Pais por acaso
48 Renesmee- o filho do meu marido
A sorveteria Molly Moon's estava cheia de famílias e casais desfrutando do final da tarde. O aroma doce de sorvetes artesanais preenchia o ar, e o som de risadas e conversas era acolhedor, mas eu mal conseguia me concentrar em qualquer coisa ao meu redor. Assim que entrei, avistei Joseph sentado em uma mesa no canto, olhando para o celular, provavelmente contando os minutos até minha chegada.
Me aproximei, tentando controlar minha própria ansiedade. Assim que ele me viu, levantou a cabeça rapidamente, e o brilho de expectativa em seus olhos era inconfundível.
– Oi, Joseph – cumprimentei, sentando-me à sua frente.
– Oi, Renesmee – respondeu ele, visivelmente ansioso. Ele passou a mão pelos cabelos e perguntou diretamente: – O que você descobriu?
Eu suspirei, pensando no melhor jeito de começar.
– Elizabeth não está no hospital. Meu pai disse que ela viajou para uma conferência de enfermagem. Então... não consegui falar com ela – expliquei, observando a reação dele.
Joseph riu sem humor e balançou a cabeça.
– Não importa. Eu não quero saber dela. Se ela me abandonou, é porque nunca se importou comigo – disse ele, com uma mágoa evidente em sua voz.
Fiquei em silêncio por um momento, tentando processar suas palavras.
– Joseph...
– E o meu pai? – interrompeu ele, com os olhos fixos nos meus. – Você sabe quem ele é? Ele sabe sobre mim?
A pergunta pairou no ar, carregada de emoção. Eu podia ver o conflito nos olhos dele: a mistura de esperança e medo. Engoli em seco, sabendo que essa revelação mudaria tudo.
– Sim, eu sei quem é seu pai – admiti, tentando manter a calma. – Ele se chama Jacob Black.
Joseph piscou algumas vezes, como se processasse as palavras lentamente.
– E ele sabe sobre mim? – perguntou, quase sussurrando, como se temesse a resposta.
Eu balancei a cabeça.
– Não. Jacob não sabe da sua existência.
O rosto de Joseph ficou sério, e ele olhou para as próprias mãos, apertando-as em punhos sobre a mesa.
– Como isso é possível? – murmurou, mais para si mesmo do que para mim. – Ele nunca tentou me encontrar?
– Ele não sabe, Joseph – repeti, tentando suavizar o impacto. – Eu não acho que Elizabeth contou a ele.
Ele permaneceu em silêncio, o olhar perdido, e eu sabia que ele estava tentando entender o que isso significava para sua vida.
– Ele é uma boa pessoa? – perguntou finalmente, olhando para mim com um brilho de vulnerabilidade nos olhos.
– Ele é uma das melhores pessoas que eu conheço – respondi com firmeza. – E eu sei que, se ele soubesse de você, ele nunca teria permitido que você fosse abandonado ou adotado.
Joseph engoliu em seco, sua expressão suavizando um pouco.
– Então ele não faz ideia...
– Nenhuma – confirmei, sentindo o peso da situação crescer entre nós.
Nós ficamos em silêncio por alguns instantes, enquanto a sorveteria ao nosso redor continuava animada e cheia de vida, um contraste gritante com a intensidade do momento que compartilhávamos.
Joseph ainda parecia absorver tudo o que eu havia dito. Então, ele quebrou o silêncio com uma pergunta que eu já esperava, mas que ainda assim me pegou de surpresa.
– Como ele é? Jacob, quero dizer. Você pode me contar sobre ele? – perguntou, a voz carregada de curiosidade e expectativa. – Você pode me ajudar a falar com ele?
Respirei fundo, me preparando para responder.
– Joseph... – comecei, escolhendo cuidadosamente minhas palavras. – Jacob é meu marido e... o pai do bebê que eu estou esperando.
Os olhos dele se arregalaram, e sua reação foi imediata.
– Espera aí! – exclamou, quase derrubando a colher de sorvete que segurava. – Você está grávida do ex da sua tia?
Eu não pude deixar de rir, apesar da seriedade do momento.
– Não é exatamente assim que aconteceu – expliquei, tentando manter a calma. – O que houve entre Jacob e Elizabeth foi há muitos anos, antes de eu entrar na vida dele. Foi uma única noite, algo que não significou nada para nenhum dos dois. Jacob nem mesmo sabe que ela teve um filho.
Joseph parecia refletir sobre isso, mas logo um sorriso animado apareceu em seu rosto.
– Então eu vou ter uma irmã? – perguntou, com uma empolgação quase infantil. – Eu sempre quis ter irmãos.
O entusiasmo dele me surpreendeu, e eu me senti aliviada por ele não parecer ressentido.
– Sim, você vai ter uma irmã – confirmei, sorrindo. – Mas, Joseph, precisamos ir com calma. Essa situação é complicada. Vou te ajudar a contar a Jacob, mas você precisa esperar o momento certo.
Ele me olhou com determinação.
– Eu espero o tempo que for preciso. Mas eu quero conhecê-lo, Renesmee. Quero saber quem ele é.
Coloquei minha mão sobre a dele, tentando transmitir alguma segurança.
– Você vai conhecê-lo, eu prometo. Mas antes disso, preciso descobrir como abordar tudo isso com ele. Jacob é uma pessoa incrível, mas ele também pode ser muito protetor, e eu preciso ter certeza de que estamos preparados para essa conversa.
Joseph assentiu, mais calmo agora.
– Obrigado, Renesmee. Por me ajudar e por me ouvir.
– Não precisa agradecer – respondi, sorrindo. – Somos família, de certa forma, e eu vou estar aqui para você.
Ele sorriu, e pela primeira vez desde que nos conhecemos, parecia verdadeiramente esperançoso.
O tempo pareceu voar enquanto eu e Joseph conversávamos. Entre uma colherada de sorvete e outra, eu lhe mostrava fotos no meu celular. Tinha uma de Jacob na oficina, com aquele sorriso que ele guardava só para mim, e outra nossa durante uma caminhada na praia. Cada imagem que eu mostrava arrancava uma expressão curiosa de Joseph, como se ele estivesse montando as peças de um quebra-cabeça há muito tempo perdido.
– Estou surpresa por não estar revoltado – comentei, enquanto ele olhava atentamente uma foto de Jacob segurando uma prancha de surfe. – Muitos no seu lugar ficariam cheios de rancor, mas você... parece lidar bem com tudo isso.
Ele largou o celular na mesa e encolheu os ombros.
– Não é que eu não sinta mágoa – admitiu, com sinceridade. – Eu me pergunto todos os dias por que fui abandonado. Por que não fui suficiente. Mas ficar revoltado não vai mudar nada, né? Só quero respostas. Quero saber quem eu sou. Não gosto de dramas desnecessários, eles não ajudam em nada.
Eu ri, balançando a cabeça.
– Você tem uma maturidade que muitas pessoas mais velhas não têm, sabia?
Ele sorriu, meio sem graça, e deu mais uma colherada no sorvete.
– Bom, acho que aprendi a aceitar as coisas como elas são – disse ele, olhando para mim com determinação. – Agora, só quero seguir em frente.
Depois de mais alguns minutos de conversa, percebi que havíamos perdido a noção do tempo. Levantei-me e peguei minha bolsa, lembrando que precisávamos voltar.
– Vamos? – perguntei, enquanto ele se levantava ao meu lado.
– Claro – respondeu, ajeitando a jaqueta.
Saímos da sorveteria juntos, o vento frio de Seattle soprando em nossos rostos. Enquanto caminhávamos até o carro, mandei uma mensagem rápida para Helen e Mike, avisando que estava levando Joseph de volta para casa.
"Joseph está comigo, já estamos a caminho. Chegamos em breve."
Entrei no carro e esperei Joseph se acomodar antes de dar partida. Olhei para ele por um momento, sentindo uma estranha sensação de responsabilidade. Eu tinha prometido a ele que o ajudaria, e faria exatamente isso, mas sabia que cada passo precisaria ser cuidadoso.
– Pronto? – perguntei, com um sorriso.
– Pronto – ele respondeu, com um brilho de esperança nos olhos.
E assim seguimos para a casa dos Reed, o caminho iluminado pela promessa de um futuro repleto de respostas e possibilidades.
...
Assim que entrei no apartamento, fechei a porta atrás de mim e suspirei, sentindo o peso de tudo o que havia acontecido no dia. Meu celular estava morto, e eu nem havia percebido o quanto o tempo passara. Mas antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, dei de cara com Jacob, parado no meio da sala, braços cruzados e uma expressão fechada que eu raramente via.
– Graças a Deus, amor onde você estava? – ele perguntou, o tom firme, mas preocupado. – Fiquei ligando e nada. Tentei no hospital, e me disseram que você saiu depois do almoço.
Senti o sangue gelar nas veias enquanto ele me olhava, esperando uma resposta. Mas eu não tinha nenhuma pronta. Minhas palavras simplesmente travaram, presas em algum lugar entre a culpa e o segredo que eu estava guardando.
Ele deu um passo à frente, a preocupação em seu olhar ficando mais evidente.
– Nessie?
Eu abri a boca para falar, mas nada saiu. E naquele momento, percebi que não poderia evitar essa conversa por muito mais tempo.
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