Paixões gregas - Adrenalina do amor(degustação)
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Pov – Sophia
A fonte de Orion reflete a luz dourada do sol leve de fim de tarde, forma um caleidoscópio colorido que me encanta desde a infância. Fecho meus olhos.
─Que tudo dê certo e seja o começo de uma nova vida. – Desejo em voz alta. Talvez assim o universo escute.
Caminho de volta a rodoviária. Vir ao centro de Messina foi ideia da vovó Gemma, pedir a benção na catedral e mesmo que o Alzheimer esteja cada dia mais evidente não posso deixar de atender seu pedido.
Não quando vou deixa-la por tanto tempo. Quando o ônibus pega a estrada em direção a pequena vila em que fui criada me concentro na paisagem. Quero guardar na memória para os dias em que a saudade apertar. Era noite quando desço do ônibus e caminho pela pequena vila. Algumas senhoras estavam em suas portas e janelas observando a vida alheia como sempre foi.
Aqui ainda se vive como dois séculos atrás. Os costumes são mantidos todos intactos e nada muda isso. Geração após geração ninguém desafia mudanças. Não aqui no meio de lugar nenhum.
Ir contra as regras te joga direto no limbo. Você se torna indesejável e sei disso melhor que ninguém. Entro em minha pequena rua de paralelepípedo como todas as outras. Avisto o cemitério no final dela. Meu pai e minha mãe estão ali.
Ser vizinho do cemitério não te deixa esquecer de onde veio. Talvez o cemitério dentro da vila seja a razão por que os costumes arcaicos continuem intactos. Estamos sempre olhando para nossos ancestrais e suas crenças.
Minha vó está sentada em uma cadeira na calçada. Do outro lado da rua um casal idoso fazia o mesmo. Todos com olhar perdido e sorrio. Às vezes esse lugar é claustrofóbico para mim que tenho tantos sonhos. Outras me causa melancolia apenas. Como agora. É quase uma saudade.
─Vovó! – Ela sorri quando me vê. Está tão fraca e ainda assim é a mesma mulher elegante de sempre. Os cabelos brancos presos num coque bem feito mesmo com as mãos tremulas. Vestido rodado e sapatos fechados.
Vovó Gemma foi criada para o casamento. Assim como minha mãe e como eu. Ou foi o que tentaram por um tempo até eu estragar os planos de todos quando num dia qualquer meus pais morreram num pesqueiro.
Eu tinha dezesseis anos e não foi fácil ficar sem eles. Claro que vovó Gemma e todo seu amor não me desampararam nenhum momento, mas me revoltei um pouco.
Me sento ao lado de minha avó. Ela segura minha mãe e mantem os olhos perdidos num mergulho no passado onde ela passa boa parte do seu dia. Acabo por fazer o mesmo.
Éramos uma família unida e feliz. Nunca vi amor mais forte que o amor que uniu meus pais. Ele veio a Messina passar duas semanas em férias. Conheceu minha mãe e simplesmente nunca mais se separaram. Nasci um ano depois. Os dois estavam sempre se beijando. Fazendo coisas juntos. Claro que a morte não podia chegar para eles de outro modo. Morreram juntos numa noite de tempestade em um pesqueiro no meio do oceano.
Minha mãe nunca ia com ele, mas foi daquela vez. Como não iria. Eram as últimas horas e só posso ficar feliz por terem feito isso juntos. Um não sobreviveria sem o outro.
Vovó assumiu minha educação com todo amor e sou grata a ela. Ficou do meu lado nos piores momentos. Quando fui aquela festa na praia com os jovens da vila não pretendia nada além de me divertir um pouco e esquecer a saudade dos meus pais.
Enzo era o rapaz mais bonito da vila e quando nos afastamos do grupo eu não queria nada daquilo, mas então tínhamos tomados algumas cervejas, sorrio com a triste lembrança. Me deixei levar e me entreguei a ele. Nunca pensei mesmo em me casar virgem ou qualquer coisa do tipo. Nem achava que viveria para sempre nessa vila.
Não foi romântico nem especial. Só aconteceu e tudo bem ou quase. No dia seguinte ele tinha espalhado para toda vila. Sophia Giglio não era mais uma garota de família. Minha vó ficou do meu lado.
Mesmo quando passava meus dias trancada no quarto jogando vídeo game sem falar com ninguém além dela. Quando olho para aquele tempo me sinto ridícula por não ter mando essa gente toda para o inferno. Aceitei que as garotas não falassem mais comigo. Aceitei o olhar de repulsa dos mais velhos e a cobiça dos rapazes. Engoli tudo aquilo e fiquei encolhida por um longo ano.
─Acho que sua mãe vai se atrasar hoje. – Minha avó diz com naturalidade. Me traz de volta a realidade. Sorrio beijando sua mão.
─Que tal se entrássemos agora e tomássemos uma sopa? Deixei pronta antes de sair vovó.
─Pode ser. – Ela fica de pé. Recolho a cadeira e a ajudo a subir os dois degraus. – Foi a catedral?
─Sim vovó. Agradeci a oportunidade desse novo trabalho como me pediu.
─Ah! O trabalho em Palermo. Acha mesmo seguro ficar sozinha numa cidade desconhecida?
─Vovó a senhora conheceu a Paola. Viu como o trabalho dela é sério. Eu vou ficar na casa dela.
─Não entendo por que ela escolheu apenas você. Se esse hotel que vai trabalhar precisa de gente que fala grego porque ela não entrevistou outras pessoas? Quase todo mundo aqui fala grego. Acho até que falam mais grego que italiano.
Isso é bem verdade. A vila foi fundada por gregos. E todos têm alguma descendência grega.
─Vovó eu te contei que ela foi comprar artesanato na loja, me conheceu, conversamos, eu disse que a loja estava fechando e ela me ofereceu uma vaga nesse hotel. Só tinha uma vaga, ela não estava recrutando. Só gostou de mim e quis ser legal.
Ela se senta e sirvo a sopa, seus olhos sorriem para o prato e ela aspira o perfume da sopa quente.
─Cozinha como sua mãe. – Me lembro disso. Das horas passadas na cozinha aprendendo a culinária italiana, grega e tudo que podia para os futuros pratos que faria quando o chefe do meu imaginário marido fosse convidado para jantar.
─Obrigada vovó. – Agradeço mesmo não achando aquilo um elogio. Quero mais do que um marido. Quero uma vida.
─Não acha esse salário muito alto para uma recepcionista de hotel? – Suspiro.
─Talvez vovó. Mas é um hotel cinco estrelas e vai pagar seu tratamento.
─Não gosto de incomodar Maria. Fazer a mulher vir morar em nossa casa por um mês e depois ainda me mudar para uma clínica? Não precisamos de luxo. Pode ficar e arrumar um marido é isso que precisa Sophi. Um marido para cuidar de você. Se tivesse um não estaríamos no meio dessa crise.
─Não tenho um, vovó. Então só posso aceitar a oportunidade. Maria fica com a senhora um mês. Depois recebo meu salário e a coloco numa clínica onde vai se tratar e em um ano vamos estar juntas de novo. Vou leva-la para Palermo e ter um lugar para nós.
─Nisso parece seu pai. Espirito aventureiro. Cheia de sonhos. Não vá se enfiar em encrenca por lá. Você é uma moça sozinha. E sei como gosta de sonhar. Já basta esse seu jogo de rapaz que passa horas jogando.
─Eu gosto vovó. Aprendi a gostar qunado a vila parou de falar comigo. – Ela ergue o olhar e me segura a mão. – Desculpe lembra-la.
─Foi uma fraqueza sua.
Não discuto sobre isso. No fundo não acho que fiz nada errado. Hoje eu não faria. Apenas por que quando acontecer de verdade terá que ser por amor e não impulso adolescente.
Comemos a sopa em silencio. Depois eu a levo para a cama e penso que é a última noite que faço isso. Amanhã Paola vem me buscar e em dois dias vou estar trabalhando. Beijo a testa da minha avó como um dia ela fez comigo.
Maria estava na sala quando deixo o quarto. Arrastava uma mala pesada. Minha avó nem sonha que a casa agora pertence a Maria.
─Vim só deixar isso. – Ela me diz sem esconder a má vontade comigo.
─Obrigada Maria por deixar minha avó ficar esse mês aqui com você. Por cuidar dela para mim e principalmente por não dizer a ela que essa casa não pertence mais a ela.
─Tudo bem. Todos gostamos muito dela. Sabe como sua vó é querida na vila. Mesmo com tudo que aconteceu.
Reviro os olhos. Tudo que aconteceu foi uma adolescente de dezesseis anos passou umas horas com um rapaz. O estranho é que Enzo é hoje um respeitado pai de família da vila e eu sou uma vadia prestes a seduzir maridos.
─Quando receber meu primeiro salário volto para pegar minha avó e leva-la para uma clínica.
─Tem certeza que vai trabalhar num hotel? Não está se enfiando em nada ilegal?
─Conheceu a Paola. O que acha? Ela não viria aqui e conheceria minha avó se estivesse me levando para um lugar ruim ou mentindo.
─Não achei que ela estava mentindo. – Maria diz caminhando para a porta. Claro. Ela acha que eu estou. Finjo não entender o comentário.
Quando entro em meu quarto e vejo a mala pronta ao lado da cama meu coração se aperta num misto de ansiedade e medo. Quero ganhar o mundo. Conhecer lugares, arriscar um pouco. Sentir o gosto da vida. Por outro lado, quero a segurança dos braços calorosos de vovó Gemma e passar com ela o tempo que lhe resta de vida.
Paola chega as onze horas como combinamos. Coloco a mala no carro. Ela fala um momento com Maria e minha avó.
─Vou te esperar no carro Sophia. Tem uns minutos. Depois temos que pegar a estrada. É uma viagem longa até Palermo.
─Amo você Sophi. Vá e seja corajosa. Não faça nada de errado. Deixe que me orgulhe de você e se não der certo volte correndo. Vamos estar a sua espera, eu seu pai e sua mãe. – Meu coração se aperta. – Eles vão te levar?
─Vou com a Paola vovó. Eu ligo. Te amo muito. – Ela me abraça forte. Adoro como os dedos finos e envelhecidos acariciam meu rosto. Beijo sua mão.
─Amo você Sophi. Não importa o que digam por aí. Eu me orgulho de você.
─Por que é a melhor avó do universo.
Acho que passo metade da viagem em silencio apenas lutando com minhas lágrimas. Paola parece entender meu momento e fica calada apenas dirigindo.
Paramos para uma xicara de café no meio do caminho.
─Mais calma? – Ela sorri e afirmo. – Que bom. Tome. – Ela me estende uma nécessaire. – Não vai querer chegar no seu local de trabalho com o rosto borrado. Faça uma boa maquiagem.
Não gosto de maquiagem, mas faço o que me pede. Quando volto ela me aguardava do lado de fora da lanchonete. Voltamos para a estrada.
─Achei que só começaria o treinamento amanhã. – Comento uns minutos depois.
─Sim. Só vai conhecer o lugar e seu supervisor.
─Claro. – Me distraio quando a cidade começa a surgir. Não presto muita atenção no caminho. Ela começa uma conversa do o lugar e meu futuro trabalho, conta das garotas que trabalham lá e que ela deu a oportunidade e quando me dou conta paramos numa ruela sem saída num lugar pouco agradável.
Olho em volta. Não tem nada parecido com um hotel a minha volta. Muito menos um cinco estrelas.
─É só um momento Sophia. Vou entregar um envelope. Vem comigo.
─Eu espero aqui.
─Não. Como vê é perigoso. Melhor não ficar aqui sozinha. É só um favor para um amigo. Tenho uma rápida entrega a fazer.
Desço e a acompanho até uma porta discreta que parece estranho para mim. Ela bate. Uma janelinha de aço se abre e um par de olhos escuros nos observa. Uns segundos depois a porta se abre e dois grandalhões nos dão passagem.
Andamos por um corredor escuro com paredes revestidas e me lembra aqueles inferninhos que se vê em filmes. Uma luz vermelha no corredor afirma o pensamento. Saímos numa sala, um homem de terno elegante tão grande quanto os outros sorri para Paola.
─Aqui está. – Ela diz sem entregar nada a ele. O homem me olha dos pés à cabeça. – Lindíssima, não acha?
─Como não vejo há muito tempo. Fala mesmo grego?
─Fluente. – Paola sorri. O homem caminha a minha volta. Algo vai muito mal e começo a me assustar.
─Paola? – Olho para a mulher ao meu lado. Ela sorri e não tem nenhuma gentileza em seu sorriso. A expressão delicada e amiga sumiu e só vejo desdém em seu olhar.
─Paola? Esse nome já está gasto. Tome cuidado. É a terceira que me traz com essa identidade. – O homem reclama.
─Eu faço a minha parte e você faz a sua. Meu dinheiro. Já fiz a entrega e tenho compromisso. – O homem ri. Entrega a ela um pacote em papel pardo. Ela beija. – Conte se quiser. Mas está tudo aí.
─Confio em você. Nos vemos. – Ela começa a caminhar para a porta e eu tento segui-la, os dois grandalhões me seguram. – Eu disse que era só uma entrega rápida. – Ela me diz antes de caminhar para a porta.
─Espere! Não vou ficar aqui. Me soltem. – Me debato, esperneio. Chuto um deles que se dobra de dor. O outro aperta mais meu braço. – Me larga. Socorro. Socorro! – Grito desesperada. As coisas começam a fazer sentido.
─O que fazemos chefe?
─Leve com as outras. Elas se encarregam de contar do que se trata.
Me debato todo o caminho. Uma boate depois de uma porta com bar e palco. Luzes vermelhas e carpete preto, espelhos e me sinto num filme vulgar. Depois de uma porta tem uma longa escada. Caio duas vezes em meio a luta para me libertar então chegamos a uma porta. São dois cadeados e minha respiração falha quando penso que vou ser atirada lá dentro.
A porta se abre e eles me jogam do lado de dentro. Fecham quando me levantava.
─Abram! Abram. Socorro. – Bato com toda força que tenho. Esmurro a porta aos gritos. – Socorro! Socorro!
─Não adianta. Ninguém vai abrir. – Uma voz suave me avisa. Algumas mãos delicadas me afastam da porta e quando me viro tem cinco moças a minha volta. – Não bate mais se não acabamos todas machucadas.
─O que é isso? Um sequestro? Um cativeiro? Não sou rica. Não tenho nada. – Choro ao mesmo tempo que elas me acalmam segurando minha mão e trazendo água.
─Já ouviu falar em tráfico de mulheres? É isso. Aposto que te ofereceram um emprego. Não foi isso? Veio achando que faria outra coisa e quando chegou...
─O que? Eles acham que vou me prostituir? – Nunca. Que me matem. Pegaram a garota errada. Não vou me render a nada sórdido assim.
─Olha, não tem escolha. Eles vão ameaçar sua família. Se não faz o que mandam alguém que ama vai morrer.
─Não... Eu não vou cair nessa. Não vou descer nessa boate e me entregar a ninguém.
─Como se chama? – Uma loira, que parece mais jovem que eu, me pergunta.
─Sophia.
─Sophia você vai fazer o que eles querem. Normalmente a gente vai para hotéis atender homens, só uma noite ou duas atendemos aqui na boate e nem todas ficam lá em baixo.
─E porque aceitam isso? Se vão a hotéis porque não fogem?
─Um segurança nos leva. Espera na porta do hotel e depois nos traz de volta.
─Tem homens que pagam para sair com mulheres que.... Já contaram a eles? Um cliente? – Claro que não vou aceitar. Nunca vou aceitar.
─Velhos. Casados. Ricos empresários. Acha que querem seus nomes envolvidos em escândalo de prostituição e tráfico de mulheres? Silvia tentou. O velho contou a ele e ela foi morta. – A ruiva se afasta volta correndo trazendo um jornal. – Vê? Jovem é encontrada morta. Lê. É isso que quer?
─Prefiro.
─Não é para sempre. Um dia... – A loira continua.
─Um dia fica velha e eles te matam do mesmo jeito! – Eu grito. Não acredito que apenas aceitaram isso.
─Querem deixar a garota em paz. – Uma mulher diz sentada no chão um pouco afastada. – Não é sempre a mesma coisa? A garota chega jurando que não vai e termina no mesmo lugar que todo mundo? Não foi assim com todas vocês? Olhem para ela. Linda. Elegante. Eles vão coloca-la para atender os ricaços e no fim ela vai até gostar.
Seu tom amargo me assusta mais que tudo. Seus olhos são duros. Ela volta ao trabalho de lixar as unhas como se nada tivesse acontecido.
As garotas dispersam. Olho o ambiente. Janelas altas e pintadas de preto. Um banheiro e colchões espalhados pelo ambiente. Nenhuma saída se não a porta da frente e dois grandões de segurança.
Anoitecia quando escuto os trincos se abrindo. As garotas se encolhem de medo. Um homem entra. O mesmo que pagou Paola. Ele traz uma mochila que joga no chão. Outro traz uma sacola com marmitas.
─Escolham as roupas. Vão descer e atender lá em baixo hoje. Assim a novata se prepara e vai aprendendo o serviço.
─Não sou prostituta e muito menos sua escrava. Eu não vou a lugar nenhum.
─Trabalha para mim agora e vai fazer o que eu mandar. – Ele aperta meu braço. Enfrento seu olhar.
─Vá para o inferno seu asqueroso! – Grito com todas as minhas forças. Ele me acerta um tapa tão forte que fico tonta. Sinto o gosto do sangue e o inchaço na mesma hora. Sem me soltar ele pega no bolso uma foto.
─Olha aqui a vovó. Ou faz o que mando ou ela morre. Não devia ter convidado Paola para jantar. Sabemos onde mora a velha vai morrer é isso que quer?
─Ela morreria muito orgulhosa de mim. Se acha que isso vai me convencer está errado. Minha vila é pequena e qualquer movimento diferente chama atenção.
─Você é uma vadia muito corajosa. Mas vai terminar como todas as outras. Na cama com quem eu mandar. – Ele diz uns centímetros de mim. Sinto o sangue escorrer por minha boca. O homem tem sangue quente e nenhuma paciência. Não pode mandar uma mulher toda machucada para atender seus clientes. Sorrio vitoriosa e cuspo em seu rosto. Ele fecha os olhos quando a saliva molha seus olhos e escorre por sua face. – Sou Marco Antônio Tonini e ninguém cospe em mim!
A mão acerta meu rosto com tanta força que dessa vez eu caio. Depois vem um chute e outro. Ninguém se move para me ajudar.
─Se arrumem. Essa vadia fica aí até melhorar. Depois como todo mundo ela vai aprender onde é seu lugar.
A porta se fecha e então as garotas correm para mim. Todas assustadas falando ao mesmo tempo e me ajudando a limpar o rosto e deitar num colchão.
─Deixou ele furioso. Nunca ouvimos seu nome.
─Agora eu sei. Marco Antônio Tonini. Fiz de propósito. Machucada não posso descer e ganho tempo para achar um jeito de sair daqui.
─Não vai muito longe. No máximo chega a um cemitério. – A garota cínica diz separando um vestido que tira da sacola. – Vamos meninas. Ela não vai viver muito se continuar assim e vai acabar levando uma de nós com ela.
Assisto enquanto pegam vestidos mínimos na mochila. Se vestem, maquiam e calçam saltos altíssimos. Uma hora depois a porta se abre e todas saem em fila. Eu fico onde estou. Tudo em mim dói e adormeço. Quando acordo o dia estava prestes a amanhecer. As garotas entram trazidas por outro segurança.
Me sento e tudo em mim dói. Toco o rosto e sinto o inchaço. Vou até o banheiro e meu rosto está vermelho e um tanto inchado.
─Aqui! – O homem traz uma caixa com primeiros socorros. As garotas se atiram nos colchões com olhos perdidos e vazios. Não posso terminar como elas. Olho para o homem de pé de terno e segurando a caixa. – Trate seu rosto. Amanhã vai atender um grego rico e precisa estar bem.
─Não vou fazer isso. Olhe essas mulheres. Não sente pena? Não se importa?
─Olha garota eu não ligo a mínima. Se continuar se recusando o chefe mata sua avó te leva para o quarto ao lado faz o serviço ele mesmo e depois vai rezar para acabar na cama de um dos velhos ricos que pagam por um corpo fresco como o seu. – Ele me segura firme. Meu braço dói. Tudo em mim dói. – Agora limpa essa cara, come e dorme. Amanhã a noite vai atender e pronto.
Eu suspiro pegando a caixa. Ele sai fechando a porta em seguida. Olho em volta e as garotas dormiam ou fingiam dormir. Limpo o rosto. Tem um saco com gelo e coloco sobre o rosto. Tomo dois comprimidos. Se tivesse mais ali eu tomaria. Tomaria todos e acabaria com aquele desespero.
Começo a chorar. Me entrego as lagrimas e só quando elas se esgotam eu adormeço. Acordo umas horas depois. Estranho como logo se perde a noção do tempo.
A única diferença que sinto é quando é dia ou noite. Por conta do céu que vemos pelas frestas da janela.
As garotas se juntam a mim assim que me sento.
─Seu rosto está muito melhor. Eu sou Dalila. – A loira é sempre a mais gentil e me entrega comida. Me lembro que a última vez que comi estava na estrada com Paola. Como pude ser tão tola? Minha avó achou estranho eu não. Fiquei cega e nunca achei que pudesse acabar assim.
Começo a comer. É a pior comida que já comi e mal consigo engolir. Elas ficam me olhando.
─Sophia. Eles não estão mentindo. Vai fazer o que mandaram?
─Não. – Digo firme. – Não vou para cama como uma escrava sexual. Não acredito que fazem isso.
─Nenhuma de nós tem escolha.
─Eu tenho sim.
─Morrer! – Dalila me diz. – Só se sai desse quarto para atender clientes.
As coisas começam a funcionar em minha cabeça. Só se sai daqui assim e preciso sair. Pedir socorro. Fugir e chegar até minha avó. Estou sendo burra. Ele disse um grego rico. Então só pode ser num hotel. Vou e não volto.
Dalila seca minhas lagrimas que nem sabia que rolavam.
Abraço minha nova amiga. Se elas não têm coragem de tentar eu tenho e se puder ajuda-las então farei isso.
─Vai lá e faz o que o cara manda. Depois com o tempo... – Ela chora enquanto seca minhas lagrimas.
─A quanto tempo está aqui?
─Dois meses. Todo mundo chegou mais ou menos na mesma época.
A porta se abre. A comida e a mochila com roupas para elas chega mais uma vez. Aquela rotina nojenta começa a fazer sentido para mim e sinto asco só de olhar como correm em busca da melhor roupa e apenas aceitam o que a vida lhes oferece.
Ganho mais dois comprimidos e tomo muito feliz esperando que depois deles eu possa só apagar.
Eu as vejo sair, mas não vejo chegar. Quando acordo todas dormiam. Me olho no espelho do pequeno e velho banheiro. O rosto ainda está vermelho. Mas o inchaço sumiu.
Me encolho de volta em meu colchão. Sinto dor de cabeça e sei que hoje é o dia em que terei que ser forte. No meio da tarde, o chefe, como todos chamam Marco Antônio entra pessoalmente. Atira a sacola no meio do quarto e me ergue pelo braço.
─Daqui duas horas vai ser levada por Lino e Dante. – Ele aponta dois grandões de terno parados na porta. – Eles vão te esperar na porta. Vai ficar o tempo que o homem quiser. É um presente. De um ricaço chamado Marconi. Se merecer um presentinho aceite, mas não precisa cobrar. Pagaram bem por uma mulher bonita, jovem e que falasse grego.
Eu mantenho seu olhar. Quero gravar bem seu rosto para quando tiver que reconhecer sua fotografia em uma delegacia.
─Se não for?
─Sua avó morre. Paola fez um bom trabalho. Você só tem a velha. Vai mesmo deixar que ela morra? Não faça nenhuma tolice Sophia. E pode usar outro nome se quiser. Vai ser o que ele quiser que seja. Vai fazer o que ele mandar e se tiver uma reclamação vai se arrepender de ter nascido.
Não digo nada. Só mantenho seu olhar.
─Só diga que é um presente de Marconi. O nome do grego é Stefanos.
Ele deixa o quarto a porta é trancada e Dalila me balançava um vestido dourado. Olho para aquilo e nego.
─Só tem isso. – Ela me diz. Quando me visto me sinto como se ainda estivesse nua. O vestido cobria só o necessário ou nem isso. Dalila prende meus cabelos e deixa apenas alguns fios soltos. Ela e as outras fazem a maquiagem e calço sandália tão altas que mal me sustento.
─Não vou sair desse quarto assim. Que homem aprecia isso?
─Um que saboreia prostitutas que ganha de presente. – A garota cínica me diz e olho para ela.
─Mentalmente eu te chamo de garota cínica. – Ela sorri.
─Veronica. Não sou cínica. Sou realista. Não vim achando que seria empregada doméstica. Recepcionista ou qualquer coisa desse tipo. Sabia que era prostituição. Apenas achei que veria a cor do dinheiro.
Sinto pena. Encaro de novo o espelho. Aquela mulher vulgar de batom vermelho e vestido dourado não sou eu. Nem perto disso. Meus olhos pintados de preto com cílios postiços se enchem de lágrimas.
─Não borra a maquiagem. Ele vai inspecionar você. Vai ficar bravo e....
─Cala a boca Dalila. Ele precisa dela. É a única que fala grego. Foi para isso que a trouxeram, para atender o mundo de gregos que frequentam esse lugar.
Veronica diz me afastando delas. Olho para ela que me encara firme.
─Não seja estúpida. Eles vão matar sua avó e depois o que vão fazer com você vai fazer a morte parecer um presente. Faz o que precisa e volta.
Afirmo. Não vou dizer nada a elas, mas nenhum homem vai me tocar sem que eu queira.
Marco me investiga quando sou levada diante dele pelos grandalhões.
─É a vadia mais bonita que já vi. Talvez eu me divirta um pouco com você quando voltar. Levem ela e fiquem de olho.
Deixo o lugar com um de cada lado segurando meus braços. A porta traseira é aberta. Entro e os dois vão para frente.
─Deita. Não quer saber o caminho. – Eles dizem e obedeço. Demora uns vinte minutos e o carro para, me sento de novo. – Entra e diz que vai a cobertura. O recepcionista vai te levar ao quarto está tudo acertado. Quando o homem chegar vai estar no quarto.
Entro e os dois ficam ali dentro do carro em frente ao hotel. Um homem de terno com seu nome numa plaquinha dourada na lapela se aproxima. Me puxa pelo braço completamente constrangido.
─Vem por aqui. Que absurdo entrar assim. Não tinha um sobretudo? Precisam aprender a não constranger os hóspedes.
─Preciso de ajuda.
─Sei. – Ele me leva até um elevador de funcionários no fim de um corredor. – Saia por aqui quando terminar. E suma rápido. – Ele entra comigo e aperta o botão da cobertura.
─Moço o senhor tem um celular eu preciso de ajuda. Não quero...
─Não tenho celular e não quero conversa. Só estou fazendo o que o gerente mandou. Não acho prudente deixar uma prostituta sozinha no quarto do hóspede.
A porta se abre. Ele me puxa pouco gentil até uma porta dupla elegante. Passa um cartão magnético. Me empurra para dentro.
─Se sumir qualquer coisa todo mundo vai saber que foi você.
─Espera! – Eu peço quando ele fechava aporta atrás de mim. Tento o trinco e nada. Mais uma vez presa.
Olho para a suíte elegante com sala, quarto e banheiro. Vou até a varanda. Vinte andares. O que minha avó pensaria se eu apenas pulasse ao encontro dos meus pais? Não posso deixa-la sozinha. O telefone. Volto para a sala e vejo o aparelho.
Preciso telefonar antes que o tal Stefanos chegue. Depois ele que se entenda com a polícia. Que se dane se é rico e importante. Se não pode conseguir uma mulher sem ter que pagar não pode valer nada. Minha mente fica vazia quando pego o aparelho e teclo sem conseguir resposta. A angustia me domina quando escuto um barulho e vejo o tricô girar levemente.
Não é hora para pânico Sophia. Muito menos para lágrimas digo respirando fundo e me preparando para enfrentar quem quer que seja que atravesse aquela porta.
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