Pale Dreams
1 Meet Us
Notas iniciais
Chego em casa e me deparo com Amelie deitada no sofá da sala, com nossa gata, Cindy, no colo, vestindo apenas uma camiseta dos San Francisco 49ers e uma calcinha. Parece-me tão serena, vendo um programa sobre uma antiga tribo na Dakota do Norte na televisão, suas mãos acariciam o felino que repousa acima de sua barriga.
—Cindy, venha cá! –chamo meu miau para perto de mim.
Amelie se levanta, anda em minha direção, enquanto eu pego Cindy no colo, e me dá um rápido selinho.
—Chegou cedo da editora hoje, Sam.
—Aham, o fechamento é só semana que vem, ainda estou relax. –falo e dou uma leve risada, olhando para os quadros na parede da sala de estar.
Fotos minhas e de Amelie ilustram as divisões da casa. Desde o dia em que nos conhecemos, passando pelo dia de nosso primeiro beijo, até o dia de nossa mudança para a casa em que estamos morando hoje. Tudo exposto, em quadros, contendo momentos maravilhosos de nossa vida juntas.
Solto Cindy no chão e me direciono para a cozinha. Abro a porta de um dos grandes armários brancos e pego um copo, empurro com o mesmo, uma pequena fenda na porta da geladeira que libera água para dentro do recipiente. Inundo minha alma com o liquido gelado, pensando na capa da próxima edição da Cosmopolitan.
Como editora-chefe, escolho diversos aspectos de uma revista, como, por exemplo, a capa, que sempre contém a modelo ou atriz do momento, que será fotografada para fazer parte de, além da capa, uma das reportagens do interior da publicação.
Saio de meus devaneios e sigo ao encontro de Amelie, que me saúda com o melhor sorriso do mundo. Me sento no sofá e solto um leve suspiro.
—Dia cheio hoje? –questiona Mellie, de modo doce.
—Nossa, demais! Recebi alguns convites para os desfiles do próximo mês, em Milão, mas nem sei se vou, a Yves está entrando no oitavo mês, não posso perder a chance de ver o nascimento da minha primeira sobrinha. –comento sobre o nascimento da filha da minha única irmã com Mellie, que se acende ao lembrar que, em breve, teremos um bebê na família.
Yves é minha irmã mais velha, tem 30 anos, depois vem Michael, de 26 anos. Por fim, minha mãe teve a mim, a mais nova, com 21 primaveras. Sempre fui a princesinha da família, fato que tornou mais difícil contar para eles que eu possuía um relacionamento com uma menina.
Yves é casada com Paul há 3 anos. Eles moram em Sun Lakes, no estado do Arizona. São o casal mais apaixonado que conheço, e o que mais briga também. Não há um dia se quer que eles não tenham uma discussão, mas sempre acaba bem. Ela está gravida de Alice, que vai ser geminiana, como eu.
Michael namorava uma garota nova a cada semana, até que conheceu Lucy em uma balada. Eles passaram a noite juntos e, pela primeira vez, Michael ligou no dia seguinte. Até agora estão “só love”, juntos há dois meses. Papai e mamãe ainda não a conhecem, talvez pelo fato do pouco tempo de namoro, talvez pelo fato deles morarem longe de nós, em nossa cidade natal, Sugarland, no Texas.
Saio de meus devaneios quando Mellie desliga a televisão, levantando e ajeitando sua calcinha.
—Vamos subir? Feche a porta da sacada, está ventando demais hoje. –pede enquanto coloca ração para Cindy e fecha seu portãozinho no batente da porta da cozinha.
Amelie sai do banho e me olha com uma cara peculiar, enquanto escovo os dentes. Cuspo a pasta e enxaguo a boca. Ela se enrola em uma toalha felpuda. Prendo o cabelo em um coque. Sai andando em demorados e sensuais passos até o dossel da cama. Acompanho cada momento minuciosamente. Vejo o pingar da água dos cabelos negros dela até o chão. Sua pele pálida me parece levemente reluzente à meia luz em que nos encontramos no quarto. Ela olha para mim e morde o lábio inferior. Puta merda. Ela não aguenta e solta uma deliciosa risada. Tiro a blusa de meu pijama e a coloco na poltrona ao lado da porta do closet. Viro de costas para Mellie e retiro o short que pendia em meus quadris. Escuto um suspiro majestoso. Ah sim. Duas podem jogar esse jogo. Pego o livro, que comprei hoje, na bolsa e me dirijo à cama. Deito e pouso os olhos na primeira pagina de To Kill a Mockingbird. Apenas escuto minha namorada bufando e deitando ao meu lado. Sim! Ela vai começar a fazer charme! Tudo bem, vamos ver até onde eu aguento me segurar para não enchê-la de beijos. Sinto Mellie dedilhando a lateral da minha coxa esquerda, subindo a mão até meu quadril. Passa rapidamente pelo meu baixo ventre e se prolonga na minha barriga. Me arrepio. Não ouso tirar os olhos do livro. Sinto um apertão em minha cintura. Ela está irritada por que não olho para ela!
—Tá lendo o quê, Samantha? –pergunta, claramente, irritadiça.
—“O Sol É Para Todos”, Mellie. Porquê? –a respondo, abaixando o livro, dando um meio sorriso e olhando para ela.
Em um rápido momento, tenho o livro retirado de minhas mãos e jogado na mesa de cabeceira. Meus lábios são tomados. Inicia-se um beijo cheio de desejo. Mellie passa uma perna para cada lado do meu corpo, ficando encima de mim. Beija meu pescoço e sinto o inebriante aroma de seus cabelos. Deslizo minhas mãos pela sua toalha e a retiro de seu corpo. Troco de posição com ela, que enrosca o dedo na minha calcinha, a puxando para baixo. Sinto um calor inexplicável percorrer pelo meu corpo.
Se eu pelo menos pudesse descrever o meu amor por ela...
O dia amanhece e o despertador toca. Olho para o lado e vejo Mellie abaixo de um emaranhado de lençóis bege. Sento na lateral da cama e encosto, levemente, os pés no chão. Um formigamento estranho sobe pela minha espinha. Caminho até o banheiro e escovo os dentes. Como que ela consegue fazer essa bagunça toda na pia? Olha isso, tem pasta até no espelho! Ela deve ter sujado isso ontem à noite... Vou em busca do meu celular e ouço o som do acordar da menina de cabelos negros.
—Bom dia... –Mellie grunhe enquanto abre um sorriso.
Lhe dou um selinho e parto para o closet, procurando uma roupa para o trabalho. Escolho um vestido Valentino, combinando com um par de sandálias Sophia Webster, que chegaram recentemente pelos correios ao QG da Cosmopolitan. Talvez uma das melhores partes de ser editora chefe, seja os presentes que recebo.
Desço para a cozinha e encontro Mellie esquentando a água do nosso chá. Coloco uma medida de ração para Cindy, que, por acaso, deveria fazer uma dieta! Enquanto a água não ferve, abro o email no celular e respondo os de maior urgência, apenas enquanto não chego no escritório.
Me despeço de Amelie e entro no carro, um Audi a7 prateado. Jogo minha bolsa para o banco de trás e ligo o carro. Ajeito o espelho e seleciono Backstreet Boys no iPod conectado ao rádio. Coloco os óculos de sol e dou partida, fazendo com que os pneus soem auto em meus ouvidos, me distanciando de Mellie e nossa casa. Rapidamente chego à portaria de nosso condomínio, em Santa Rosa, apenas uma hora e meia de São Francisco. Encosto meu dedo no leitor de digitais e o portão, rapidamente, se abre. Acelero com o carro e pego a estrada de Penngrove.
No meio do trajeto paro em um posto, para comprar mais um chá. Desta vez, gelado. Saio do carro e me dirijo à loja de conveniência. Sinto minha bolsa vibrar, deve ser o celular, o pager da Cosmo está sem bateria. Vejo o visor do iPhone, é da casa da Yves. Meu coração dispara, e eu gelo.
—Sam? Aqui é Paul, Yves teve descolamento de placenta, a ambulância tá chegando aqui agora, mas acho melhor você vir pra cá! –mas que merda...? Meu cunhado grita através da linha.
Por um momento, paraliso e não sou capaz de responder. Paul me grita do outro lado do telefone.
—Já estou indo comprar as passagens, faça com que de tudo certo, pelo amor de Deus. Vou avisar Michael.
Desligo o telefone e corro para o carro, sem chá e sem consciência. Aperto o botão que dá a partida no carro e piso fundo na ré do carro, para sair da vaga. Em uma rápida arrancada, já estou no meio da pista, em direção à minha casa. Preciso pegar Mellie e ir para o aeroporto.
Nem entro com o carro na garagem, apenas o deixo na rua e saio em direção à porta de casa. Busco a chave na minha bolsa, que mais parece um universo de inutilidades. Tem tudo, menos a chave da porta. Entro em desespero. Quando finalmente acho a chave, a retiro da bolsa e ela cai no chão. Merda! Parece que tudo esta dando errado hoje. A encaixo na fechadura e rodo para abrir a porta. Corro para dentro de casa e jogo a bolsa no sofá do hall. Grito Mellie e rapidamente a vejo com os olhos esbugalhados no topo da escada.
—Me pega um pijama e calcinha, a gente vai ter que ir pra Sun Lakes, a Yves tá no hospital.
Sem perguntar nada, Amelie corre para o quarto, enquanto eu pego o notebook e a Longchamp de viagem. Coloco o MacBook na primeira bolsa de laptop que acho na gaveta da escrivaninha de trabalho e aperto o passo para chegar à escada. Subo pulando um degrau a cada vez, o que me faz tropeçar, apoiando as mãos já no piso superior. Que ódio! Tudo tá dando errado hoje!
Estaciono o carro no San Francisco International Airport e já vou abrindo a minha porta do carro. Retiro algumas bagagens do porta malas e Mellie também o faz. Saímos em retirada para a entrada do local. Uma rajada de vento frio passa por mim assim que entro no recinto. Parto para o balcão da Virgin Atlantic e solicito passagens para Phoenix, Arizona. Rapidamente pago e passo uma mensagem de texto para Paul, perguntando como está Yves. Estou apenas desesperada com essa situação. Puta merda! Não liguei para Michael!
Após escutar o choro e soluços de meu irmão ao telefone, me preparo para entrar na aeronave. Mellie parece preocupada, mas não fala nada, apenas olha, pelo vidro, para o Airbus estacionado na pista.
O vôo será de duas horas. Me levanto e pego as passagens, pronta para as entregar à comissária de bordo que se encontra no portão de embarque. A mesma carimba os cartões de bordo e permite nossa passagem. Arrasto minha mala pelo finger que nos leva da plataforma de embarque, até o avião. Mais uma vez, me encontro na ajuda de uma comissária. Agora, ela nos indica por qual corredor devemos seguir para acharmos nossos assentos. Sento na confortável poltrona da classe executiva e me preparo para a decolagem, enquanto Amelie coloca nossas malinhas no compartimento de bagagem. Assim que termina, minha namorada olha para mim e sorri. Um sorriso reconfortante, que aquece a alma, mesmo que por apenas alguns momentos. Apenas duas horas de vôo. Mais meia hora em busca das malas. Uns 10 minutos para achar um taxi. 20 minutos até a casa de Yves. Não! Ela não está em casa... Então o hospital de Sun Lakes. Não. Mais uma vez não! Preste atenção, Samantha! Hospital de emergências em Phoenix mesmo... Deve ser o Sacred Heart Gen.
Perdida em meus devaneios, adormeço ao lado da pessoa que mais amo. De mãos dadas, passamos as duas horas de trajeto, até pousarmos no aeroporto de Phoenix.
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