Pais por acaso

22 Jacob- Um filho


Um filho… meu. As palavras ecoavam na minha mente, repetidamente, enquanto eu tentava processar o peso do que acabara de descobrir. Era como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés e ao mesmo tempo, uma onda de sentimentos – surpresa, medo, uma alegria inesperada – me dominasse. Eu olhei para Nessie, e vi em seus olhos a mesma confusão que eu sentia. Ela estava tão perdida quanto eu, tão incerta de cada passo dali em diante.

— Vem comigo — murmurei, estendendo a mão para ela, sentindo que aquele era o único movimento certo a fazer.

Ela hesitou, olhando para a minha mão estendida, antes de finalmente segurá-la, a palma dela fria contra a minha, trêmula, como se buscasse algum tipo de ancoragem em mim.

— Para onde estamos indo? — ela perguntou, sua voz baixa e insegura.

— Confia em mim — respondi, sem outra palavra. Não queria prometer nada que ainda não sabia se poderia cumprir; queria apenas levá-la ao próximo passo.

Segurei firme a sua mão enquanto nos dirigíamos à escada de emergência, deixando para trás o corredor silencioso e iluminado do hospital. A cada degrau que subíamos, eu me sentia mais focado, quase como se estivesse em um daqueles momentos decisivos em uma missão, onde a única opção é avançar, sem olhar para trás. Ela não soltou a minha mão, embora eu sentisse sua respiração um pouco mais ofegante, talvez pela expectativa ou pela ansiedade.

Quando finalmente chegamos ao andar da obstetrícia, ela olhou ao redor, confusa.

— Jacob… o que estamos fazendo aqui? — Ela franziu a testa, a incerteza visível em sua expressão.

Eu a guiei até a sala de ultrassom, ainda sem dizer nada, apenas tentando manter a calma, mesmo com o turbilhão dentro de mim. Ali, eu sabia que poderíamos finalmente obter a resposta que ambos precisávamos.

— Deita aqui, Nessie — pedi, minha voz mais suave do que eu esperava.

Ela me encarou por um momento, os olhos brilhando com uma mistura de expectativa e receio. Mas, em silêncio, fez o que pedi, ajeitando-se na mesa e olhando para mim, buscando alguma certeza.

— Vamos ter certeza agora — expliquei, respirando fundo. — Saberemos de uma vez por todas se… se você está esperando um filho meu.

Ela assentiu, e um pequeno sorriso encobriu sua tensão, como se aquela possibilidade — embora assustadora — trouxesse algum alívio. Naquele momento, percebi que, independentemente do resultado, eu estaria ao lado dela, enfrentando o que quer que viesse.

Enquanto Nessie se ajeitava na maca, fiz o possível para deixar a tensão de lado e manter o profissionalismo – mas era difícil me ver apenas como médico naquele momento. Organizei o equipamento, liguei o monitor, e preparei o gel para o ultrassom, sentindo o peso daquele instante como nunca antes. Nessie me observava com um sorriso leve, os olhos iluminados com algo entre nervosismo e carinho.

— Você sabe o que está fazendo, doutor Black? — brincou, a voz com uma suavidade que me fez rir.

— Sinceramente? — respondi, esboçando um sorriso enquanto passava o gel em sua barriga. — Não faço a menor ideia. — Rimos juntos, e por um instante a tensão se desfez, dando lugar a algo muito mais leve, quase mágico.

Posicionei o transdutor e deslizei-o lentamente, ajustando o monitor até que a imagem começou a se formar. E lá estava ele — ou ela — minúsculo, mas real, no centro da tela. Um pequeno coração pulsando, uma vida que, até então, eu nem sabia existir. Fiquei em silêncio, paralisado, tentando absorver aquela visão, cada batimento, cada detalhe.

— Olha só… — murmurei, mais para mim do que para ela. — Estamos falando de aproximadamente oito semanas… isso corresponde exatamente ao tempo em que… nós estivemos juntos.

Eu mal conseguia acreditar. Era um misto de surpresa, orgulho, e uma alegria que eu nunca havia experimentado antes. Não era apenas um bebê; era o nosso bebê. Por mais que minha mente tentasse processar, meu coração já havia entendido o que aquilo significava.

Olhei para Nessie, que observava o monitor com os olhos marejados, a mão repousando suavemente em sua barriga. Ela parecia tão frágil e, ao mesmo tempo, tão radiante. Naquele momento, nada mais parecia importar. Apenas nós e o que havíamos criado.

Mas, então, a realidade invadiu o momento perfeito. Uma voz familiar nos arrancou do encanto.

— O que vocês estão fazendo? — perguntou Alice, parada à porta, os braços cruzados e uma expressão de quem acabara de descobrir o segredo mais guardado do mundo.

Eu me virei, ainda em choque, enquanto Nessie rapidamente afastava o transdutor e ajeitava o jaleco, tentando recompor-se. Alice, com um olhar astuto, parecia ter captado mais do que deveria em questão de segundos.

Ainda tentando voltar ao presente, olhei para ela, sentindo que o momento de guardar segredos havia acabado.

Alice arregalou os olhos ao ver o monitor, e, antes mesmo de processarmos o que ela poderia dizer, a exclamação escapou de seus lábios:

— Nessie... você está grávida?

O choque em sua voz ressoou na sala, e eu percebi que precisávamos conversar sobre isso longe dali. Rapidamente, tomei a iniciativa.

— Alice, aqui não é o lugar certo para falarmos sobre isso. — Olhei para Nessie, buscando sua aprovação, enquanto ela assentia, claramente desconfortável.

Nessie segurou a mão de Alice com um pedido silencioso e disse:

— Por favor, Alice… só... não conte a ninguém ainda, está bem?

Alice respirou fundo, tentando manter a compostura. Eu podia ver o esforço em sua expressão; embora estivesse surpresa, ela era controlada. Mas suas palavras seguintes me deixaram tenso, cada sílaba carregada de julgamento.

— Certo, Nessie. Mas, sinceramente, vocês foram tão irresponsáveis. Você e o Seth...

A menção a Seth foi o suficiente para me fazer fechar os punhos, mantendo-me quieto para evitar uma resposta ríspida. Mas Nessie não hesitou. Com calma e firmeza, ela a corrigiu.

— Seth não é o pai do meu bebê, Alice.

Alice piscou, completamente confusa, sua boca abrindo levemente antes de se recuperar.

— Como assim, não é o Seth? — perguntou, cada vez mais perplexa, com uma mistura de incredulidade e curiosidade estampada em seu rosto.

Nessie respirou fundo e desviou o olhar, decidida, mas também sentindo o peso da escolha.

— É… outro homem. — Ela fez uma pausa e continuou, com o olhar firme: — Mas, por enquanto, não vou dizer quem é.

O silêncio se instalou entre nós, pesado e denso. Alice tentou disfarçar o desconforto, claramente impaciente por não saber mais, mas percebeu que não era o momento para insistir. Quanto a mim, meu coração batia descompassado, dividido entre o desejo de protegê-los e a pressão de tudo que esse segredo carregava.

Eu apenas permaneci ao lado de Nessie, deixando claro que, acontecesse o que acontecesse, eu estava lá para ela.