Palavras
1 Único ♥
Notas iniciais
“Oh…Mas as palavras o vento levou-as.” , ele disse uma certeza tão grande que eu nem por um segundo pensei em duvidar.
Segui o seu olhar para a cidade apenas iluminada por si própria numa noite quente que dava a entender que nunca iria terminar. Mas eu sabia que, como tudo, ela terminaria. Terminaria comigo a desejar o seu retorno e terminaria com ele a seguir sem olhar para trás.
“Desejo que pelo menos o vento as tenha. Ou a Mãe Natureza, tanto faz” , disse, abraçando as pernas para apoiar a cabeça e ele riu-se.
“ Ainda acreditas nessas parvoíces pagãs?”
“Só porque tu acreditas num Deus barbudo nem todos somos obrigados a o fazer.”
Concordou comigo com um breve aceno de cabeça mas eu sabia que era só para manter a paz. Nunca seriamos capazes de chegar a um acordo sobre os assuntos da vida, do seu sentido e do universo.
Universo esse que parecia apagado e tão abafado como o vento quente que por vezes fazia a sua presença ser notada num leve sopro pelas nossas costas. Ali, com toda a poluição luminosa, o que parecia é que não existiam nem as estrelas nem os astros. A própria lua parecia amarelada, adoecida.
“E só porque tu acreditas em coincidências não significa que eu não tenha um motivo para estar aqui.”
“Mas eu sei o teu motivo.” , desta vez encarei-o e ele propositadamente desviou o olhar para não lidar comigo, acendendo um cigarro para se manter distraído.
Ali assim, à luz amarelada da lua e da cidade, ele parecia um ser etéreo. Um Apollo com os seus cabelos dourados e os olhos azuis faiscantes. Odiaria a comparação pagã, talvez preferisse ser comparado com um anjo, mesmo que ambos soubéssemos que estava longe de ser inocente e puro.
“Perfeito. Odeio ter de me explicar.”
Foi a minha vez de desviar o olhar, “Não era como se o fosses fazer.”
“Não?”
O vento soprou mais forte, provocando um burburinho leve nas folhas das árvores lá em baixo na rua e o meu coração apertou de maneira desagradável. Apollo não devia explicações aos meros mortais.
“Não. Mas vais acabar comigo.”
“Estávamos destinados a acabar.”
“Pensei que não acreditavas em destinos e fados.”
“E não. Só no nosso.”
Eu sorri e senti que os meus olhos humedeciam sem a minha autorização. Sabia que aquele desfecho era o mais provável, tinha sido desde o começo. Se ele era Apollo, eu era uma criatura da noite nunca digna de poder apreciar os raios quentes e agradáveis dele.
Se era trágico? Talvez não. Há pessoas que brilham muito mais que nós e é a lei da vida aprender a conviver com isso. Ele era uma dessas pessoas. Era impossível ficar-lhe indiferente: ao seu sorriso, à maneira como sacudia os caracóis quando pensava em algo, à forma como encarava com atenção tudo o que lhe despertava interesse, à sua curiosidade infinita, ao modo como falava entusiasmado sobre as coisas que amava.
Quando o meu silêncio se prolongou demasiado, ele levantou-se, sacudindo a sua roupa, e deu um longo suspiro. Observou a cidade por mais um momento, as mãos na cintura como um herói pronto a voar para mais alguma aventura.
Uma em que eu nunca faria parte.
“Nunca te tinha prometido nada.” , murmurou num tom arrependido e cauteloso. Teria remorsos? Com certeza que não. Se calhar era só incapaz de me ver chorar. Afinal, não havia sol quando chovia.
“Promessas são só palavras que o vento levou.”
“Desculpa.” , disse, ganhando coragem para me olhar mais uma vez e eu olhei de volta. Era como um sol que cegava.
“Talvez um dia.”
“Isso é uma promessa?”
Limpei os olhos com a manga do casaco, “Se o vento deixar.”
“Se o vento deixar.” , concordou e virou costas, “Até logo.”
“Adeus.”
Não podia ver se ele sorria ou não mas à medida que se afastava de mim e eu controlava a vontade de o segurar de volta, a minha visão ficava desfocada com as lágrimas que agora corriam gordas pela minha bochecha.
Não era o fim do mundo.
Nem a Mãe Natureza nem o Homem Barbudo desistiram do seu trabalho por algo assim. Sobreviveria sem Apollo e sem o seu sol.
O vento ainda corria.
Mas murmurava palavras que eu não entendia.
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