Palavras que machucam

9 Jardim das confissões


Notas iniciais
Hello, peopler! Foi mais rápido do que da última vez não é mesmo? Capítulo curto, mas que escrevi de todo coração!! Me desculpem os erros!!

Os galhos se curvam sobre mim como garras atrás de sua presa.

Meu corpo estremece e eu enrolo os braços a minha volta, meu olhar se perde na fonte congelada.

O jardim da escola havia sido o único lugar que me veio a cabeça para fugir. Era deserto e ninguém iria se atrever a pisar nele naquela época do ano, onde não havia uma flor e nada que não estivesse coberto de neve.

Uma balada romântica se inicia ao longe e eu penso em como seria maravilhosamente bom estar de novo nos braços de Connor, oscilando junto ao seu corpo. Mas, pensamentos são, muitas vezes, como sonhos inalcançáveis. São lindos e perfeitos, mas, no fundo, realizá-los é quase tão impossível quanto alcançar uma estrela.

Poderia ser fácil, eu poderia facilmente tê-lo beijado naquele momento. Mas, eu não suportaria abrir os olhos e ver a repulsa ou o arrependimento em sua face.

Mesmo que Connor tenha crescido, o fantasma do seu eu passado me perseguia tantas vezes que eu mal conseguia diferenciá-los em alguns momentos.

Foi por isso que fugi naquele dia na roda gigante, porque Connor ainda era o Connor de língua afiada e piadas sem graça. Era o mesmo Connor que anos atrás me perseguiu com seus dedos de acusação e seus olhares maldosos.

O frio começa a se alastrar pela minha pele e nuvenzinhas brancas escapam dos meus lábios a cada respiração.

Olho para o céu e tento encontrar as respostas nas estrelas que piscam para mim.

— E a pequena Alice foge novamente com suas meias brancas e seu vestido azul. — Congelo assim como as fonte petrificada. — A questão é até quando ela continuará fugindo?

Meus pulmões se expandem e contraem em um movimento só. Minhas pernas tremem mais do que os gravetos das árvores e meu coração palpita como se tivesse uma mão em volta dele apertando cada vez mais forte.

Viro lentamente e a visão de Connor me enfraquece. Ainda mais.

Ele estava parado embaixo de uma das árvores esqueléticas. Os galhos faziam sombras sobre seu rosto, cobrindo parcialmente. Sua postura exalava tensão.

Ele mais parecia um ladrão planejando qual seria seu próximo furto. E eu não duvidaria que seria meu coração.

— E, então, Hailey. Até quando?

Sua voz é incisiva. Cortante como um cristal de gelo.

Não rompo o silêncio. Permaneço quieta. O olhando longamente, procurando algo que complete as linhas do diálogo que deveria ter uma continuação. Que merece uma continuação. Mas, as palavras se perdem na minha mente.

— O tempo passou, Hailey. Mas, parece que você é a única a não perceber isso.

Cruzo os braço tentando reter o pouco calor que ainda me resta.

— Tenho plena consciência disso, Connor. Porém, parece que é você que não percebe que, apesar do tempo passar, os machucados ainda continuam vivos e sangrando. — Umedeço os lábios. — As lembrança não se vão tão rápido quanto o tempo.

Minha resposta pesa sobre nós. Connor não responde de imediato. Seu olhar se demora sobre mim, passeando pela minha face e descendo até meus braços cruzados, e voltando novamente até os meus olhos.

— Lembra-se daquela vez que você se perdeu no Central Park?

Franzo o cenho, confusa com a mudança de assunto.

Concordo com a cabeça.

— Faz tanto tempo. Eu só tinha oito anos. — Comento com o olhar perdido, tentando resgatar as lembranças. — Estava chovendo muito, papai mandou ficarmos por perto enquanto ia buscar o carro, mas eu acabei pulando a cerca do parque porque achei ter visto o coelho…

— …do Alice do País das Maravilhas. — Connor completa com um a boca curvada em um início de um sorriso.

— Isso. — Respondo para mim mesma; intrigada. — Como lembra disso? Estava brincando junto com Riley quando desapareci.

— Estava?

Seu olhar é como chamas em meio a tempestade, cobrando-me uma resposta.

Volto anos atrás, para aquela tarde chuvosa que mais parecia o fim dos tempos e lembro do momento em que papai deixou o parque com o casaco protegendo a cabeça dos respingos.

Lembro da mamãe tentando nos agasalhar com firmeza, mas perdendo a batalha quando Riley se jogou na lama e rolou como se fosse um cachorro. Ela ficará tão irritada que simplesmente jogou as mãos para cima e deu o caso por encerrado, voltando-se para a nossa toalha de piquenique.

E foi naquele momento que eu vi, a coisinha pequena e saltitante, branca como a neve. Incrivelmente semelhante com o Coelho Branco.

No meu coração, cruzar o meu caminho com aquele animalzinho era como achar um bilhete premiado diretamente para o mundo da Alice e ter a chance de descobrir um portal para outra dimensão. Seguir aquele coelho era como alçar vôo em direção a Terra do Nunca sem passagem para retorno.

Por isso, eu pulei a cerca que delimitava a área do parque e me arrastei aos tropeços pelo bosque escondido entre a selva de árvores. A partir, daquele momento, não existia mais nada além de galhos secos, lama grossa e árvores que imitavam a floresta da Branca de Neve.

Me perdi da minha mãe e do coelhinho. Só não sabia que iria perder também a noção de direção quando adentrei floresta adentro e cai em um buraco fundo, que mais parecia um alçapão.

Perdi a consciência, porque bati com a cabeça em uma pedra no fundo. Só que instante depois, alguém gritava o meu nome a pleno pulmões, desafiando o barulho da chuva.

Um garoto franzino. Ele se debruçou sobre o buraco e gritou palavras desconexas, esticando a mão como se fosse um daqueles brinquedos mola. Eu assisti inerte, a cabeça girando, associando aquela menino com uma alucinação, por que não havia ninguém no parque quando havíamos chegado.

Porém, agora, olhando para Connor. Percebendo a forma como a cabeça dele pendia ligeiramente para o lado, igual ao garoto. Toda a memória vem em ondas arrebatadoras.

— Era você. — Sussurro recuando um passo, em completo choque. — Como?

— Eu vi quando pulou a cerca. Fui atrás de você.

— Por que?

— Não é óbvio?

Ele encolhe os ombros e da somente um passo na minha direção. Sua face se ilumina pelo luar e seu olhar me afoga.

— Mas, por todos aqueles anos, você não fez mais do que me importunar e me perseguir de todas as formas possíveis.

— Eu era só um garoto, Hailey. — Ele abre a boca, mas a fecha logo depois. Parecendo tão perdido. — Na época, eu não entendia. Havia algo sempre pulsando dentro de mim quando você estava por perto, mas eu me forçava a ignorar, por que não fazia sentido. Você era só a irmã gêmea esquisita do Riley.

Abaixo os olhos, sentindo o golpe de suas palavras enfraquecer os meus joelhos, espremer o meu íntimo.

— E eu sinto muito.

Ergo o olhar.

— Sinto muito por ter sido tão covarde. — Seus olhos me fitam com intensidade. — Você era linda e eu era burro demais pra perceber.

— Connor você não precisa falar...

— Não. — Ele nega com a cabeça com veemência. — Preciso sim. — Seu olhar me avalia. — Não acredita em mim, verdade?

Recuo um passo, sentindo-me sufocada.

Os lábios entreabertos com a esperança de que algo saía da minha boca, mas aquilo tudo era demais. Lidar com as suas confissões e com as minha lembranças de anos atrás era tão confuso e louco que eu não conseguia nem ao menos raciocinar.

Era demais.

— Hailey.

Sua voz me chama e eu paraliso.

Suas mãos se erguem dizendo-me para parar. Só então percebo a fonte de mármore atrás de mim, completamente congelada.

Por pouco, penso me afastando alguns centímetros.

— Acho que já tenho a minha resposta.

Franzo as sobrancelhas; confusa.

— E a Alice foge novamente. — Sussurra.

Ele me lança um último olhar e simplesmente da meia volta e sai. Como se não tivesse acabado de desmoronar meu mundo e tudo que existia nele.

Como se não tivesse me reduzido a pó.

E quando sua figura some, eu só quero me encolher como um caracol naquele chão gelado e sentir o frio me abraçar.

Notas finais
Comentem pessoas e façam uma autora feliz rsrs. Sério o comentário de vocês me motivam muito! BJSS P.S: pessoal considerem os hífens travessões, tá bom? Por que dá muito trabalho colocar travessão em cada fala e eu to meio sem tempo de editar :( . Espero que entendam :D