — Descobriu-se e se sentou,tremendo um pouco. Estendeu a mão para Takao que lhe entregou a tigela e a colher, e logo começou a comer, em silêncio. O moreno ficou surpreso com a reação do outro que cedeu facilmente, mas apenas sentou na cadeira ao lado da cama e o observou. Como esperado, aquilo aqueceu um pouco Midorima, que agora já comia sem tremer. Era estranho vê-lo daquela forma. Ele sempre parecia tão forte, mas agora parecia um pouco fraco diante do armador. Quando terminou, entregou a tigela a Kazunari e colocou o remédio na boca,engolindo-o junto com a água e logo depois se deitou,fechando os olhos. No entanto, os abriu rapidamente quando sentiu algo gelado sobre si e pode visualizar o moreno ajeitando o lenço molhado em sua testa, enquanto sorria. Nem em seus pensamentos mais estranhos já se imaginou numa situação como essa. Tê-lo cuidando dele quando estava doente era algo irritante, pois não gostava de depender e parecer fraco na frente dos outros, mas de alguma forma era agradável. Um leve sorriso surgiu em seus lábios e isso surpreendeu tanto a Midorima, quanto a Takao que o observava. Apesar da bagunça em sua mente na noite passada, agora uma coisa estava realmente clara para Shintarou. Ele gostava da presença de Takao. Agradava-lhe que ele estivesse ali naquele momento, mesmo que não gostasse de companhia quando estava doente. Ele estava agradecido e tentaria agradecê-lo apropriadamente depois. Por enquanto, apenas se renderia ao sono que o remédio lhe proporcionava.
Ao lado da cama, Kazunari observava o seu amado dormir tranquilamente, com uma expressão quase rara em seu rosto. Ele desejava tirar uma foto para guardar aquela expressão para sempre. Não pode conter um grande sorriso e,um pouco hesitante,levantou o lenço molhado que tinha colocado sobre a testa do maior e desferiu ali um pequeno beijo, que não afetou em nada o sono do lançador. Ainda que o rapaz de cabelo verdes não tivesse lhe dado uma resposta, estava feliz pela pequena abertura que havia conquistado.
Na manhã seguinte
Ao sentir a luz matinal diretamente em seus olhos ainda fechados, colocou o braço direito sobre os olhos, mas não adiantou. Levantou-se e se espreguiçou demoradamente, sentindo-se revigorado. Não havia sobrado nenhum sintoma da gripe. Encaminhou-se para o banheiro para fazer sua higiene e trocar de roupa,e logo depois foi para a cozinha preparar seu desjejum. Enquanto comia, verificou o Oha Asa e o item da sorte hoje era uma tesoura vermelha. Fácil, havia uma especial para esses dias. Continuou lendo os outros tópicos e seus olhos arregalaram levemente ao ler uma determinada parte. Após finalizar a leitura, esboçou um leve sorriso e ajeitou seus óculos com o indicador. Era hora de agir.
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