Pais por acaso
85 Renesmee - Alerta
Dirigia com as janelas meio abertas, deixando o vento suave de Seattle entrar no carro enquanto seguia pela Madison Street, em direção a uma loja charmosa que eu havia notado dias atrás — uma daquelas lojas discretas que parecem guardar pequenos tesouros dentro. Era o tipo de lugar que Jacob adorava descobrir comigo, mesmo que fingisse estar entediado nos primeiros minutos.
Peguei o celular e disquei para Molly.
— Oi, Molly. Está tudo bem com a Serena?
— Tudo tranquilo por aqui. Ela acordou animada, brincou bastante e agora está tirando um cochilo. — A voz da babá soava calma e familiar, o que sempre me aliviava. — Quer que eu fique até mais tarde hoje?
— Não precisa, vou passar no hospital e depois já volto. Te mandou mensagem. Obrigada, viu?
— Sempre, Renesmee.
Desliguei com um sorriso, mas antes que pudesse guardar o celular, ele vibrou de novo. Joseph.
— Nessie?
— Oi, meu amor. Tudo certo?
— Tudo sim. Só liguei para avisar que vai ter treino hoje no fim da tarde, tá? O técnico adiantou por causa da chuva que pode vir amanhã.
— Ok, boa sorte, campeão. E sem exagerar no treino — falei, já imaginando ele dando aqueles arremessos ousados de três pontos.
— Relaxa, eu sou quase profissional agora.
— Ah, claro. Já tô vendo contratos da NBA chegando. Boa sorte!
Desliguei rindo, estacionei o carro em frente à loja e, assim que abri a porta, senti um arrepio subir pela minha espinha.
Havia uma mulher do outro lado da rua. Alta, postura ereta, cabelo preso com perfeição. Por um instante, tive certeza absoluta de que era Elizabeth.
Meu coração disparou, as mãos ficaram frias. O sol fazia sombra nos olhos dela, mas os traços... eram tão familiares. Congelei por um segundo. Ela parecia olhar na minha direção. Ou talvez só estivesse observando a vitrine atrás de mim?
Pisquei e dei um passo para dentro da loja, meio sem fôlego. Virei o rosto discretamente pela vitrine... e ela não estava mais lá.
Talvez eu estivesse cansada. Talvez tivesse confundido. Mas o incômodo persistia como um nó apertado no estômago.
Sacudi os pensamentos e caminhei até o balcão. A loja era encantadora, com prateleiras cheias de objetos curiosos, canecas com frases divertidas, velas artesanais e pingentes delicados. No canto, uma pequena vitrine exibia chaveiros de acrílico com mensagens em 3D. Vários modelos com as palavras "Yes" ou "No", flutuando conforme o ângulo.
Sorri sem pensar. Era perfeito. Simples e simbólico.
— Gostou? — Perguntou uma jovem loira atrás do balcão. — Esses são nossos chaveiros do momento. Dá pra escolher a palavra que você quer que apareça em destaque.
— Yes. — Respondi sem hesitar, ainda com o pensamento meio longe. — Eu quero “Yes”.
Ela embalou com cuidado enquanto eu pagava.
— Presente?
— É... — Sorri de leve. — Para o meu marido.
Peguei o saquinho, agradeci e saí da loja com passos um pouco mais cautelosos. Olhei ao redor, atenta a qualquer sinal daquela mulher — ou de qualquer outra coisa que me parecesse fora do lugar. Mas não havia ninguém estranho por perto. A calçada estava tranquila, como sempre.
Talvez tenha sido só uma coincidência. Ou talvez eu estivesse mesmo cansada demais.
Dei partida no carro, e enquanto seguia rumo ao hospital, com a sacolinha no banco do passageiro, coloquei uma das mãos sobre o volante e pensei em Jacob. O presente era pequeno, mas carregava tanto significado. Um "sim" para tudo que vínhamos construindo. Para tudo o que ainda viria.
Eu só esperava que não fosse nada. Que aquela mulher fosse apenas mais uma entre tantas em Seattle. Que Elizabeth... fosse passado.
Mas o arrepio não me deixava esquecer tão facilmente.
Claro! Aqui está a continuação do texto, com Renesmee narrando, dentro do ritmo da rotina hospitalar misturado às preocupações que ainda ecoam na mente dela:
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O som constante dos monitores e passos apressados pelos corredores já fazia parte de mim. O cheiro de antisséptico e café requentado era quase reconfortante naquele turno da tarde. A emergência estava cheia, como sempre, mas eu me sentia tranquila entre os jalecos, as pranchetas e os pacientes.
— Sala três, doutora — avisou a enfermeira Sofia, entregando-me uma ficha. — Queda de bicicleta, escoriações leves, paciente de dez anos.
— Obrigada, Sofia.
Entrei na sala e encontrei uma garotinha de olhos espertos sentada na maca, com o joelho ralado e o queixo erguido como quem queria dizer “não foi nada”. A mãe, uma mulher jovem, segurava a mão da filha com uma expressão entre preocupação e orgulho.
— Oi, princesa. Eu sou a doutora Cullen. O que aconteceu por aqui?
— Eu caí da bicicleta... mas eu não chorei! — Disse a garotinha, estufando o peito.
— Isso é muito corajoso da sua parte — sorri, me aproximando para examinar o joelho. — Está doendo muito?
Ela balançou a cabeça, negando com firmeza, mas os olhos entregavam um pouco do susto que tinha levado.
Enquanto eu limpava com cuidado o machucado, conversei com a mãe:
— Ela parece determinada. Vai ser difícil acompanhar essa energia daqui pra frente.
— Nem me fale. Ela aprendeu a pedalar sem rodinhas no mês passado. Agora acha que pode fazer acrobacias — a mãe riu, aliviada.
— É... — Murmurei, me permitindo um pensamento que escapou pela mente. — A minha filha ainda é um bebê, mas... às vezes fico imaginando como vai ser quando ela estiver nessa fase. Subindo em tudo, correndo, se machucando.
— Ah, aproveita cada segundo. Passa tão rápido... — disse a mãe com aquele olhar que só quem já viveu sabe.
Terminei o curativo e entreguei um pirulito à pequena heroína, que sorriu como se tivesse ganhado um troféu. Dei as instruções finais à mãe e saí da sala sentindo um calor no peito. Serena. Meu Deus... ela ia crescer num piscar de olhos.
Caminhei pelo corredor até ver Seth vindo do sentido oposto, com um crachá torto no bolso e os cabelos desalinhados — o típico visual “pai em tempo integral”.
— Ei, doutora Cullen — ele brincou, abrindo os braços.
— Doutor Black. — Respondi, devolvendo o tom leve. — Como estão Jane e o pequeno Ethan?
— Jane tá firme, mas com aquele olhar de quem não dorme há uma semana. E Ethan? Um foguete. Descobriu como abrir gavetas, então agora vivemos em constante estado de alerta.
— Ai meu Deus... corram para as colheres e para o álcool gel. — Rimos juntos.
— E você? Como tá? — Perguntou ele, notando meu semblante um pouco mais sério.
— Só um dia corrido... — desviei. — E... algumas coisas na cabeça. Depois a gente conversa com calma.
O elevador apitou e abrimos a porta. Entramos juntos. Ele apertou o térreo, eu o andar da minha sala.
— Se cuida, tá? — Disse Seth, mais sério agora.
— Você também. Beija o Ethan por mim.
— Pode deixar.
O elevador parou no andar dele. Quando as portas se fecharam novamente, suspirei e encostei a cabeça na parede metálica. A imagem da mulher na calçada voltou à mente como um flash.
E se não fosse coincidência?
E se Elizabeth estivesse realmente próxima... observando, esperando alguma brecha?
Apertei os olhos, tentando afastar o pensamento. Mas era inútil. Algo lá dentro me dizia que ela não era apenas uma lembrança do passado.
Ela estava mais perto do que eu podia imaginar.
O quarto estava mergulhado naquela penumbra tranquila, com apenas o abajur aceso ao lado da cama. O som baixo da chuva fina contra a janela era quase hipnótico. Depois de um dia longo — para ambos — tudo o que eu queria era aquilo: o calor do corpo dele junto ao meu, os dedos entrelaçados e o silêncio confortável que só quem se ama de verdade sabe dividir.
Estávamos deitados, os lençóis meio bagunçados, a respiração ainda desacelerando, e eu apoiava o rosto no peito dele, ouvindo o som ritmado de seu coração. Jacob passou os dedos pelos meus cabelos molhados, como se quisesse decorar cada fio.
— Joseph me falou do presente de aniversário que quer — murmurei, com a voz preguiçosa. — E eu quase esqueci que o seu aniversário é só dois dias depois.
— E eu quase esqueci de negar uma festa. — Falei para que ele não desconfiasse do que estavamos planejando. Ele riu, puxando o cobertor mais para cima.
Levantei o rosto e arqueei uma sobrancelha com um sorrisinho debochado.
— Já te falei que você está ficando irresistivelmente charmoso com esses fios brancos, não fale assim do seu aniversário.
— Fios brancos? — Ele franziu a testa, fingindo ofensa.
— Sim. E eu amo cada um deles. — Toquei o cabelo dele com carinho. — Eles contam a história do homem com quem eu escolhi viver.
Ele sorriu, puxando meu rosto para mais perto e me beijando com doçura. Um daqueles beijos sem pressa, calmo, quente, que sempre me fazia esquecer o mundo por alguns segundos.
— Eu estava pensando... — falei quando o beijo terminou. — Que tal uma viagem? Só você e o Joseph. Ele sempre fala daquele sonho de conhecer o Japão. Seria um presentão.
Jacob ficou em silêncio por um instante, olhando para o teto, pensativo.
— Acho uma boa ideia. Eu estava querendo um tempo com ele. E ele merece. Se mantiver as notas como estão, vamos começar a planejar isso.
Sorri, imaginando o rosto do Joseph ao saber.
Mas então, sem nem perceber, a imagem daquela mulher voltou à minha mente. O frio no estômago veio junto, e antes que eu me desse conta, soltei:
— Vocês souberam de algo novo sobre a Elizabeth?
Jacob virou o rosto para mim, os olhos mais atentos. Ele não esperava aquela pergunta.
— Ela sumiu. Ninguém a viu desde... bem, desde aquele dia na praça. Carlisle desconfia que alguém esteja ajudando ela financeiramente.
— Você acha que é possível? — Perguntei, tentando parecer apenas curiosa.
— Infelizmente, sim. Mas... por que isso agora?
Ele estava me estudando com o olhar. Meu coração acelerou um pouco, e por um momento eu considerei contar. Mas pensei na viagem, no Joseph, no nosso momento. E também... não havia certeza. Talvez eu tivesse mesmo confundido.
— Não sei. Foi só... curiosidade. — Dei de ombros, me encolhendo mais perto dele, como se aquilo afastasse a dúvida da minha mente. — O nome dela voltou à tona e me deu calafrios.
— Se algo acontecer... você me promete que me avisa? — Ele perguntou, com aquela firmeza suave que só ele sabia usar.
Assenti. Mas não respondi com palavras.
Ele me abraçou mais forte, e eu fechei os olhos, tentando encontrar paz ali, nos braços do homem que sempre foi meu porto seguro.
Mas lá no fundo, uma parte de mim continuava alerta. Porque, por mais que eu quisesse acreditar que era apenas um engano... algo me dizia que Elizabeth não estava tão longe quanto todos pensavam.
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