Pais por acaso
83 Jacob- Torre de comando, aqui é Zero-Sete.
Engatei o cinto, ajustei o fone e iniciei os protocolos de checagem da aeronave. O helicóptero da Cullen Medical já estava abastecido, revisado e pronto para decolar. Subi a escada metálica da plataforma de voo e entrei na cabine como quem veste uma armadura.
Pilotar o helicóptero da Cullen Medical nunca deixava de ser uma experiência intensa. Eu fazia aquilo com frequência, mas cada voo tinha seu próprio peso — e naquele fim de tarde, com o céu tingido de cinza e laranja, esse peso parecia ainda maior.
Antes de decolar, fiz a checagem padrão dos sistemas: combustível, comandos, rádio, instrumentos de navegação. Tudo estava dentro dos conformes. Ajustei o fone de ouvido, conferi as coordenadas e acionei a torre.
— Cullen Medical Zero-Sete solicitando decolagem. Destino: Twin Falls. Condições visuais confirmadas.
— Zero-Sete, decolagem autorizada. Vento leve a sudeste. Boa sorte, doutor Black.
— Recebido. Decolando agora.
As pás começaram a girar mais rápido, o ronco do motor preencheu os ouvidos, e senti o helicóptero ganhar sustentação. Ergui voo com suavidade, mantendo a direção noroeste. Lá de cima, a cidade se tornava um mosaico confuso. Os contornos do bairro atingido pelo incêndio já estavam visíveis: uma faixa escura serpenteando pelas árvores, com colunas de fumaça subindo devagar como dedos manchados de fuligem.
Enquanto voava, mantive contato com a equipe em terra. O rádio chiava entre informações truncadas e solicitações urgentes. Havia feridos demais para a equipe presente.
— Equipe de resgate, aqui é Jacob Black. Estou me aproximando. Localização confirmada, iniciando procedimento de pouso.
Encontrei uma área de clareira próxima à trilha de Twin Falls. Ajustei altitude, reduzi a velocidade e mantive o helicóptero firme durante a descida. O pouso foi suave — apesar da poeira e da tensão no ar.
Assim que saí da cabine, com a maleta de emergência em mãos, fui recebido por um dos bombeiros. O suor escorria do rosto dele, misturado à sujeira.
— Doutor Black? — Ele confirmou, quase sem fôlego. — Temos feridos com queimaduras de segundo grau, crianças intoxicadas pela fumaça e dois adultos presos numa área instável da trilha.
— Entendido. Onde estão os mais graves? — Perguntei, já caminhando com ele em direção ao improvisado posto de atendimento.
O cheiro de fumaça era forte. O calor ainda subia da terra em alguns pontos. E mesmo com o caos, as equipes trabalhavam com precisão — médicos, paramédicos, bombeiros, todos movidos pelo mesmo instinto: salvar.
Me abaixei ao lado de uma menina de uns sete anos, gemendo baixinho, as pernas queimadas e as mãos arranhadas. Segurei sua mão, calmamente, enquanto examinava os sinais vitais.
— Vai ficar tudo bem, mocinha. Eu prometo que vou cuidar de você.
A noite já se aproximava. Mas o trabalho ali estava só começando.
Continuei de joelhos no chão, com as luvas sujas de sangue e fuligem, enquanto ajudava uma das enfermeiras a estabilizar um homem que havia inalado muita fumaça. Os olhos dele estavam semicerrados, e a respiração vinha em sibilos rasgados. Eu segurei a máscara de oxigênio contra o rosto dele enquanto a enfermeira ajustava o fluxo.
Foi quando um dos bombeiros se aproximou às pressas.
— Doutor Black, temos como levar alguns para o hospital? Tem suporte?
Levantei, limpando o suor da testa com o antebraço.
— Sim, temos. Posso levar pelo menos um agora. Preparem o mais grave. Tenho espaço para dois acompanhantes comigo — respondi com firmeza, já caminhando em direção ao helicóptero.
Minutos depois, me informaram que o paciente seria um rapaz de aproximadamente vinte anos, parte de um grupo de mochileiros que se perdeu na trilha e acabou ficando preso entre os focos do incêndio. Ele tinha queimaduras extensas no braço esquerdo, sinais de intoxicação e um quadro instável de consciência.
Junto com dois enfermeiros — Sônia e Jason — preparamos o rapaz em uma maca rígida, com colar cervical por precaução. Conectamos o oxigênio portátil, monitoramos os sinais, e ajustamos o acesso venoso com soro correndo. Eu conferi os cintos e prendi a maca ao suporte de transporte.
— Tudo pronto — confirmou Jason, com a voz firme.
Liguei os sistemas do helicóptero, e os rotores começaram a girar enquanto eu ajustava os controles. Falei pelo rádio com a torre de comando:
— Cullen Medical Zero-Sete solicitando informações de visibilidade e condições de voo. Decolando de Twin Falls com um paciente crítico a bordo.
— Zero-Sete, cópia. Condições estáveis até o hospital, mas há fumaça densa ao norte. Visibilidade parcial. Recomendamos aproximação pelo sul.
— Recebido. Ajustando rota.
Enquanto fazia os ajustes no painel, outro bombeiro correu até mim e gritou contra o barulho das pás:
— Tem muita fumaça indo na direção da trilha. Quase fechando tudo!
— Obrigado! — Respondi — Teremos apoio no ar. Cuidem dos outros até voltarmos.
Coloquei o fone de comunicação interna e falei com os enfermeiros:
— Segurem firme. A viagem pode ser turbulenta.
E então puxei o manche com cuidado. O helicóptero ganhou altura entre as copas das árvores, cortando o céu em um zumbido constante. A fumaça turva fazia o horizonte parecer uma pintura inacabada. Eu voava com os olhos atentos, o coração firme, e a certeza de que cada segundo contava.
No banco traseiro, Jason me dava atualizações sobre o paciente. A pulsação estava fraca, mas estável. O oxigênio estava ajudando. Olhei pelo retrovisor e vi os dois trabalhando com dedicação, os rostos sérios, mas determinados.
E enquanto sobrevoávamos aquela região devastada pelo fogo, uma única coisa martelava na minha mente: precisamos chegar a tempo.
O céu parecia se fechar mais a cada minuto. As nuvens de fumaça se misturavam com o nevoeiro que vinha do Norte, e o vento batia com força contra a lateral do helicóptero, fazendo a estrutura vibrar como se estivesse sendo sacudida pelas mãos de um gigante invisível.
Apertei o manche com mais firmeza e falei no rádio:
— Torre, aqui é Cullen Medical Zero-Sete. Visibilidade comprometida. Ventos fortes a nordeste. Solicito atualização de rota e coordenadas para pouso de emergência.
A resposta demorou alguns segundos.
— Zero-Sete, qual sua localização atual?
Olhei para o painel, ajustando rapidamente o GPS.
— Estamos a quarenta e sete graus, trinta e dois minutos norte... cento e vinte e um graus, cinquenta e três minutos oeste... cerca de dez minutos ao sul de Twin Hills, altitude mil e seiscentos pés.
Houve um silêncio. E então:
— ...Zero-Sete... interferência... con...çõe...instáveis... rep...
Chiados cortaram o resto da transmissão. A frequência estava instável. Franzi o cenho e tentei de novo:
— Repetir, torre. Não copiei a última instrução. Preciso de coordenadas para pouso imediato. As condições estão desfavoráveis. Repito: visibilidade zero a frente.
Mas não veio resposta.
O vento uivava nos ouvidos. O helicóptero balançou, forçando meu corpo contra o cinto de segurança. O radar mostrava obstáculos à frente, mas não conseguia distinguir claramente onde terminava a montanha e começava o céu.
Sônia estava atrás de mim, segurando com força a lateral da maca.
— Jacob... — a voz dela tremia — Isso tá ficando ruim.
Olhei pelo espelho retrovisor e vi o pânico nos olhos de Jason. O rapaz ferido ao lado deles gemia baixo, entrecortado pelo som do oxigênio portátil.
Apertei os dentes e falei de novo no rádio:
— Torre de comando, aqui é Zero-Sete. Estou perdendo contato. Preciso de uma zona de pouso. Repito: situação crítica. Alguém me ouve?
Nada.
Fechei os olhos por um segundo. Um breve segundo. E nesse instante, só consegui pensar em duas coisas.
Renesmee. Serena.
Minha família. Minha vida. Não podia deixá-las.
Respirei fundo, senti o suor escorrer pelas têmporas e olhei ao redor tentando encontrar qualquer clareira, qualquer sinal de chão firme em meio àquela neblina densa.
— Segurem firme. Vamos descer. Agora — avisei com voz firme, mesmo que por dentro eu estivesse rezando.
Eu ia ter que confiar no meu instinto... e na sorte.
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