Estávamos todos sentados, o som do rádio era a unica coisa que cortava aquele silêncio, Sebastião estava na outra ponta de frente para mim, ele levava o garfo com as salsichas até a boca, Marta não tirava os olhos de seu prato, enquanto comia o ovo mexido, e Luke, o canto de sua boca estava coberto de açúcar enquanto comia uma rosquinha, eu cutucava aquela comida com o garfo, apoiando o meu rosto em uma das mãos com o cotovelo na mesa, a voz da mulher do tempo estava ocupando toda a cozinha, os anos que se passaram deixaram marcas em meus pais, Sebastião agora tinha uma barba meio longa, e estilosa, combinou perfeitamente com o rosto dele, porém os seus olhos cansados tiravam o charme, desistiu do cabelo lambido, agora era apenas um tom escuro com fios grisalhos meio bagunçados, e seus óculos de armação redonda, era possível ver as fracas olheiras, não falava sobre isso, mas estava cansado, esgotado, seus olhos diziam isso, assim como sua postura, quando chegava do trabalho, com sua maleta, fingia o melhor sorriso possível antes de ir para cama e ter uma não muito boa noite de sono, Marta tinha um coque loiro perfeito em seu cabelo, nenhum fio fora do lugar, pintava o cabelo frequentemente assim esconderia os fios brancos, a maquiagem disfarçava um pouco, mas assim como Sebastião, ela não estava em um bom estado, nunca largou as sua joias, sempre repleta de pulseiras, anéis, e brincos grandes folheados, agora só usava um par pequeno, duas pedrinhas de diamante e um vestido longo, porém na frente era aberto mostrando as suas pernas malhadas, os saltos a deixavam um pouco maior, com sua postura impecável, e claro, o batom vermelho chamativo que fazia qualquer homem enlouquecer. Luke continuava simples e meio desleixado, o cabelo bagunçado, o suéter e a calça, os tênis aparentavam ser novos, ja eu preferi botas de inverno, estava distraída, meu cérebro parou por alguns minutos e eu olhava para qualquer ponto aleatório, que seria o vaso de flores em uma estante perto da janela fechada, onde podia ver a neve cair devagar.

–Ei, acorda-Luke estalou os dedos na frente de meu rosto, eu sacudi a cabeça saindo do "transe" e peguei a mochila de trás da cadeira, dei um beijo em Sebastião e Marta, que fizeram um sinal com a cabeça ainda calados, o ônibus ja estava la fora e nós descemos as escadas correndo, Aria estava no fundo sentada em seu mesmo lugar de sempre, permanecia calada, só desviu o olhar para mim no momento que entrei, nunca a vi tão séria, o enterro de sua mãe tinha sido a dois dias, Sra.Emily era muito gentil e agradável, sempre gostei dela, vivia trabalhando, chegava em casa de noite mas mesmo esgotada, fazia questão de ficar com a filha antes de dormir para mais um dia cansativo.

[Sexta a noite]

A garota de cachos longos olhava para Tv mudando de canal até achar algum programa de seu agrado, Emily tinha os mesmos olhos da filha, e um sorriso de tirar o fôlego, deu seu último aceno, seu último beijo na testa, seu último sorriso antes de abrir aquela porta, as ruas estavam escuras e desertas, algumas lojas abertas, com a luz iluminando poucos trechos da calçada, os becos estava fedorentos como sempre, e ratos saiam em busca de uma lata de lixo, ela olhava para trás, sentia-se incomodada, como se alguém estivesse a seguindo, a pizzaria ficava logo depois de virar a direita em uma rua, continuou andando, abraçando a si mesma com seu casaco preto de couro, que lhe caia muito bem com a calça jeans, seus passos eram o único som dali, deixou cair alguma coisa, suas chaves, mas não teve tempo de pega-las, enquanto se abaixava, foi surpreendida por um rapaz, não era possível ver o seu rosto inteiro, apenas os olhos negros, estava armado, mas antes que ela pude-se entregar a sua carteira, a bala ja tinha entrado, primeiro veio uma dor, uma dor insuportável, enquanto ia aliviando vagarosamente, tentava pedir ajuda mas sua voz saia como um sussurro, o sangue espalhava-se em volta dela, seus olhos pediam para fechar, sua mente queria se render, queria partir o mais rápido possível, mas ela ainda aguentava, tentava permanecer acordada, sua visão começava a embaçar, e agora só via traços borrados de pessoas a sua volta, alguns ligando para a ambulância, mas ela sabia que seria tarde, só desejava um último abraço em Aria,então relaxou, a dor passou, e seu corpo foi sendo levado pela leveza, pensou que estava sendo carregada, mas permanecia ali caída, porém podia sentir algo a envolvendo, então a escuridão total, a escuridão tomou o seu ser, e não pode ver mais nada, teve o seu último suspiro, a última batida de seu coração.

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Aria recebeu a notícia e logo me ligou, eu ouvi a sua voz trêmula no telefone, e foi um choque para mim também, era estranho vê-la assim, sem aquele sorriso, ou sem ouvir a sua voz, falando sobre a sua adoração pelas borboletas, e de como ela seria uma bailarina famosa no futuro, agora só olhava para a janela, abria a boca raramente para pedir um lápis emprestado, mas fora isso nada, ela parecia alheia a tudo, e preferi não incomoda-la, por mais que minha vontade de conversar ou fazer perguntas fosse quase incontrolável.

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–Quando vai contar para ele?-Aria falou, Luke estava andando pelo corredor indo para alguma sala, e logo ao seu lado estava Anna, Anna tinha uma juba ruiva e bem volumosa encaracolada, seus olhos eram claros, assim como sua pele salpicada de sardinhas, Luke tinha as mãos na cintura dela, oque fez algum fio dentro de mim se juntar com outro causando um choque que percorreu todo o meu corpo, eu ficava olhando, e desejando algo parecido, ou melhor, com ele, mas nosso relacionamento de irmãos era limitado, irmãos não podiam se beijar, não podiam ter a mesma caricia que namorados comuns, e isso era doloroso, muito doloroso, principalmente quando se está apaixonada pelo seu irmão adotivo, Aria era a única que sabia de tal paixão, e sempre me encorajou a revelar isto, mas minhas tentativas sempre foram inúteis, e no final minhas pernas ficavam bambas me deixando cair em um rio de decepção.

–Talvez um dia eu conte-andamos pelos corredores, indo até nossa sala, o professor chegou cinco minutos depois, atrás dele, uma criatura semelhante a um deus grego, cabelos castanhos, e olhos cor de âmbar, era um moreno atraente com aquele bronzeado, o casaco cobria-o, tremia um pouco os lábios, com o frio do ar-condicionado.

–Esse é o nosso aluno novo, Léo-o professor disse, Léo tinha um sotaque engraçado e ao mesmo tempo atraente, oque provocava risos silenciosos em mim enquanto ele falava, tinha 17, a mesma idade que eu, porém muito mais alto, tinha sido transferido para esta escola por mal comportamento, oque me surpreendeu, seu rosto de anjo escondia aquele garoto problemático, sentou-se ao meu lado, e ao de Aria, Aria desenhava alguma coisa, parecia o rosto de uma mulher, e quando estava a pouco de finalizar percebi que era a sua mãe, Léo olhava para ela atento, a garota não parecia notar, ou apenas ignorava a existência dele, Luke as vezes me observava, e em seguida o garoto, dando um sorriso malicioso, eu apenas revirei os olhos.

(* * *)

[Intervalo]

A fila para o lanche estava imensa, nosso pequeno grupinho, eu, Aria e Luke, junto com Anna, a garota ruiva, estava em uma das mesas do refeitório, Aria folheava seu caderno, e eu pude ver os desenhos dela, tinha talento, mas não mostrava para as pessoas, talvez por vergonha, ou talvez por queria guardar isto só para si mesma, deu uma mordida na maçã vermelha, eu ataquei um pacote de jujubas, enquanto Anna contava algumas piadas e nós riamos, Léo se aproximou de nós, ele olhava em volta procurando uma mesa vazia com sua bandeja nas mãos, eu acenei e fiz sinal para ele vir sentar conosco, o mesmo sorriu e sentou-se ao lado de Aria, eu não entendia, aqueles olhos cor de âmbar pareciam curiosos pelo par de olhos castanhos escuros, a forma que ele a olhava, era diferente, não era uma coisa apaixonada, era como se ele tentasse entende-la, tentasse desvendar Aria, e isso me fez pensar, o quanto Aria era reservada em assuntos seus, cada um de nós contava um segredo, cada um sabia os podres, cada um tinha uma forma de chantagem, mas Aria? Era impossível ameaça-la, ela não contava seus medos, ou seus segredos, mas eu, ela sabia de cada detalhe de minha vida. Enquanto Léo olhava para ela, eu observava Luke, que estava distraído de mais conversando com Lydia, e imaginei como gostaria de ser olhada de tal forma, de ser motivo de curiosidade de alguém, ou melhor, de Luke, mas nunca fui uma pessoa interessante, não o suficiente para precisar ser desvendada, porém isso também não quer dizr que eu não tenha meus segredos.

–Oque está pensando?-Léo perguntou olhando para mim, isso atraiu a atenção do resto.

–Você confiaria o seu maior segredo a uma pessoa?- perguntei, ele arqueou a sobrancelha, pensou um pouco e disse um "talvez".

–As vezes é melhor só contar segredos, para si mesma.-Aria disse dando uma última mordida em sua maçã e indo para o banheiro.

E a garota de olhos castanhos, vítima de uma futura paixão confusa, estava perdida em sua própria confusão, foi até o banheiro, o cheiro de detergente forte entrou pelas sua narinas causando uma leve tontura, algumas pessoas conseguem seguir em frente, mesmo que o tempo leve as pessoas queridas, nunca deve tirar o teu sorriso do rosto, ainda mais quando este é de causar inveja, mas nossa pequena bailarina, levará um tempinho um pouco mais longo que outros para perceber isto, a porta foi trancada, não queria que ninguém a visse chorar, não queri aparecer fraca, não para os seus amigos, não para sua mãe, ela sussurrou para o ar, para o infinito, para qualquer coisa, para Emily, seja lá onde ela esteja, e então completou a sua coleção, sua coleção de tristeza, era uma atrás da outra, e cada uma era um segredo não revelado.

Cada corte era mais uma figurinha para sua coleção.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.