Pais por acaso
64 Jacob - Vida a dois
Os últimos meses pareciam um turbilhão. Tudo tinha mudado tão rápido que às vezes eu precisava parar e respirar fundo pra acompanhar. A vida nunca tinha sido exatamente simples pra mim, mas agora… agora era diferente.
Descobrir que seria pai de novo me pegou de surpresa. Não que eu não quisesse — pelo contrário. A ideia de ter uma filha com Renesmee me enchia de uma alegria tão profunda que mal cabia no peito. Eu me pegava, às vezes, sentado sozinho, sorrindo à toa, imaginando como seria o rostinho dela, se teria os olhos da mãe ou o meu sorriso torto.
Mas junto com essa alegria, veio também o peso da verdade. Descobrir que Joseph era meu filho — meu filho com Elizabeth — foi um soco no estômago. Não pelo garoto. Ele era bom, esperto, carente de afeto e... parecido demais comigo. Mas pela forma como tudo aconteceu. As mentiras. O tempo perdido. A forma como Elizabeth usou tudo isso.
Ainda assim, pelo bem de Joseph, eu cedi. Permiti que Elizabeth se reaproximasse, com cautela. Ele precisava conhecê-la, precisava entender o que significava ter um pai. E, se eu quisesse construir um vínculo com ele, precisava também respeitar o espaço que a mãe dele ocupava. Por mais que isso me incomodasse.
A mudança para o novo apartamento foi outro passo importante. Nosso espaço. Nosso lar. Eu, Renesmee e Josh. Um lugar onde construiríamos memórias juntos — e onde, em breve, teríamos uma nova vida correndo pelos corredores. Era tudo o que eu queria. Tudo o que eu sonhava. Mesmo com os desafios, os ajustes, a adaptação de Josh e os olhares silenciosos de Renesmee sempre que Elizabeth ligava ou aparecia para buscá-lo.
Naquela tarde, estávamos terminando os últimos detalhes do quarto da nossa pequena Serena. Nessie estava de joelhos no tapete, colando adesivos dourados de estrelinhas na parede azul-clara, enquanto eu montava a poltrona de amamentação — pela terceira vez, já que tinha perdido uma peça pequena e desmontado tudo outra vez.
Ela riu quando ouviu meu suspiro frustrado.
— Amor, acho que se você montar e desmontar mais uma vez, a cadeira vai ganhar vida e fugir daqui.
— Não duvido. Essa peça é maldita — resmunguei, e ela soltou uma risada gostosa, daquelas que eu nunca me cansava de ouvir.
Nossos dedos se encontraram quando ela me entregou o parafuso perdido, e por um instante eu esqueci do mundo. Só conseguia olhar pra ela, com aquele brilho no olhar, aquela barriga arredondada que abrigava a nossa filha, e pensar: sou o homem mais sortudo do mundo.
A porta se abriu devagar, e Joseph apareceu.
— Posso? — Perguntou, meio tímido, olhando o quarto que decorávamos.
Nessie sorriu pra ele. Aquele sorriso gentil, mesmo com as olheiras visíveis no rosto.
— Claro que pode. Está quase pronto, o que acha?
Ele olhou ao redor, assentiu e então, se aproximou de mim.
— Pai… será que eu posso passar o fim de semana com a minha mãe?
Nessie congelou por um segundo, mas disfarçou rápido, abaixando o olhar como se estivesse apenas ajeitando uma das almofadas do berço. Eu percebi. Eu sempre percebia.
— Claro, filho — respondi, bagunçando seus cabelos. — Vou falar com ela.
— Valeu. — Ele sorriu de leve e, antes de sair, virou-se pra Nessie. — O quarto tá bonito. Vai ficar legal pra Serena.
— Obrigada, Josh — ela disse, e tentou sorrir, mesmo que seus olhos não acompanhassem o gesto.
Quando ele saiu, me aproximei dela e me ajoelhei ao seu lado.
— Você tá bem?
Ela demorou pra responder. Respirou fundo, depois ajeitou um travesseirinho no berço e respondeu com um tom neutro.
— Só cansada, amor. Nada com que se preocupar.
Mas eu conhecia minha Nessie. E eu sabia... havia algo além do cansaço. Algo que ela não queria me dizer.
E eu prometi pra mim mesmo que descobriria o que era antes que fosse tarde demais.
O hospital estava mais movimentado do que o normal naquela manhã. A nova ala recém-inaugurada exigia atenção dobrada e, como diretor, meu trabalho era garantir que tudo estivesse funcionando perfeitamente — especialmente com a chegada dos novos médicos. Enquanto cumprimentava um grupo recém-chegado, vi um rosto que não esperava ver tão cedo... ou talvez nunca mais.
— Olivia? — Falei, parando no meio do corredor.
Ela se virou ao ouvir meu nome e sorriu com surpresa.
— Jake! — Ela se aproximou. — Uau… quanto tempo.
— Bastante — respondi, e por um segundo fiquei sem saber como agir. — O que você tá fazendo aqui?
— Fui transferida pra essa unidade. Vou atuar na obstetria. Aceitei o convite de última hora. E você? — Perguntou, olhando ao redor. — Imagino que esteja comandando tudo, né?
Dei um sorriso contido enquanto começávamos a caminhar lentamente pelo corredor.
— Sim. A direção me deu um belo desafio, mas... estou bem. Casado, aliás. E minha esposa tá esperando um bebê.
Olivia parou por um instante, surpresa visível nos olhos.
— Uau, Jake… isso é... parabéns. De verdade.
— Obrigado — respondi com um tom leve, mas atento. — E você? Como tem estado?
— Melhor. Mudança de cidade, novos ares… sabe como é. Às vezes a gente precisa se afastar pra entender algumas coisas.
Assenti, sem querer me aprofundar. Antes que o silêncio se tornasse constrangedor, viramos o corredor e demos de cara com mais uma surpresa.
— Elizabeth? — Murmurei, parando no lugar.
Ela sorriu, como se já esperasse nos ver.
— Jacob. Olivia. Que coincidência agradável.
— O que você tá fazendo aqui? — Perguntei, sem conseguir disfarçar minha confusão.
Elizabeth parecia tranquila, mas seus olhos tinham aquele brilho que eu já começava a reconhecer.
— Carlisle me convidou pra reassumir meu cargo. Só que agora, nesta unidade. Disseram que precisavam de alguém experiente no setor administrativo e... aqui estou. Começo oficialmente na próxima semana.
Franzi o cenho, sentindo o desconforto crescer no estômago. Algo não fazia sentido.
— Carlisle não me avisou nada sobre isso.
Ela deu de ombros, com um sorriso simpático.
— Talvez tenha se esquecido. A papelada já tá com a diretoria. Mas é só questão de tempo.
Olivia olhou de mim para Elizabeth, percebendo a tensão no ar.
— Bom... parece que o time tá crescendo — disse ela, tentando aliviar.
— É — respondi, ainda observando Elizabeth com cautela. — Crescendo bem mais do que eu esperava.
Bati duas vezes na porta antes de entrar na sala envidraçada de Carlisle. Ele estava revisando alguns papéis, como sempre, mas levantou os olhos e sorriu ao me ver.
— Jacob. Ia te chamar mais tarde.
— Carlisle, preciso falar com você agora. Sobre a Elizabeth — falei direto, fechando a porta atrás de mim.
O sorriso dele desapareceu lentamente.
— Eu imaginei que você fosse me procurar.
Cruzei os braços, mantendo o olhar firme.
— Ela apareceu hoje aqui como se tudo estivesse certo. Disse que você a trouxe de volta pro hospital... sem me consultar?
Carlisle suspirou, tirando os óculos e apoiando os braços sobre a mesa.
— Foi um pedido da Esme. Ela acredita que, se Elizabeth tiver uma chance de recomeçar, longe dos conflitos… pode mudar. E eu achei que, mantendo-a aqui, nesta unidade, longe da Nessie, talvez fosse o melhor para evitar ainda mais atritos.
— A Bella ficou furiosa — falei, tenso. — E eu também não gostei. Ela tá se aproximando demais do Joseph… e agora vai trabalhar aqui? Você tem noção de como isso vai afetar a Nessie?
— Eu entendo, Jacob. E não te julgo por estar preocupado. Mas sinceramente... você acha que ela seria menos perigosa longe dos olhos da gente?
Fiquei em silêncio. Não queria admitir que ele tinha um ponto.
— Você podia ao menos ter me avisado.
— Sim, eu deveria — disse Carlisle, olhando com pesar. — Me desculpe. Não era minha intenção te colocar nessa situação.
Soltei o ar devagar e assenti.
— Tudo bem. Mas se ela cruzar qualquer linha, qualquer mesmo, eu não vou hesitar.
— Eu confio no seu julgamento.
Saí da sala ainda tenso. A conversa tinha resolvido pouco, mas ao menos eu sabia que precisava ficar atento. Assim que virei o corredor em direção ao elevador, encontrei Olivia. Ela estava parada, segurando a bolsa, como se já estivesse à espera de alguém.
— Coincidência ou perseguição? — Brinquei, tentando quebrar o clima.
— Coincidência mesmo — ela respondeu sorrindo, apertando o botão do elevador. — Indo embora?
— É. Já deu por hoje. Minha esposa tá me esperando em casa.
Ela entrou comigo no elevador e ficamos em silêncio por alguns segundos, até que Olivia falou:
— Sabe... pensei em convidar você pra um drink. Só pra colocar a conversa em dia.
Sorri educadamente e balancei a cabeça.
— Eu agradeço, mas não posso. Nessie tá em casa e, com o bebê quase chegando, eu quero estar com ela o máximo possível.
Olivia me olhou, surpresa evidente nos olhos, mas logo recomposta.
— Entendo. Ela é uma mulher de sorte.
O elevador chegou ao térreo. Caminhei com ela até o estacionamento. Nos despedimos ali, sem muita cerimônia.
Entrei no carro, coloquei o cinto e peguei o celular para mandar uma mensagem:
"Amor, estou saindo agora. Te encontro em casa. Te amo."
Dei partida no veículo e fui embora.
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Mas do outro lado do estacionamento, do interior de um carro escuro, Olivia me observava. Ela apoiou a cabeça no encosto e murmurou para si mesma, com um olhar frio:— Jacob Black nunca me rejeitou. Nunca. Ela apertou o volante com força. — Isso… eu não vou aceitar.-----------------------------------------------------------------
Assim que estacionei na garagem do prédio, o cansaço do dia pareceu pesar menos. Saber que ela me esperava lá em cima… fazia tudo valer a pena.
Subi os andares com a cabeça cheia de pensamentos, mas bastou ver a porta do nosso apartamento pra minha mente silenciar. Abri devagar, sentindo o cheiro suave de lavanda e baunilha que sempre tomava conta do lugar desde que a Nessie começou a organizar tudo para a chegada da nossa filha.
— Amor? — Chamei, fechando a porta atrás de mim.
— Tô no quarto! — A voz dela veio abafada, doce como sempre.
Fui direto para lá. E quando a vi... meu coração simplesmente amoleceu. Ela estava sentada na beira da cama, vestindo uma daquelas camisolas de algodão que ela achava "simples demais", mas que em mim causavam o efeito oposto: era como se a beleza dela estivesse ainda mais pura, real, intocável.
— Você chegou — ela sorriu, mas o olhar estava cansado… e um pouco distante.
Me aproximei e me abaixei na frente dela, entre suas pernas.
— Cheguei. E sou todo seu agora.
Ela sorriu de leve, mas baixou os olhos.
— Tá tudo bem? — Perguntei, segurando suas mãos.
Ela hesitou, depois respondeu num sussurro:
— Às vezes eu me pergunto se você ainda me enxerga… como antes. Com o bebê, com tudo mudando. E agora… com a Elizabeth tão perto de novo… eu sei que não deveria me sentir assim. Mas eu me sinto pequena.
Meu peito apertou. Levei uma das mãos ao rosto dela e levantei seu queixo com delicadeza.
— Nessie, olha pra mim. Você é tudo pra mim. Tudo.
Ela respirou fundo, mas manteve os olhos nos meus.
— Você não precisa ser forte o tempo todo. Eu sei que você tá cansada. Eu sei que tem muita coisa acontecendo. Mas isso aqui — encostei minha testa na dela — é o que me dá força. É com você que eu quero estar. Com você que eu construí essa vida. Não existe Elizabeth, passado, medo ou dúvida que mude isso.
Ela mordeu o lábio, emocionada. Uma lágrima escapou, e eu a beijei antes que caísse.
— Eu só… às vezes sinto que vou quebrar — ela sussurrou contra meu ombro, me abraçando apertado.
— E se quebrar, eu vou estar aqui pra te juntar, pedacinho por pedacinho — murmurei, a envolvendo em meus braços. — Você é a mãe da minha filha, meu amor, minha melhor amiga… minha eternidade.
Ela sorriu contra meu peito.
— Tá tentando me fazer chorar?
— Talvez um pouquinho — ri baixinho, beijando o topo da cabeça dela. — Mas só porque eu quero te lembrar de tudo que você é. E porque você merece carinho… até quando não pedir por ele.
A deitei com cuidado na cama, me deitando ao lado, colando nossos corpos como se aquele gesto pudesse protegê-la de tudo.
A barriga dela se movia levemente, e apoiei a mão ali, sentindo o pontinho de vida que a gente esperava com tanto amor.
— A gente te ama, pequena — sussurrei. — E a mamãe é a mulher mais forte e linda que existe.
Renesmee me olhou com ternura e encostou seus lábios nos meus num beijo lento, cheio de significado.
Ali, naquele quarto, por um instante, o mundo lá fora não existia. Só nós.
E tudo que eu queria era protegê-la… de qualquer dor.
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